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Sense8 | Pequenos mundos entrelaçados!

Texto livre de Spoilers. Pode ler sem medo!

De uns tempos pra cá, estou sempre com a impressão de que a Netflix está a todo momento anunciando novos conteúdos originais. São desenhos, documentários, filmes, programas de stand-up e seriados.

Admito que não dou conta de acompanhar tudo, mas os seriados do gênero drama são o meu tipo predileto entre a variedade apresentada. Porém até hoje não consegui ver Hemlock Grove, Marco Polo e Bloodline. Orange is the New Black acompanho bem esporadicamente, estando no meio da segunda temporada ainda. É bom, mas cansa ver em maratona. Já House of Cards, Demolidor e Sense8 estão em dia e, pra mim, estão no top dos tops de qualidade na qual a Netflix vem apresentando até o momento.

Sense8 terminei de ver há alguns dias atrás e foi uma grata surpresa. Tudo bem que a série vem sido vendida com o peso de seus produtores, os irmãos Wachowskis e J. Michael Straczynski, que são um trio peso pesado quando a gente pensa em histórias de ficção. E que bom que aqui deu tudo certo!

Para quem está perdido e não viu nada a respeito da série, Sense8 narra a história de 8 pessoas vivendo em diferentes partes do planeta, com seus próprios problemas e suas próprias vidas, quando um evento peculiar conecta suas mentes entre si, permitindo que elas interajam entre si e até mesmo compartilhar sentimentos, experiências e habilidades únicas.

Inicialmente é um conceito que parece muito estranho e desconfortável tanto ao espectador quanto aos personagens, e conforme a história vai se desenvolvendo as coisas vão ficando mais natural, ambos os lados. É um grande mérito a série conseguir esse efeito entre quem assiste e os personagens dentro da trama. A gente meio que entra nesse universo num mesmo ritmo, chega a ser surpreendente.

Dentre algumas críticas inicias de Sense8 que li em alguns lugares dizia a respeito justamente desde desconforto inicial, com 8 personagens em 8 mundos completamente diferentes e o quando era confuso começar a acompanhar a história. Pois bem, inicialmente cheguei a concordar com isso, mas após terminar os 12 episódios dessa primeira temporada, fiquei com a impressão que a confusão inicial foi algo meio proposital, e ao fim da série, eu estava tão entrosado em cada um dos 8 personagens quando eles também estavam. Mas faço uma ressalva, veja os primeiros episódios com uma certa atenção, sem aquela tentação de que temos hoje em dia de colocar algo na TV enquanto vai fazendo uma outra coisa concomitantemente. Preste atenção em como as coisas vão se desenrolar.

O começo é um tanto quando devagar mesmo, porque são 8 pessoas, com 8 núcleos de personagens que contracenam com os protagonistas, em 8 lugares diferentes, sendo histórias bem peculiares e de repente um personagem de um outro lugar começa a sentir e interagir nesse mundo que não lhe pertence. E é impressionante o quão orgânico isso vai sendo realizado nos episódios e sempre em maior ritmo e tensão. A briga do personagem na África que ocorre bem nos momentos iniciais da série acaba dando o tom do que você vai ver dali pra frente. Fora que é impressionante a forma como a série coloca isso visualmente exposto ao telespectador.

Uma das muitas qualidades do show é a diversidade de pessoas, locais, culturas e gêneros. Pense que se Sense8 fosse uma série da TV aberta americana, talvez essa diversidade não fosse possível e os personagens acabariam sendo aqueles velhos clichês aguados que os seriados da TV aberta muitas vezes são porque precisam se comunicar com um número muito grande de telespectadores.

Outra vantagem de estar fora da TV é que a série não precisa ser polida ou contida. Então há grandes cenas de nudez e sexo, há grandes momentos de pancadaria e violência – tem uma parte envolvendo uma bazuca (sim, por favor!) – e não há tempo para recalques ou para dar lições de morais óbvias. Não discurso moral em algumas histórias, apenas mostra que a vida é assim mesmo, confusa e uma bagunça que só e tudo diz respeito as escolhas que tomamos ou deixamos de tomar e para onde isso irá nos levar.

O série discute muita polêmica em meio a ficção. Há o núcleo do preconceito sexual, da pobreza, cultura familiar, violência contra mulher, traumas do passado, da sexualidade em si, do profissionalismo e por aí vai. E a abordagem das polêmicas vai se intensificando episódio após episódios. As histórias, tirando o lado da ficção, parecem realmente reais, ao contrário da forçação de barra que séries dramáticas por vezes precisa ter.

Vale também alguns elogios a trilha sonora em alguns episódios, em canções que brilhantemente amarram entre tramas e personagens no momento e situações peculiares e cada um. É incrível ver uma canção se encaixando perfeitamente em 8 histórias simultaneamente e fazendo parte daquele mundo com se fosse algo harmônico, como se estivesse vibrando do jeito certo aos ouvidos de todos.

Em relação ao lado ficcional, é um show a parte! Há os méritos de se conseguir colocar estes elementos de forma natural na trama, ainda que sejam claramente uma fantasia, mas daí, Matrix também foi e mesmo assim ficamos com uma pulga atrás da orelha, não? Não é algo que o mundo inteiro poderia ficar sabendo ou algo que não faria sentido num plano real da física aos olhos que quem está vendo estes personagens com tais habilidades. A premissa é muito pé no chão e a trama só realmente vai levar a ficção mais ao extremo próximo ao fim da temporada, quando as tramas de cada um são deixadas de lado em pró de um clímax final em conjunto. E quão incrível é o último episódio no que diz respeito a somar 8 pessoas numa única ação para um único objetivo! É de levantar do sofá e aplaudir. Bem, ao menos eu fiquei empolgado.

Sense8 acaba tendo algumas jogadas de mistério. Pois nem tudo é expressamente explicado, especialmente a parte dos vilões e de outras pessoas fora do grupo de protagonistas. Mas até aí é um tanto natural, pelo próprio ritmo imposto pela história, já que somos apresentado a este universo junto com os oito protagonistas. Peca um pouco no fim quando deixa algumas coisas no ar, mas fiquei com a impressão de que os produtores já estavam confortáveis com o resultado do primeiro ano e cientes de que dificilmente a Netflix não renovaria o programa para um segundo ano.

Para encerrar, Sense8 é realmente uma bela adição ao catálogo da Netflix. E ele não precisa usar outros recursos de outras séries de sucesso do canal. Tem sua sua própria identidade, sua própria narrativa, e sabe ser provocativa e criativa usando e abusando dos recursos que um produto original de um serviço como a Netflix pode ter e que um seriado de um canal americano, seja de TV aberta ou fechada, muitas vezes não possui. Sense8 choca em alguns momentos, te deixa eufórico em outros e te leva junto num universo onde você torce pelos personagens e pela resolução de cada uma das tramas individuais propostas. E esse é só o primeiro ano, em apenas 12 episódios. Imagina o que dá para fazer daqui pra frente!

sense8-cartaz

História e universo ficcional proposto
Ritmo narrativo
8 personagens, 8 mundos distintos!
Cenas com canções que conectam as histórias
Não se contém e é provocativa
Vilões ainda pouco explorados
Cenas de ação, violência e sexo aos montes!
Desfecho do primeiro ano

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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