Dando Nota!Jogando

Análise | Super Meat Boy Forever

Disponível para PlayStation 4 e 5, Xbox One e Series, Nintendo Switch & PC

Super Meat Boy Forever é uma destas sequências que ficam no forno por muito, mas muito tempo. São mais de 10 anos desde o Super Meat Boy original. É um tempo consideravelmente longo para se dar continuidade a um título que é um dos precursores a todo o atual segmento da indústria dos jogos eletrônicos no que diz respeito ao desenvolvimento independente de jogos. Hype e expectativas certamente fizeram parte deste lançamento então.

No que diz respeito ao seu desenvolvimento, Super Meat Boy Forever passou por uma longa trajetória até estar plenamente pronto. Há certamente dois pontos importantes que valem sua menção nesta análise. O primeiro é que no que diz respeito a dupla de desenvolvedores que criaram o jogo original, Edmund McMillen e Tommy Refenes, apenas Refenes se manteve para esta sequência, ainda levando o nome do estúdio Team Meat. Já McMillen, que até esteve envolvido no projeto em sua fase inicial, foi trabalhar em The Binding of Isaac e The End Is Nigh, indies que também fizeram grande sucesso.

O segundo ponto importante, e que parece dar o tom a proposta da sequência, é que Super Meat Boy Forever inicialmente deveria ser um título a ser lançado primeiramente para dispositivos móveis. Isso parece explicar muita das mudanças no que diz respeito ao seu gameplay, como o elemento auto runner presente tão fortemente. Entretanto o escopo do projeto cresceu e acabou que o título foi primeiramente lançado em dezembro de 2020 para o Nintendo Switch e PC (via Epic Games Store). E somente mais recentemente, em abril deste ano, é que chegou ao PlayStation 4 e Xbox One, funcionando de forma retrocompatível com os novos consoles da geração (PS5 e Series). Entretanto Super Meat Boy Forever ainda deve ser lançado, em uma data futura ainda a ser confirmada, para iOS, Android e Linux.

Semelhanças e discrepâncias

Super Meat Boy Forever ainda tem um certo DNA de seu jogo original, entretanto ainda consegue em diversos pontos se distanciar assustadoramente da fórmula a qual todos se apaixonaram. A dificuldade elevada, os pulos precisos, rápidas reações e segmentos em que as armadilhas devem matar o jogador dezenas, as vezes centenas, de vezes ainda se fazem presente aqui. O chame peculiar de um pedaço de carne vermelha deixando um rastro vermelho pela fase, sujando tudo de carne ao explodir em qualquer armadilha também são elementos foram mantidos na sequência. Fãs vão se sentir confortáveis com estes elementos.

O contraponto vem com as mudanças adicionadas ao gameplay da sequência. A mais impactante de todas certamente está relacionado ao fato auto runner, o que significa que o jogador não pode mais controlar livremente a ação de correr do personagem, que está sempre em constante movimento, sempre avançando pelos estágios. Sequer é permitido mudar a direção a qual o personagem está correndo, exceto quando ele pula em uma superfície vertical (como uma parede) e se impulsiona contrário a direção a qual vinha vindo.

É uma grande mudança em relação ao jogo original, a qual o jogador tinha total liberdade para ficar parado e decidir em qual direção andar e mudar o sentido dessa direção. Muitos devem estranhar essa decisão dos desenvolvedores, enquanto volto ao que disse mais acima: o título em sua fase inicial foi pensado para funcionar em dispositivos móveis, e esta é uma plataforma muito comum para infinite e auto runners, já que normalmente jogos para celulares não tendem a oferecer bons controles no que diz respeito a livre mobilidade do personagem.

Sendo assim, enquanto Super Meat Boy lá de 2010 era muito um jogo de pular, escalar e descobrir como passar por armadilhas, dando liberdade ao jogador em diversos momentos para criar suas próprias estratégias, Super Meat Boy Forever é muito mais um jogo de ritmo, de acertar o tempo correto (timing) para apertar um único botão de ação, enquanto se morre para entender em quê ponto deste ritmo está se errando. É uma mudança significativa a meu ver.

Outra novidade, que adiciona uma camada de complexidade à sequência, diz respeito ao movimento de socar que o personagem possui. Ao pular, o jogador pode acionar o mesmo botão novamente e isso fará Meat Boy realizar um soco no ar, impulsionando-o para frente. É como um dash aéreo. É possível fazer esse movimento de soco para ampliar seu salto ou para tirar um inimigo que esteja em seu caminho. Ao eliminar um inimigo no ar se faz possível em sequência realizar um novo soco, se mantendo por ainda mais tempo no ar. Em diversos segmentos existem desafios em que o jogador deve fazer isso por diversas vezes até chegar a próxima plataforma, e assim finalizar o salto. É uma ótima mecânica que funciona muito bem para um auto runner.

Enfim, apesar destas diferenças para com o jogo original, a essência da série permanece em sua sequência. É um título que oferece um desafio exponencial, em que o jogador morre dezenas de vezes até passar certos trechos, com diversas serras (elemento comum do primeiro game) e estas mortes seguem “pintando” o cenário. Segue como um título que requer rápido reflexos e timing na hora de acionar o botão no controle.

Planejamento procedural

Outra mudança relativamente significativa de Super Meat Boy Forever diz respeito a como os estágios são apresentados ao jogador. Isso porque esta sequência não segue a estrutura do jogo original, que possuía estágios minimamente planejados e fixos. Forever trabalha com um sólido e funcional sistema de fases criadas proceduralmente. Quer dizer que a sua experiência pessoal com as fases do jogo provavelmente não serão exatamente iguais as que eu tive quando joguei.

Mas como isso funciona na prática? Irei explicar. Ao iniciar uma nova campanha, o jogo irá gerar uma seed (semente), um termo usado para quando o jogo criar uma versão específica a qual você pode entregar a um amigo, ou qualquer outra pessoa. Para que ele tenha a exata experiência das fases da sua campanha. É como um password pessoal para o mundo criado no seu save. A seed de Super Meat Boy Forever tem uma sequência de 8 imagens, dentre 15 opções de ícones. Não vou fazer a matemática disso, mas imagino que isso permita milhões de combinações possíveis. Quer a seed do mundo em que joguei para esta análise? Está na imagem abaixo.

Talvez agora você tenha entendido o “Forever” (Para Sempre) no título do jogo. Isso é mais ou menos verdade. Fases geradas proceduralmente podem ser uma boa ideia e surpreender bastante de seed a seed. Porém aqui uma verdade: o sistema não cria novas fases literalmente do zero. O que existe são segmentos de fases, produzidos com o mesmo cuidados que o jogo original possui, que criam peças de desafios e se conectam entre si em diferentes cenários. Não é uma inteligência artificial fazendo o trabalho milimétrico do desenvolvedor, isso posso garantir.

Cheguei a testar outras seeds aleatórias e apesar de algumas fases soarem si diferentes, é totalmente normal encontrar segmentos a qual já estava habituado quando fiz a campanha pela primeira vez, mas nestes novos mundos gerados aleatoriamente estes desafios apenas se encontravam em diferente ordens. Mas vez só, isso não significa que o jogo se molda apenas diferentes usando um número pequeno de segmentos. Decido a ver até onde isso ia, cheguei a passar mais de uma hora no YouTube vendo diferentes estágios de outras pessoas, e encontrei muitos desafios e segmentos que era bem diferentes daqueles a qual eu havia experimentado. Possibilidades infinitas é um exagero, mas ainda assim são possibilidades em uma quantidade que pode sim impressionar.

Enfim, ainda que os estágios do jogo sejam criados de maneira aleatória, oriundos de um arsenal, a qual imagino ser enorme, de trechos criados minuciosamente afim de poderem se conectar, a dinâmica da progressão da campanha principal é bem linear. Ao iniciar o jogo se tem acesso a quatro mundos iniciais, a qual cada um deles possui seis estágios e uma batalha de chefe. Progredindo, mais dois mundos serão revelados. Em cada mundo, o jogador só precisa vencer quatro estágios para habilitar o chefe respectivo do mapa. Vencido cinco mundos, o jogo se encerra, habilitando o New Game Plus, que lhe permite reprocessar as fases em uma nova seed, mantendo a progressão dos colecionáveis e personagens destravados.

Soou como uma campanha pequena a descrição feita acima? Não leve para esse caminho. O sexto mundo é um especial, super difícil e com novas mecânicas de alternar dimensões (é insano). Ele também consiste em seis fases, porém não há um chefe final. Além disso, todos os seis mundos do jogo possuem uma versão trevas, que lhe entrega novas versões das mesmas fases, porém com novos segmentos e ideias. Para habilitar uma versão treva de qualquer estágio, basta vencê-lo em ranking A+ ou S. Este ranking é um indicador de quão veloz o jogador terminou  a fase dentro de um tempo predeterminado. Uma vez vencido um estágio, ele passa a exibir o seu tempo e o quanto se faz necessário para atingir tal colocação para sua versão treva.

Existem outros aspectos que valem comentários. Os chefes não mudam seus padrões de ataque ou qualquer outra coisa, independente de todo esse sistema procedural. As mecânicas de jogabilidade, que são inseridas em cada mundo do jogo, também se mantém dentro da lógica de que é preciso apresentar cada uma destas ideias, antes de pedir que o jogador entenda o que se deve fazer. Significa que introduções a novos elementos, no tempo correto da progressão de cada mundo, vão se manter iguais, independente da seed utilizada.

Existem bugs ou fases que podem sair quebradas ou impossíveis dentro desse esquema? Sendo bem honesto, se há essa possibilidade não a vivenciei. Experimentei sim alguns segmentos que soavam insanamente mais desafiadores do que tudo que a fase até ali havia me apresentado, mas não coloco isso como um demérito do sistema. Houve apenas uma vez em que o respawn, o ponto em que o jogo retorna após uma morte, do Meat Boy estava muito próximo de uma serra giratória. Para passar esse segmento tive que pular quase que no instante preciso do ressurgimento, meio segundo que demorasse, o personagem morria nessa serra. Foi difícil, mas não impossível. Não foi nem de longe o maior desafio que presenciei na minha seed.

Outro bom questionamento: “terminei o jogo, vi toda a história, fiz o mundo sexto mundo e joguei todas as fases trevas… há algo que me motive a ir ao New Game Plus, além de jogar novas fases procedurais?“. Sim, existe. isso porque o título mantém uma galeria imensa de personagens jogáveis, porém para destravar todos se faz necessário coletar chupetas, e estas só podem ser encontradas em algumas fases, e uma única por fase. Nem todas as fases possuem chupetas, e mesmo que você colete todas na primeira vez que fechar o jogo, essa quantidade ainda não será o suficiente para destravar todos os personagens. Para isso o jogador deve continuar jogando em seu save, por meio do New Game Plus e seguir recolhendo novas chupetas quando as fases forem refeitas de forma aleatória, criando novas chupetas colecionáveis em novos locais. E sim, apesar de serem apenas skins, os personagens destraváveis são maneiros, sendo uma excelente motivação para o jogador seguir querendo destravar todos.

Charme singular

Alguns elogios a Super Meat Boy Forever que merecem e devem ser feitos diz respeito a sua apresentação, visual, narrativa e trilha sonora. São componentes técnicos, que podem descrever a qualidade a qual uma obra vai impressionar ou não seus jogadores. E aqui todos esses aspectos são maravilhosos.

A começar pela bela abertura do jogo, que apresenta a bebezinha Nugget da dupla heroica da aventura, Meat Boy e Bandage Girl, a qual é imediatamente sequestrada pelo vilão Dr. Fetus, que retorna novamente para azucrinar a vida de todos. Cabe agora ao jogador escolher entre Meat ou Bandage para seguir atrás do Doutor e resgatar sua adorável filhinha.

A trama parece muito simples, entretanto conforme se progride pelos mundos do jogo, mais elementos narrativos são inseridos, e os personagens vão se tornando mais e mais interessantes. Especialmente as interações entre a Nugget e o Dr. Fetus.

Tudo isso é apresentado em lindas cenas de animação 2D tradicional. E são cutscenes por vezes de diversos minutos. Não são nem um pouco curtas (e é possível pulá-las caso esteja assistindo pela segunda vez). Meu desejo ao ver estas animações é de que a franquia poderia ter facilmente uma série animada e que isso atrairia muitos fãs e não fãs, dado a quão charmosos e carismáticos são os personagens, assim como os secundários e ambientação apresentada. É tudo muito bem feito. Incrível mesmo.

Super Meat Boy Forever inclusive muda seu estilo gráfico em detrimento ao jogo original, aposentando a pixel art minimalista do anterior, para dar vida a um mundo totalmente desenhado à mão. O resultado visual é muito agradável, dando a impressão de estar de fato jogando dentro de um desenho animado. Isso torna o jogo mais pesado de se carregar?

Sendo bem sincero, a minha experiência com este jogo se deu em um Xbox Series S, já um console de nova geração. Vi relatos no YouTube de que nos consoles anteriores a esta geração, pode ocorrer segmentos em que a taxa de quadros fique instável. Porém aqui, no Series S, só posso apontar que o jogo rodou lindamente liso, carregamento automático e sem engasgos, sem qualquer percepção de queda framerate.

Por último, há que se fazer elogios a empolgante trilha sonora do jogo, que mantém a qualidade estabelecida pelo jogo original. São faixas instrumentais que não enjoa ou incomoda o jogador que esteja jogando uma fase e morrendo por dezenas de vezes. É uma trilha que condiz com a ação e concentração proposta pelo desafio do jogo. O objetivo da trilha aqui é fazer o jogador continuar empolgado, independente do tempo em que se levar para sair de um segmento que lhe cause muitas mortes. Pra mim funcionou.

Considerações finais

Super Meat Boy Forever é uma sequência controversa, pois chega mais de 10 anos depois do jogo original e com algumas grandes modificações em sua fórmula, ainda que seja mantido a essência daquilo que o primeiro game fez tanto sucesso.

Entretanto a reflexão cabível aqui é de que se um Super Meat Boy 2 nos moldes exatos do primeiro jogo, mantendo a mesma estrutura, mesma identidade visual, mesma jogabilidade seria o suficiente para saciar o desejo dos fãs. Principalmente 10 anos depois, com tantos jogos independentes que sofreram influência do título de 2010. O brasileiro Celeste é um bom exemplo, alias. Diante de tal indagação, pequeno que não, Super Meat Boy precisava de uma nova perspectiva, e Super Meat Boy Forever tenta entregar exatamente isso.

Claro que não dá para dizer que tudo é perfeito nesta sequência. Vou questionar a decisão de mantê-lo como um auto ruuner. Posso não odiar, mas estou longe de amar essa decisão. Entretanto gosto das novas mecânicas de soco no ar e combinações que surgem de tal ideia, como a deslizada ao direcionar o controle para baixo. Acho que a proposta também de criação de estágios procedurais funciona bem ao título, ainda que desejasse mais mundos distintos, assim como um número de fases maiores dentro de cada um. Dá um dó rebootar seu progresso dentro da campanha vencida, sem ter obtido 100% em todas as suas fases.

Visualmente acho que o título faz bem em se remodelar para o estilo desenhado à mão, porém acho que o jogo poderia ter misturado melhor o melhor dos dois mundos, mantendo parte das fases em pixel art, como um extra ao jogo original. Dito isso, o mundo que simula uma série de bugs, é visualmente muito agonizante, de uma maneira positiva de ser.

Outro ponto importante nesse tipo de jogo de ação, plataforma e reação precisa, está na rapidez de resposta do controle. No atual controle do Xbox Series S não tive grandes problemas, ainda que tenha encontrado algumas vezes em que xinguei o botão do controle por não responder exatamente na hora em que precisei de um combo de pulo e socos. O ponto em que a transição entre um salto e alguns socos possuem um tempo milimétrico para a animação acontecer e nisso o botão não o responde como queria que respondesse. Não acho que seja um erro, pelo contrário, me soa proposital, mas ainda assim me frustrou em alguns desafios esse microssegundo em que não consegui uma resposta imediata. Felizmente em 99,99% do tempo a resposta do controle é bem precisa.

Como conclusão, penso que Super Meat Boy Forever pode dividir alguns fãs, que esperavam uma liberdade maior para explorar os desafios de pulos e respostas precisas. Deixar o personagem correr automaticamente em todos os estágios vai sim incomodar alguns jogadores. Há também uma parcela da comunidade que também não é muito afim de jogos em que o objetivo é frustrar com mortes e repetições dos mesmos segmentos, afim de conseguir a memória muscular. Tem quem não goste e isso não era novidade alguma nem há 10 anos atrás. Independente disso, ainda existe outra grande parcela que se delicia justamente com estes elementos, e para essa turma, acredito que Super Meat Boy Forever cumpre todos os requisitos necessários de um excelente game.

É uma sequência que passou por mudanças ao longo dos anos, que conseguiu olhar a concorrência, teve tempo de modernizar, e entrega novas ideias, porém sem perder a essência de suas origens. Não é mais tão singular quanto foi lá em 2010, porém segue sendo extremamente charmoso e divertido.

Galeria

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

Dando uma nota

Sequência que diverge opiniões, uns vão gostar, outros nem tanto - 7.5
Visualmente é fantástico na maior parte do tempo, estilo gráfico combina dada a passagem entre o original - 9
Elemento auto runner é controverso, não dá liberdade que o primeiro jogo possui - 6.8
Jogabilidade se mantém dentro da fórmula, seja preciso, ágil ou morra tentando - 8.5
Estágios com segmentos procedurais criam um bom valor de replay - 8
História e cenas em desenho animado são absurdamente charmosas - 9.5
É criativo nas batalhas contra os chefões, assim como os minis games escondidos em cada mundo - 9

8.3

Ótimo

Super Meat Boy Forever é uma aguardada sequência, sem dúvida alguma. Entretanto talvez não seja a que muitos esperavam que fosse. Bem, 10 anos se passaram desde o original, e mudanças fazem parte do passar do tempo. Há boas ideias, visualmente é deslumbrando e talvez um ou outro elemento não seja tão bom quanto o original, porém ainda assim o jogo é divertido, desafiador e, em sua essência, único. Ainda é Super Meat Boy. Pode confiar.

Isso também pode lhe interessar

Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Dê uma ajuda ao site simplesmente desabilitando seu Adblock para nosso endereço.