Análise | Mario Tennis Fever
Disponível para Nintendo Switch 2

Mario Tennis Fever faz parte de um ciclo essencial — e por vezes previsível — do ecossistema da Nintendo, onde cada geração recebe sua cota de títulos esportivos estrelados pelos habitantes do Reino dos Cogumelos. Isso carrega uma responsabilidade clara: manter o padrão de qualidade enquanto encontra formas de não soar repetitivo. Aqui, a resposta vem em forma de raquetes eufóricas, caos e uma expansão consistente de ideias já estabelecidas.
O desenvolvimento segue nas mãos da veterana Cameloft, estúdio japonês que cuida de muitos jogos esportivos do Mario. Um histórico que começa em 1999 com Mario Golf (Nintendo 64), seguido no ano seguinte pelo primeiro Mario Tennis, base de um legado que se mantém até hoje.
Essa bagagem é importante: Mario Tennis Fever não nasce do zero. Trata-se de uma evolução direta da série, que introduz novas ideias enquanto reutiliza e atualiza assets, principalmente os utilizados em Mario Tennis Ace (2018), do primeiro Switch. E volto a discutir isso na reta final desta análise, prometo.

Mas isso torna os jogos semelhantes demais? De forma alguma. Jogabilidade, novas mecânicas, modos e propostas são distintas e únicas a cada título. Tal semelhança surge, de forma inevitável, em momentos pontuais: certas apresentações visuais, entrada dos personagens em quadra, sons e gestos, assim como elementos gráficos menores.
Um diferencial relevante aqui é a localização completa em português. Os personagens mantêm suas falas clássicas em inglês, mas a icônica Flor Tagarela, introduzida em Super Mario Bros. Wonder (2023), assume a narração das partidas, com falas dubladas em nosso idioma, e adiciona personalidade constante à experiência.

Ficha Técnica
- Plataformas: Nintendo Switch 2
- Desenvolvedor: Cameloft Software Planning
- Publisher: Nintendo
- Gênero: Esporte (arcade)
- Lançamento: 12 de fevereiro de 2026
Bebês esportistas / Mundo e Narrativa
A Cameloft já é conhecida pelas animações em CGI em suas produções, geralmente usadas como abertura, quase sempre enaltecendo Wario e Waluigi como cômicos antagonistas trapaceiros. Em Mario Tennis Fever, há uma expansão clara desse cuidado, com a introdução de um modo história com momentos cinematográficos pontuais — e bastante carismáticos.
Tudo bem, modos de história não são exatamente uma novidade nos jogos esportivos do Mario, é verdade. E normalmente são tratados como tutoriais de luxo, o que também pode se encaixar (parcialmente) nesta nova edição. Contudo há um esforço perceptível em criar algo mais envolvente, com identidade própria.

Na trama, Mario, Luigi, Peach, Wario e Waluigi são transformados em bebês por uma entidade misteriosa ao explorar ruínas antigas. Eles escapam, mas permanecem nessa forma, e precisam fortalecer seus corpinhos diminutos para retornar ao local e enfrentar o que os transformou. A solução? Tênis como treinamento físico, enquanto que o uso de raquetes soa como uma ótima medida protetiva para redirecionar os ataques da misteriosa entidade.
A progressão se estrutura de forma fragmentada: começa em uma academia, entregando um extenso tutorial e torneio, repleto de mini games simples que fixam comandos e conceitos do esporte, e evolui para a jornada até as ruínas, enquanto introduz as Raquetes Eufóricas, que passam a moldar os desafios finais da aventura.

É nesse modo que surgem atividades exclusivas: apagar incêndios rebatendo bolhas, enfrentar plantas carnívoras, batalhas contra chefes. Nesses momentos, o jogo encontra seu melhor ritmo.
Por outro lado, o modo sofre com lentidão. O excesso de diálogos em texto, telas estáticas e a insistência em ensinar cada mecânica minuciosamente tornam a progressão arrastada. Há uma contradição clara: uma aventura interessante presa a uma estrutura excessivamente explicativa.

Um tutorial mais direto abriria espaço para que o modo aventura se concentrasse no que realmente importa: desafio e variedade de situações. Juntar ambos quase nunca funciona, e é inexplicável como muitos títulos ainda o fazem desta maneira.
Ainda assim, o carisma das versões bebê e os desafios exclusivos justificam a experiência.

Partidas eufóricas / Jogabilidade
Independente do ritmo do Modo Aventura, Mario Tennis Fever se sustenta pela variedade de modos e, principalmente, pela sua jogabilidade, o verdadeiro coração da experiência.
Diferente de Mario Tennis Ace, que adotou uma abordagem mais técnica, Fever puxa para um estilo mais “amaciado”, assumidamente arcade: controles simples, acessíveis e rápidos de dominar. Uma escolha coerente, inclusive, considerando que o título de 2018 segue disponível via retrocompatibilidade no Switch 2.
O grande destaque certamente são as Raquetes Eufóricas. Cada uma delas concede habilidades especiais que alteram diretamente o andamento das partidas — seja criando armadilhas na quadra, aplicando efeitos nas rebatidas, fortalecendo personagens ou até modificando o comportamento da bola.

São 30 raquetes ao todo, com efeitos variados: cascas de banana espalhadas pela quadra, bolas de fogo junto a bola principal, clones temporários, distorções visuais na tela do adversário, bolas invisíveis, entre outras maluquices típicas do universo Mario.
O uso dessas habilidades depende de uma barra que se enche a cada rebatida. Simples de entender, fácil de realizar. E é um aspecto que vale entre os dois lados da partida.
O sistema acerta ao incluir uma contramedida: efeitos mais apelativos podem ser anulados se o adversário rebater a bola antes do quique. Isso cria momentos de tensão em que a bola permanece no ar por vários golpes consecutivos, até que alguém erre ou o efeito se dissipe.

Esse tipo de troca reforça bem a proposta: caos controlado. As Raquetes Eufóricas funcionam como um elemento quase trapaceiro, capaz de virar partidas, mas sempre com risco de retorno contra quem usou. A presença de sorte é intencional, e faz parte do equilíbrio.
Nos fundamentos do tênis, o jogo cobre o esperado: variação de intensidade, rebatidas próximo a rede ou ao fundo da quadra, bolas curtas ou altas e aplicação de efeitos. Alguns personagens se destacam mais em determinados aspectos, o que se conecta diretamente ao sistema de classes.
Dois comandos avançados: lob — rebatida alta e distante — e a deixadinha (drop-shot) — rebatida fraca e rasteira — por padrão exigem combinação de botões, mas podem ser mapeados para atalhos únicos. Uma recomendação simples que melhora bastante a fluidez dos controles.

Com 38 personagens, o jogo apresenta um dos maiores elencos da linha esportiva do Mario, divididos em seis classes: Versatilidade, Técnica, Astúcia, Velocidade, Potência e Defesa. Como funciona na prática? Eis alguns exemplos:
- Yoshi (Velocidade) cobre velozmente toda a quadra com facilidade e mantém fôlego constante;
- Waluigi (Defesa) atua como uma muralha dentro de seu alcance, a CPU é implacável nessa classe;
- Donkey Kong (Potência) imprime força brutal nas rebatidas e acelera a bola;
- Rosalina (Astúcia) explora curvas imprevisíveis (demonstrou ser minha classe favorita);
- Mario (Versatilidade) equilibra todos os atributos;
- Peach (Técnica) prioriza precisão e controle.
Além disso, cada personagem possui variações próprias em velocidade, potência, precisão e efeito, garantindo pequenas diferenças mesmo dentro da mesma classe.

As quadras também influenciam o jogo. Enquanto as tradicionais favorecem partidas mais técnicas, outras introduzem variações: cogumelos alteram quique, areia desacelera a bola, piso de gelo torna a mobilidade escorregadia e algumas criam situações ainda mais imprevisíveis.

Tudo isso se distribui em cinco modos principais:
- Torneio (simples ou dupla): progressão clássica, partida a partida, estilo Mario Kart, com aumento de dificuldade entre (apenas) três opções de torneios.
- Missões: dez desafios variados em formato semelhante às Torres de Mortal Kombat, com objetivos específicos e situações inusitadas. Também em três variações de dificuldade.
- Jogo Livre: total liberdade de customização de partida. Contra amigos (localmente) ou contra a CPU.
- Gincanas: partidas caóticas em quadras especiais (pinball, floresta dinâmica, fábrica de raquetes, cenário inspirado em Super Mario Bros. Wonder). Tem suporte para até 4 jogadores.
- Realista: uso de controles por movimento, ideal para multiplayer casual.
As Gincanas, em especial, exploram bem o lado mais criativo do jogo, com regras e eventos que transformam completamente a dinâmica das partidas. A quadra na floresta pode encolher ou se expandir, de acordo com quem conseguir que plantas piranhas engulam as bolas; na quadra pinball surgem bumpers e flippers, enquanto efeitos adicionais e bolas extras criam caos; já na fábrica de raquetes os competidores ficam constantemente trocando suas raquetes eufóricas, disparando suas habilidades em ritmo frenético. Por fim na quadra baseada em Super Mario Bros. Wonder atingir o feijão mágico causará efeitos incríveis, como canos e plantas carnívoras entrando no meio da quadra para um número musical — o que é espetacular, claro.

Todas estas opções ficam amarradas a modalidades que podem ser realizadas tanto em single player, quanto em multiplayer. E claro que Mario Tennis Fever também oferece modos online, com partidas ocorrendo por matchmaking. Assim, quem curte um desafio online ou não pode sempre ter alguém em casa para desafiar, pode caçar adversários mundo afora, sem sair de casa.
No geral, há uma boa variedade de conteúdo. Ainda assim, após algumas horas, o desgaste é natural — no fim, tudo gira em torno de partidas de tênis. E isso não é um problema, apenas uma característica do gênero.
Não há um mundo aberto a ser explorado como Mario Kart World. Não existe uma campanha de dezenas de horas como num RPG. Nesse sentido, Mario Tennis Fever não explora conceitos fora de seu gênero. É objetivo e auto centrado. Não que isso seja um demérito, mas é importante que o jogador venha para a experiência ciente do que o espera.

Altos e Baixos
— O que funciona bem:
- Grande elenco com funções bem definidas;
- Raquetes Eufóricas adicionam caos e identidade às partidas;
- Quadras com atributos próprios enriquecem a jogabilidade;
- Controles acessíveis e agradáveis;
- Boa variedade de modos para diferentes perfis de jogadores;
- Flor Tagarela narrando em português é um grande serviço de localização.

— O que poderia ser melhor:
- Modo Aventura é arrastado e excessivamente explicativo;
- Torneios, Missões e Gincanas mereciam ter maior longevidade;
- Flor Tagarela tem muitas reações com falas genéricas e repetitivas.

Considerações finais
Mario Tennis Fever se encaixa com precisão na trajetória da série. Não reinventa sua identidade, mas também não compromete. Entrega exatamente o que se espera de um título esportivo da Nintendo no início de uma nova geração.
Ao mesmo tempo, mostra inteligência ao incorporar elementos recentes do universo Mario, como uma quadra com a estética de Super Mario Bros. Wonder e a própria Flor Tagarela como narradora. São elementos que ajudam a manter a experiência atualizada.
Mesmo com ressalvas ao Modo Aventura, defendo e digo que sua presença é válida. Em um cenário onde muitos jogos priorizam apenas o multiplayer, oferecer uma experiência single player estruturada ainda é um diferencial. O resultado é um pacote completo: modos variados, opções solo e multiplayer, online funcional e uma jogabilidade que funciona tanto em controles tradicionais quanto por movimento.

Tecnicamente, o jogo também cumpre o esperado. Visualmente alinhado ao Switch 2, com efeitos vibrantes e cores mais saturadas que seu antecessor, deixando suas cores mais vivas. No áudio, trilhas e vozes mantêm a identidade clássica da franquia.
Como mencionado no início, há um bom reaproveitamento de assets de Mario Tennis Ace, mas com ajustes pontuais. Donkey Kong foi atualizado para seu novo design, enquanto que no caso de Bowser Jr., foi aposentado sua nave voadora, e agora ele disputa como qualquer outro jogador: com seus pés no chão. A edição também pode se vangloriar de apresentar a versão bebê de Waluigi, até então inédita no universo da franquia Super Mario.
Um puxão de orelha? Pauline mantém seu design clássico, e admito que senti falta de sua versão jovem apresentada em Donkey Kong Bananza. A Nintendo ainda precisa nos dizer como vai lidar com estas duas versões da personagem, porque sinceramente também gostaria de ver sua versão jovem como uma atualização em Mario Kart World.

No fim, Mario Tennis Fever é uma edição robusta o suficiente para auto justificar sua existência. Para fãs, é uma adição natural. Para novos jogadores, uma excelente porta de entrada. Para quem esperava mudanças estruturais, pode soar conservador. A escolha aqui é clara: tradição… e bem executada.
Galeria
Dando nota
Modo aventura arrasta o jogador para muitos tutoriais, ainda que entregue uma divertida história e partidas únicas interessantes - 6.5
Vasta diversidade, enorme elenco de personagens, raquetes eufóricas, quadras e modos de jogo para todos os gostos - 9
Torres, Gincanas e Missões são excelentes, mas poderiam ter mais longevidade - 8
Todo localizado em português, com a Flor Tagarela na narração com dublagem em nosso idioma! - 8.5
Acessível em sua jogabilidade, oferece controles tradicionais, botões customizáveis e também por movimento - 9.5
Raquestes Eufóricas são a atração da edição e transformam as partidas em um caos devidamente divertido - 9
Excelente título para jogadores que procuram experiência multiplayer; é um ótimo party-game - 9
8.5
Ótimo
Mario Tennis Fever é uma edição que cobre o esperado da série e da tradição de uma nova entrada a cada novo console lançado. Atualiza elementos, como a Flor Tagarela se tornando narradora (dublada em português), enquanto apresenta algumas mecânicas novas com as raquetes eufóricas e suas habilidades que transformam as partidas. Tem modos de jogo que cobrem todos os perfis de jogadores, exploram bastante o single player, ainda que seja ideal para multiplayer. O modo aventura talvez seja a maior contradição, porque enquanto diverte com partidas exclusivas e únicas, também consegue enrolar o jogador com muito tutorial e ritmo lento. Grande elenco, muitos poderes malucos, quadras com efeitos diferentes entregam um pacote esportivo digno de entretenimento.



