Reflexão | Alcance e os altos muros da Internet…

Estava hoje observando algumas estatísticas do site nestes últimos dois meses, desde a sua reforma visual editorial e fiquei refletindo a respeito de alguns aspectos do universo da internet nos tempos atuais e como a internet em si parece que as vezes está afastando cada vez mais as pessoas de se conectarem e impedindo a gente de conhecermos mais lugares virtuais ao acaso.

Talvez seja bizarro falar de afastamento e desconexão web-social entre as pessoas na geração das Redes Sociais, mas o caso é que as próprias redes sociais criam bolhas e panelas com grupos de pessoas e dificultam o vínculo com co círculo social de completos desconhecidos. E apesar de que em parte isso seja bom, há um aspecto terrível perda de contato que só a internet pode permitir.

Claro que essa é uma visão muito peculiar e não genérica. Não acontece com todos, e é possível que essa geração mais nova nem sequer perceba ou sinta falta de uma internet mais aberta e popular a completos desconhecidos. Em um mundo digital onde nossa vida e fotos reais estão estampadas em tudo quanto é lado, parte do mistério do usuário de internet se perdeu um pouco.

Há alguns anos atrás…

Que estiver acima da casa dos 25 anos, ou próximo a isso, talvez se lembre como era comuns fóruns de discussão. O conglomerado de pessoas, de tópicos, de debates/brigas/discussões. E tudo isso com avatares de personagens e nicknames, sem saber quem realmente era a pessoa do outro lado, seu rosto, sua idade ou seu nome real.

Existiam muitos fóruns, era basicamente fácil criar um fórum e reunir pessoas, muitas pessoas, pois estas participavam de dezenas de fóruns diferentes. Era comum esbarrar nelas nesse rodízio que todos faziam em fóruns. Hoje, basicamente restaram os maiores fóruns, os mais famosos, e ainda assim, não possuem o número de usuários que tiveram em seu auge. Existe um charme que se perdeu. Quem é das antigas ainda se sente confortável com o sistema, mas muitos da nova geração preferem outros espaços.

E hoje muitos apenas acompanham fóruns, sem participar ou comentar. Estamos na geração “vejo, mas não participo”. Porém esse é outro ponto. E eu vou chegar nele daqui a pouco.

Algo que vale destacar e relembrar é que com os fóruns em alta, logo depois surgiu o Orkut, a primeira Rede Social que importa. Se existiram outras (e existiram) nenhuma delas tiveram o sucesso e a longevidade do Orkut. E sem entrar no mérito do perfil social, da mudança dos nicknames para nomes reais, dos avatares para fotos, já que muito da cultura dos fóruns ainda permaneceu no Orkut por muitos anos, lá havia as comunidades, uma espécie de mini fóruns, sempre caóticos e muitos sem qualquer cuidado com moderação ou organização. Foi a época dos fóruns de zoação, onde as pessoas se sentiram a liberdade real da internet, ainda que muitas vezes as comunidades de Orkut causavam muitos distúrbios. Era tempos de muita liberdade e pouco bom senso.

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Quando os rostos ficaram muito reais, a internet ficou medrosa.

E os anos passaram, as coisas mudaram, o Facebook, Twitter, Instagram entre outros sistemas digitais de aglomeração de pessoas e seus relacionamentos entre si chegaram e mudaram a consciência social que as pessoas tinham da internet. Não éramos mais o “insira aqui seu nickname da época”, agora as pessoas tinham nomes e sabíamos seus rostos. Antes todos eram iguais na internet, independente se você tinha 10 ou 50 anos, onde quer que morasse ou até mesmo sua aparência ou gênero. Não havia julgamentos exceto por aquilo que você escrevia ou opinava. Se fosse escroto e errado, as pessoas te chacoteariam até você ser obrigado a mudar de nome e ser uma “novo membro da comunidade”. Hoje, isso não é mais possível. As pessoas sabem que é você e qualquer merda que você faça, vai te marcar por um bom tempo (não pra sempre porque a internet, tal como inimigos em um game, esquece de tudo depois de um tempo).

As pessoas então, agora seres reais, meio que participam menos das conversas. Com aquele medo de serem julgadas, interpretadas erradas, de mancharem seu status social, de não poderem mais resetar seus alter egos virtuais. E por isso hoje o mundo dos comentários meio que empobreceu.

Você pode até questionar que texto, comentários e opiniões anônimas, mediante um nickname não possuem muita validade ou até mesmo credibilidade. Será mesmo? Escritores usam pseudônimos para não revelarem autores de certas obras, temendo o julgamento de seus fãs e público, ou até mesmo como uma forma de baixar expectativas absurdas, como se todas suas obras precisassem andar em crescente, sempre a posterior mais megalomaníaca do que a anterior. Na internet das antigas, não usávamos nossos nomes ou identidades reais, mas todos eram “anônimos” por sua concepção, e ainda assim era como se pudéssemos exteriorizar uma nova personalidade ou identidade que na vida real muitos jamais conseguiriam ser.

Eu por exemplo, na vida real tenho sérios problemas de me socializar com pessoas e, aqui na internet, isso é um aspecto muito mais amenizado. Aqui eu curto conversar, ainda que hoje não mais me esconda através de um nickname-nada-a-ver e mesmo que use um avatar aqui nos comentários do site (e em alguns outros lugares), minha real aparência pode ser encontrada facilmente aqui na página “Sobre” ou em meu Facebook. Não é algo que escondo, e sim apenas uma sequela de outros tempos em que convivi na internet e que era divertido ter essa identidade própria dentro da web.

internet

E agora o alcance não é mais orgânico. Hoje se paga para ser encontrado.

Talvez um dos piores aspectos da internet nos dias de hoje seja o fato de que ela deixou de ser democrática e livre como foi em seu passado, ao menos parcialmente ou a ilusão antigamente era muito maior. Já parou para pensar como você encontra novos sites, novos blogues, novos fóruns, novas discussões na internet? Há dois lugares quase liderando as opções, Facebook e Google, talvez o Twitter entre em terceiro lugar, apesar de que tenho a leve impressões de que boa parte dos usuários lá prefiram ficar por lá mesmo, do que clicar em links dos tweeds.

O Facebook você acha coisas novas porque todo mundo, ou quase isso, foi parar nessa gigantesca Rede Social que não tem alma, ao menos é o que os mais duros críticos dizem. O seu feed de notícias lá te encarrega de selecionar o melhor de tudo que você segue, entregando de bandeja aquilo que você se interessaria em ver. E eventualmente você esbarra em sites e conteúdos que nem sequer fazia ideia de que existiam.

A crítica que muitos fazem ao Facebook é que ele não faz essa seleção de forma orgânica e natural. Os mais famosos e populares sempre estão no topo, enquanto os peixinhos e iscas menores a cada aprimoramento da ferramenta vão perdendo atenção. É meio que aquele pensamento do “quem pode mais, pode e, quem não pode, azar.“. Quem que o Facebook lembre mais da sua página, do seu site, do conteúdo que cria por lá? Pague por isso. Pague por alcance, pague por divulgação. Pague para aparecer no feed das dezenas, centenas, milhões ou milhares de pessoas que te segue. Não adianta ter uma fanpage de 2.400 seguidores, pois o Facebook não vai mostrar o seu feed a 100% destas pessoas.

Aí vem o Google. Procura um filme, uma série, um game? Tenha certeza que em 99% das vezes o Google vai mostrar de cara o Wikipedia ou Wikia ou um destes tubarões dos sites de dados. Aquela resenha bacana que você vez para aquela HQ? Se você for de um site grande, está ali, na primeira ou segunda página. Seu site é pequeno? Boa sorte em te encontrar no Google. E aí surge aquela história do Google Adwords. Quer aparecer mais? Pague para o Google melhorar seu alcance. Simples, não?

E olha que eu até entendo o pensamento, a linha de raciocínio destes sistemas. Porque indicar um site desconhecido, se posso indicar aquilo que todo mundo conhece e que sacia quase sempre o usuário. Não é problema do Facebook ou do Google a existência de sites pequenos ou espaços minúsculos pela internet. Tubarão nada com tubarão e peixinho desaparece da visão deles senão são engolidos. E isso é meio triste.

Oras, mas antigamente era diferente? Aí é que está, talvez não fosse, mas era muito menos óbvio. Lembra que antes do Google se tornar uma das maiores empresas do mundo, você confiava em outros sistemas de buscas. Encontrava coisas no Cadê, no Alta Vista, no Yahoo Busca… e as listas de resultados eram diferentes. O fato de não existir grandes sites de conteúdo catalogado (Wikipédia e Wikia) tornava uma aventura bem mais misteriosa procurar algo por sites de buscas.

Será que sites assim não deveriam ser o’concur (ou seja, está num nível tão acima dos demais, que é até injusto que o mesmo concorra com os demais)? Eu preciso realmente ir ao Google para chegar a alguma página do Wikipédia? As vezes me irrita procurar algo novo no Google e cair sempre nas coisas mais óbvias, nos sites grandes (e de conteúdo as vezes enlatado). Pior também é quando o Facebook me repete as mesmas coisas a toda hora. Na incapacidade dele de me sugerir algo que eu não conheça, e que pelo meu histórico – que ele devora insaciavelmente – encontrar algo que eu certamente apreciaria.

Hoje está difícil ser encontrado por estas ferramentas. É até por isso que hoje se fala tanto de social network, de se conectar a quantos outros sites forem possíveis para que os públicos se mesclam numa única massa, facilitando uma espécie de corrente onde um leitor aqui passa por outros trocentos amigos e parceiros, que também manda amigos de lá para cá.

Obviamente antigamente a internet era menor, era mais fácil se esbarrar e encontrar sites pequenos. A partir do momento que ela expandiu ao infinito, ela ao mesmo tempo separou seus usuários em um terreno tão gigantesco que acabou criando estas cercas invisíveis, onde as vezes as pessoas não conseguem chegar a um local que potencialmente poderia curtir. Complicado isso.

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E se continuar desse jeito, para onde vamos?

 É bem difícil adivinhar para onde a internet vai evoluir e crescer, mas a tendência aparente pra mim é que a experiência de navegar por ela seja cada vez mais realizada em bolhas de conteúdo e que as pessoas fiquem mais restritas ao mundinho que a internet criou para elas. Grandes serão grandes e pequenos – dado raras exceções – continuarão sendo pequenos, a menos que você pague sua passagem para o topo. Mérito parece ter cada dia menos importância. Lembra um pouco o atual mercado de games, que hoje se divide em indie games (pequenos) e títulos AAA (grandes), está cada vez mais raro ver coisas de médio porte.

No aspecto das redes sociais também bem difícil de imaginar para onde elas vão evoluir. No mundo do politicamente correto, onde nós estamos literalmente nos expondo na web, parece que a liberdade de expressão está cada vez mais cerceada e isolada apenas ao seu grupo de conhecidos. Se antes a internet era um grande parque aberto, hoje ela me parece apenas um quintal, onde você tem ali as coisas que lhe é confortável e amigos próximos. Você não mais discute ideias com o mundo, com qualquer pessoa, mas com a sua rede de conhecidos confiáveis. Perdeu-se um pouco de ousadia, e nem percebemos essa comodidade.

E não deixo de ter receito de até onde esse isolamento do alcance pode levar os criadores de conteúdo pela web. Hoje já tenho a impressão de que está cada vez mais difícil ver novos sites e blogues pequenos, de completos desconhecidos, surgindo como era no passado. Hoje é muito mais fácil expressar as suas ideias em uma página do Facebook ou outra rede social, e somente ali, aos seus amigos. Porém este formato pode substituir um site? Eu tenho grandes dúvidas quanto a isso. O que antes era um recurso de suporte, acabou se tornando algo tão imprescindível que é impensável ter um site e não ter o mesmo atrelado as redes sociais.

Veja ainda que estou refletindo sobre alguns, mas não todos, aspectos que permeiam a atual internet. Por exemplo, fenômenos como o You Tube que surgiram e substituíram boa parte do conteúdo em texto por vídeos, tornando o acesso a conteúdos mais digestíveis, mais mais dinâmicos. E aqui dá até para dizer que é um aspecto positivo da web-evolução, ainda que muito do que foi mencionado aqui também seja um ponto que precisa ser estudado para quem cria conteúdo no You Tube. Afinal o alcance a novos canais também não é algo simples ou democrático lá. Sem mencionar que o networking é quase que obrigatório aos criadores de conteúdo em vídeo.

Os grandes portais também são uma outra área da internet que perdem cada vez mais destaques e sofrem para se reinventarem na web de hoje. Antigamente era comum pequenos e médios sites serem parceiros destes portais, o que permitiam o alcance de público, ajudava o portal a ter audiência e criava um ambiente flexível de pequenos criadores unidos a um grande nome. Hoje é muito difícil ver isso se realizando, seja porque os mesmo portais já não possuem mais os investimentos que tinham ou simplesmente pela perda de relevância nesse tipo de agregador de conteúdo.

Claro que no fim, a internet não vai acabar, os conteúdos e sites não vão ser extintos. Tudo se adapta ao tempo. O que pode morrer, se já não morreu parcialmente, é essa internet que na qual me recordo, de fóruns, de desconhecidos, um pouco mais amigável e menos careta como ela já se tornou nestes tempos de baixo alcance, de pagamentos pra ser visto, e redes sociais “não tão sociais”.

E para terminar, qual o papel do Portallos nisso tudo? Pois é. Isso é algo que venho me perguntando. O que modelo e formato do site são um pouco ultrapassados não é exatamente um mistério, mesmo que haja um esforço aqui e ali para não aparentar algo já desnecessário ou desinteressante na web moderna.

Mas é inegável, venho as estatísticas desde últimos dois meses de seu retorno, e na qual ele se manteve totalmente ativo diariamente, e com conteúdo do mais variado possível, que o alcance natural do site é baixo. E existe uma série de fatores pelo qual isso ocorre e que talvez nem caiba discuti-los com muito detalhes aqui, sendo a grande questão mesmo é se há espaço hoje em dia para site com esse modelo do Portallos, que aborda muitos assuntos diferentes entre si, com público muito diversificado e que ainda não consegue apostar em material multimídia (como podcasts e vídeos). Na cultura de que tudo tem que ser “de nicho”, na internet dos usuários que não interagem, e o sistema de alcance que ou precisa ser pago ou você torce pelo boca a boca (que graças aos céus ainda funciona) sites como o Portallos, que não são grandes e nem de médio porte, ficarão cada dia mais raros. Quer dizer, no sentido de surgirem novos sites. Quem já existe, vai continuar por aqui, ao menos enquanto houver seu público cativo, ainda que pequeno.

A menos, claro, que a internet evolua para rumos não previstos. Talvez as pessoas se cansem da forma como as coisas sejam hoje em dia. Talvez o Facebook e o Google não vão dominar o mundo virtual para sempre. Talvez a gente se canse da forma como nos expomos online. Talvez a gente perceba que o nicho muitas vezes no limita a gostar e conhecer coisas novas. Talvez a Deep Web se torne a nova internet. Bem, são muitos talvez. De qualquer forma espero estar por aqui para ver tudo isso realmente acontecer.

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Créditos as ilustrações da postagens! São todas lá do DeviantArt, dos usuários (pela ordem em que foram usadas aqui) JakeMurray, ShinodaGE, Slawekgruca, RhythmAx e Lukwarm.

Quem curtiu esse assunto, há alguns outros mais antigos, mas ainda pertinentes aqui no site: sobre textos enormes na internet, sobre comentários, pirataria na web, a importância e papel do leitor de um blog, o problema das redes sociais, segregações por excesso de opções, o que o leitor quer ao visitar um site e até mesmo o recente texto que fiz explicando sobre porque abrir o site a possibilidade dos leitores e fãs ajudarem seu crescimento via sistema de suporte recorrente e o próprio papel que esse recurso tem atualmente na web.

Alguns destes textos alias merecem uma releitura num futuro. Porém suas considerações, ponderando a época em foram publicados, são bem interessantes.

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