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Virginia | Experiência auditiva e relativamente interativa! (Impressões)

Ficha Técnica

Game: Virginia (site)
Desenvolvedor: Variable State
Publisher: 505 Games
Twitter: @505_Games / @VariableState
Facebook: 505 Games / Variable State

Plataformas & Preço: Steam (R$ 19), Xbox One (R$ 19), PlayStation 4 (R$ 31)
Características de destaque: drama interativo, visão em primeira pessoa, colecionáveis, simbolismo, história sem diálogos, trilha sonora orquestrada.
Multiplayer: não possui

Do que se trata? — o que significa drama interativo?

Venho ao longo deste ano de 2016 comentando com frequência aqui no site as minhas primeiras experiência com games narrativos. Jogos na qual a experiência em tela não é feito por meio de atos de ação desenfreada, mas de momentos na qual o jogador está como um espectador de uma trama que está ali sendo contada.

O jogador não está no controle pleno em games assim, assumindo o volante apenas em momentos pontuais, quando o game precisa que o mesmo tome uma decisão, ou quando há algo a ser resolvido antes que a história prossiga, normalmente um puzzle game ou uma simples investigação de cenário é exigido. A ação é sempre muito cometida, quase sempre desnecessária nesse gênero.

Não é um game que qualquer jogador consegue apreciar. Admito que demorei a aprender a gostar desse gênero. Não o apreciava até algum tempo atrás. Entretanto com a chegada de muitos destes títulos de forma localizada em nosso idioma, e até mesmo com tramas e temas mais interessantes, com novos meios de interatividade e tipos de se contar uma história, esse tipo de jogo finalmente tem me agradado. E eis que Virginia é mais um destes títulos que proporcionam uma experiência singular e impactante.

Virginia (4)

Virginia não segue exatamente os elementos mencionados acima no que se trata de um game narrativo. Não há escolhas, quase não há ação por parte do jogado. A história do game segue por um forte trilho, na qual o jogador não tem qualquer liberdade para fazer o que bem quiser. Há interatividade, mas ela é mínima.

O máximo que o jogador pode fazer em Virginia é observar ao seu redor, muitas vezes nem andar é possível. O que o game pede do jogador é que ele preste atenção a história que está sendo contada e se divirta com a trama. Quando o game lhe solta para andar, preste atenção e procure por alguns colecionáveis, ainda que estes não mudem ou impactem qualquer coisa pela trama (apenas liberam algumas conquistas do game).

Pontos a serem considerados — pensando fora da bolha

Ao final do game há um agradecimento a Brendon Chung e ao indie game chamado Thirty Flights of Loving, por ter inspirado os desenvolvedores da Variable State na criação de Virginia. Não conhecia este título, mas pelo que pude rapidamente pesquisar por aí ele é um jogo curtinho (de aproximadamente 15 minutos) que funciona quase como Virginia se propõe a funcionar.

Virginia (2)

Só que Virginia parece ser um game que expande os conceitos criados por Thirty Flights of Loving. Visualmente é muito mais atraente, e sua durabilidade é claramente muito maior. Me parece como um game que abre portas para que outros prestem atenção a um formato que vem se tornando cada vez maior na atual indústria de games, na qual os games podem ter histórias densas, complexas e tão incríveis quanto o cinema. Videogames podem entregar essa experiência também, e de uma maneira linear, sem precisar que o jogador passe muito tempo “jogando o game”, o que é algo que pode soar estranho, é verdade.

Um dos primeiros elementos que impactou ao começar o título é sua trilha sonora, que foi realizada pela Orquestra Sinfônica de Praga e, uau, como o game sonoramente é incrível do começo ao fim. O som explica o jogo, cria as camadas narrativas que o game precisa ter, já que ele é completamente ausente de diálogos. Sim, os personagens não falam em nenhum momento do game. Tudo é repassado ao jogador por meio da trilha, do visual, dos efeitos, da simbologia criada em diversas cenas.

Certamente Virginia é um excelente título para se jogar com fones de ouvidos, se desligando completamente do mundo real, se possível.

A história do jogo apresenta esta personagem, chamada Anne Tarver, uma recém formada agente do FBI, que é designada a ser parceira de uma outra agente, chamada Maria Halperin, e assim investigar um caso de desaparecimento de um garoto no condado de Kingdom (no estado de Virginia, daí o nome do game, nos Estados Unidos).

O game se passa em 1992, ainda que isso não faça muita diferença, exceto por alguns aparecimentos de fitas de VHS ou computadores que pareçam realmente velhos para os tempos atuais. Tirando isso, a trama poderia facilmente funcionar nos dias de hoje.

O grande mérito de Virginia é a forma como o game conta a história de Anne. Além da já mencionada excelentíssima trilha sonora, o jogo tem um lance com cortes de cena que de deixar o jogador desnorteado. Os cortes são abruptos, secos e inesperados. Vocês está andando, bum, está em outro lugar. Está olhando algo, pá, está fazendo outra coisa. E a trilha acompanha estes cortes, ora fazendo o crescente do suspense, ora desaparecendo por completo.

Isso cria uma atmosfera de suspense, urgência, e uma imersão difícil de se ver por aí. Eu me peguei aflito em certos momentos do game, sem saber quando o mesmo me pegaria de surpresa, atento as mudanças, aos detalhes que poderia perder ao olhar para a direção errada e o corte ocorrer. É uma camada narrativa deveras interessante.

Vale ou não vale? — nada fica mastigadinho ao fim

Ao fim, Virginia me proporcionou uma experiência incrível. A trama é complexa, a narrativa é cheia de simbolismos e nem tudo fica exatamente claro ao final do game. É uma daqueles histórias em que o jogador precisa interpretar um pouco o que seus criadores quiseram passar, sendo que também não há interpretações erradas. Você acha o que quer achar. Não entendeu? Não faz mal, tudo bem. Mas certamente alguma coisa cada um acaba conseguindo tirar do game – mas nada te impede de ir olhar por aí algumas conclusões a respeito.

Virginia (9)

Anne acaba se encontrando em uma trama de conspiração. Nada ao fim é o que aparenta ser, ou algo assim. Tudo mundo ali tem uma história. Sua parceira, o padre, o garoto desaparecido, o seu chefe no FBI. Culpa parece ser um sentimento chave próximo ao final do game, preste atenção nisso. Anne precisa tomar uma decisão, que infelizmente não cabe ao jogador decidir. Melhor que isso são os sonhos, os delírios, os flashbacks e flashfowards que o game possui. Isso dá um nó na cabeça do jogador.

Não é impossível ao terminar a experiência, de um pouco mais de 2 horas da trama do game, descobrir que o jogador irá se sentir compelido a jogar tudo novamente, desta vez atento a detalhes que talvez tenha deixado passar batido pela primeira vez. É como ver aquele filme pela segunda vez, desta vez com outra perspectiva. E Virginia conseguir proporcionar isso é sensacional.

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Porém, esteja certo. Nem tudo é realmente exposto de forma clara ou exata. Há coisas que vão ficar no ar e cada um terá que interpretar a sua maneira. O que o pássaro morto quer dizer? E a figura do búfalo? O desfecho da história do garoto, o que significa? Fica a cada um a ideia do que toda a simbologia ali quer dizer. E isso é muito bom.

Não se trata de um game onde o jogador precisa pensar antes de agir, de acionar um comando de ação, mas é um game onde o jogador precisa pensar o que aquela história está tentando lhe mostrar, o que aqueles símbolos querem representar. É diferente, porém isso não significa algo ruim.

Virginia é um game curto. Acaba antes do game atingir 3 horas de jogatina. Dá para jogar em uma paulada só (ainda que eu tenha preferido jogar em duas partes), mas certamente no momento em que você chegar ao sábado da trama, o último dia, por favor, não pare e vá até o fim!

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Pelo preço, é um indie game que vale a pena ser experimentado. Não é caro (ainda que não goste do valor cobrado na PlayStation Store BR). Mas esteja certo que não é um título para qualquer jogador. É um game que parece um conto interativo. Não há decisões a serem tomadas. É sentar, colocar fones de ouvidos e curtir a trama com atenção.

Não há deméritos nestes aspectos. O jogo foi concebido para ser desse jeito, para não ter ação. Deveria ser uma trama com ao menos algum tipo de poder de decisão por parte do jogador? Talvez. Os colecionáveis poderia ter algum impacto na trama, ou talvez revelar um final secreto? Talvez. Mas nada disso acaba desmerecendo o jogo como um todo, já que no fim, é a experiência que o game proporciona que acaba fazendo-o valer a pena.

Os aspectos técnicos são fantásticos. Optar por gráficos animados em cel shading foi uma ótima decisão, já que isso certamente impedirá o envelhecimento precoce do título, fora que o permitiu ter alguns lances de cores saturadas em algumas cenas que passam o tom exato do sentimento na qual a história precisa ter. O game fala com o jogador, ao não dar voz a seus personagens. Também seria impossível imaginar como seria o resultado se o título não tivesse um trabalho acústico incrível graças ao fato de sua trilha sonora ter sido realizado por uma orquestra de alto gabarito.

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Entretanto, a trama de Virginia não chegou a me provocar. Não foi uma história que me instigou. É muito bem feita, e bacana de se acompanhar, mas não mexeu com meu eu interior. Não a achei provocativa. Há um ponto no começo dela, especialmente quando Anne entra na sala do pastor, na qual achei que seria provocado por alguns pontos polêmicos a minha visão de certas coisas e não rolou. Acontece, só que isso não torna a história ruim. É uma boa história, apenas não mexeu pessoalmente com temas que achei que poderia. Fiquei com a impressões que a trama poderia ter ousado mais. Se há estes temas ali, estão em pequenas camadas e nuances que passam facilmente despercebidas.

Ao fim, a experiência proposta foi o que mais me agradou no game. Ainda que seja bem confuso pra mim essa coisa de assistir um videogame, percebo que a cada dia que passa, estou aceitando mais e mais tipos alternativos e gêneros bem mais peculiares de games eletrônicos. Se games podem ser arte, Virginia certamente estaria em exibição em uma galeria de jogos artísticos.

Mais imagens!

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Trilha sonora fantástica
Boa trama, repleta de livres interpretações
Proposta visual casa com os elementos do game
Fortes trilhos narrativos, jogador não decide nada
Colecionáveis estão ali apenas pelas conquistas em si
Curtinho, com um fator replay para jogar pela 2ª vez

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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