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Bizarro | Road Trip até os Estados Unidos Bizarro! (Impressões da HQ)

Já faz um tempo que topei com esse estranho (ou seria bizarro?) encadernado. A Panini o lançou no Brasil em meados de junho deste ano. Trata-se de um one shot especial, lançado lá fora em agosto de 2015 e concluído em janeiro deste ano. É uma publicação bem recente então.

Chama atenção o fato de que esta série foi desenhada por um brasileiro, o Gustavo Duarte, que é bem conhecido no cenário dos quadrinhos independente aqui no Brasil, com trabalhos como Monstros!, Có & Birds, que até mesmo chegou a ser compilado em um volume único e lançado lá nos Estados Unidos pela Dark Horse Comics. Muitos também o conheceram quando ele foi convidado para trabalhar em uma das famosas Graphic MSP da Turma da Mônica. Neste caso é de sua autoria Chico Bento Pavor Espaciar. Por fim, aqui em Bizarro, Gustavo é responsável apenas pela arte, deixando o roteiro a cargo do norte americano Heath Corson.

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Vale apontar que ao final deste encadernado nacional há uma entrevista com o Gustavo na qual ele conta como recebeu tal proposta da DC Comics, como foi trabalhar com Corson entre outras curiosidades. É um tipo de material que certamente valoriza a edição.

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Como estava dizendo, trata-se de uma publicação incomum, diferente no mínimo. É uma releitura em torno do personagem Bizarro. Significa que não se encaixa necessariamente em alguma cronologia em torno dos múltiplos arcos, sagas, eventos ou alguma destas loucuras mirabolantes que a DC Comics está sempre inventando para reiniciar suas séries em quadrinhos. Ao mesmo tempo em que é uma releitura não significa que os personagens daqui tenham sido posteriormente inseridos em alguma outra série ou cronologia mais atual. Me parece que a intenção aqui foi simplesmente criar uma história solta, isolada de todo o caos que as histórias de super-heróis tendem a ser para aqueles que não acompanham de uma forma cotidiana. O fato é que Bizarro (o encadernado) funciona tão bem isoladamente como, por exemplo, funcionam as animações da DC Universe Animated Original Movies. Aliás, este encadernado ficaria muito bem dentro deste selo em Home Vídeo, caso a Warner resolvesse transformá-lo em animação.

Bizarro por Bizarro…

Não será a minha pretensão aqui destrinchar as muitas origens e versões que já existiram do Bizarro ao longo de décadas de quadrinhos. Esse é um personagem que surgiu em 1958, então pense que ele já teve muitas versões e variações, desde ser uma criação em laboratório, na tentativa de clonar o Superman, quanto de ter vindo de um planeta onde existem outras variações de personagens famosos da DC que também são Bizarros, o tal Mundo Bizarro.

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Para esta releitura, foi inclusive usado essa versão, de uma forma bem simplificada, sem amarrar com a necessidade do leitor ter que correr atrás de outras séries com o Bizarro. Basta entender que Bizarro também fazia tudo errado em seu planeta natal, a ponto de ser banido para o espaço, onde ele acabou caindo na Terra, na qual viu a figura do Superman, e o que ela representava aqui, e decidiu se tornar uma versão do mesmo.

Outra característica marcante do personagem é a troca de opostos em sua fala. Sendo assim quando ele diz, “você é meu inimigo“, significa “você é meu amigo“. “Eu te odeio” significa “Eu te amo“. “Não estou com fome” vira “Estou faminto“. E assim por diante. Este é um elemento que se faz bem presente na HQ e que cria momentos narrativos interessantes. Fora que é algo que requer atenção do leitor, pois no começo é preciso constantemente ficar virando essa chavinha no cérebro para ficar trocando os oposto das falas do Bizarro. Sem atenção a isso, alguns diálogos acabam sendo bem caóticos.

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Caindo na estrada

O roteiro deste encadernado de Bizarro talvez seja um clichezão de Hollywood, colocando o personagem em uma espécie de road trip pelos Estados Unidos da DC Comics, na qual Jimmy Olsen o convence a conhecer os Estados Unidos Bizarro, ou seja, o Canadá!

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A brincadeira surge em meio a uma conversa entre Jimmy e Clark Kent, na qual o mesmo comenta com o Olsen que uma jornada assim daria um ótimo livro de mesa de centro, contando como foi tal experiência. Isso porque nesta releitura Bizarro não é exatamente um vilão, ou pelo menos não há maldade vinda dele. Bizarro é apenas atrapalhado, devido a seu problema com opostos. Assim ele causa mais destruição do que se imagina, enquanto na sua cabeça, ele acha que na verdade está ajudando.

Aliás o encadernado como um todo faz um ótimo trabalho ao destrinchar a personalidade e caráter do Bizarro. Com o avanço da vigame, passando por alguns lugares, conhecendo pessoas e das situações incomuns na qual Bizarro e Jimmy irão se meter vai ficando cada vez mais claro que ele não tem culpa do que é, e que não é realmente um cara ruim. Sim, ele ainda continua sendo uma pessoa complicada de se lidar e vai continuar causando confusão por onde passa, mas o leitor passa a entender melhor quem é realmente o Bizarro. Nesse ponto a HQ manda muito bem. Ela humaniza o Bizarro de uma forma que nunca vi outra história dele fazer.

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No que diz respeito ao Jimmy Olsen, talvez a história poderia ter trabalhado um pouco mais com o personagem, já que ele é sempre um secundário nos capítulos. Nunca está no palco principal da trama. É o cara que sofre das enrascadas que Bizarro vai se meter. Ainda que a HQ também faça com que ambos criem um inesperado vínculo de amizade e respeito. O que quero dizer é que Olsen não fez ou reagiu a nada de forma inesperada, sem garantir alguma surpresa ao leitor. Cumpre-se o que se espera dele.

Em todo caso, Bizarro, funciona muito bem como uma história isolada de todo o resto do universo da DC Comics. Dá para ler a HQ sem nunca sequer ter lido uma revista de super-heróis, que ainda assim a trama vai funcionar. Claro que neste tipo de enredo é esperado que ambos passem por vários lugares na qual os fãs da DC vão reconhecer, inclusive personagens e participações especiais estarão presentes por toda a trama, a cada novo lugar na qual a dupla irá se aventurar.

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Gosto em particular do momento na qual ambos chegam em Missouri e vão assistir a uma show de magia da Zatanna, e lá o inesperado é esperado quando se trata do Bizarro, assim ele descobre que pode usar magia tão bem quanto Zatanna, apenas invertendo as palavras como ela faz. Acaba rolando uma hilária troca de identidades, na qual Jimmy se torna um ser Bizarro e Bizarro se torna um humano. Um momento singular em qualquer trama que já tenha visto com o personagem sem dúvida alguma!

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Talvez o momento mais fraco da trama seja o comecinho da viagem, quando ambos acabam fazendo uma parada indesejada em Smallville e lá acabam arrumando confusão com um dono de uma loja de carros usados que tem um totem egípcio que pode controlar mentes humanas. É, é um momento bem fraquinho (minha opinião). Não seria um grande problema se esse momento ficasse apenas por isso mesmo, porém é um gancho que acaba voltando ao final da aventura, o que a quase estraga, mas felizmente não é o único gancho deixado ao longo da aventura que retorna no final, o que acaba deixando a conclusão da série algo bem típico de quadrinhos de super heróis. De uma forma positiva a meu ver.

Ao longo das mais de 140 páginas da aventura, Jimmy e Bizarro acabam passando por vários lugares diferentes, desde uma cidade fantasma no velho oeste, a lugares famosos dos Estados Unidos, como Las Vegas e a Área 51, sim há alienígenas também dentro da aventura. Em cada uma destas localidades algo bizarro ou estranho acaba acontecendo, o que fará Jimmy questionar se a viagem foi realmente uma boa ideia e se ele realmente chegará vivo ao Canadá a ponto de conseguir escrever seu livro.

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Também me agrada o fato do Superman não estar constantemente presente na série. Ele tem um papel fundamental no final da história, e totalmente plausível com o momento. Fora que todo o bate papo que Bizarro leva com o Superman acaba gerando boas gags de humor. No geral todo o encadernado é movido ao humor em contraste a aventura na estrada. Corson e Duarte souberam equilibra muito bem estes elementos.

E antes que me esqueça, vale apontar que a cada novo capítulo, existem quadros especiais do Bizarro, dentro da proposta da trama, desenhado por artistas convidados para a ocasião, incluindo alguns desenhistas brasileiros. É possível encontrar páginas especiais produzidas pelos seguintes artitas convidados: Bill Sienkiewicz, Kelly Jones, Michelle Madsen, Francis Manapul, Fábio Moon, Gabriel Bá, Darwyn Cooke, Rafael Albuquerque, Tim Sale & Dave Stewart. Muito legal, não?

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Vale ou não vale?

O que mais posso dizer antes de encerrar este texto? Bem, acredito que esta série não é exatamente algo que entrará na história da DC Comics como uma das melhores HQs já feitas, mas nem posso isso é necessário desmerece-la. Não é exatamente uma típica aventura com super heróis e vilões. É algo que tem uma cara de produção independente, ainda que não seja.

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Eu torço muito para que Corson & Duarte sejam chamados para mais quadrinhos assim, não necessariamente para uma sequência com Bizarro, ainda que também não acharia ruim. Porém são quadrinhos assim que acabam atraindo curiosos, ou pelo menos é uma revista que se uma criança colocar as mãos, com certeza a mesma se simpatizará com tais personagens, grande parte graças ao humor empregado a trama e a arte do Gustavo. É algo diferente, e em um mercado que funciona com a mesma fórmula há décadas, ser diferente é algo bom.

No momento em que publico este texto imagino que seja impossível encontrar este encadernado nas bancas de jornal de qualquer lugar do país. Lançado no primeiro semestre deste ano, esta é uma edição que deve ser mais fácil encontrar em lojas especializadas ou que vendam quadrinhos e encadernados da Panini online (Comix, por exemplo). E digo que pelo diferencial da HQ, vale a pena dar uma olhada se você a conseguir. Especialmente aquele leitor que não acompanha DC Comics e não tem tempo para acompanhar o universo contínuo das revistas mensais e tradicionais. As vezes quadrinhos só precisam ser divertidos, e é exatamente o que acontece aqui em Bizarro.

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Roteiro é clichê, porém é bem divertido
Arte combinou perfeitamente com a proposta da HQ
Versão impressa com ótimo papel (lwc)
Edição capa cartão (comum) - sem versão capa dura
Capas internas, esboços e entrevista. Ótimo extras
Encadernado que funciona de forma independente

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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