Neva é uma obra que se divide entre jogo eletrônico e experiência narrativa introspectiva, que convida o jogador a uma reflexão sobre criação, vida e sua passagem do tempo, dentro de uma jornada que exige uma leitura interna sobre eventos e mundo apresentado. É um jogo que te faz sentir, que encanta, emociona e choca.
A produção pertence a Nomada Studio, estúdio independente localizado na Espanha, notório por GRIS (2018), outra obra que também busca esse conceito de videogame com um elo emocional. Ambos os títulos compartilham certas semelhanças, como direção de arte e exposição narrativa sem utilização de diálogos, mas os verbos emocionais de cada um são completamente diferentes.
Lançado em outubro de 2024, o sucesso do jogo foi tamanho que uma expansão entrou em desenvolvimento nesse ínterim. Trata-se de um prólogo da história principal, e está sendo lançando AMANHÃ (19). Por conta deste momento, senti a motivação para escrever esta análise e recordar a beleza do que podemos chamar de um “jogo-arte“.
Mesmo sem diálogos, Neva apresenta localização em português — simples, restrita aos menus e tutoriais que introduzem novas habilidades ao jogador.
Ficha Técnica
- Plataformas: PlayStation 5, Xbox Series X|S, PC, Nintendo Switch, PlayStation 4
- Desenvolvedor: Nomada Studio
- Publisher: Devolver Digital
- Gênero: Plataforma Puzzle (Narrativa)
- Lançamento: 15 de Outubro de 2024
- Versão analisada: Xbox Series S
Lar corrompido / Mundo e Narrativa
Neva é um destes jogos que quanto menos você souber da história, melhor. A obra é construída com essa premissa, permitindo que o jogador sinta plenamente o impacto do que está por vir, para que suas emoções se tornem intrínsecas ao ato de jogar. Ou seja, não posso dizer demais.
Posso, contudo, apresentar sua premissa básica e sua intenção. Aqui acompanhamos a jornada de uma mulher chamada Alba e sua loba — cujo nome dá título ao jogo. O mundo em que vivem está sendo tomado por uma escuridão que absorve toda vida orgânica que toca, deixando o ambiente estático no tempo, como uma tentativa desesperada de enganar a morte.
Dentro dessa corrupção surgem seres negros e inexpressivos, com rostos cobertos por máscaras brancas. Eles caçam outros seres, fundem-se entre si, destroem, vivem em constante sofrimento e nunca parecem saciados com suas próprias existências.
O jogo nunca oferece ao jogador um contexto mais amplo sobre civilização ou outros humanos. Conhecemos apenas a floresta e seus arredores — campos verdejantes, montanhas e vales, o lar de Alba e Neva.
Mas o que fazer quando seu lar é tomado por uma entidade inexplicável? Que decisões você toma quando a vida de quem você mais ama está em perigo? É possível fugir? E que lições existem nisso?
A história de Neva (o jogo) é, acima de tudo, sobre cuidar de quem você ama, independente do risco ou do custo. A narrativa tomará todas as estações do ano, enquanto Alba testemunhará o crescimento e o amadurecimento de sua relação com Neva.
Crescente da Jogabilidade
Em Neva, jogabilidade e narrativa andam juntas. Conforme a narrativa avança, a jogabilidade cresce em paralelo, oferecendo novas habilidades e desafios envolvendo o ambiente, de acordo com um aumento agressivo da podridão ao redor de Alba e Neva.
Embora a campanha seja dividida nas quatro estações do ano — verão, outono, inverno e primavera — o clima não tem qualquer impacto no gameplay, servindo apenas como cenografia e sensação de passagem do tempo, sendo um elemento simbólico que garante a evolução narrativa.
Ao não se aproveitar do clima de forma mais enfática, cria-se um potencial não aproveitado. Vento poderia ser um desafio no outono, da mesma forma que um violento inverno poderiam oferecer lentidão ou pisos escorregadios. Neva opta por não seguir esse caminho — o que não é necessariamente um problema, mas também não reforça o clima como um desafio ativo de sobrevivência.
Isso não significa que o ambiente não se comunique com o gameplay, pelo contrário. Durante fugas e inevitáveis confrontos, Alba e Neva enfrentam escaladas, ambientes escuros onde uma única fonte de luz ser tornará essencial, batalhas e plataformas contra ambientes refletidos, encontros contra animais corrompidos, até mesmo tensão ao explorar templos e ambientes aterrorizantes.
A jogabilidade segue o formato 2D de avanço lateral da tela, mas sem se limitar ao deslocamento tradicional da esquerda para a direita. Em vários momentos será necessário avançar em ambas as direções, resolvendo situações que desbloqueiam o progresso, onde um caminho no meio te levará a um novo local.
Os puzzles existem, mas são simples, focados em observação, posicionamento e uso correto das habilidades adquiridas. A progressão é linear, sem múltiplos caminhos reais, embora existam pequenas bifurcações que levam a flores colecionáveis.
Em termos de jogabilidade, o grande trunfo de Neva é seu intenso e evolutivo combate, um elemento inesperado em plataforma a serviço de sua narrativa. Inicialmente apenas Alba pode combater os seres corrompidas, enquanto tenta em desespero proteger Neva.
Contudo, conforme as estações passam, Neva deixa se ser uma simples filhote que necessita de proteção e passa a desempenhar um papel cada vez maior, aprendendo a se defender sozinha e até mesmo a auxiliar Alba nas emboscadas, intensificando a dinâmica dos confrontos.
Apesar do jogo não apresentar uma grande diversidade de inimigos, existem variações inteligentes que compensa essa necessidade de variedade. Os menores surgem em números cada vez maiores, enquanto os de maior porte, ou alguns especiais, como que dominam animais ou que podem voar, até mesmo quando em duplas já irão exigir atenção e cuidado do jogador.
Não desejo revelar as inúmeras habilidades que serão desbloqueadas conforme a campanha avança, contudo posso afirmar que elas dão uma real sensação de progressão e fortalecimento, e surgem em pontos chaves, quando a jogabilidade precisa crescer, em meio a pressão da própria narrativa.
Altos e Baixos
— O que funciona bem:
- Narrativa envolvente, com um desfecho que causa espanto e surpresa.
- Combate intenso, que sabe se reinventar progressivamente.
- Direção de arte cuidadosa e minimalista em seus detalhes.
- Sensação consistente de progressão mecânica e emocional.
— O que poderia ser melhor:
- Ainda que não sejam ruins, os puzzles são simples.
- Clima das estações não impactam o gameplay.
- Jogo curtinho, sem um replay empolgante.
Considerações finais
Neva é uma experiência emocional planejada, enquanto que ofereça elementos de jogabilidade simples e agradáveis. E já deixo o alerta: não espere que todos os elementos da história sejam minimamente costurados. Há muita coisa que fica implícita e de vasta interpretação, como origens da corrupção, suas motivações e significado. Ainda assim, o arco de Alba e Neva é concluído com precisão e maturidade.
Mesmo curtinho, tomando entre 4/5 horas de duração, a experiência que o título entrega é marcante e significativo. Considerando o fato de ser um jogo independente, esse formato é plenamente aceitável. Só gostaria que os colecionáveis tivessem um peso maior dentro do looping da jogabilidade. Sim, coletar todas as flores revela uma cena final extra (linda, por sinal), contudo desejaria muito um extra do tipo “galeria de artes e storyboards” para cada flor encontrada, instigando mais a busca e a ambição para o colecionismo.
Inevitável também a comparação com GRIS, título que procedeu o desenvolvimento de Neva.
- Pessoalmente, penso que as reflexões de GRIS são mais impactantes, porque lidam com emoções negativas — luto, solidão, tristeza —, gerando um importante desconforto em temas que nem sempre as pessoas gostam de debater ou conversar.
- Já Neva segue uma temática mais calorosa, com maior simpatia e empatia — maternidade, vínculo, cuidado, crescimento, amor —, ainda que proponha um desfecho realista e maduro sobre o ciclo da vida e do amadurecimento de um ser.
Independente de preferência, ambos entregam uma experiência íntima e genuína, que trabalha emoções, sentimentos e a humanidade do jogador. Também demonstra que a Nomada Studio já entrega uma identidade própria, como um estúdio que produz arte interativa com emoções, entregando obras que podem ser consideradas simples, porém são profundamente tocantes. Um tipo raro, e valioso, de experiência em termos de jogos eletrônicos. Sem dúvida alguma.
Galeria
Gameplay *via nosso canal no YouTube!
— Você pode conferir a segunda parte do vídeo acima, neste link!
Dando nota
Linda narrativa, jogador sente-se envolvido na trama desde os minutos iniciais - 9
Direção de arte impecável, cuidadosamente minimalista - 9
Jogabilidade progride junta a história, dando sempre novos recursos ao jogador - 8.5
Combate figura como ponto alto da jogabilidade, sempre intenso e satisfatório - 9
Clima não interfere na jogabilidade, puzzles simples e sem desafio - 7
Experiência curtinha, sem um replay que compele a ficar mais tempo jogando - 7.8
Temas emocionam, porém é menos intenso e impactante do que GRIS - 8
8.3
Tocante
Neva é mais uma obra prima da Nomada Studio, isso é inegável. Lindo, tocante, emocionante. Jogo arte, em que narrativa e jogabilidade andam de mãos dadas, uma fortalecendo a outra e escalando a experiência interativa. Os temas tratados aqui são mais calorosos do que a intensidade dramática do título anterior do estúdio, mas são tão interessantes quanto. Na jogabilidade, a experiência, ainda que curta, entrega uma progressão satisfatoriamente evolutiva, com um sistema de combate que fica cada vez mais intenso e interessante. Curtinho, mas completo em sua proposta narrativa.
