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Eu, Robô | Humanidade temerosa e as três Leis da Robótica! (Indicação & Trechos)

Muito antes de começar a ler Pedra no Céu, já estava maluco para arranjar um espaço na minha pilha de livros para iniciar Eu, Robô que é também um outro clássico de um gênio literário da ficção científica: Isaac Asimov. E após meses procurando essa oportunidade finalmente consegui iniciar o livro há algumas semanas e cá estou para indicá-lo no site. Como já imaginava, é uma obra fantástica.

A ficção que instiga o pensar

Este ano foi um bom ano pra mim no que diz respeito a descobrir clássicos literários da ficção científica. Títulos que gostaria de ter lido quando era mais jovem, principalmente nos tempos de ensino fundamental e médio, porém nem sequer sabia que existiam. Fico pensando como diabos nenhum professor me apresentou livros como estes – além de Neuromancer, Jurassic Park & Eu Sou a Lenda – que andei recomendando aqui no site ao longo desse ano. E olha que agora sei que há ainda pilhas destes clássicos na qual quero conhecer.

Nada contra a literatura nacional, já que adoro alguns escritores mais recentes, apesar de que talvez tenha sido justamente a escola que me tenha feito odiar clássicos literários nacionais. Enfim, ficção científica talvez fosse algo realmente menosprezado no meio acadêmico aqui no Brasil em meados da década de 90, não sei. Ou a minha escola era ruim, assim como seus professores. Há sempre essa possibilidade, é claro.

A única coisa que me lembro de ter sido apresentado nos tempos de escola foram os livros de fantasia fantástica de Júlio Verne e isso somente porque o conheci lendo quadrinhos Disney (há muitas aventuras com o Tio Patinhas atrás de mundos e lendas escritas por Verne) e porque estes livros estavam na biblioteca do meu colégio. Os li por vontade própria, porque nenhum professor também jamais o indicou em aula.

E não é como se estes livros não tivessem nada a acrescentar ao mundo até os dias de hoje, por mais antigo que sejam. Jurassic Park tem uma discussão interessante tanto sobre o futuro da biogenética, quanto a ética de recriar animais extintos, como tratá-los e seus riscos em um ecossistema que não meu é adaptado a estes, quanto até mesmo a discussão de sistemas computadorizados na segurança e riscos e danos causados pela espionagem industrial.

Não é diferente com Neuromancer ou Pedra no Céu, que discutem futuros distópicos, onde a humanidade poderia evoluir. Há discussões sociais, éticos, morais e até religiosos dentro destas duas obras. Como os humanos agem ou pensam em relação a outras espécies inteligentes ou como poderemos reagir quando os recursos naturais do planeta Terra se exaurirem. Algo que já nos preocupamos parcialmente, mas que ainda não estamos efetivamente resolvendo. Estamos apenas jogando para o futuro, para que nossos filhos ou netos que resolvam e se preocupem com isso, quando os problemas estiverem estourando em suas caras.

Quanto a Eu Sou a Lenda, bem, talvez zumbis sejam apenas uma fantasia infundada, ainda que muita gente ache que um dia isso poderia ser real. Mas é um livro que também fala sobre o perigo de uma doença erradicar parte da humanidade. Algo que a humanidade já tomou vários sustos ao longo de sua história. Fora o estudo social do indivíduo que não tem mais com quem se relacionar. O que nós nos transformamos quando não há mais ninguém para nos preocuparmos? Quando não há mais pessoas para se interagir? A sanidade da mente é um dos pontos do livro.

São romances, ainda que regados com muita ficção e fantasia, que criam discussões. Nos fazem pensar. E não sei como são os livros escolares hoje em dia, mas na minha época escolar realmente não havia espaço para obras assim. O que é uma pena a meu ver. Eu mal me lembro do que obras como Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cubas discutiam, me desculpe. Sem querer desrespeitá-los, apenas estou dizendo que a obrigação de inseri-los no quadro escolar dos jovens é o que talvez o tornem tão esquecíveis. Se fossem tão bons, inevitavelmente os brasileiros acabariam lendo, no momento em que a curiosidade surgisse… talvez.

Enfim, eis que agora que comecei a ler Eu, Robô, descubro mais um clássico com outros pontos interessantes de discussão. Um livro que fala a respeito da evolução da humanidade, da robótica e do nosso medo lógico de que um dia as máquinas possam se rebelar contra nós, frágeis seres de carne. Uma discussão tão presente até hoje em outras mídias, como quadrinhos, filmes e séries. E que Asimov já assustava e instigada na década de 40, em contos publicados em revistas como Super Science Stories e Astounding Science Fiction, em circulação nos Estados Unidos. — Seria a nossa Superinteressante uma revista que poderia se equiparar a este tipo de publicação existente lá fora? Em parte talvez…

Asimov e seus robôs

Eu, Robô então é um livro publicado originalmente em 1950, reunindo nove contos – publicados nas revistas mencionadas acima – sobre robôs, com premissas e conceitos do que o autor acreditava ser o alicerce para a base da engenharia robótica e como a humanidade reagiria frente a esta tecnologia.

Há uma cola dentro do livro que conecta todos estes contos. A obra abre apresentando uma personagem, a Dra. Susan Calvin, alta funcionária e mente brilhante da gigante do setor robótico, a U.S. Robots and Mechanical Men, Inc. O livro é narrado sobre o ponto de vista da Dra. Calvin, enquanto ela apresenta estes contos da história do mundo dos robôs a um jovem repórter que esta entrevistando-a.

A Dra. Calvin não é a fundadora da empresa, mas trabalhou lá sua vida inteira, estudando a personalidade e a inteligência das máquinas. O livro a denomina como psicóloga roboticista. Ela apresenta um olhar evolutivo da história dos robôs, como eram e o que estão se tornando com o passar dos anos.

https://www.instagram.com/p/BOiAKv4BCHr/?taken-by=portallos

É importante ressaltar que no momento em que escrevo essa indicação acabei de terminar o quarto conto do livro (É preciso pegar o coelho). Ainda não sei qual a conclusão que a Dra. Calvin dará ao repórter ao final de tudo. Ou se sequer haverá algo assim. O que sei é que Eu, Robô é uma das obras que dá pontapé a outros livros de Asimov que acabou sendo denominado como Séries Robôs.

Está série é composta por cinco livros: Eu, Robô (I, Robot – 1950), As Cavernas de Aço (The Caves of Steel – 1953), O Sol Desvelado (The Naked Sun – 1955), Os Robôs da Alvorada (The Robots of Dawn – 1983) e Os Robôs e o Império (Robots and Empire – 1985). Com exceção do último, todos os demais livros foram relançados aqui no Brasil nestes últimos anos pela Editora Aleph, sendo que o livro que fecha a Série Robôs deve ser lançado em algum ponto de 2017. — Inicialmente parece que ele havia sido prometido para este ano, mas considerando que a editora lançou Pedra no Céu também do Asimov neste semestre (obra que tem conexões com a Série Fundação e com a Série Robôs) , faz sentido terem deixado o livro final da série robôs para o próximo ano.

Asimov e as três Leis da Robótica

Faz sentido que Asimov tenha resolvido expandir suas histórias de robôs para outros contos e livros. Afinal ele acabou criando as famosas três leis da robótica, que dizem que um robôs não pode ferir um humano ou por omissão deixar que esse humano se machuque, que o robô deve obedecer qualquer ordem dada por um humano desde que esta não interfira na regra anterior e, por fim, que um robô deve preservar por sua integridade desde que a mesma não interfira nas duas regras anteriores. Bem, o momento em que elas é mencionado pela primeira vez no livro está logo abaixo, vale conferir:

https://www.instagram.com/p/BNRuzeohTWy/?taken-by=portallos

Parece bem simples, mas Asimov logo deixa claro no livro que há cenários que podem deixar estas leis complexas e confusas para um robô. De que elas talvez não sejam absolutas e seguras quanto se pensa. Ou talvez sejam, mas não como exatamente como imaginamos.

Há três contos que li que envolvem uma dupla de personagens humanos, os engenheiros Gregory Powell e Mike Donovan, que possuem a ingrata função de sair pelo espaço sideral verificando possíveis problemas com as personalidade dos robôs, sendo que estes problemas normalmente acabam sendo relacionados as três leis básicas da robótica. Eles trabalham para a Dra. Calvin, então por isso estão presentes em tantos contos.

Ah e sim, eu disse espaço sideral. Porque no livro em um certo ponto da história da humanidade a Terra baniu os robôs do planeta. Não os achamos seguros. Não confiamos neles. Então eles só podem existir no espaço, fazendo o trabalho que seres humanos não podem fazer, como por exemplo, minerar um tipo de energia no sol escaldante de Mercúrio, o planeta mais próximo do sol. Então sim, Powell e Donovan vivem aventuras especiais investigando problemas robóticos.

Isso é claro, não impediu que os mesmos evoluíssem e se tornassem cada vez mais modernos. Essa é a beleza do rico universo do Asimov. Ele dá uma visão de como nós criamos e tememos nossa criação. O livro abre com um conto incrível de uma criança que tinha um robô babá e da inveja (e preocupação) da mãe em ver sua filha tão apegada a aquela máquina e como a mesma parecia tão humana a ponto de suprir qualquer outra necessidade de verdadeiro contato humano com a menina. Dói no coração o ponto em que esse robô é retirado da criança. Bem, não vou contar mais, mas é assustador o quanto esse primeiro conto nos faz simpatizar com o robôs e a criança.

Logo mais a frente, Asimov vem com um conto que me impressionou, ao apresentar um robô que chega a conclusão de que os humanos jamais poderiam tê-lo criado, afinal ele era uma máquina pensante muito mais eficiente. Seria como se os macacos tivessem criado os seres humanos. Não, isso jamais poderia ser possível. O robô acaba criando um Deus, dentro de sua função e passa a não mais responder aos humanos. E as três leis da robótica? Asimov ainda assim consegue encaixar e explicar como diabos elas ainda estão funcionando no tal robô profeta.

https://www.instagram.com/p/BNw63YoBkHe/?taken-by=portallos

Fora outros detalhes deliciosos desse universo, como o conto em Mercúrio, na qual Powell e Donovan se vê presos em uma situação em que precisam usar velhos robôs há anos desativados e descobrem que eles são de um geração na qual a humanidade não tinha qualquer pingo de confiança em vê-los andando sozinhos, realizando suas funções. Estes robôs eram como cavalos. Humanos precisavam estar sentados neles para que eles pudessem ter autorização para andarem! Robôs escravos! É muito bizarro, ao mesmo tempo que crível dado a índole do ser humano.

É um livro inacreditável. Talvez a parte da ficção espacial seja o que tire um pouco do realismo das histórias. Faz sentido porque o filme de 2004 com Will Smith utiliza somente elementos e conceitos de alguns pontos desse universo de Asimov, tornando-o assim mais assertivo, mais realista aos dias de hoje. Afinal sabemos que estamos muito longe da corrida especial que um dia todo mundo imaginava que logo seria possível. Estamos de fato ainda bem longe da possibilidade de vivermos fora do planeta e sairmos explorando o espaço. Ao menos não como a ficção científica do passado e do presente conseguiu imaginar.

Vou continuar lendo-o e agora é mais do que certo de que quero ler toda a série Robôs de Asimov. Quero ver até onde Asimov consegue ir com essa ideia de robôs e suas leis da robótica. Qual o ponto em que ele a quebrará ou até onde a humanidade vai temer ou quanto as máquinas se rebelaram contra seus criadores. Porque com os conceitos de cérebro positrônicos e inteligências artificiais é difícil imaginar que a única coisa que impede que os robôs deem as costa para os seres humanos sejam justamente as três leis.

Não me admira que apesar delas terem sido criados dentro da ficção de Asimov, muitos estudiosos da engenharia robótica acreditam que elas são a base para os robôs pensantes do futuro. Não tem como criar robôs ao molde de um ser humano e não colocar em sua programação que ele é menos importante do que uma vida humana. Afinal, o que os humanos se tornam quando robôs passam a pensar por si próprios e terem personalidades como a nossa? Eles se tornam seres vivos? O que define “vida”? É meio complicado pensar nos robôs como Asimov os trata nos livros e não pensar neles como criaturas, ainda que não orgânicas. Mexe com o imaginário, com a mais absoluta certeza.

Fica a indicação e quando terminar o livro, tenha a certeza de que retornarei para falar mais a respeito dele por aqui!

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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