Lendo

The Walking Dead: Caos nas Edições do Vol. 1 – Days Gone Bye (Dias Passados)

Finalmente! O primeiro post dedicado aos volumes de The Walking Dead. Demorei para escrever sobre a HQ e o atraso já é grande dado o tempo que o primeiro volume foi publicado pela primeira vez, mas vamos ao que interessa para não  tornar o atraso ainda maior. O primeiro detalhe que sobressaí nas primeiras edições é o traço do grafismo, um traço realístico e cuidadoso de Tony Moore que se aposenta da HQ logo após as seis primeiras edições – algo que não pesa positivamente para a HQ, mas que também não a destrói. Adlard faz também um ótimo trabalho, só espero que ele também não tenha que abandonar The Walking Dead.

“População humana: desconhecida. População zumbi: milhões!”

O caos é completo no início da história exposto nas primeiras edições de The Walking Dead e devo dizer que adoro o caos tal como ele se apresenta e que surpreendentemente quanto mais edições são publicadas, melhor ele se torna. O caos tem a particularidade de surpreender mais por não ser facilmente previsível – Kirkman devia saber disso.

O volume 1 “Days Gone Bye” (Dias Passados) conta com seis edições simples mas com muita emoção, surpresa, vida e morte. Assim como o título já explica, o ponto de destaque é a transição de um mundo “normal” para um novo mundo caótico povoado por zumbis. O pior nem é ser povoado por zumbis, mas a reação que os sobreviventes têm diante da possibilidade de pessoas conhecidas estarem mortas, ou melhor, estarem tentando devorá-los. Sendo mais específico, vamos à lista de edições do primeiro volume e às observações/ comentários.

Após o coma, Rick acorda em um inferno. Pode-se dizer que ele morreu e foi enviado para o inferno onde ele tenta sobreviver com outras almas perdidas sem saber que já estão todos mortos (que delírio dramático pensar que tudo seria explicado assim!). Só quero passar o ambiente e a situação apocalíptica. As edições não possuem nome individual, por isso darei uma designação (não oficial) que passe o conteúdo principal. Então, vamos passar para as edições. Abaixo haverá spoiler, se for alérgico, leia com cuidado.

Edição #1 – “Caos após coma”

Data de publicação nos EUA: Outubro de 2003

Escrita por Robert Kirkman/ Art & Cover por Tony Moore

Já publicada no Brasil pela HQ Maniacs.

Neste volume, Rick desperta e toda a situação degradante da Terra é revelada, embora haja muito mais para ser descoberto – isso fica bem claro. Como seria acordar de um coma de seis meses em um hospital abandonado, sem ninguém para ajudar, nem informar? Inicialmente, The Walking Dead parece simples e até previsível, parecendo ser mais uma história de zumbis. Comecei aos poucos, depois comecei a ler cada vez mais e mais. Isso porque a história não fica nos zumbis, se estende aos problemas sociais, às críticas e ao instinto de sobrevivência radical do ser humano.

O momento em que Rick Grimes acorda para viver entre os mortos-vivos, que ele no começo não imagina que fosse nem sequer possível existirem, marca uma jornada surpreende pelo “Inferno” na Terra. Sim, o mundo está tão degradado e perigoso que se pode dizer que o Inferno está na Terra. Pior que a degradação, os sobreviventes têm que tomar decisões e atitudes ousadas, cruéis e radicais. Essa é a primeira crítica, embora discreta nessa edição: não precisamos temer um inferno pois ele já existe na Terra e está nos vivos e não nos mortos. Na primeira edição, conhecemos Morgan e Duane, os únicos sobreviventes de Kentucky, a pequena cidade onde Rick morava com sua família e trabalhava como oficial de polícia. O policial recém despertado (Rick), fica abalado pelas notícias e resolve procurar a família em Atlanta, Lori (esposa) e Carl (filho). O interessante é o mistério que  paira sobre a origem de toda a confusão e infecção. A agressividade impulsiva de Duane foi algo que achei bem encaixado pois dá uma certa naturalidade à situação. Quando Rick chora após atirar na cabeça de um zumbi, já fica tudo claro: “Estarão Carl e Lori assim (mortos-vivos)? Terei que matá-los?”

Edição #2 – “Descoberta, Exploração e Reencontro”

Data de publicação nos EUA: Novembro de 2003

Escrita por Robert Kirkman/ Art & Cover por Tony Moore

Já publicada no Brasil pela HQ Maniacs.

Tudo melhora nessa edição. O traço realista de Moore torna impressionantes e memoráveis as cenas em que Rick encontra mortos-vivos, tanto aqueles na casa abandonada quanto aqueles em Atlanta. As cidades são o centro da confusão e onde se encontra a maior população de zumbis – mesmo assim Rick entra em Atlanta, sem saber o que viria a encontrar. É um daqueles momentos que você se entusiasma tentando prever como ele conseguirá sair vivo. E já ficamos sabendo que zumbis também gostam de carne de éguas! A égua ficou na pior e levou para o túmulo todo o desabafo de Rick – ótima forma de expor os pensamentos dele antes de chegar em Atlanta. A única coisa que até hoje me deixa curioso é: a égua não deveria se tornar uma égua morta-viva? Ou a infecção só ocorre entre humanos mesmo? Só sei que não chega a ser conclusivo que a égua foi inteiramente devorada.

Quando Rick é resgatado por Glenn, cada passo da fuga é apresentado como se fosse um treinamento para Rick, lembrando aquelas partes de treinamento e reconhecimento da área de atuação e combate que encontramos em alguns jogos e até filmes. Seja como for, a fuga é muito agradável de ver e de ler. Já fora da cidade, os primeiros sobreviventes são revelados e isso já altera totalmente a história porque agora Rick deixa de estar sozinho, criando novos desafios. O reencontro dele com Lori e Carl me surpreendeu um pouco porque pensei que o autor fosse fazer o reencontro mais tarde. Se fez mais cedo, deve tirar proveito disso brevemente.

Edição #3 – “Reintegração e Sobrevivência”

Data de Publicação nos EUA: Dezembro de 2003

Escrita por Robert Kirkman/ Art & Cover por Tony Moore

Já publicada no Brasil pela HQ Maniacs.

Já a terceira edição apresenta um cover interessante porque é exatamente o mesmo cover que Tony Moore tinha feito para a primeira edição, mas que depois substituiu. Parece ser mais adequado agora que Rick, Lori e Carl estão juntos novamente. Essa edição é mais calma, mas apresenta tensões, medos e particularidades de cada um dos sobreviventes. O clima é parecido com aquele de acampamento de amigos: há conversas entre as personagens, coisas simples e naturais, deixando transparecer alguns traços psicológicos de cada um.

Donna, Allen, Andrea, Amy, Dale, Shane (entre outros), enfim, os sobreviventes, até não são poucos e gostei da tensão presente no fato de que tudo parecia equilibrado mas que na verdade era tudo muito frágil e que as pessoas ainda se escondiam em camuflagens, armadilhas, para se preservarem. Algo que muitos fazem na sociedade atual em que vivemos – mais uma crítica social incorporada. E transformar Shane, o melhor amigo de Rick, no amante de Lori foi absolutamente fantástico – a insinuação foi um bom fim para a edição. Apesar de parecer algo de novela, a insinuação deixa uma bomba armada e as consequências parecem estar próximas de acontecer já que o autor fez o reencontro, Lori deve ter um papel fundamental para o primeiro volume. A questão que deveria ser posta nessa sequência de pensamento é: teria Carl também um papel imediato importante? Fora isso, não há muito mais para comentar. São todos muito cautelosos, mas poucos estão realmente adaptados ao novo mundo.

Edição #4 – “Camuflagem em Atlanta”

Data de publicação nos EUA: Janeiro de 2004

Escrita por Robert Kirkman/ Art & Cover por Tony Moore

Já publicada no Brasil pela HQ Comics.

A edição #4 talvez tenha vindo com o cover mais apelativo e um conteúdo muito bem elaborado e recheado de vários aspectos viciantes e que acerta no coração e na mente, deixando o leitor satisfeito. Regressar a Atlanta é normal já que todos precisam de comida e outros acessórios – tal como armas para a proteção pessoal. Já sabendo que o ponto fraco de todo zumbi é a cabeça (toma o exemplo do zumbi que tentou morder Donna na edição anterior), só resta obter as armas necessárias. Quando li que eles entrariam em uma área da cidade perigosa e muito interior, fiquei animado – não que quisesse que morressem, mas estava curioso em ver o estado de tudo e como Rick e Glenn lidariam. A conversa entre Shane e Rick mostraram o primeiro conflito entre os amigos – parece que eles não só amam a mesma mulher, como também querem o mesmo cargo de líder. Rick acha que não devem continuar acampados perto de Atlanta, já que a cidade está lotada de zumbis.

Sujar a roupa com restos de zumbi deve ser mesmo uma prova de necessidade e sobrevivência e a teoria de Rick faz tanto sentido que isso de tão simples, é brilhante! Os zumbis na cidade estão tão bem desenhados que dá vontade de olhar os desenhos mais de uma vez ou de observar por um tempo antes de passar a página. Assim que começa a chuva então, aí o desenho fica perfeito, mantendo sincronia com bons diálogos e acontecimentos proporcionais. E por fim, a conversa entre Shane e Lori confirma a relação que os dois tiveram na ausência do Rick. Isso é o que gosto em The Walking Dead: há quase sempre um fim entusiasmante ou inesperado.

Edição #5 – “Noite Inesperada”

Data de publicação nos EUA: Fevereiro de 2004

Escrita por Robert Kirkman/ Art & Cover por Tony Moore

Já publicada no Brasil pela HQ Maniacs.

Após recolher armas em Atlanta, sem dúvida teríamos que ler e ver a utilização delas. Essa edição se foca não só no treinamento de tiro mas também na apresentação da profissão e um pouco da vida de cada personagem. A parte do treinamento ficou um pouco cansativa, sendo sustentada por diálogos simples, tendo sido a inclusão de Carl a maior surpresa e talvez aquilo que possamos chamar de impacto. Afinal, ele ainda é uma criança e já teria a sua própria arma. Aí vem aquela ideia: mantenha as crianças afastadas das armas. Quando se está cercado pela morte, a arma seria a menor das preocupações, ou será isso que o autor queria que os leitores pensassem? Lori não apoiou, mas Rick manteve-se fiel a ideia. Mais um pequeno conflito.

O clima estabelecido à volta da fogueira, com um diálogo interessante que revela as profissões e um pouco da vida de cada sobrevivente, foi magnificamente construído. Arranjaram uma forma de passar segurança, mas no cenário típico para que histórias de terror sejam contadas, somos surpreendidos com um ataque de zumbis e com a morte de Amy, a irmã mais nova de Andrea. Primeira morte da história, menos um sobrevivente e mais sofrimento. Jim provavelmente morrerá ou se transformará em zumbi após ser mordido enquanto massacrava alguns zumbis para se vingar da morte de sua família. O autor deixou transparecer que não tem muitas ideias para Jim na história – o melhor deve ser deixar ele servir de exemplo para o perigo do novo mundo. Aliás, todos ainda estão muitos frágeis, pouco preparados para toda a situação – fácil notar isso pelas conversas e pelas perspectivas. O julgamento feito pela Donna sobre a relação entre as irmãs Andrea e Amy com Dale representa bem uma parte da identidade de Donna. Será que julgar os outros ajudará? Não muito, conflito desnecessário é o que menos se precisa. As profissões de cada personagem vou deixar para um post dedicado às personagens.

Edição #6 – “Explosão Emocional e Segredos”

Data de publicação nos EUA: Março de 2004.

Escrita por Robert Kirkman/ Art & Cover por Tony Moore.

Já publicada no Brasil pela HQ Maniacs.

A edição #6 encerra o primeiro volume de The Walking Dead e a era de Tony Moore como artista gráfico dos quadrinhos, embora ele se mantenha na elaboração dos covers. Só o cover desta edição já sugere algo trágico, talvez a morte de Jim, mas isso é puro engano, já que Jim não está envolvido no acontecimento de destaque. Há muitos elementos interessantes nesta edição. Primeiro, a decisão de Jim em ser abandonado, se tornar um morto vivo e ter esperança de que seja salvo no futuro e possa estar com a sua família novamente. Depois, o enterro de Amy, irmã mais nova de Andrea. E por fim a explosão da bomba que tem sido esperada por algum tempo: o confronto aberto entre Rick e Shane, os melhores amigos. Shane havia se apoiado em duas coisas: liderança e Lori.

Se alguém perde tudo aquilo que ama e que ainda resta, com certeza entra em colapso. E Rick quando chegou, conquistou todos, tirou Lori de Shane e começou a dar palpites contra a política e estratégia de Shane. Se não fosse tudo isso, o confronto, não teríamos a mesma emoção neste volume. É perfeita a forma como Shane desabafa sobre o desespero dele, sendo algumas descrições compatíveis com muitos outros sobreviventes. E quando parece que teremos a morte de Rick, Carl surpreende com a arma que Lori pediu para que Rick não desse ao seu filho – Shane morre. A dor desse momento é tão óbvia e mesmo assim poucas imagens e poucas palavras conseguem descrever esse sofrimento. Rick perde o melhor amigo. Como se não bastasse, o seu filho, criança ainda, entra em colapso por ter matado uma pessoa. Parece que o novo mundo e o instinto de sobrevivência já começaram a causar mudanças nas pessoas.

“Não é como atirar em um dos mortos, papai (tradução livre).”

A resposta de Rick à conclusão do filho levanta a questão da humanidade. Diante do instinto de sobrevivência, todas as necessidades, os momentos de pressão, o desespero e o desejo de preservação daquilo que resta são capazes de transformar todos em animais se as pessoas deixarem de sofrer e de sentirem arrependimento por tais comportamentos – condenados a sofrer para sobreviver conservando a própria humanidade. Chega a ser poético, mas na verdade é muito mais que isso, é filosófico. Ótima forma de terminar o volume. Shane teria que ser afastado de alguma forma para que Rick pudesse liderar. Se Carl não tivesse ficado com a arma, Rick teria mesmo morrido? Se sim, Rick se salvou, permitindo o filho matar um ser humano. Agora imagina o impacto de tudo em Rick e nas personagens, considerando ainda as duas mortes recentes já acumuladas.

O volume 1 de The Walking Dead foi bom de uma forma geral, trazendo a introdução ao universo e ao pensamento filosófico impresso por Kirkman que tenta também fazer críticas sociais. Teve as suas surpresas e um bom início para a HQ – ficará melhor? Já li até o volume 12 e não dá nem para imaginar o quanto melhor ainda vai ficar. Mas isso fica para cada um descobrir ao longo da leitura. E logo postarei sobre o próximo volume! Por enquanto, pode ler aqui uma visão mais geral da obra de Kirkman em The Walking Dead até agora.

EDIT: O volume 1 de The Walking Dead é vendido pela HQ Maniacs por R$27,90. Mais informações na página da HQ Maniacs.

Isso também pode lhe interessar

Araphawake

Gamer de nascença, entusiasta do YouTube, cinéfilo e sobrevivente de The Walking Dead. Adoro livros e penso demais nas coisas. Na vida pessoal sou extremamente nostálgico e exagerado. Quem não me compreende ou conhece pode achar que sou antipático.
Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Dê uma ajuda ao site simplesmente desabilitando seu Adblock para nosso endereço.