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Trials of the Blood Dragon | Na trilha da insanidade, e isso é bom! (Impressões)

Durante a sua conferência na Electronic Entertainment Expo deste ano, a Ubisoft de supetão revelou e lançou no mesmo dia, 13 de junho, um novíssimo Trials, mas não uma sequência normal da série, mas algo totalmente pirado: Trials of the Blood Dragon!

O game é como uma sequência maluca de Far Cry Blood Dragon que, para quem não se lembra, foi uma expansão chacota (no bom sentido) para toda a loucura e sucesso que Far Cry 3 estava recebendo em 2013. O spin-off foi bem sucedido, pois era extremamente bem humorado, espirituoso e chamou a atenção das pessoas pelo seu apelo nostálgico com sua narrativa inspirada nos filmes de ação dos anos 80. Não é incomum encontrar pessoas nas redes sociais da Ubisoft pedindo e perguntando até hoje quando um Far Cry Blood Dragon 2 vai acontecer. E deveria, aliás.

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Bem, isso quase que aconteceu agora, porém desta vez a Ubisoft chamou os malucos da RedLynx, que cuidam da franquia de Trials, para trazer todo o conceito do tosco, mas maneiro, que Blood Dragon levou para Far Cry, porém agora para dentro do universo de Trials, que é aquele game de plataforma com motos que precisam seguir trilhas feitas em ambientes 2.5D que traz todo aquela física que está sempre tentando ferrar com a vida do jogador. E o resultado dessa fusão ficou animal!

É e não é um Trials?

Talvez seja interessante comentar que a última vez que joguei Trials foi a versão Evolution, lançado em 2012, ainda na geração passada. Há um mais recente, desta geração, chamado Trials Fusion que apesar de não ter tipo a oportunidade de jogar, sei que é um título recheado de pistas, expansões e até mesmo algumas loucuras, como o tal gato montado em um unicórnio. Ainda assim Trials Fusion é um Trials, mais condizente com a franquia, mais sóbrio, e bem mais completo que Trials of the Blood Dragon.

Entretanto a questão em ponto aqui não é se Trials of the Blood Dragon é melhor ou maior do que o já existente Trials Fusion, e sim o quão imprevisível, improvável e absurdo ele consegue ser, usando justamente a roupagem criada por Blood Dragon. É sobre o quão essa proposta consegue mexer em uma franquia com uma fórmula própria. E nisso a RedLynx foi longe, onde nunca imaginei que Trials poderia ir!

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E é curioso como algumas críticas lá fora não foram tão amigáveis assim com Trials of the Blood Dragon, reclamando de problemas estruturais desta versão, como as fases sem motos, o game ser curto ou não ter toda a infraestrutura que o próprio Trials Fusion possui. Quer dizer, não que tais pontos sejam realmente problemas, mas acredito que o problema acaba sendo olhar o como meio vazio, quando ele poderia ser visto como meio cheio. Me parece aquele caso onde você acaba se preocupando tanto com os problemas e não consegue apreciar o que o título tem de positivo.

É até importante dizer, mas este foi o Trials mais legal e divertido que já joguei! Adorei o fato de que a RedLynx diversificou completamente as 26 fases existentes pelos sete mundos presentes no game. É difícil explicar direito essa afirmação, mas a minha experiência com os Trials mais antigos era somente essa coisa mais linear, de pistas de moto, rampas e trajetos planejados para sacanear o jogador, sem um grande background ou desfalcado de carisma. Aquela história de mais do mesmo, sabe? E Trials the Blood Dragon é totalmente o contrário disso.

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Acaba sendo um título na qual os jogadores acabam se perguntando se é um Trials de verdade ou não? Apesar de que se for olhar Far Cry Blood Dragon, hoje em dia é possível fazer esse mesmo questionamento. Talvez o ideal seja levar o conceito como um título do que parece estar virando uma franquia, ou seja, é um game do universo de Blood Dragon, dentro de uma roupagem de outra série famosa da Ubisoft.

Além de apenas segmentos em moto!

Trials of the Blood Dragon possui fases de tudo quanto é tipo. Há bastante fases de moto sim, mas também algumas em que o jogador está a pé, em outras controlando carrinhos de controle remoto, ou enormes tanques, ou bicicletas, e até mesmo aqueles carrinhos de minas, parecido com aqueles inesquecíveis segmentos do clássico Donkey Kong Country. Além disso há duas (ou três) fases infernais com jetpacks que é de arrancar os cabelos.

A sensação foi de que a cada minuto do modo campanha, o jogador está jogando ou fazendo algo diferente. Cada tipo de veiculo, ou ausência dele, funciona com físicas e mecânicas próprias, tornando o game dinâmico e cheio de ritmo. Daqueles na qual você tem a impressão de que vai jogá-lo até o fim de uma única vez, pois não vê o tempo passar.

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E o legal é que as fases em sua maioria possuem trechos que mesclam estas diferentes situações. Você pode começar uma fase a pé, e de repente pegar a moto, ou estar em uma moto e terminar a fase em um jetpack e assim por diante. Os desenvolvedores tiveram esse cuidado de manter um ritmo na qual os jogadores não vão jogar apenas fases inteiras com um único veículo porque, no final das contas, todas as fases misturam a maior variedade de situações que couber dentro de sua imprevisível história.

Claro que preciso comentar sobre as fases a pé. Elas são ruins como algumas das críticas lá fora pregaram? Apenas em parte. Fisicamente elas não são tão naturais como os momentos com veículos, os pulos dos personagens são meio estranhos, porém dentro da proposta de um Trials, da física empregada no game, essa mobilidade a pé não é tão absurda a ponto de tornar o game intragável.

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Há boas fases a pé e elas são o segundo tipo de segmento que mais existem ao longo do game, perdendo apenas para os segmentos de moto e bicicleta. Há boas ideias empregadas nessa mecânica e mesmo não sendo perfeito, me parece uma proposta válida e que poderia ser refinada para possíveis sequências ou expansões. Sabe o que acharia mais natural? Se nos momentos em que os personagens precisassem sair de um veículo acabassem se movendo com patins ou um skate. Faria sentido no contexto dos jovens protagonistas de Trials of The Blood Dragon.

E já vou mencionar a história e os personagens do game, mas antes disso, preciso apontar outro ponto positivo das diversidades das fases, que foram as adições de segmentos de moto onde o jogador precisa atirar em inimigos e pontos de acesso na trilha, além do gancho que gruda a moto em uma plataforma e a faz saltar sobre grandes buracos ou abismos. São implementações realmente legais e que trazem experiências diferentes nos segmentos das motos do que simplesmente subir e descer morros ou rampas e pular buracos.

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Outros segmentos menores também despertaram a minha atenção. As pequenas partes com o carrinho de controle remoto que pode até mesmo correr de ponta cabeça são extraordinárias. Aliás há duas fases extras com o carrinho que podem ser adquiridor pelo Ubisoft Club, acessível direto do menu do game. As partes no espaço sideral foram as que mais me deram nos nervos, pois controlar o jetpack é bem complicado e me fez passar raiva. Porém meu ápice da frustração foi a fase da bicicleta com uma bomba amarrada nela, pois a bomba não pode sofrer impactos ou cair do bagageiro, para logo em seguida a fase me largar em um jetpack com essa bomba fazendo peso! Que fase dos infernos! Quanto aos demais veículos, tanque que tudo destrói e do carrinho de minerador que pode ser freado por completo em uma subida que ele não volta para trás, são momentos deliciosos de Trials of the Blood Dragon.

Eu entendo a frustração de um fã de Trials, que ao pegar o título, esperando toneladas de fases de motocas, acabar apenas encontrando elas em tipo, 40% ou 50% do game, enquanto o restante mescla com outros tipos de mecânicas. Mas a proposta do título é ser algo diferente, meio debochado, tal como Far Cry Blood Dragon foi em 2013. Até porque, se fosse apenas um Trials puro, seria melhor se fosse mais uma expansão para Trials Fusion do que algo totalmente à parte, certo?

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Não tem como saber se a Ubisoft e a RedLynx queriam apresentar o conceito de Trials a novos jogadores ou se era para ser apenas um título mais descompromissado, um teste imprevisível para saber o que as pessoas achariam. Só sei que comigo funcionou. Acabei ficando com muita vontade de comprar Trials Fusion depois do pequeno gostinho deixado pelo Trials of the Blood Dragon. Ainda que tenha ciência que a loucura daqui não vai existir no mesmo nível de insanidade.  Porém no fim, fiquei com a impressão que este não foi um título desenvolvido com a intenção de agradar aqueles que curte o modelo mais tradicional de Trials.

Alienígenas, vilões, monstros e até mesmo o Inferno!

Acabei ocupando um baita espaço na divisão acima para falar da diversidade de fases, mecânicas e segmentos que a jogabilidade do título possui, mas talvez haja algo que seja mais ou tão importante quanto: a ambientação criada para o game.

Trials of the Blood Dragon se passa depois dos eventos de Far Cry Blood Dragon, porém eles não necessariamente obrigam o jogador a conhecer a fundo a história de origem da série. Tudo é bem explicadinho e ainda que você não sinta qualquer apelo que tal protagonista do título anterior, isso não traz qualquer problema, pois o game se passa muitos anos após o enredo de Blood Dragon original e o jogador assume o papel dos filhos do protagonista do game anterior, que agora seguem uma espécie de força militar maluca dos Estados Unidos, que basicamente combate de tudo: alienígenas, assombrações, comunistas e assim por diante.

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Não vou me dedicar aos detalhes do enredo, porque eles são realmente divertidos se serem descobertos pelo próprio jogador, mas é uma história maluca e bizarra o suficiente para ter algum sentido e manter o jogador entretido do começo ao fim. Melhor ainda é ver que o final aberto deixa as coisas no ar para que mais do universo de Blood Dragon possa vir a ser trabalhado futuramente, em qualquer outra pegada que a Ubisoft quiser.

Entretanto, vale elogiar o trabalho de localização do título, que mesmo não estando dublado, está lindamente legendado, e legendas com uma excelente qualidade, condizente com o que está sendo mencionado em inglês e cuidado com o humor e as piadas originais, respeitando-as na medida em que elas soem engraçados para os jogadores brasileiros.

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É a partir da história maluca dentro do universo de Blood Dragon que se permite um dos melhores pontos do título: o level design e ambientação das fases. Há coisas realmente inacreditáveis, do tipo que eu jamais imaginaria ver em um Trials. E como esse mundo insano e bizarro funciona bem. O game até mesmo tira sarro de si quando algo absurdo demais ocorre (como inimigos aliens que se parecem exatamente com os outros presentes no game, apenas com uma skin diferente).

Há fases totalmente psicodélicas, na qual o personagem está sobre algum tipo de entorpecente (incidental, importante frisar isso) e que a fase fica simplesmente maluca, com você dirigindo na lateral de um prédio, sem qualquer respeito pela gravidade por exemplo. Em outro momento o jogador está atrás de uma relíquia sobrenatural e de repente está sendo assombrado por um espírito que o faz andar de ponta cabeça. É simplesmente genial! Fora a fase do inferno, literalmente o inferno, do tipo de andar de moto em cima de gigantescos glóbulos oculares ou até mesmo enfrentar um enorme olho gigante ao final da fase!

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Os estágios de Trials of the Blood Dragon estão constantemente apresentando alguma coisa nova, maluca, insana e bizarra ao jogador. Não tive um momento sequer que me deu aquela impressão de que o game estava repetindo padrões. Tudo ali parece querer surpreender a todo momento o jogador. Houve momentos em que tive que literalmente exclamar palavras de admiração e surpresa ao jogar, porque apenas pensar “que foda” simplesmente não foi o suficiente.

Claro que os veteranos na série podem achar exagero meu, afinal Trials Fusion tem algumas paradas malucas também, fora que o game aqui tem apenas 26 estágios. É fácil vir com ideias mais diferentes possíveis e no fim terminar com um game com 26 fases, sendo que cada uma dura em torno de 5 a 9 minutos. A última apenas tem contador maior, 13 minutos. Porém isso não significa que o jogador vá virar o game em uma ou duas horas apenas. Eu o fechei em 5 horas, o que achei justo e condizente com o preço do título, pela proposta e pela diversão que o mesmo me passou.

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Há outros pontos também, aproveitando a deixa do tempo de game. Fechei em cinco horas, mas deixei muita coisa por fazer. Não encontrei as cinco chaves do cofre (achei apenas uma), não descobri como ganhar as figurinhas do álbum colecionável (suspeito que seja para jogadores que pontuarem muito bem as fases) e nem mesmo consegui rankear qualquer fase, exceto a primeira, acima de B, não conseguindo então as notas A ou A++, o que não é tão simples de conseguir como parecem, ao menos para quem não é veterano na série. Também não subi o nível máximo do meu pet virtual (um tubarão), deixando-o próximo do nível 4.

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São pequenos features que incentivam qualquer jogador a explorar um pouco mais o universo de Trials of the Blood Dragon, talvez reforçando o título por mais 3 ou 4 horas, para aqueles que são complecionistas. É legal, mas obviamente não tem o recheio de um Trials Fusion, com modo multiplayer e até mesmo um criador e editor de fases com um sistema de compartilhamento online. Sim, não há nada disso mesmo. Se houvesse aposto que isso encareceria um pouco o game em sua versão final, o que poderia não ser uma boa ideia diante da proposta experimental do mesmo.

Outra coisa bem legal de se comentar é a apresentação do game. O menu de seleção de fases é o quarto dos protagonistas do game, com os pôsteres sendo os mundos e ao redor de todo ambiente tem pequenos extras e features, como um armário de trajes que ao final do game é destravado, ou o álbum de figurinhas já mencionado e até mesmo um rádio contendo todas as excelentes trilha sonora do game.

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Vale ou não vale?

É legal pensar que Trials of the Blood Dragon é um título solo, na qual o jogador não precisa ter o Trials Fusion (que custa bem mais caro em sua versão completa com o game original e mais seis expansões) para pode apreciar a brincadeira proposta pela RedLynx. O game está custando 39 reais no Xbox e na Steam e 46 reais no PlayStation. Um preço válido para um game digital.

Antes de se decidir em adquirir ou não o título é preciso ponderar o quão a sério é Trials para você. Pesquisando por aí senti que os fãs da franquia não curtiram tanto assim a proposta deste spin-off, enquanto quem não tem muito histórico com os games anteriores acabaram apreciando a loucura proposta.

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Pra mim acabou sendo um dos melhores Trials que acabei experimentando. Tudo bem, as fases à pé não são a melhor coisa do mundo, mas sinceramente tem muito título menor que tem física bem pior com games em plataforma 2D. Não é horrível ou intragável. Eu me diverti em várias delas, sem me frustrar ou entediar, o que são pontos importantes.

Trials of the Blood Dragon também não é um daqueles games que morrer é uma derrota completa. As fases possuem checkpoints a cada 10 segundos basicamente, não torturando o jogador a ter que voltar tudo novamente. E mesmo que o tempo acabe, ainda é permitindo encerrar a fase (eu tive duas situações assim, onde nem ferrando consegui bater o estágio dentro do tempo estipulado). Ou seja, é um game difícil, que planeja a sua morte constantemente, mas que não é impossível de ser batido ou decepcionantemente frustrante.

A palavra chave de Trials of the Blood Dragon é a zoeira. É ser maluco, bizarro e dar aos jogadores algo realmente imprevisível. E quem não gostou, tem seu direito também. Como diz o game, em alguns dos muitos dizeres após o jogador bater ou morrer: comeu cueca! Enfim, vale dar uma chance, pois não é fácil encontrar games com a física que o universo de Trials possui e nem com uma apresentação tão redondinha e divertida, onde tudo é propositalmente absurdo, no bom sentido.

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Mais Imagens!

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É um Trials diferente, muito mais absurdo e maluco
Mundo de Blood Dragon é uma ambientação incrível
Estágios com ritmo, boa diversificação de mecânicas
Fases à pé ainda não estão perfeitas
Relativamente curto, apenas 26 estágios
Excelente localização em português (legendado)
Possui bons desafios, sem frustar o jogador

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!

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