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Logbook: Sobre travas de região

Travas de região! E se tal jogo não for localizado? Comprar BR ou importar?

Idéia nova no pedaço. Algo muito debatido entre nós do blog, no fórum interno da equipe, é sobre as variadas discussões que surgem a todo momento. Não há semana em que fiquemos sem tecer opiniões variadas, pontos de vista extremos (e umas trolladinhas) entre nós. Pipoca rumores do Wii U? O pessoal começa a soltar opiniões ácidas, e amorosas ao console. Um mero pensamento ou comentário acaba virando um texto, esse que muitas vezes não conseguimos transformar em um post para debater com vocês leitores. E é exatamente isso que tentarei fazer a agora.

Muitos sites tem podcasts, hoje dia há muitos e dos mais variados tipos. Aqui no portallos o pessoal (antes da minha chegada a equipe), chegou a manter um, porém é algo complicado de se fazer já que com a andar da carruagem do tempo as agendas foram ficando cada vez mais incompatíveis e apertadas. O nosso fórum serve muitas vezes de “podcast”, mesmo que não tomemos ciência disto. Então achei Logbook um termo adequado para o que eu vou fazer após o continue.

O assunto em pauta hoje foi: travas de região em consoles…

Tudo começou na verdade quando o TMT, veio de umas comprinhas na ShopTo. Comprou alguns joguinhos Europeus para o Xisboca, e acabou levando FF XIII-2 no pacote pelo preço camarada. Até que…. Ele descobriu que especificamente este jogo não era region free! Rapidamente surgiram os comentários:

Dakini: Videogames com trava de região, até quando. A Nintendo já disse se o Wii U vai ter? Porque o 3DS me dá raiva, sério. Ainda mais agora que tô aprendendo japa pra valer e poderia importar jogos.

A Dakini despretensiosamente soltou isso no fórum e logo atrás veio Mauri ácido como sempre:

Mauri: Eu espero que tenha. Sou a favor do fortalecimento do comércio local, só isso, e simplesmente isso.

Comprar coisas lá de fora ou do mercado cinza só contribuem para que a situação nunca mude. É exatamente isso o que inviabiliza a entrada forte das publishers no Brasil. Aquelas com mais grana conseguem se virar, e ainda assim empresas do porte da Capcom não estão aqui. O problema do Brasil não é só a pirataria, há algo tão ruim quanto, que é a compra legalizada feita em outro país.

Eu cá com meus botões já levei em consideração a fator preço levantado pelo Paulo, após. Mauri voltou a responder agora de forma mais completa:

O fato de termos a Sony e a Microsoft estabelecidas não é tão grandioso assim, pois elas trazem os jogos delas apenas, os jogos licenciados ficam a cargo das publishers. O mercado de quem comprar o original já é pequeno, e dentre esses uma parcela fica a comprar lá fora, então a solução cômoda e infeliz é ver as publishers licenciandos seus jogos para empresas como NC Games, ZAP, Arvato e afins. Assim, como mais um atravessador, o preço não consegue ser legal mesmo. É muito garfo pra pouca refeição.

Os últimos jogos que comprei, comprei Uncharted 3, MW3, Skyrim e Mass Effect nacionais, a 199,00. Lógico que não é um preço legal, dói muito no bolso, mas penso que estou contribuindo para mostrar para Activison e outras que existem consumidores nacionais. E mandei um e-mail para cada uma delas falando sobre isso. Uma guerra se vence no campo de batalha, não em terreno neutro.

É isso o que eu tenho a ver com isso. Eu você, e todo mundo que comprar jogos de videogame. Quem compra lá fora é tão nocivo quanto quem compra um pirata. Se quando você compra pirata você não aparece nos resultados da empresa, quando você compra nos EUA você aparece como consumidor americano, e não brasileiro. Com isso, a publisher é lógico que prefere investir no mercado americano. Pra quê investir no Brasil, se os brasileiros no fim acabam comprando lá nos EUA mesmo?

A minha opinião é bem clara, o Brasil tem potencial, mas o próprio país se sabota. O pirateiro, o comprador externo e os impostos são a tríade que impede o mercado nacional de se expandir na velocidade que portencialmente pode. E isso não afeta só games, mas outras coisas também. Quantas vezes eu já não li comentários no Omelete sobre pessoas que ficam zuando quem compra os encadernados da Panini, pois os “espertos” compraram lá fora? O editor da Panini, Fernando Lopes, já disse que por ele lançaria encadernados todos os meses, mas que para isso o pessoal precisa comprar que os italianos vejam que tem espaço no Brasil pra isso. Como a maioria baixa o scan ou compra lá fora, os italianos não se arriscam e lançam só aquilo que é garantia de alguma venda mínima. Por isso a DC só tem 6 revistas mensais e a Marvel 15, também.

Enfim, me alonguei mais do que queria, mas é só pra não deixar dúvidas na sua cabeça. Se você falar “eu me recuso a comprar jogo no preço praticado e prefiro outra maneira”, tudo bem, faça o que quiser, só espero que entenda a minha posição também.

Questão levantada e respondida, realmente. Faz todo o sentido isto que foi comentado. Eu realmente nunca havia pensado no lado “empresa/comércio” da coisa. A maioria das ações empresarias são baseadas em números (dá pra contar nos dedos as que não são, não?) e se nós desviamos os números para outros mercados, há uma tal fuga de consumidores para mercados já fortes e que já conquistaram certa credibilidade do consumidor em termos de comprar produto X.

Theo, mandou a segunda questão da coisa:

Theo: No meu entendimento comprando jogo original já seria o suficiente, mas você mandou um ponto de vista que eu ainda não tinha analisado. Mas no caso da trava por região: e os jogos que não veêm a luz do dia em outros países? Jogos orientais e europeus? Ficarão restritos a esses mercados?

Acho que essa é a maior reclamação da Dakini.

E essa a maior razão para alguém querer consoles sem travas de região. Eu por exemplo, tenho uma história de amor com um dos melhores jogos que já joguei na minha vida (e que inclusive serviu de porta de entrada para mim no Portallos), que é o Jump Ultimate Stars. Um jogão em todos os sentidos, mesmo pra quem não é tão fissurado na Jump como eu (foi por ele também que conheci várias pérolas como Hokuto No Ken). E Disaster no Wii que nunca saiu em terras Americanas? E o Tingle Rose RuppeeLand (como queria jogar essa bizarrice)? Poderia citar uma penca de Tales Of, outra lista de jogos crossovers… E eles?

Mauri: Sim, mas a pergunta é: existe espaço para esses jogos? Captain Rainbow venderia bem se fosse lançado no ocidente? Acredito que não, se eu fosse o Reggie eu nem ia querer lançar mesmo. Mesmo sendo o nicho do nicho, até entendo também existir pessoas que queiram jogar, mas comercialmente falando é algo dificultoso. Se eu tiver um console sem trava de região, uma pequena parcela de meus consumidores aproveitará jogos não lançados na sua terra. Por outro lado, uma parcela maior de consumidores pode recorrer a compras em outros mercados de títulos que estão disponíveis. Isso é algo que assombra o mercado do entretenimento, e que com a globalização se fortaleceu, enfraquecendo os mercados locais, que assim perdem também o poder de exercer um maior curso de ação.

A trava de região foi criada para sustentar o mercado local, porque o pessoal abusa. Na época do SNES, era muito comum encontrar as lojas cheias de jogos japoneses, o pessoal não queria esperar pelo lançamento americano, mesmo nos casos em que o jogo fatalmente seria lançado lá. Meu amigo comprou o SFII Turbo lá nos EUA, japonês, pode? Se fosse o Super Hokuto No Ken, ok, mas SFII não pode, isso estraga o mercado. Eu fico meio assustado com essas campanhas de “comprem tudo lá fora”, tenho medo de chegar um dia em que as empresas simplesmente vão desistir do Brasil. Afinal, brasileiro compra tudo de fora, pra que investir o mínimo que seja?

Pegando o caso do Xenoblade e similares, eu achei muito legal a iniciativa de se fazer um movimento que mostrasse para a Nintendo “EI, queremos esse jogo” ao invés de todo mundo só simplesmente comprar o jogo de outro país. Agora, ainda assim, o jogo vai ser lançado lá, mas como muitos já compraram, não vai vender com o potencial que deveria, e com certeza vai desestimular a Nintendo na próxima vez que um jogo similar aparecer. Em vez de da Nintendo USA ter vendido sei lá, 200 mil jogos, ela vai vender 80 mil. A Nintendo européia por sua vez, deveria ter vendido 300 mil, mas terá vendido 420 mil. Isso provocou uma distorção do mercado, e os números não mentem, e de acordo com a contabilidade oficial é certo que a Nintendo Europa vai dar mais atenção a esses jogos e a Nintendo USA não.

Entre mortos e feridos, é melhor pra mim eu ver o meu mercado forte do que agradar alguns usuários.

E é exatamente assim que a empresa pensa, por mais que seja chato, por mais que gostaríamos ter várias pérolas japonesas como Taiko no Tatsujin. A Entusiasta por CEs então volta para a réplica:

Dakini: Eu entendo a questão do mercado nacional, e sinceramente gostaria de comprar as coisas aqui. Até diria dane-se pro fato de ser o dobro do preço em casos de jogos que quero muito, mas aí entra outro problema: CEs. Elas não vêm pro Brasil, somente em casos de jogos famosinhos mas aí é tipo 7x+ o valor cobrado lá fora. Impraticável. E hoje em dia quase tudo que eu compro tem CE e portanto eu pego essa edição.

E outra coisa diferente é a não localização de jogos. Eu não digo que não entendo as ações da NoA ou de outras publishers. Elas tão no direito de achar que x vai ser rentável e y não vai vender nem mil cópias, isso não é discutível, é arbitrário e é ok ser assim. Mas não é porque é assim que funciona o mercado que eu não posso achar ruim. O que sai aqui do que eu gosto eu compro, mas eu quero poder jogar o que não sai também. COMPRAR ORIGINAL o que não sai, sem desbloquear console ou jogar em emulador. E a trava de região impede justamente isso. Que ela serve pra fortalecer o mercado local não há dúvidas, mas não é por isso que eu tenho que gostar dela.

E para fechar o papo:

MauriNada errado com suas vontades, algumas delas são minhas até, mas representam uma parcela muito pequena dos consumidores. Eu digo que entendo pois trabalhei em uma empresa grande de serviços, e recebíamos feeedback variados, mas alguns deles eram de nicho de tal maneira que tornava impossível o atendimento.

Se o Brasil mal está lidando bem com os jogos standard, imaginem com CE’s. Nada errado conosco, simplesmente não somos o público adequado, e eu por isso comemoro cada pequena conquista. Mass Effect por exemplo, aqui a edição standard saiu com o mesmo conteúdo da edição de pré-venda. É pouco, é claro, mas são pequenas iniciativas como essa que podem sinalizar demanda de mercado mostra que a EA tenta compensa compensar de algum modo. A warner veio com um brinde legal em Arkham City e tal.

Um exemplo diferente é os grandes blockbusters como Vingadores estrearem primeiro no Brasil. Os americanos ficam putos tipo “porque um filme feito aqui chega primeiro em outros países”, mas estréia primeiro aqui e em outros mercados por questão estratégica, não é que os estúdios queiram sacanear os americanos.

Não simplesmente questão da empresa X ou Y ser evil ou não, é uma questão de consumo e demanda dele (ainda que em alguns casos a empresa realmente tenha tomado um curso de ação infeliz). Ninguém toma uma atitude que desagrade o consumidor por sacanagem, é só o que tem pra hoje. Acredito que quando o mercado como um todo atingir uma maior maturidade, a trava pode ser reavaliada.

Depois deste debate de ideias, a hora é de vocês leitores, puxem uma cadeira e continuemos o papo!

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Rackor

Gamer de fliperamas aos consoles, passando pelo saudoso GB Color e seu Pokémon Yellow. Leitor de mangás, e dou preferência a estes ao invés de animes. Mais recentemente descobri as HQs, e desde então sou fã da trajetória de Geoff Johns em Laterna Verde, entre outros clássicos como Watchmen.
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