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Cinema | O Espetacular Homem-Aranha (Crítica)

Uma nova visão com a mesma essência do herói mais querido do mundo!

Uma década se passou desde que o tão esperado (e adiado) filme do Homem-Aranha alcançou as telas dos cinemas pela primeira vez. Era um tempo onde a internet ainda não tinha a presença e o imediatismo de hoje. Cada pequena novidade sobre o filme do cabeça de teia era compartilhada com os amigos acompanhada de olhos e ouvidos atentos, seguida de uma troca de opiniões e de expectativas.

Eu estava lá nesse meio. O primeiro trailer eu só pude ver quando recebi um CD-ROM da AOL que continha trailers, papel de parede e proteção de tela. Tudo devidamente instalado e apreciado em meu modesto Pentium II de 233MHz. Foram dias fantásticos aqueles, onde a expectativa era mais plena pelo pouco que tinha visto do filme.

Dois meses depois, prester a sair de cartaz, consegui ir ver o tão esperado filme. Saí do cinema com os olhos brilhando, as lágrimas expondo minhas emoções; e isso se repetiu nos outros filmes seguintes, embora em menor intensidade no último. Mesmo encantado, eu tinha plena consciência das lacunas que haviam nesses filmes que formaram a primeira trilogia de filmes do Homem-Aranha.

10 anos depois, e lá estava eu à espera de um novo filme. E quanta coisa mudou nesses 10 anos! Se antes era trabalhoso reunir informações sobre o filme, agora em poucos cliques era possível ver centenas de fotos, ler dezenas de entrevistas, assistir trailers e cenas de bastidores. E um novo mundo como esse precisa de um novo herói, que realmente vivesse nele.

É isso o que sinto em relação a O Espetacular Homem-Aranha, que assisti ontem em 2D. Se você não viu, cuidado com os spoilers a seguir.

O Homem-Aranha foi criado 50 anos atrás pela dupla Stan Lee & Steve Ditko. Naquele início dos anos 60, os adolescentes apareciam nos gibis como side-kicks dos heróis. Lee queria algo diferente disso, e junto de Ditko concebeu um personagem que seria diferente daqueles que povoavam a maioria das páginas de quadrinhos. Um adolescente orfão, criados desde criança pelos seus tios paternos mais próximos. Um adolescente que além de enfrentar todos os problemas comuns da idade, recebe um poder incrível. Um poder que o permite alterar drasticamente sua vida, um poder do qual poderia se beneficiar para conseguir facilmente coisas que até lhe eram negadas. Mas esse adolescente, Peter Parker, decide que esse poder não pode mudá-lo. Esse poder não pode torná-lo diferente do que é, mas ele pode usar esse poder para fazer a diferença. E isso fez a diferença e tornou o personagem de Lee um herói no qual as pessoas se identificavam, e o sucesso do Homem-Aranha foi, espetacular.

O Espetacular Homem-Aranha bebe nessa fonte, mas seu principal mérito é juntar tudo aquilo que diferencia o Homem-Aranha de tantos outros heróis e apresentar tudo de uma maneira revigorada, mais próxima do mundo atual em que vivemos. Assim como Stan Lee criou um personagem que fazia sentido para os jovens da década de 60, o que vemos em O Espetacular Homem-Aranha é algo similar, que pega a essência do heróis e a traduz para os dias atuais. Isso de certa forma já havia sido feito no Homem-Aranha Ultimate com sucesso, mas não aconteceu com a primeira trilogia de filmes do herói, comandada por Sam Raimi.

Raimi é um fã confesso do personagem, mas ao transpôr o personagem e seu universo na forma de um filme, pouco fez para que ele soasse realmente moderno, e sua predileção pelo Aranha antigo sempre foi óbvia pra mim, e por isso desde o primeiro filme percebi as lacunas e a falta de sintonia do personagem com os anos 2000. Isso não aconteceu com a direção de Marc Webb em O Espetacular Homem-Aranha. Pra mim, Webb foi muito feliz ao conservar a essência do Homem-Aranha ao mesmo tempo em que o insere no contexto em que vivemos.

Dias atrás eu fiz um maratona de filmes com a trilogia de Sam Raimi, depois de uns dois anos sem vê-la. E fiquei chocado em constatar como os filmes me pareciam mais velhos do que realmente são. O quanto eles se afastam de maneira negativa da essência dos personagens originais (com raras exceções). Não é que de repente eu tenha passado a odiar eles, longe disso. Mas depois de ver o novo filme do Aranha eu pude perceber com mais clareza as coisas que me incomodavam na antiga trilogia, as discrepâncias da visão particular de Raimi. E isso é algo natural. Muito do que Nolan faz nos seus filmes de Batman eu também não gosto.

Se tem algo que me atrai muito em HQ’s, filmes, jogos, são universos alternativos e reinterpretações de personagens. Aliás, geralmente prefiro uma HQ da Marvel por exemplo, do que um mangá, pois gosto da variedade de escritores e desenhistas que a maioria das revistas dela possuem. Acho bacana ver pontos de vista diferentes, idéias novas sobre algo já conhecido, e situações acontecendo de maneira que até então eu não poderia sequer imaginar no passado… às vezes não dá certo, mas não me preocupo, logo as coisas podem mudar. E quando as coisas mudam e a essência permanece, eu fico satisfeito.

É isso o que vi em O Espetacular Homem-Aranha. Vi tudo sob um novo olhar, novas possibilidades, mas lá no fundo, eu ainda consegui enxergar tudo aquilo que sempre me atraiu. O Peter antigamente andava de lambreta, mas não consigo ver isso acontecendo nos tempos atuais. Então, para citar um exemplo, ver um skate nas mãos dele no novo filme é algo que me fez sorrir. Peter no skate é sobre liberdade, é uma forma dele poder andar por aí sem que as pessoas o abordem. Enquanto corre com seu skate, Parker está mergulhado no seu mundinho particular, se sente mais confortável, já que é notória a sua dificuldade em se relacionar com as pessoas. É um momento de velocidade em seu mundinho parado e quase impenetrável. É uma adrenalina que faz bem pra ele. Mais tarde, o skate cede seu lugar para a fantasia de Homem-Aranha.

Gwen Stacy é uma jovem que vive no nosso mundo atual, tem aspirações compatíveis com ele. Não é mais aquela donzela em perigo típica das primeiras histórias do Aranha, mas conserva toda sua doçura, sua personalidade, sua alegria de viver no filme. O Dr. Connors aqui constrói mais rápido sua ligação com Peter, uma amizade e companheirismo que o tornaram um dos mais queridos personagens do universo do Aranha, bem como todo o seu potencial para o irracionalismo sempre que se torna o Lagarto.  Connors é amigo de Peter, e nosso herói sempre usa isso como ponto de apoio quando tem que enfrentar a fera interior do seu colega cientista. Isso se faz presente no filme.

O maior foco em Peter Parker é um dos grandes trunfos desse filme. Pois quando Lee criou o personagem Homem-Aranha, deixou claro que não seria o poder e as habilidades extras que definiriam ele. O poder ganho não transforma Peter, mas apenas potencializa aquilo que ele já é. A picada da Aranha não mudou Peter. Deu meios para que ele pudesse ser o herói que sempre foi, mas de maneira ampliada. Não por acaso muitas vezes nas HQ’s eu li declarações de personagens como Capitão América, dizendo que o Aranha é o maior heróis de todos. Um dos maiores gênios científicos, mas também um dos mais abnegados dentre todos os heróis

Mas, esse reboot, era mesmo necessário? Bem, mercadologicamente sim, a Sony precisava fazê-lo para continuar com os direitos. E acredito que um Homem-Aranha 4 seria frustrante. Tobey Maguire e Kirsten Dunst estão velhos demais para esses papéis. E ainda em seus primeiros filmes, é visível que não há química, algo que o novo filme esbanja. Mas existem falhas no filme. Sim, e não são poucas. Algumas coisas não ficaram bem explicadas, como a motivação de Connors, e aí eu acho que fez falta a aparição da família dele. Connors faz o que faz pois deseja muito ser completo, e sua mulher e filho são partes imprescindíveis disso. Sem ela, a sua decisão de ser sua própria cobaia perdeu um pouco do peso original, e sua luta para não ser dominado pelo Lagarto ficou prejudicada.

Outra coisa ruim é o tempo excessivo que tomou para se contar a origem do Aranha. Mesmo que aqui tenha ficado mais interessante, principalmente a relação de Peter com os tios, dava para encurtar as coisas e colocar um foco maior em Connors, e quem sabe de quebra mostrar mais dos primeiros dias de Peter como Aranha. Ah, e uma coisa que deveria funcionar melhor é a trilha sonora incidental. Se James Horner desse uma encorpada na suas composições, especialmente no tema do Aranha, seria bem interessante. Como ficou, passou quase desapercebida.

Mas os acertos são maiores, e a direção de Marc Webb me surpreendeu. Cenas como a morte do Tio Ben foram modificadas em relação ao primeiro filme de Sam Rami, mas sem perder a essência. Essa era uma preocupação minha, mas tudo se encaixou bem dentro do contexto dos dias de hoje. Os diálogos ficaram bons como o esperado, e as cenas de ação que eram a minha maior preocupação ficaram muito bem executadas. O Homem-Aranha aqui se comporta como eu sempre quis ver, bastante parecido com o jeitão dele nas HQ’s. Ah, e o uniforme novo, que gerou tanta discussão, funciona muito bem, bastante superior ao da trilogia original. Eu adoro o uniforme clássico do Aranha, mas caramba, estamos em 2012, e o uniforme criado pelo Cirque du Soleil ficou muito mais crível. Um uniforme derivado de roupas esportivas faz mais sentido do que um pedaço de pano costurado.

Então é isso, relevando alguns problemas de narrativa e ausência de elementos importantes no roteiro, o novo filme consegue um saldo extremamente positivo, deixando a trilogia original o chinelo, por mais do que apenas respeitar os personagens, mas também por traduzi-los para a geração atual, assim como o Homem-Aranha Ultimate fez nas HQ’s. É esse justamente o segredo de uma boa adaptação de HQ.

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Mauri Link

Um gamer inveterado desde a primeira geração de consoles, aficcionado por histórias em quadrinhos, nerd de carteirinha, e super-herói nas horas vagas!
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