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Homem-Aranha | Brand New Day – ASM #546 ~ #647 (2008-2010)

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É difícil dizer o quão fã sou pelos quadrinhos do Homem-Aranha. Certamente não sou um especialista, daqueles que sabem de cor e salteado todos os pequenos detalhes que já aconteceram em décadas de histórias com o personagem. Conheço algumas grandes sagas, sei toda a base de construção do heróis e seus vilões, além de ter lido os principais acontecimentos (ou quase todos) que envolvem suas aventuras nos quadrinhos dentro do universo original, ao menos até lá para meados de 2008, quando a Marvel veio com a infeliz “One More Day“, seguido pela terrível fase “Brand New Day“, que durou mais de 100 edições e foi terminar apenas em 2010. Foi esse o momento culminante que decidi parar de acompanhar e ler os quadrinhos do Homem-Aranha.

Para quem não se recorda, One More Day foi uma consequência dos eventos pós Guerra Civil, que até hoje é uma incrível fase que a Marvel teve nos quadrinhos e que chamou muita gente de volta para os quadrinhos e basicamente renovou os ânimos por novas histórias com personagens que já estavam abatidos e cansados da mesmice de décadas de quadrinhos. Foi na Guerra Civil que Tony Stark convenceu que Peter Parker deveria revelar sua identidade secreta ao mundo, e consequentemente para todos os vilões do Homem-Aranha. Colocando em perspectiva hoje, isso realmente foi uma grande jogada da Marvel para fazer barulho com a Guerra Civil, mas que causou enormes problemas as histórias do Homem-Aranha. Enfim, vilões começaram a caçar a família de Peter, até que o Rei do Crime acabou dando a ordem que deixou a vida da tia May por um fio, ao ser baleada justamente quando One More Day se inicia.

Aí a cronologia do Homem-Aranha entra em parafuso e é aí que a Marvel fez a merda. Do ponto de vista em geral, pensando nos eventos da época, havia dois caminhos que poderiam ser tomados: a morte da tia May e as consequências disso ou um reboot mágico nas histórias do Homem-Aranha. Todo mundo sabe que a Marvel optou pela segunda opção.

O problema sempre foi a identidade secreta. Como fazer o mundo esquecer quem é o Homem-Aranha? A Guerra Civil criou uma armadilha para a cronologia oficial do Aranha, na qual apenas o arco “One Moment in Time” em 2010 conseguiu explicar de forma satisfatória como resolver. Se isso tivesse sido feito em 2008, é muito provável que eu não teria abandonado os quadrinhos do personagem na época. Foi também uma forma de costurar por cima todo o conceito do pacto com Mephisto no final de “One Day More”, na qual o casamento do Peter Parker foi sacrificado em pró de renovar as histórias do personagem, criando assim uma abordagem mais juvenil, reprisando a fase do Peter vida de fudido, além de se aproveitar de gafes cronológicas que poderiam ser zeradas, como seu próprio casamento ou a morte do Harry Osborn. Assim surgiu “Brand New Day”, a nova fase de histórias do Homem Aranha, que perdurou até Amazing Spider-Man #647 de 2010.

Eu parei de ler os quadrinhos do Homem-Aranha logo no início dessa fase que funcionaria (só que não) como uma espécie de reboot mágico para o universo do herói. Me lembro que na época estava achando os primeiros arcos e histórias muito, mas muito ruim. Tudo mal explicado, novos vilões que não possuíam o mesmo carisma que os vilões clássicos, sem mencionar que toda aquela carga histórica que o personagem tinha foi jogada no lixo em pró de uma fase que foi basicamente um repeteco de histórias que já havia lido no passado, no sentido do Peter tendo dificuldades financeiras, solteiro, com amigos estranhos e sem rumo na vida. O personagem meio que retrocedeu no início de Brand New Day e foi aí que decidi desistir de acompanhar suas histórias.

Foi preciso mais de 4 anos esquecido no tempo para tomar coragem e decidir encarar essa péssima fase e passar por ela de vez e voltar a ler. Nesse final de semana finalmente terminei BND e li apenas a primeira história da próxima fase dentro da cronologia, “Big Time“. Sei que ainda estou muito atrasado em relação a cronologia oficial, com o universo Marvel Now atual, sem mencionar que ainda preciso passar pelo arco Superior Spider-Man e agora a Amazing Spider-Man está em sua 3ª fase. Eu ainda chego lá…

Porém o que quero deixar escrito aqui é que realmente Brand New Day não é uma fase que me agradou. Há muitos leitores das antigas do Homem Aranha que acham que a Saga do Clone da década de 90 foi a pior coisa que já foi escrita com o personagem. Uma fase que muitos odeiam. Pra mim, Brand New Day chega a ser muito pior do que a Saga do Clone dos anos 90 (eu até que gosto dela). É um momento da vida do Peter Parker que realmente merece ser completamente esquecida. Ao menos parte dela.

 Digo isso porque há algumas ótimas histórias dentro dessa fase. São poucas, mas existem. Por exemplo, foi o trabalho de preparação para o arco Caçada Sombria (Grim Hunt no original), com as histórias do Homem-Areia e com o Lagarto. Estes dois arcos que fazem parte do que foi chamado The Gauntlet (não sei como foi chamado aqui no Brasil) são incríveis. A forma como trouxeram de volta o Dr. Connors e o que ele faz nesse arco é inacreditável. Outra bom personagem que ficou bem reconstruido nessa fase foi o Rhino. São pequenos lampejos de como as histórias do Homem-Aranha são incríveis quando os roteiristas não estão enrolando ou ganhando tempo para criar algo maior. Só acho uma infelicidade que a própria Caçada Sombria não tenha sido tão boa quanto estes arcos que serviram como prelúdio para o arco principal. Talvez o tempo que ele ficou cozinhando tenha estragado as expectativas e olha que estou falando por meio de um relato de que leu em atraso as revistas e que passou semanas lendo as revistas. Imagino que os leitores que levaram quase um ano para isso na época tenham achado ainda pior esse tempo de espera.

A já mencionada “One Moment in Time” que acerta e costura a nova cronologia do Homem-Aranha também é inacreditavelmente ótima. Faz a gente perdoar a Marvel por toda a patifaria que ela armou em Guerra Civil com o Peter apenas para zerar tudo em seguida, além da própria ideia do pacto do Mephisto, que ainda existe, mas ninguém se lembra porque não é assim que as coisas nessa nova linha do tempo aconteceram. Ficou algo como uma grande aspas dentro da linha do tempo. Fiquei realmente convencido que não precisa mais existir o casamento do Peter com a Mary Jane. Dá para encarar isso de boa após esse arco, e finalmente a personagem parece alocada dentro de um limite aceitável  o universo do personagem.

Uma última coisa que gostei nessa fase do BND foi o retorno do Kaine, o clone bizarro do Peter, afinal como já cantei mais acima, eu até curto a saga do clone. E toda a brincadeira com clones nessa fase é muito bacana. E o personagem acaba sendo importante, surgindo num momento onde você sequer consegue imaginar do porque, indo culminar num excelente trabalho com o personagem em a Caçada Sombria.

Quanto aos novos vilões do Aranha, acho que melhor acabou sendo o Sr. Negativo, que mesmo assim não ganhou a atenção que deveria e nem teve um desfecho satisfatório ainda. Mas da nova leva, sem dúvida ele é o que melhor se encaixou pra mim. Novo Abutre? Méh? Anti-Venom? Que merda (e eu não me lembro que fim levou o Carnificina)! Aquele vilão que parece carne podre (Monstro?)? Que porcaria. Nem mesmo o retorno da família Osborn ou da Duende chamada Ameaça chegam aos pés dos momentos clássicos com essa linha de vilões. E quão ruim é um dos últimos arcos, Origem das Espécies, dessa fase com todos os vilões da galeria do herói o perseguindo porque estão atrás do bebê da Ameaça? Foi difícil terminar de ler essa arco de tão horrível que ele é. Putz!

Há muitos outros elementos de Brand New Day que até o momento não sei se achei bom ou ruim, como o retorno da Gata Negra e seu breve envolvimento com o Aranha. Gerou sim histórias engraçadas, mas pouco aprofundou a personagem (mas ela está de volta em Big Time pelo que vi, então OK). Tem toda a brincadeira com o J. Jonah Jameson virando prefeito de Nova York que meio que não deu em nada, ele continuou sendo o mesmo personagem de sempre, apesar de que o desfecho da destruição do prédio do Clarim Diário com o Electro é um outro ótimo momento dessa fase. Fora isso tem a nova namoradinha do Peter que até agora acho-a uma chata de galocha e ela foi para a fase Big Time. Torço fortemente por sua morte…

Enfim, Brand New Day foi um desses momentos ruins do Homem-Aranha, onde se tentou mexer naquilo que as pessoas já gostavam. Não sei se conseguiu atrair novos leitores na mesma proporção que conseguiu afastar alguns veteranos, ao menos na época em que foi lançada. Nota-se claramente que conforme BND foi sendo construido, parte daquilo que os editores queriam que ela fosse se perdeu. No final dela há claramente um regaste do Homem-Aranha mais centrado, mais maduro e não aquele repeteco de Peter adolescente. Volta a ser um pouco mais adulto e menos juvenil.

Claro que ficou alguns saldos dela que ainda são desnecessários, como o casamento da tia May. Alias o quão relevante ainda é a tia May ainda estar viva? É uma personagem que está ali deslocada sem qualquer propósito pra mim, sem qualquer serventia ao Peter crescido. Harry Osborn é outro personagem que já deu. Não se consegue fazer mais nada com esse personagem. Enfim, histórias em quadrinhos tem disso mesmo e até aí tudo bem. Mas ufa… Brand New Day nunca mais! Uma fase para se esquecer sem dúvida alguma. Só lamento que mesmo assim, ela ainda é uma fase importante para se entender os eventos posteriores ao Homem Aranha na Guerra Civil da Marvel e como a cronologia do personagem teve que se acertar novamente.


Dica: para se ler cronologicamente as HQs Homem-Aranha? (clique aqui)


 

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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