Cult of the Lamb: Woolhaven é uma expansão massiva, daquelas que quase passam a sensação de estar diante de um jogo novo. O impacto é ainda maior quando se lembra que tudo começou lá em 2022, com o lançamento original. Há novidades em praticamente todos os eixos da experiência: áreas, personagens, masmorras, chefes e, principalmente, desafios. Tudo isso embalado por um inverno rigoroso, capaz de congelar não só o cenário, mas a estabilidade da sua seita.
Antes de qualquer coisa, é importante deixar claro: Woolhaven não é um conteúdo stand-alone. É necessário possuir o jogo base e ter avançado até derrotar os quatro bispos principais: Leshy, Heket, Kallamar e Shamura.
Cumprido esse requisito, basta realizar as oferendas no altar da DLC para criar um novo save dedicado à expansão, mantendo o arquivo original intacto. Uma solução elegante, que permite vivenciar o novo conteúdo sem interferir diretamente na campanha principal — caso a deseje continuar sem a interferência da nova expansão.
Importante também reforçar que as Packs DLCs anteriores (Cultist, Heretic, Sinful e Pilgrim) não são obrigatórias. Elas adicionam principalmente conteúdos cosméticos e missões opcionais, sem impacto direto na experiência de Woolhaven.
E caso você seja um seguidor desgarrado e não saiba as doutrinas de Cult of the Lamb, sugiro a leitura bíblica de nossa análise baseada em seu conteúdo original de lançamento.
Feitos os alertas, resta descobrir como sua seita irá sobreviver ao inverno que se aproxima.
Ficha Técnica
- Plataformas: PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch, Switch 2, PC, PlayStation 4, Xbox One, iOS & Android
- Desenvolvedor: Massive Monster
- Publisher: Devolver Digital
- Gênero: Roguelike
- Lançamento Original: 11 de Agosto de 2022
- Lançamento da Expansão: 22 de Janeiro de 2026
- Versão analisada: Xbox Series S
De Volta ao Culto / Evolução
Desde seu lançamento, Cult of the Lamb recebeu uma série de atualizações gratuitas que expandiram e refinaram os arquétipos centrais do jogo.
Um dos marcos mais importantes foi a introdução do modo cooperativo, permitindo que um segundo jogador entre ou saia da partida a qualquer momento, integrando de forma surpreendentemente fluida o single player e o multiplayer.
Outras adições também remodelaram a experiência. Relíquias passaram a complementar as maldições, oferecendo poderes temporários ou de uso único. Armas ganharam ataques pesados capazes de quebrar escudos à custa de mana, além da inclusão de novos tipos de armas, cartas e maldições.
No gerenciamento da seita, novas árvores de progressão foram adicionadas, agora alimentadas por pontos de pecado, criando um novo ecossistema de rituais, construções e interações — como bares ou rituais de dança coletiva, onde todos estão desprovidos de roupas. O culto também se expandiu em possibilidades mais excêntricas, com casamentos, maternidade e até a inclusão de uma mesa de Bugalha (jogo de tabuleiro e dados) mais acessível, permitindo jogar com qualquer membro da seita.
Até mesmo o pós-jogo (ending game) foi significativamente ampliado, com novos desafios, chefes remodelados e sistemas adicionais de progressão, estendendo consideravelmente a cauda de replay.
Independentemente de ter a nova expansão, a primeira paga, retornar agora a Cult of the Lamb é uma excelente opção, especialmente para quem só o jogou próximo ao lançamento original. Dito isso, Woolhaven chega sobre uma base muito mais madura, refinada e rica em possibilidades.
Montanha dos Segredos / Mundo e Narrativa
Parte do charme de todo bom roguelite é a descoberta dos pontos narrativos que justificam o looping de sua aventura. Bons jogos do gênero sabem amarrar isso dentro do ciclo da jogabilidade, motivando jogadores a sobreviver, enquanto descobrem as migalhas na trilha criada. Woolhaven consegue esse feito com maestria.
Aqui, os jogadores são levados a uma montanha desolada, lar da adormecida Deusa do Inverno, Yngya, e local de origem dos cordeiros — raça exterminada pelos Bispos da Antiga Fé. A expansão convida o jogador a descobrir mais sobre esse clã esquecido, sua cultura, como viviam e quem foram antigos cordeiros antes do terrível genocídio.
Guiado por Yngya, o Cordeiro explora a montanha em busca das almas perdidas de seu povo, mas o despertar da deusa traz consequências diretas: o inverno se espalha pelo vale, afetando a seita e colocando todos em risco.
A montanha também abriga outras ameaças, como o perigoso e traiçoeiro Marchosias, líder de uma matilha hostil às incursões do Cordeiro, além das entranhas putrefatas do local, onde criaturas corrompidas por infecção, calor extremo e podridão espreitam a todos que exploram seus domínios.
É nesse contexto que a expansão Santa Lã — título oficial em português — guiará os jogadores, apresentando uma narrativa mais introspectiva e crescente, focada em origem, identidade e consequência. A cada incursão, mais é revelado — e o inverno se torna mais implacável.
Fé pode combater o Frio? / Jogabilidade
A jogabilidade da expansão se divide entre dois novos biomas — a montanha gelada e as cavernas putrefatas — e uma profunda reformulação do gerenciamento da seita. O combate é visivelmente mais agressivo que na campanha original, com vários inimigos inéditos e releituras de alguns conhecidos, sendo muitos protegidos por escudos ou dotados de comportamentos mais punitivos.
Lobos atacam com investidas ferozes após sofrerem dano, enquanto criaturas da putrefação deixam gosmas tóxicas pelo chão e se fragmentam ao serem feridas. Ao explorar estes novos ambientes, o desafio e a sobrevivência será o ponto de tensão para o pequeno Cordeiro.
A progressão também muda. Em vez de repetir incursões aleatórias, agora há um mapa claro em cada bioma, permitindo ao jogador escolher caminhos, objetivos e encontros específicos. Esse modelo dá mais clareza à progressão e comunica melhor o avanço da nova campanha.
O maior impacto, no entanto, está no culto. O inverno congela a terra, impede plantações, mata seguidores de frio e acelera crises de fome e fé. Para sobreviver, novas construções se tornam essenciais, como sistemas de aquecimento e fontes termais. Conforme Yngya desperta, as condições se agravam, exigindo decisões cada vez mais difíceis.
Novas doutrinas entram em cena, como a criação de bonecos de neve trabalhadores, além de seguidores feitos de putrefação, que não sentem fome, mas vivem pouco e exigem outro tipo de manejo. A área do culto também é expandida, abrindo espaço para novas estruturas, como um rancho de animais que fornecem lã e carne.
Esses sistemas não servem apenas para manter o culto funcionando durante o inverno, mas surgem como consequência direta dos atos do Cordeiro ao avançar na restauração de seu clã — o terceiro eixo de progressão da expansão. Esse processo dá meios de se fortalecer para incursões e expande os dogmas de gestão da seita, criando a tormenta perfeita entre recompensas e adversidades. A Deusa tira, o clã provê.
Tudo se conecta de forma orgânica: incursões impulsionam o despertar da Deusa, a restauração do clã sustenta o culto, e a sobrevivência ao inverno empurra o jogador de volta à exploração. A sensação de controle conquistada no fim do jogo base é deliberadamente destruída aqui. Woolhaven é um recomeço duro — e muito bem calculado.
Altos & Baixos
— O que funciona bem:
- Novos biomas elevam significativamente o nível de desafio das incursões;
- Progressão pela nova campanha é mais direta, com objetivos claros.
- O inverno impacta e desafia diretamente todos os sistemas do culto;
- Expansão que evita reciclagem e entrega novidades estruturais;
- Aprofundamento consistente da lore do universo da obra.
— O que poderia ser melhor:
- Restauração da vila do clã dos cordeiros é lenta;
- Coleta urgente de certos recursos pode frustrar e desacelerar a progressão;
- Retornar a biomas antigos pode ser necessário para coletar recursos, e isso quebra o ritmo das novidades.
Considerações Finais
Woolhaven é uma expansão pensada para veteranos. Não recicla estruturas, nem segura a mão do jogador. Pelo contrário, parte do princípio de que você domina os sistemas do jogo original e, a partir disso, testa seus limites.
O combate não precisou ser reinventado, mas os novos inimigos e combinações de armas, maldições e relíquias criam situações inéditas. Já o inverno adiciona uma camada de pressão constante, tornando cada decisão dentro da seita mais pesada e significativa.
As novas atividades e a reconstrução do legado dos cordeiros ampliam ainda mais o escopo da experiência, oferecendo novos espaços, recursos e até um novo jogo estratégico, chamado Rebatalha, que reinventa a velha disputa de pedra, papel e tesoura, em um desafio de lógica e risco. Descobrir mais sobre o clã dos cordeiros é muito interessante, e a restauração da vila também tem muito a oferecer ao longo da nova aventura.
No fim, Cult of the Lamb: Woolhaven cumpre exatamente o que se espera de uma expansão paga bem-sucedida: evolui a estrutura original, respeita o que veio antes e entrega algo novo, desafiador e coerente. Para quem gostou do jogo base, é um acréscimo que faz todo o sentido, e que dá ainda mais peso ao culto que você escolheu liderar.
Ter fé nos tempos de bonança é fácil. O Cordeiro foi bondoso, ajudou a todos. Agora, em busca de respostas sobre os seus, as consequências dessa jornada recaem sobre seus seguidores. Até onde a fé precisa ir para sustentar um líder? E quando uma decisão deixa de ser pessoal e passa a condenar todos ao redor? Woolhaven provoca, mais uma vez, a refletir sobre os limites da fé — e o preço cobrado quando ela é testada.
Galeria
Dando nota
Apresentação fenomenal, com uma narrativa que sustenta os desafios da jogabilidade - 9.5
Inverno é um sistema que testa o jogador, que precisa lidar com novas tensões dentro do culto - 9
Novos biomas com novos e mais agressivos inimigos realmente testam as habilidades do jogador - 9.5
Progressão pela nova campanha é mais objetiva, mesmo dando muitas tarefas para se lidar simultaneamente - 8.8
Novas doutrinas, formas de seguidores e construções criam novas dinâmicas dentro da rotina do culto - 8.8
Dificuldade elevada é totalmente justificada, tirando qualquer conforto estabelecido pela campanha principal - 9.2
Sem reciclar, expansão entrega a sensação de uma genuína nova experiência para Cult of the Lamb - 10
9.3
Fantástico
Cult of the Lamb: Woolhaven é uma expansão de peso para um jogo soube manter sua comunidade ativa e engajada ao longo dos últimos anos, entrega tudo que prometeu e atende as expectativas. Uma nova campanha, novos biomas, inimigos e uma progressão roguelite mais objetiva, que amplia a lore do universo. E tudo isso entendendo que o desafio no combate e novas tensões para gerenciar o culto são essenciais após tantos anos de arrebatamento, colocando a fé em novas provações. O inverno é avassalador, e a sobrevivência agora tem sérios riscos. Mas ninguém disse que a busca por respostas seria fácil, não é?
