Análise | Pragmata
Disponível para PlayStation, Xbox, Nintendo Switch & PC

Pragmata finalmente chegou depois de uma longa espera daqueles que ficaram encantados (e intrigados) quase 5 anos atrás quando foi exibido o primeiro trailer durante a transmissão de revelação do PlayStation 5. Houveram aqueles que acreditaram ser um novo MegaMan, e aqueles que incrédulos apontavam para um improvável Vanquish 2. De fato, os primeiros trailers eram bem esquisitos tendo em mente o jogo em sua forma final.
Mergulhamos no espaço, rumo a versão final do novo épico da Capcom. Entre um visual bem construído e uma sinergia de personagens nunca antes vista, Pragmata prova que a espera valeu cada segundo.
Conteúdo em meio a grandes conteúdos
A indústria de games nos últimos anos parece obcecada com a escala: mapas colossais, centenas de missões secundárias repetitivas e campanhas que exigem meses de dedicação. No meio desse oceano de conteúdo genérico, surge Pragmata.
Após finalizarmos a campanha pela primeira vez, a sensação é de frescor. O jogo não tenta te vencer pelo cansaço, mas pela precisão técnica e mecânica. Se você achava que a demo era apenas uma vitrine visual, prepare-se: o buraco é muito mais embaixo.
A sinergia humano-máquina
O grande receio de muitos jogadores em jogos onde se tem uma companhia controlada pela CPU é a inteligência artificial limitada. Em Pragmata, a Capcom subverteu isso. A interação entre o protagonista humano e a companheira menina androide é a engrenagem que move o título.
Mas não se engane, não se trata apenas de protegê-la. Ela é uma peça ativa no tabuleiro. Enquanto você gerencia o peso das armas e o posicionamento tático, ela oferece aberturas e suportes que tornam o combate fluido. E essa sinergia se mantém sólida durante todo o percurso, sem se tornar cansativa, pois ambos os personagens vão ganhando novas habilidades ao longo da aventura.

A narrativa dessa aventura se entrelaça com o gameplay de forma brilhante. Temos um humano enfrentando as sua limitações físicas contra ameaças hostis do ambiente e uma androide que, apesar de poderosa, lida com a descoberta de sua própria natureza.
Essa dualidade cria momentos de tensão onde cada decisão de proteção ou ataque reflete o estado emocional dos personagens.
O método metroidvania.
Muitos podem se enganar com o tamanho aparente dos setores iniciais, mas o segredo de Pragmata reside na sua verticalidade e nas camadas de acesso a eles.
Você avança com uma exploração inteligente, pois o jogo utiliza um sistema de progressão de habilidades que dita o ritmo da descoberta. Você encontrará obstáculos logo no início que parecem intransponíveis. Somente mais tarde, ao desbloquear novas ferramentas, o jogo te incentiva a praticar o backtracking e percorrer novamente as áreas inicias em busca de coisas que tenha deixado para trás ou que estavam inacessíveis.

É perfeitamente possível chegar aos créditos finais tendo explorado apenas pouco mais da metade do que o jogo oferece. Existem “Zonas Vermelhas” e setores opcionais repletos de modificadores de armas (mods) e trajes que mudam completamente a abordagem do combate. Tentar coletar tudo na primeira jogada é um desafio para os mais atentos, já que o mapa esconde segredos de forma muito perspicaz.
Combate com dualidade
E tudo isso acontece com um sistema de combate interessante. Você controla o soldado Hugh de uma maneira similar a muitos jogos de tiro em terceira pessoa.
Mas Diana, a nossa adorável androide, é a cereja do bolo no combate. Diana possui uma Matriz de Hackeamento. A matriz de hackeamento é um quebra-cabeça que aparece quando você começa a hackear um inimigo. É representada por uma grade de quadrados, de tamanhos e formatos que variam de acordo com o inimigo. Você movimenta um cursor com os botões Y, B, A e X, como se fossem um direcional em cruz.

É preciso movimentar o cursor pela grade, passando por nodos azuis até chegar no nodo verde, o que possibilita deixar o inimigo muito mais vulnerável a ataques. Conforme se avança no jogo, novos nodos especiais aparecem, adicionando mais estratégia ao combate, cada vez mais intenso e desafiador.
É tipo ficar de olho no gato e no peixe, é bem emocionante e desafiador, pois além de preocupar em atirar e se posicionar com o Hugh, é imprescindível prestar muita atenção quando Diana está fazendo o hackeamento do inimigo.
A humanidade entre pele e metal
Para além dos polígonos e do Path Tracing, o que sustenta a narrativa de Pragmata é um estudo profundo sobre dependência, isolamento e a reconstrução do conceito de família. A relação entre o protagonista humano e a menina androide não é apenas funcional; é um espelho de necessidades psicológicas fundamentais.
O personagem principal carrega o arquétipo do “sobrevivente pragmático”. Sua psique é moldada por um ambiente de alta hostilidade, onde a eficiência é a única garantia de vida. Ele apresenta traços de um isolamento emocional defensivo. No início, ele encara a menina quase como uma carga crítica ou uma ferramenta de missão. No entanto, ao longo da jornada, sua couraça técnica começa a rachar.
O trauma de viver em um mundo em colapso é combatido pela necessidade de cuidar de algo vulnerável. Psicologicamente, ele transita do “fazer para sobreviver” para o “proteger para ter um propósito”. A manutenção que ele realiza no traje e nas armas reflete seu desejo de controle em um universo caótico.

A menina androide, embora seja apenas no início vista como uma inteligência artificial, tem sua construção psicológica baseada na etapa de descoberta infantil. Ela é o elemento de “humanização” do jogo. Ela não possui os vícios ou o cinismo do mundo adulto. Sua psicologia é movida pela busca de padrões e pelo entendimento das emoções humanas através da observação. Ela não teme o perigo da mesma forma que o humano, o que cria um contraste entre a cautela dele e a exploração dela.
O fato de ser uma androide em um corpo de criança gera um conflito de identidade: ela possui capacidades técnicas avançadas, mas processa o mundo com a inocência de quem ainda está descobrindo o mundo ao redor.
A Sinergia como vínculo
A relação entre os dois evolui de uma transação logística para uma simbiose emocional. Existe uma troca psicológica fascinante aqui. Ele fornece a segurança física e a experiência tática (o “pai” ou “mentor”); ela fornece a bússola moral e o suporte técnico que ele, sozinho, não conseguiria processar (a “intuição” ou “esperança”).
Grande parte do vínculo é construído através de gestos: o modo como ele a protege durante os ataques dos chefes e como ela reage às vitórias. Essa interação cria um laço de confiança que substitui o diálogo expositivo cansativo. Proteger a menina torna-se a terapia do protagonista. Ao mantê-la segura, ele cura suas próprias feridas de um passado marcado pela perda. Ela, por sua vez, valida a existência dele, transformando o soldado em um guardião.
Essa conexão psicológica é o que torna o gameplay viciante. O jogador não quer apenas “zerar” o jogo; ele se sente responsável pelo bem-estar da dupla. Quando os chefes atacam de forma exagerada e o perigo se torna crítico, o impacto não é apenas no HP da barra de vida, mas no estresse psicológico de manter esse vínculo intacto.
A vida após os créditos
Terminar a história em Pragmata é apenas o começo para aqueles que gostam de dominar todos os aspectos de um jogo, meio que um “tutorial” para quem busca maestria. Temos três pilares que sustentam o fator replay:
Modo Sinal Desconhecido
Este modo é o paraíso dos que gostam de completar tudo. Localizado no abrigo central, ele permite que você utilize um sistema de trens para viajar livremente entre os setores já visitados, antes da batalha final, além de um novo setor cheio de desafios.
Não é apenas uma viagem de turismo. Você deve enfrentar versões “buffadas” e com novos padrões de ataque dos quatro chefes principais e inimigos. Ao limpar todos os desafios deste modo, você desbloqueia o chamado “Final Real“, que inclui uma cena extra e uma arma de altíssimo calibre. É o teste final para quem quer dominar todas as mecânicas.
Novo Jogo + (NG+)
Ao contrário de muitos NG+ que apenas aumentam o HP dos inimigos, Pragmata altera o posicionamento das unidades e os tipos de ameaças em cada sala. Você carrega todo o seu arsenal, melhorias de traje e cosméticos, o que permite experimentar armas poderosas em confrontos que antes eram simples, mas que agora exigem novas estratégias devido às mudanças na IA inimiga.
Dificuldade Lunática:
Para os jogadores que buscam otimização máxima, a dificuldade Lunática é o destino e ela exige um novo começo de jogo. Aqui, o gerenciamento de recursos e a escolha precisa de cada modificador na impressora de armas tornam-se vitais. É o modo onde o sistema de combate realmente brilha, forçando o jogador a usar cada ferramenta disponível.
O poder do path tracing
Conforme a progressão no game, você vai notar que a Capcom não economizou nos recursos técnicos de nova geração. O uso de Path Tracing em ambientes fechados cria uma iluminação global e reflexos que dão uma tridimensionalidade palpável. A forma como a luz interage com as superfícies metálicas e o traje do protagonista é um deleite visual.

Em contrapartida, áreas externas com vegetação e árvores parecem ter recebido menos atenção, com um aspecto visual mais simplório que destoa dos ambientes tecnológicos internos.
A trilha sonora não destoa em nenhum momento, seja de quietude ou de ação, se mesclando bem a aventura, mas o meu destaque fica para a música final durante os créditos, é uma obra-prima que eleva o fechamento da experiência.
Um jogo pragmático
Pragmata é um lembrete de que a Capcom ainda sabe como criar IPs únicas e que se destacam. É um jogo que respeita seu tempo, oferecendo uma campanha intensa e um pós-jogo que recompensa a dedicação do jogador em querer ver tudo que o se pode completar.
Galeria
Dando nota
Mecânica que exige o uso criativo de todas as ferramentas de combate. - 9
Um jogo que não se parece com nada que está no mercado atualmente. - 9.5
Grande foco em desbloqueáveis, de mods funcionais a trajes cosméticos. - 8
O combate fica cada vez mais desafiante e emocionante. - 8.5
Visual e sonoridade em ótima harmonia com a parte técnica. - 8.5
8.7
Cativante
O explorador espacial Hugh e a androide Diana unem forças para sobreviver contra uma IA hostil, alternando entre combate intenso e hacking estratégico para retornar à Terra, focando em uma narrativa emocional.


