Análise | Kirby Air Riders
Disponível exclusivamente para Nintendo Switch 2

Kirby Air Riders entrega uma experiência automobilista única, oferecendo controles e regras incomuns, em modos de jogos tão variados quanto diferentes, desde disputas aceleradas a combates intensos, em meio a centenas de objetivos dentro de um imenso checklist, onde tarefas são realizadas sem que você sequer tenha o conhecimento delas. Tudo é caótico, inusitado e ainda assim deliciosamente divertido e envolvente.
O título é uma sequência sucessora direta de Kirby Air Ride (2003), lançado originalmente para o Nintendo GameCube. “Sucessor” é o termo correto aqui: não se trata de uma remasterização, tampouco de uma reinvenção da fórmula. O novo título preserva identidade, regras e estranhezas do original, mas expande tudo ao redor delas.
Sob desenvolvimento direto de Masahiro Sakurai — criador de Kirby e figura central por trás de Super Smash Bros. —, o jogo amplia a proposta com mais modos, veículos, personagens, opções de customização, suporte online e uma apresentação muito mais refinada. Algumas pistas clássicas retornam recriadas, mas a sensação geral é de crescimento estrutural, não de reciclagem.

Kirby Air Riders não quer ser apenas “mais um jogo de corrida”. Ele se apresenta como um evento de disputas variadas em veículos voadores, misturando velocidade, combate, coleta de itens e desafios pouco convencionais. Há corridas tradicionais, claro, mas também provas de eliminação, batalhas, desafios contra chefes e modos que fogem completamente do esperado. Tudo isso chega ao Brasil com localização completa em português, incluindo dublagem.
Ficha Técnica
- Plataformas: Nintendo Switch 2
- Desenvolvedora: Bandai Namco Studios / Sora Ltd.
- Publisher: Nintendo
- Gênero: Corrida / Ação
- Lançamento: 20 de novembro de 2025

Chegada das Máquinas / Mundo e Narrativa
Diferente do título original, Kirby Air Riders se apoia em uma narrativa simples, mas funcional, apresentada no modo campanha Pé na Estrada. A história explica como o Planeta Pop passa a ser invadido por máquinas rasantes, transformando seus habitantes — incluindo Kirby e sua icônica Warp Star (na localização passa a se chamar Estrela Via) — em pilotos dessas engenhocas.

A narrativa não é central para a experiência, mas cumpre um papel importante: ela justifica o universo do jogo e cria uma ponte coerente entre uma franquia tradicionalmente associada à aventura para um mundo alucinado por disputas automobilísticas. Esse contexto ajuda a dar sentido à variedade de provas e eventos, muitos dos quais nem sequer envolvem corridas convencionais.
É uma preocupação bem-vinda. As cutscenes são bonitas, o arco dramático é claro e o fato de tudo ser narrado em português reforça a sensação de um modo single player pensado com carinho, mesmo em um jogo onde a jogabilidade é o verdadeiro motor da experiência.

Aceleração turbo / Jogabilidade
Num primeiro contato, Kirby Air Riders pode soar confuso. O jogo despeja uma quantidade considerável de informações logo de início, com vídeos explicativos, tutoriais e a recomendação explícita de passar pela “autoescola”, um modo de prática. Essa curva inicial pode ser maçante, mas é praticamente obrigatória para que o jogador não se sinta perdido depois.
Conceitualmente, o grande diferencial está no controle: não existe botão de acelerar. As máquinas se movem automaticamente, e o jogador gerencia direção, curvas, turbo, voo, combate e habilidades de cópia. A jogabilidade não exige muitos botões, mas a sobreposição de funções cria uma complexidade própria, que depende de entendimento e memória muscular.

O botão de ação, por exemplo, serve para carregar turbo, fazer curvas fechadas, capturar e arremessar inimigos, assim como absorver habilidades de alguns. Segurar demais desacelera o veículo; soltar no momento certo gera um ganho temporário de velocidade. Esse mesmo princípio se aplica às curvas e ao combate. É um sistema simples na teoria, mas que exige domínio na prática.
Essa base se sustenta graças à enorme variedade de opções. São 28 máquinas, cada uma com características muito específicas, e 21 pilotos, todos com atributos e habilidades especiais próprias. As habilidades dos pilotos são carregadas durante a prova, conforme o jogador executa boas ações, criando uma dinâmica constante de risco e recompensa. A combinação entre piloto e máquina impacta diretamente o desempenho, incentivando experimentação.

Abordar as diferenças entre os veículos é importante, pois tal variedade existe para moldar diferentes meios de correr nas competições. Existem máquinas com grande capacidade de aceleração com o turbo, assim como aquelas com ótima eficiência em planar. Tem aquelas que são parrudas e são oportunas para confrontos com outras mais frágeis. Outras são incomuns, como não ter sequer turbo, ou roubar habilidades de outros pilotos, ou só andar em linha reta ou apenas quando acionado o turbo. Cada máquina modifica a percepção da jogabilidade, e cabe ao jogador entender suas particularidades para se dar bem com o veículo selecionado.
Todo esse aprendizado se desdobra em quatro modos principais:
- Rali Rasante, o modo de corrida tradicional, focado em velocidade, combate (arremessar inimigos, uso de cópias de habilidade) e uso inteligente de vácuo (siga o rastro estrelar do adversário a sua frente).
- Vista Aérea, uma modalidade top-down mais caótica e dependente de itens, que perde impacto mais rápido.

- Prova Urbana, o modo mais imprevisível do jogo, ambientado em uma grande arena com coleta de atributos, eventos aleatórios e uma prova final que testa o progresso do jogador. Há 15 modalidades únicas de provas, como saltar, pontuar, acelerar, eliminar adversários etc, com variações dentro de cada categoria. Em multiplayer, é caótico, divertido e excelente.
- Pé na Estrada, a campanha, que mistura todos os modos acima em eventos rápidos, fragmentados em uma uma progressão por mundos, com escolhas estratégicas de desafios e alto valor de replay. Escolha o melhor caminho, dentro 3 possíveis, coleta a recompensa, suba de nível, e vai se preparando para os confrontos de chefões de tempos em tempos.

A experiência se divide entre single player e multiplayer (local e online). O online funciona muito bem, com partidas rápidas, cartões de jogador altamente customizáveis e eventos periódicos gratuitos que oferecem recompensas cosméticas.
Para encerrar esse segmento, vale mencionar que o título brilha no Quadro de Proezas, um sistema com mais de 700 desafios distribuídos entre modos offline e online. As tarefas são descobertas naturalmente, recompensam o jogador de forma constante e preenchem grandes painéis ilustrados, com dicas para os desafios ainda não realizados.

Toda tarefa tem uma recompensa. Novos pilotos, máquinas, pistas, músicas alternativas, mas também muitos itens de customização simples, como temas para os cartões online ou adesivos para usar na customização dos veículos. É um incentivo estrutural poderoso para continuar jogando, explorando e experimentando tudo o que o jogo oferece.
Altos e Baixos
— O que funciona bem:
- Enorme variedade de máquinas e pilotos, com impacto real na jogabilidade;
- Campanha Pé na Estrada surpreende pela estrutura, ritmo e replay;
- Quadro de Proezas é um pilar de progressão e incentivo à exploração;
- Direção de arte com alto destaque, com circuitos visualmente impressionantes;

- Online sólido, rápido e bem estruturado;
- Dublagem em português é tão gostosinha! “3, 2 ,1, vai!”.
— O que poderia ser melhor:
- Layout dos controles poderia separar turbo e ação em botões distintos, faria mais sentido;
- Vista Aérea é o modo mais fraco e se desgasta rapidamente;
- Não são poucas, mas o número de pistas poderia ser maior em comparação a outros títulos do gênero.
Considerações Finais
Kirby Air Riders honra o legado do jogo de 2003 ao expandir suas ideias sem descaracterizá-las. Os controles diferenciados funcionam, mesmo soando estranhos em alguns momentos, e a sensação geral é de uma sequência definitiva, que não precisa ser revisitada tão cedo. Há um cuidado evidente em cada camada da experiência.

A influência de Super Smash Bros. é clara na identidade visual, sonora e estrutural, do design de menus ao Quadro de Proezas, passando até pela direção de voz dos narradores — Banjō Ginga, o icônico narrador de Smash Bros., não foi esquecido, e está presente na voz no original em japonês. Sakurai entrega uma obra coesa, com alma, que aposta em ritmo acelerado, recompensa constante e variedade.

Comparações com Mario Kart World são inevitáveis, mas injustas. As propostas são diferentes, o ritmo dos jogos são totalmente opostos. Kirby Air Riders foge do modelo tradicional de corrida e, justamente por isso, encontra seu espaço, ainda que seus personagens não sejam tão famosos quanto aos que vivem no Reino dos Cogumelos.

Kirby Air Riders não é um jogo de corrida convencional — e é exatamente aí que ele conquista.
Galeria
Dando nota
Curva inicial pode ser maçante, com vídeos, tutorial e aprendizado na auto escola - 7.8
Estruturalmente há uma grande influência de Smash Bros. e do capricho de Masahiro Sakurai - 9.5
Direção de arte com grande impacto visual, pistas impressionam pela riqueza em seus detalhes - 9
Veículos e pilotos únicos, que moldam e mudam constantemente a jogabilidade e a forma de disputar os eventos e corridas - 9
Controles simplificados até funcionam, mas são estranhos (turbo e ação num mesmo botão soa desnecessário) - 7.9
Há muito conteúdo, de modos diversos, campanha com história, até um robusto multiplayer online - 8.8
Quadro de Proezas motiva a progressão do jogador por todos os modos, é recompensador e envolvente - 10
8.9
Único
Kirby Air Riders é um sucessor digno da obra de 2003, mantendo toda a estrutura original, mas expandindo e refinando tudo em sua fórmula. Segue como um jogo de corrida e ação fora do convencional, com controles únicos e regras que precisam de treino, mas que consegue entregar uma experiência ímpar em desafios que envolvem muito mais do que correr para chegar em primeiro lugar. Não só isso, mas o dedo do lendário Masahiro Sakurai, e toda influência estrutural de Smash Bros. está por todo o canto da obra, o que a torna ainda mais impactante e envolvente.



