Do desejo por mudanças aos clássicos animados do Pateta? (Reflexão)

Estamos há poucos dias de irmos para as urnas votar no próximo Presidente do Brasil. Tem sido um período conturbado para o país, talvez uma das eleições mais barulhentas e polemizadas que talvez já tenha visto desde que comecei a votar (há 17 anos atrás, aproximadamente). E… NÃO!… este não é um post político, para defender candidato X ou Y. Fique aliviado. Pra mim todos são igualmente ruins e não tem porque defender um porque é “menos pior” do que o outro.

A única coisa que gostaria de dizer é que mudar o Brasil, acabar com a crise, não é algo que elegendo uma pessoa certa vai acontecer. O brasileiro tem muito dessa ilusão, camuflada em formato de esperança, sonho e até mesmo ideologia. De que é possível uma figura por si só mudar e consertar um país. Não, isso não existe. O Brasil é cheio de problemas porque culturalmente temos limitações e incapacidades que, como sociedade, só podemos aprimorar a longo prazo. E não, mais uma vez, não dá só para uma pessoa consertar isso.

Enfim, não vou chegar a nenhum lugar aqui (muito menos tentar mudar pontos de vista). O caso é que estava zapeando pela internet em busca de algo que pudesse fazer de diferente para hoje aqui no site e acabei tropeçando nestes clássicos da década de 40/50 do Pateta. Desenhos, hoje, praticamente considerados politicamente incorretos e também, de certa forma, polemizados.

Ainda que estas pérolas do Pateta tenham sido produzidos nos Estados Unidos, estes curtas possuem uma mensagem universal inerente ao ser humano e a nossa sociedade como um todo. Rusgas e cutucões que até hoje, décadas após terem sido lançados, ainda são problemas e atos falhos da nossa sociedade.

Abordagem de uma outra era

O exemplo mais clássico, talvez o mais conhecido por aqui, seja o curta Motor Mania, aquele da séries que sempre trazem um narrador e simulam uma espécie de documentário, onde o Pateta emula a personalidade tema do desenho, sempre um personagem problemático e errático. Não é aquele Pateta ingênuo, simpático e amigo do Mickey dos clássicos mais infantis de outras fases. É um outro Pateta, que naquela época tinha tal versatilidade e funcionava muito bem em diversas facetas.

Motor Mania é um clássico de 1950, veja só. Já se passaram 68 anos desde a primeira vez que foi exibido e muitos dos temas e problemas apresentados na animação continuam até os dias de hoje. Continuamos sendo péssimos motoristas, não respeitamos leis de trânsitos, ficamos altamente estressados ao assumir o volante etc. A má educação generalizada das pessoas. Tudo ali está, de uma forma exagerada e cômico para os padrões da época.

A sociedade ainda tenta camuflar um pouco esse exagero que os desenhos do Pateta (e tantos outros) da década de 30/40/50 possuíam com a atual ideia do politicamente correto. Porém até onde consigo enxergar (e não sou dono da verdade, que fique bem claro isso), não me parece que isso tem resultado em crianças ou jovens melhores ou piores do que a geração que vinham esses desenhos. Não dá para blindá-las da realidade, essa é a verdade. E há sempre outros fatores a se considerar, é claro (educação dos pais, da escola, entre inúmeras outras influências).

É até curioso curtas como The’re Off de 1948, que apresenta uma destas outras facetas do Pateta, com ele apostando em corrida de cavalos. A mensagem ali do desenho não é com o intuito de viciar alguém a apostar, é claro. É interessante como o narrador diz no início que há uma ciência e matemática atrelado nas apostas, enquanto Pateta de debruça em livros e cálculos para decidir qual cavalo apostar. E o desenho ainda é certeiro no final ao lembrar que nem todos os cálculos e certezas são garantias de vitória. Apostar também é um pouquinho de sorte.

Esse tema, de casinos, jogos de azar e apostas, existe até hoje na cultura dos filmes e animações. Há filmes nesse tema, e os desenhos, vez ou outra, ainda brincam com isso. Nem tanto os infantis, ainda que é possível encontrá-los aqui e ali (Toy Story 3, por exemplo, tem uma cena em que os brinquedos estão jogando cartas e apostando).

Apostar em cavalos, como no clássico do Pateta, talvez seja meio complicado, mas não faltam opções equivalentes pela internet, como apostar em resultados de jogos esportivos, como os de futebol. A coisa anda tão moderna alias, que é possível até mesmo realizar apostas com bitcoins, há até um termo internacional para isso: bitcoin betting. Enfim, quem nunca participou de um bolão de resultados da Copa do Mundo? Pois é.

70 anos se passaram desde que o Pateta aposta em cavalos e apesar de hoje em dia jogos de azar serem considerados em particular aqui no Brasil como algo que a lei não vê com bons olhos (exceto aqueles organizados pelo próprio Governo) a indústria dos jogos e apostas segue movimentando rios de dinheiro ao redor do mundo.

Posso ir além nesse tema das polêmicas dos clássicos do Pateta. Há um que é mais pesado. E que até entendo que hoje em dia esteja ainda mais esquecido no tempo, que é o curta No Smoking, de 1951. É, esse me incomoda um pouco nos dias de hoje. O desenho mostra o Pateta sofrendo com o vício do cigarro, tentando parar e fracassando.

Admito que estes desenhos com personagens fumando me incomodavam muito quando criança. Nunca fumei e acho que esses desenhos me assustaram um pouco. A ideia da fumaça, do mal cheiro, de como os personagens se sentiam mal após fumar. Me lembro de um episódio esquecido (e banido da TV) de Tiny Toons (já na década de 90) em que um dos personagens da série, talvez o Presuntinho, começava a fumar e alguém, sei lá quem, para puni-lo e mostrar como o fumo fazia mal enfiava um maço de charutos (ou cigarros) na boca dele. Era horrível.

Na era do politicamente correto, essas abordagens dos desenhos antigos, que tinham como objetivo talvez de assustar as crianças, são consideradas erradas, claro. Nesse ponto, acredito que a pedagogia e os métodos lúdicos de ensinar o certo e o errado às crianças funcionem melhor em tempos modernos. Não vou discutir se são eficientes porque nossos pequenos seguem sendo bombardeados de coisas erradas todos os dias, na TV, por nós mesmo, os adultos, e pela internet… tudo isso os moldam de uma maneira muito além do que talvez fosse o ideal. Tudo está errado e estar certo ainda é um problema. Mesmo que os desenhos animados hoje em dia escondam estas polêmicas, pasteurizando da maior forma possível. E certamente não cabem ao desenhos ensinar estes valores às crianças, ainda que possuam um peso enorme e possam ser boas ferramentas de auxílio.

Indo de um ponto a lugar nenhum?

Enfim, qual é a relação do começo dessa postagem, a qual comecei falando sobre eleições, e de nada mudar elegendo quem quer que fosse, aos clássicos politicamente incorretos do Pateta? Não sei ao certo. De uma certa forma quando comecei a pensar sobre toda essa discussão sobre mudanças, que o país precisa amadurecer e de ver pessoas defendendo fulano ou beltrano a ser a pessoa que vai mudar o Brasil, acabei me lembrando dessa coisa chata do politicamente correto e dos desenhos problemas do passado. E de como estamos sempre discutindo as mesmas coisas.

Querendo ou não estes clássicos do Pateta foram o reflexo de uma era, que mostrava muitas vezes as facetas ruins da sociedade e do ser humano. E que, você querendo ou não aceitar, passado décadas disso, ainda sofremos em certo grau com os mesmo temas e discussões. Nossa evolução, nesse sentido, foi mínima.

Continuamos ruins nos trânsito, se o cigarro hoje em dia não é um ponto de discussão sobre saúde tão grande, certamente algumas outras drogas ainda são. Vícios, seja em apostas ou entorpecentes, ainda são algo que estamos sempre tentando combater. Educação também é outro ponto que está sempre aí, sem um avanço considerável – e há um destes antigos do Pateta que abordam o professar e escola, este aqui. Até mesmo a violência é uma discussão das antigas.

As décadas passam e nós esquecemos que estamos discutindo as mesmas coisas do passado, dando voltas em círculos. Até mesmo quando se trata de política. Evoluímos sim, mas não nesse ponto em que as pessoas seguem convictas de que eleger um presidente certo para os próximos 4 anos é o suficiente para arrumar um país. Pode vir a ser um começo? Talvez. Ter esperança e acreditar nunca é ruim, porém acho que o que temos que começar a pensar é que nós, como sociedade, também estamos precisando ponderar em como melhorar.

Fala-se em ignorância da massa, de manipulação da mídia, dos fake news e de como somos influenciados por mentiras e memes de redes sociais que deveriam ser piadas, mas onde tornam-se um pouco mais do que isso. Ao ponto de virar uma verdade. É complicado. Vivemos em tempos estranhos, em que pedimos por mudanças, mas na intenção de que alguém chegue ao poder e faça isso por nós. Mudar individualmente, como ser humano, parece uma tarefa impossível. Estamos errados, não? Talvez o Pateta já estivesse dizendo isso em seus clássicos da década de 40.

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