Plants vs. Zombies: Replanted resgata uma lembrança que a própria franquia deixou escapar com o tempo. Após anos de deriva, revisitar sua origem soa quase necessário — ainda que esta “remasterização definitiva” não represente o ponto mais alto dessa guerra entre plantas e mortos-vivos. O resultado é uma obra correta, razoavelmente completa, mas também tímida. Ainda assim, há algo genuinamente prazeroso em voltar a uma época em que muitos problemas se resolviam simplesmente coletando sóis.
Baseado no jogo original de 2009, lançado em dispositivos móveis, Replanted reúne praticamente tudo que Plants vs. Zombies acumulou ao longo de seus inúmeros ports em diferentes plataformas: expansões, modos extras e ajustes pontuais. Visualmente atualiza os gráficos para as altas resoluções atuais e adiciona pequenas melhorias funcionais — como a opção de acelerar partidas — além de dois modos inéditos, fases extras e um leve aumento geral de desafio. Nada disso, porém, altera profundamente a experiência conhecida.
Com localização completa em português e preço mais acessível do que a média atual dos grandes lançamentos, podendo ser encontrado entre R$89 e R$99 a depender da plataforma escolhida, Replanted é honesto em termos de custo-benefício. O problema não está no que ele oferece, mas no que escolhe não ser.
Ficha Técnica
- Plataformas: PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series X|S, Xbox One, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2 e PC.
- Desenvolvedor: PopCap Games / The Lost Pixels
- Publisher: Electronic Arts
- Gênero: Tower Defense / Estratégia / Puzzle
- Lançamento: 23 de Outubro de 2025
- Versão analisada: Nintendo Switch 2
Resistência botânica – Mundo e Narrativa
Plants vs. Zombies sempre funcionou sem depender de narrativa tradicional, e Replanted preserva isso integralmente. Não há história cinematográfica ou progressão dramática: existe apenas o jardim, os zumbis avançando e a casa de Dave Doidão ao fundo.
Inclusive gosto como Dave Doidão funciona como uma figura simbólica. Não é um personagem jogável nem relevante para o contexto do gameplay, mas cumpre bem seu papel ao estabelecer um tom de humor leve, quase satírico, que faz o jogador esquecer que zumbis normalmente estão associados ao terror. Aqui, tudo é pura comédia.
Essa simplicidade, no entanto, nunca foi um problema. Pelo contrário. A “história” do jogo se manifesta na forma como o mundo se reorganiza para desafiar o jogador. E se o jardim tiver uma piscina? E se os zumbis vierem a noite, quando as plantas estão “dormindo“? E se eles atacarem pelo telhado? E se houver uma névoa que não lhe permite enxergar os zumbis? Cada nova ideia altera regras e estratégias, criando variedade sem precisar de exposição narrativa. É um exemplo claro de como design pode substituir roteiro — e funcionar melhor assim.
Conteúdo acima da Jogabilidade
Plants vs. Zombies é um jogo fácil de entender e de se jogar, com mecânicas simples, muitas vezes estruturadas no clássico sistema de “teste e veja se funciona“. Todo o sistema é estruturado sobre um sistema de tabuleiro que sustenta sua proposta de tower defense. O jogador posiciona plantas em espaços fixos conforme coleta recursos para custear esse plantio, enquanto zumbis avançam em direção à defesa. Vence quem melhor gerencia resistência, poder e quantidade.
Em termos de jogabilidade, Replanted é essencialmente o Plants vs. Zombies de 2009. Não há mudanças estruturais, novas plantas ou zumbis relevantes, nem alterações nos estágios originais. A experiência é a mesma — apenas mais fluida, mais bonita e adaptada aos padrões atuais. A aceleração de partidas é uma adição discreta, porém necessária aos tempos modernos, o que acaba sendo bem-vindo.
O verdadeiro trunfo não está no gameplay, mas no conteúdo reunido. O Modo Aventura inclui todos os estágios originais, expansões e fases bônus antes espalhadas por versões diferentes. Minijogos clássicos retornam – boliche de nozes, caça-níqueis e zumbotânico (zumbis com cabeça de plantas) – e agora estão num só lugar. Da mesma forma o Modo Enigma reúne alguns estágios com puzzles, se dividindo entre fases de quebrar vasos, e descobrir o que há dentro deles; e estágios onde plantas estão fixas e cabe o jogador escolher zumbis para derrotar a linha de defesa.
Adicionalmente a isso, há o retorno do Modo Sobrevivência, onde é preciso durar até onde conseguir dentro de um ambiente fixo, sem estágios. E também há adição do inédito Modo D.E.P. (Descanse em Paz), que o desafia a vencer toda a campanha com um única vida. Ambos os modos funcionam como extensões naturais da experiência, oferecendo uma cauda de jogabilidade além das partidas rápidas.
O principal conteúdo inédito é o mundo Dia Nublado, que adiciona uma camada estratégica interessante à gestão de sóis. Com produção reduzida, clima instável e custos variáveis, trata-se do trecho mais criativo da remasterização — justamente por desafiar a previsibilidade que domina o restante do pacote. Pena ser curtinho, com apenas alguns estágios.
Apesar de não ser inédito, esta edição reúne alguns estágios Bônus de diferentes versões lançadas no passado, e que agora estão reunidos dentro do modo aventura (em uma lixeira). Muitos destes estágios se comportam como os minijogos, com regras e perigos próprios para que jogador pense e reflita como vencer o desafio proposto.
Os modos multiplayer cooperativo e versus também retornam, originários do port quando saiu pela primiera vez nos consoles, mas soam limitados diante da robustez do conteúdo single player. São divertidos, porém secundários. No modo cooperativo, dois jogadores escolhem sua própria seleção de plantas e juntos tentam impedir a invasão dos zumbis em estágios próprios para essa proposta. Já no modo versus, cada jogador escolhe um lado, planta ou zumbis, e tentam assim vencer a disputa.
Fechando o pacote, há o retorno do Jardim Zen – minijogo onde deve se cuidar de plantinhas regando e adubando, para ganhar moedas para se gastar na loja do Dave, permitindo assim destravar recursos e novas plantas para os modos principais – e também o Almanaque que detalha as plantas e zumbis deste primeiro jogo, assim como e uma inédita Galeria de Artes, reforçando a sensação de edição definitiva.
Altos & Baixos
— O que funciona bem:
- Reúne praticamente todo o conteúdo já lançado do jogo original;
- Gameplay segue atemporal e viciante;
- Dia Nublado adiciona desafio genuinamente novo;
- Experiência por tela de toque no Switch/Switch 2 resgata a essência mobile;
- Conteúdo bem separado, fácil de decidir o que jogar ou por onde começar.
— O que poderia ser melhor:
- Pouco conteúdo realmente inédito, forte sensação de que deveria haver mais;
- Direção de Arte neutra, não se atualiza nada;
- Porção multiplayer é pequeno ao se comparar com o conteúdo single player;
- Sensação constante de já ter jogado o conteúdo o suficiente no passado.
Considerações Finais
Plants vs. Zombies: Replanted é completo, mas estranhamente vazio de propósito. Ao ser fiel demais ao original, acaba soando pequeno diante da própria trajetória da franquia. Não é que remasterizações não façam sentido — a indústria atual vive delas — mas aqui faltou ambição. Ao ser fiel demais ao original, a obra acaba carente de personalidade, especialmente quando se olha para tudo que a série construiu depois.
Suas sequências expandiram ideias, adicionaram mais plantas, zumbis, situações de ambiente e até mudaram de gênero nos consoles com Garden Warfare, uma trilogia que representou o auge da franquia fora do mobile. Pensar nessa jornada, hoje estagnada, para retornar apenas ao primeiro jogo, reforça a sensação de oportunidade perdida.
O ponto é que Plants vs. Zombies: Replanted perde a chance de se modernizar, enquanto mantém a experiência original. Talvez fosse mais interessante um remake? Uma nova direção de arte, talvez inspirado no visual de Plants vs. Zombies 2 e 3, deixando o original com cara de moderno, mas também adicionando conteúdos que fazem sentido na atual conjectura, como um modo remix em seus estágios ou algo roguelite – subgênero tão popular nesta geração.
Esse sentimento talvez fosse diferente se os consoles estivessem recebendo novos jogos desse universo. Mas não existem anúncios de um quarto título de Garden Warfare ou até mesmo de uma adaptação de Plants vs. Zombies 2, lançado em 2013 e que até hoje só está disponível em dispositivos móveis (Android e iOS). É impossível não ter essa sensação de “marmita requentada“. E não é isso que uma remasterização normalmente quer passar. A falta de planos da franquia em termos de adições novas causa um má impacto nesta remasterização. Infelizmente.
O que tudo isso significa? Para quem nunca jogou, Replanted é a melhor porta de entrada possível. Para quem já conhece, é exatamente aquilo que a memória guarda — e talvez isso não seja suficiente. Funciona como reencontro nostálgico, mas dificilmente como recomeço. E fica a pergunta inevitável: será que isso basta para uma franquia que já foi tão maior do que isso?
Galeria
Dando nota
Pacote está completo, oferece tudo que já foi produzido em muitas versões do jogo - 8
Conteúdo inédito é muito tímido, mas demonstra que ainda há boas ideias para a fórmula - 7.8
Usar a tela de toque no Nintendo Switch ou Switch 2 regasta muito os primórdios mobile, é excelente - 8.5
Direção de arte neutra, não aproveita a oportunidade de dar um passo adiante - 7
Toda a fórmula e suas ideias ainda se mostram totalmente atemporais - 8
Entretanto, quem jogou no passado sente a repetição e previsibilidade do original - 7
Franquia pede por mais novidades, e só requentar o primeiro jogo (mais uma vez) parece pouco - 6.5
7.5
OK
Plants vs. Zombies: Replanted é uma remasterização que cumpre o que promete, mas que tropeça em não conseguir aproveitar o pleno potencial de um clássico, reforçando que a franquia atualmente está estagnada, que pede por um retorno de maior proporção. No pacote há todo o conteúdo já produzido, está completo, ótimo para quem nunca jogou. Para fãs e frequentadores da casa a sensação é de poderia ser mais. Há um pequeno conteúdo original e a jogabilidade por tela de toque no Switch que resgata os primórdios no mobile. Há diversão, mas o que a remasterização alerta é que os fãs querem mais da franquia, não apenas um clássico tantas vezes já requentado.
