Tales of Berseria foi originalmente lançado em 2016 e chegou marcando um momento importante para a tradicional franquia de RPGs de ação da Bandai Namco Entertainment.
Isso porque a série Tales of sempre foi conhecida por combinar combates em tempo real com narrativas centradas em seus personagens. Geralmente alguém que acaba — sem nem perceber — se encarregando de acabar por salvar o mundo, mesmo que isso comece de forma simples, como ajudar um amigo, encontrar uma pessoa ou salvar a si mesmo. Tales of Berseria, entretanto, foi particularmente marcante por apresentar uma protagonista incomum para o gênero: uma “heroína” movida pela vingança, e por sentimentos conflitantes, em uma história mais sombria do que a vista nos títulos anteriores.
Uma década depois, Tales of Berseria Remastered surge, apresentando uma nova edição que revisita essa aventura com melhorias técnicas e ajustes na jogabilidade. A versão original estreou primeiro no Japão para PlayStation 3 e PlayStation 4, chegando ao Ocidente em 2017 para PlayStation 4 e PC. A edição remasterizada, por sua vez, chegou em 26 de fevereiro de 2026 para todas as plataformas modernas, incluindo PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch/Switch 2 e PC.
A proposta deste remastered não chega a ser transformar radicalmente o jogo, mas sim preservar sua essência enquanto atualiza a experiência para os padrões modernos. O que soa correto considerando o material original e por se tratar de uma obra relativamente “recente“.
Uma curiosidade é que Tales of Berseria funciona como uma prequela de Tales of Zestiria (2015/PS3), ocorrendo cerca de 1000 anos antes no mesmo mundo, focada em explicar as origens da malevolência, dos malakins e do sistema de pastores. Temos então, Zestiria focado em ser uma história tradicional do bem contra o mal, enquanto Berseria por sua vez, explora um tom mais sombrio de vingança, nos mostrando como o chamado vilão de uma era pode ser o herói de outra era.
Por sinal, Tales of Zestiria ainda não foi remasterizado, mas considerando a conexão entre ambos os títulos não seria surpresa alguma se dentro o projeto da Bandai Namco, que está trazendo de volta diversos clássicos da franquia, este não seja um dos próximos a serem anunciados. Certamente é um dos mais cotados.
Vingança nunca é plena
A trama de Tales of Berseria nos faz acompanhar a jovem Velvet Crowe, que vive em uma vila tranquila com seu irmão mais novo. Um evento trágico acaba por transformar completamente e brutalmente sua vida. Sem nem perceber, passamos a acompanhar, e a tomar controle desta jovem, nos forçamos a trilhar um caminho marcado pelo ódio, pela vingança e por questionamentos sobre a justiça e a moralidade da mesma.
Até onde algo é realmente justo? Quais sacrifícios são “aceitos” para salvar o mundo? E será que aquele visto como o grande salvador, realmente está salvando algo ou alguém?
Velvet rapidamente se torna uma figura memorável da série justamente por fugir do arquétipo tradicional de herói. Em vez de alguém motivado por altruísmo ou justiça, Velvet inicia sua jornada movida por emoções negativas o que estabelece desde o início um tom emocional muito diferente do que estamos acostumados.
A narrativa começa com a protagonista já transformada pelas circunstâncias, e a história acompanha sua jornada enquanto busca confrontar aqueles responsáveis por seu sofrimento. Mas como era de se esperar, Velvet não parte nesta aventura sozinha e encontra diversos aliados improváveis, cada um com suas próprias motivações e conflitos internos. Indo contra o que normalmente se espera de um Tales of, o grupo é composto por demônios, piratas, magos e outras figuras marginalizadas pela sociedade, formando uma equipe bastante heterogênea, criando ,por assim dizer, uma equipe que não se encaixa no modelo clássico de heróis.
O universo de Tales of Berseria é construído sobre uma mitologia rica que envolve religião, magia e transformações sobrenaturais. Temos um mundo onde humanos podem se transformar em criaturas chamadas Daemons, seres que perderam o controle de suas emoções e instintos. Para combater essas criaturas existe uma ordem religiosa conhecida como exorcistas, guerreiros treinados para eliminar ameaças sobrenaturais. Dentro dessa premissa, o jogador vai acabar constantemente se questionando sobre a legitimidade dessas instituições e as consequências de suas ações.
A história explora zonas morais cinzentas, indo na contramão de muitas onde existe uma clara divisão entre o bem e o mal. Frequentemente me questionei quem realmente estava certo ou errado. Velvet é uma protagonista que não busca salvar o mundo, sua motivação inicial é puramente pessoal. Mas afinal, ela está buscando apenas vingança ou está buscando algum tipo questionável de justiça? Há diferença entre um ou outro?
Como não posso revelar tudo vou me abster a dizer que a história construída apresenta uma evolução, indo gradualmente de uma jornada puramente de vingança para algo bem mais complexo, envolvendo a estrutura do próprio mundo em si e de suas crenças.
Melhorias Remasterizadas
A proposta de Tales of Berseria Remastered não é reconstruir completamente o jogo original, mas refinar e modernizar diversos aspectos da experiência para torná-la mais agradável nas plataformas modernas. Em vez de apresentar mudanças radicais na estrutura, o foco está em melhorias técnicas, ajustes de interface e pequenas alterações de qualidade de vida que reduzem frustrações e tornam o fluxo mais natural. Essas mudanças podem parecer discretas. Porém, ao longo das horas de jogo acabam tendo impacto significativo na experiência geral.
Tales of Berseria originalmente já possuía uma estética inspirada em animes, o que é uma característica dos jogos da série Tales of, mas o remastered melhora a nitidez geral da imagem e atualiza diversas texturas. Personagens, cenários e elementos de interface apresentam agora uma aparência mais definida, especialmente em telas de alta resolução. As cores também parecem mais equilibradas, e alguns efeitos de iluminação foram ajustados para tornar ambientes internos e externos visualmente mais consistentes.
O jogo também foi otimizado para rodar de forma mais estável, reduzindo quedas de desempenho que poderiam ocorrer em momentos mais intensos da ação. Como o sistema de combate da série Tales of depende de movimentos rápidos e sequências contínuas de ataques, essa maior estabilidade contribui diretamente para que as batalhas se tornem mais fluidas e rápidas. A sensação de controle sobre os personagens responde melhor e os confrontos se desenvolvem com um ritmo mais natural, o que reforça o caráter dinâmico do sistema de batalha.
Esta remasterização também traz melhorias significativas na interface e na organização dos menus. Os menus foram reorganizados de forma mais clara e intuitiva, facilitando a navegação entre diferentes categorias. Informações importantes aparecem de maneira mais destacada, permitindo que o jogador compreenda rapidamente os efeitos de armas, acessórios ou habilidades sem precisar navegar por múltiplas telas como anteriormente.
Indicadores de objetivos estão mais claros e ajudam a orientar melhor o jogador em regiões mais abertas do mapa. Isso reduz a sensação de desorientação que alguns jogadores poderiam sentir em relação ao original. Ao mesmo tempo, o sistema de navegação foi refinado para tornar a progressão mais fluida, evitando que o jogador precise retornar constantemente a menus ou mapas para lembrar qual é o próximo destino da história e onde realmente deve ir.
Como nos outros remasters da série Tales of, tivemos também a integração de conteúdos adicionais que anteriormente eram vendidos separadamente. Mas aqui eles se resumem a itens cosméticos (perucas, óculos, chapéus, etc) e trajes alternativos. Em vez de alterar profundamente a estrutura da obra, a remasterização atua como um refinamento técnico e funcional, oferecendo uma versão mais confortável, estável e completa da aventura.
Antes de começar a aventura, da mesma forma que ocorreu em Tales of Graces f Remastered e Tales of Xillia Remastered, o jogador encontra uma série de facilitadores opcionais que podem ser ativados ou desativados conforme sua preferência. Entre essas opções estão bônus como ganhar o dobro de experiência nas batalhas, causar mais dano aos inimigos ou ampliar o limite de itens que podem ser carregados no inventário, entre outras vantagens.
Esses recursos foram pensados principalmente para quem possui menos tempo para se dedicar ao jogo ou prefere uma jornada mais focada na história e na imersão narrativa, em vez de enfrentar repetidamente os desafios tradicionais de progressão característicos do gênero. Com eles ativados, o avanço de nível dos personagens se torna mais rápido e os confrontos acabam exigindo menos esforço.
Naturalmente, tudo isso é totalmente opcional. Jogadores que preferem uma experiência mais desafiadora podem simplesmente ignorar essas opções e jogar com a dificuldade original, preservando o equilíbrio clássico do jogo.
Combates estratégicos em tempo real
Diferente de muitos RPGs tradicionais que utilizam combate por turnos, Tales of Berseria Remastered segue o estilo característico da série Tales of, com batalhas em tempo real.
Aqui o jogador controla diretamente um personagem no campo de batalha, podendo se movimentar livremente, atacar, defender e usar habilidades de maneira contínua, sem pausas para seleção de comandos a cada ação. Podemos alternar com qual personagem vamos jogar e até mesmo jogar em multiplayer local com mais amigos juntos.
Durante os confrontos, os inimigos aparecem diretamente nas áreas de exploração. Quando o combate começa, o jogo delimita uma área de batalha no próprio cenário, evitando transições longas entre exploração e combate. Essa decisão ajuda a manter o ritmo mais dinâmico, já que o jogador passa rapidamente de um momento de exploração para uma sequência de ação intensa.
O posicionamento dos personagens também influencia o resultado das batalhas, já que é possível cercar inimigos, evitar ataques ou aproveitar oportunidades para iniciar combos mais longos. Chegar por trás de um grupo de inimigos, por exemplo, lhe dará vantagem e ser surpreendido por um grupo de inimigos deixará o grupo em desvantagem. Se dois ou mais grupos de inimigos atacar simultaneamente, as coisas vão ficar bem complicadas com a quantidade de inimigos atacando todos juntos.
Aqui um dos elementos fundamentais do combate é o sistema de habilidades chamado Artes. Cada personagem possui um conjunto de técnicas que podem ser configuradas em sequências personalizadas de botões. O jogador pode definir quais habilidades específicas vão estar associadas a cada botão do controle, criando cadeias de ataques que podem ser executadas em sequência. Essa liberdade permite montar estilos de combate diferentes, adaptando os golpes de acordo com o tipo de inimigo enfrentado. Algumas Artes causam dano direto, outras exploram fraquezas elementais, enquanto certas técnicas servem para interromper ataques inimigos ou controlar grupos de adversários.
Outro componente importante da mecânica de combate é o Soul Gauge, um sistema que regula quantas ações consecutivas um personagem pode realizar. Cada personagem possui um número limitado de “almas”, e cada ataque consome uma dessas unidades. Quando o personagem possui mais almas disponíveis, é possível executar sequências de golpes mais longas e complexas. Por outro lado, se o número de almas diminui, o personagem fica temporariamente limitado em suas opções ofensivas. Esse sistema cria um equilíbrio interessante entre agressividade e estratégia, pois o jogador precisa administrar cuidadosamente seus recursos durante a batalha.
E ainda temos mais uma mecânica especial chamada Break Soul, que oferece habilidades únicas para cada personagem do seu grupo. Essas técnicas alteram temporariamente o estilo de combate dos personagens, permitindo que eles executem ataques mais poderosos ou até mesmo modifiquem o comportamento total do personagem durante as batalhas — exemplo: Velvet e seu Break Soul a coloca em um estado de combate extremamente agressivo, aumentando seu potencial ofensivo enquanto altera o funcionamento de seus ataques. Esse tipo de mecânica adiciona variedade às batalhas e incentiva o jogador a explorar cada membro do grupo.
Por falar em diferentes personagens, poder jogar com cada um deles permite experimentar diferentes opções, já que cada um dos personagens possui um estilo de luta próprio, com armas, habilidades e ritmo de combate distintos se comparados uns aos outros, ainda que Velvet seja a personagem principal, e provavelmente a qual o jogador mais se apegará.
E como não podemos esquecer, temos um sistema de fraquezas e resistência para os inimigos e membros do grupo. Identificar essas fraquezas e ajustar as sequências de Artes de acordo com o tipo de adversário pode aumentar significativamente a eficiência do jogador nos combates e ser a chave para determinadas vitórias ou derrotas na aventura. Usar sempre os mesmos ataques pode não te levar muito longe, então estudar as fraquezas dos inimigos e fortificar as resistências dos membros da equipe é algo essencial.
No conjunto, como um todo, o sistema de batalha de Tales of Berseria é grandioso e, de certa forma, até um pouco complexo, contudo combina de forma perfeita a ação rápida, a personalização de habilidades e o gerenciamento estratégico de recursos. O resultado é um sistema que recompensa tanto reflexos rápidos quanto planejamento cuidadoso, permitindo que jogadores desenvolvam seu próprio estilo de combate ao longo da aventura.
Trilha de impacto
A trilha sonora desempenha um papel fundamental na construção da atmosfera do jogo. A música não serve apenas como acompanhamento das cenas e das batalhas, mas também como um elemento que ajuda a transmitir emoções, reforçar momentos narrativos e dar identidade aos diferentes locais visitados.
Em Tales of Berseria Remastered essas melodias tiveram sua composição a cargo do compositor japonês Motoi Sakuraba, músico que já possui uma longa história com a franquia Tales of e com outros diversos RPGs japoneses (Valkyrie Profile, Star Ocean: The Second Story, Golden Sun, Baiten Kaitos Origins). Seu estilo mistura elementos de música orquestral, rock e melodias dramáticas, criando faixas que conseguem variar entre momentos de grande intensidade e passagens mais introspectivas.
Durante as batalhas, as músicas são rápidas e energéticas, marcadas por ritmos acelerados, guitarras e arranjos que reforçam a sensação de urgência e dinamismo do sistema de batalha. A trilha sonora ajuda a manter a tensão e a empolgação durante todos os confrontos.
Em contraste com toda a intensidade das batalhas, as áreas de exploração costumam apresentar composições mais atmosféricas como vilarejos tranquilos, portos movimentados e regiões que possuem temas musicais próprios que ajudam a transmitir a identidade de cada local.
Alguns momentos da história são acompanhados por músicas recorrentes que passam a ser associadas a determinados conflitos ou emoções. Isso contribui para fortalecer a conexão emocional entre o jogador e os eventos do enredo, já que determinadas melodias acabam evocando lembranças de acontecimentos importantes ao longo da aventura.
Na versão remasterizada, a trilha sonora não foi completamente regravada, mas recebeu pequenos ajustes na qualidade de áudio e na mixagem, garantindo uma reprodução mais limpa e equilibrada em sistemas de som modernos. Esses refinamentos ajudam a valorizar os detalhes das composições, tornando instrumentos e camadas musicais mais perceptíveis.
Considerações finais
Pessoalmente, na versão original de PlayStation 4, havia apenas arranhado a superfície do jogo, mas ao retornar para esta nova edição, senti que pouco me recordava dessa experiência passada. Fiquei revigorado ao vivenciar a obra agora em sua versão definitiva.
Mesmo anos após seu lançamento original, Tales of Berseria continua sendo um dos capítulos mais memoráveis da série Tales of, exatamente por nos trazer controle sobre uma anti-heroína, uma personagem que foge dos padrões e uma das primeiras protagonistas mulheres da franquia.
Tales of Berseria apresenta uma narrativa emocional, com personagens complexos e um sistema de combate dinâmico que nos garante uma experiência que se mantém envolvente e dinâmica do início ao fim. Para novos jogadores, é uma excelente oportunidade de conhecer uma das histórias mais marcantes da franquia.
Para fãs antigos, representa a forma mais refinada de revisitar essa jornada intensa. E para mim, finalmente foi a oportunidade de desvendar seus mistérios, e descobrir até onde Velvet vai em sua complexa busca, assolada moralmente por emoções que ela terá que lidar, mais cedo ou tarde.
Galeria
Dando nota
Velvet é uma protagonista que foge do padrão clássico, possuindo uma personalidade complexa e emocionalmente intensa - 9
Sistema de batalhas veloz e que possibilita a criação de diferentes combinações - 8.5
Mundo do jogo é interessante e apresenta diversas atividades, como mini jogos e baús escondidos para serem descobertos - 8.5
Narrativa fascinante que vai se desenrolando à medida que as personagens evoluem de forma inteligente - 8
Mecânicas de combate são inicialmente confusas e complexas, pois o jogo tropeça para explicar tudo em detalhes ao jogador - 6.5
De forma geral é bastante linear não possui um sistema de missões secundárias como outros da série - 7
Masmorras de certa forma carecem de variedade e se tornam repetitivas - 7
7.8
Ótimo
Tales of Berseria Remastered resgata uma obra ímpar dentro da icônica franquia, enaltecendo visuais, som e, claro, elementos de acessibilidade, permitindo melhor ritmo da experiência proposta. Quanto a aventura em si, o que se tem aqui é uma narrativa que rompe com os clichês do gênero, inserindo uma trama com muitas nuances de moralidade, questionando padrões e valores, enquanto a protagonista também enfrentar crises internas. Um universo de personagens com riqueza e complexidade, dentro de um mundo que funciona em desafiá-los em sua jornada. Uma obra atemporal, altamente recomendada até os dias de hoje.
