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Pedra no Céu | A insignificância do planeta Terra! (Indicação & Trechos)

Imagine a hipotética situação de estar andando no meio da rua, quando de repente você é atingido por uma estranha energia. Você não desmaia, não sente dor, apenas a própria realidade ao seu redor muda completamente. Você não sabe o que aconteceu, mas de alguma forma, não importa como, você viajou para milhares de anos no futuro, em uma questão de milésimos de segundos, que mal o fez perceber o que diabos aconteceu.

E nessa situação, totalmente hipotética, é claro que todo o mundo ao seu redor mudou, afinal, milhares de anos se passaram. Você não espera que a calçada na qual estava andando tranquilão ainda esteja ali milhares de anos depois, né?

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É exatamente esta a premissa de Pedra no Céu, um clássica da literatura mundial da ficção científica, escrita por aquela cara que muita gente já pode ter ouvido falar, mas talvez nunca tenha tido a oportunidade de ler um único livro seu, que também é conhecido como um dos pais da ficção científica: Isaac Asimov!

Quem?

Se este nome não lhe é estranho, é bem provável que você esteja pensando em Eu, Robô. Que aliás é na verdade um livro, mas que boa parte das pessoas o conhecem pelo filme de 2004 com o Will Smith. Pertence a Asimov a célebre três leis da robótica, que todo mundo já ouvir falar e ainda é um dos pilares para todos os contos de robôs do mundo da ficção científica.

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Mas enfim deixe Eu, Robô para um outro dia. Ele está aqui, na minha mesa, coçando para ser iniciado, porém acabei priorizando Pedra no Céu que é anterior a ele e é um lançamento fresquinho da Editora Aleph para o público brasileiro. Pedra no Céu chega em uma edição bonitona, sempre com aquele trabalho gráfico diferente e criativo da Aleph, em um formato físico um pouco menor do que títulos como Guerra do Velho, Jurassic Park e Star Wars – Marca da Guerra. E está com um ótimo preço no dia em que publico esta matéria.

Conectado à outras obras

Bem, antes de partir direto para trechos e o que estou achando do livro, é preciso contextualizar algumas coisas. Como é algo que você pode encontrar em qualquer lugar e há até mesmo um editorial no começo do livro a respeito disso, sintetizarei um pouco a respeito. Isaac Asimov em sua vasta biblioteca de livros tem basicamente duas vertentes: uma com robôs e uma que se passa em um futuro galáctico. Pedra no Céu é exatamente nesse futuro galáctico.

Publicado em 1950, na verdade, este livro é uma das primeiras obras do Asimov. Originalmente era um conto, mas quando o livro saiu em 1950, o autor já havia reformado a sua história para encaixar dentro do que ele viria a criar em uma série de livros e que em 1951 ganharia seu primeiro livro: a série Fundação. Posterior a tudo isso, Asimov ainda trabalhou em mais dois prequels, que se passam antes de Pedra no Céu, e que posteriormente essa trilogia acabou sendo chamada de Saga do Império Galáctico. Estes dois livros são inéditos no Brasil, e estão nos planos de serem publicados pela Aleph futuramente. E mesmo que eles se passem antes de Pedra no Céu, a ordem original da publicação é esta mesma, com eles saindo depois deste livro.

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Achou confuso? Não fique. Basta saber que Pedra no Céu pode ser degustado totalmente a parte de qualquer outra obra que Asimov venha a ter criado ou encaixado posteriormente a esta obra. Porém o legal é saber que se você gostou do universo que o autor propõem aqui, há outros livros que continuam destrinchando tal universo.

O que será da Terra daqui milhares de anos?

Bem, feito as introduções obrigatórias, agora posso destrinchar mais sobre as minhas impressões sobre o livro. Valendo apenas ressaltar que esta é a primeira vez que estou lendo algo de Isaac Asimov. Não que não o conhecia antes, tanto que sempre esteve nos meus planos ler Eu, Robô, porém nunca havia surgido a oportunidade de ler algo do autor – e agora há, e Pedra no Céu calhou de furar a minha fila de leitura por ser um lançamento aqui no Brasil, e portanto mais importante de ser abortado nesse momento, já que Eu, Robô é um título lançado ano passado e também bem mais conhecido por causa de seu filme.

Fica o registro que também não conheço muito bem o que Asimov criou com a série Fundação ou com a tal trilogia do Império Galáctico. A menos que estas obras tenha sido adaptadas para filmes ou seriados, com outros nomes e que eu não tenha ligado os pontos de tais origens. Se bem quê, se você pensar um pouco, a brincadeira com o personagem Fry de Futurama é bem semelhante com o que ocorre com um dos personagens do livro de 1950 de Asimov. É bem provável que a ideia do Fry ser congelado e acordar mil anos no futuro, e nem sequer perceber isso, possa ser uma influência (ainda que indireta) deste livro de Asimov.

Sendo assim, é importante frisar que por estar chegando somente agora a toda essa incrível insanidade que é a mente de Asimov, o que encontro aqui, na proposta do livro, é realmente tudo muito novo (ainda que ao mesmo tempo seja velho), mas que dá essa percepção de um universo mais complexo e rico em detalhes, com coisas que talvez não sejam refinados aqui neste livro, mas que em outras obras provavelmente foram.

É até interessante como até onde li – aproximadamente metade dele – nem mesmo a história parece ter necessariamente um protagonista principal. Sim, há esse cara que vivia no passado e que foi parar milhares de anos no futuro. Ele se chama Joseph Schwartz e até agora seu peso na história é muito mais como escada para todos os demais personagens e núcleos do enredo, do que o próprio Joseph ocupar tempo de história que um protagonista exigiria. Aqui, ele apenas puxa as cordinhas do espetáculo. Tomando como base essa primeira metade do livro, claro.

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Não vou dar muitos spoilers ou detalhes do que Joseph irá encontrar nesse futuro de milhares de anos para frente, porém posso mencionar algumas premissas. A Terra se tornou altamente radioativa, são poucos terráqueos que vivem nela. A raça humana se expandiu para todos os cantos do universo e de alguma forma, parte de sua história se perdeu. Ninguém mais sabe que os humanos se originaram justamente no planeta Terra, um planeta totalmente desprezado no futuro, com os terráqueos sendo considerados uma raça mal educada e totalmente aversa de todo o resto da galáxia. Em suma, ninguém na galáxia gosta da Terra ou dos terráqueos.

É nesse mundo que Joseph é levado, por estranhos fatos que o livro surpreendentemente explica em um tom que poderia ter saído de um daqueles contos malucos de Douglas Adams (autor de Guia do Mochileiro das Galáxias). E há um porém: a milhares de anos no futuro, a língua da Terra não é mais a mesma! Joseph não consegue entender ninguém do futuro, da mesma forma que ninguém do futuro percebe que Joseph está falando uma língua morta de um passado muito distante e perdido da Terra.

E o livro deixa isso muito perceptível ao não trabalhar com Joseph falando enquanto o capítulo está sendo dedicado a qualquer outro personagem do livro. Somente quando um capítulo resolve mostrar a história do ponto de vista do Joseph é que realmente sabemos o que se passa em sua cabeça. É um formato bem interessante para a forma como a história é passada ao leitor.

Terror nuclear!

Sendo Pedra no Céu uma obra de ficção escrita no calor da Segunda Guerra Mundial, da mesma forma que Eu Sou a Lenda, o livro retrata esse medo da época da extinção da raça humana como a conhecemos e também do próprio planeta. Asimov aborda esse clima do holocausto e do medo de que a radiação fosse tomar conta de tudo, causado pelo uso de armas de destruição em massa. O romance acaba sendo também um reflexo de sua época, ainda que até hoje muitas obras de ficção também se utilizem desses elementos, de armas nucleares e risco de uma contaminação a escala global. Com a diferença que hoje em dia também haja esse medo disso acontecer por outros meios, como a contaminação biológica ou um desequilíbrio ecológico que possa quebrar as estruturas do planeta.

E não é difícil ver inspirações moderna semelhantes ao plot de Pedra no Céu. Nos videogames consigo pensar em toda a série de Fallout, onde a premissa é justamente uma devastação nuclear que mudou radicalmente a vida na Terra, causando mutações e a extinção de toda a tecnologia moderna, deixando apenas rastros disso em seu universo. E os humanos sobreviveram a isso, ou pelo menos partes deles, e agora o mundo é algo totalmente diferente do que estamos habituados.

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No caso de Pedra no Céu, o livro não tem exatamente a proposta de expor detalhes de um mundo devastado e morto pela radiação. Digo no sentido que ser técnico e ficar ocupando espaço em como ou porquê aconteceu. Esse é o mundo do futuro e é assim que as coisas são. Ponto.

O que acontece é que esse é um dos muitos elemento narrativos que acabam levando a outros fatores da trama, como a própria visão dos moradores da Terra frente aos outros humanos que vivem fora do planeta em outros setores da Galáxia, ou nas estranhas regras da sociedade da Terra, na qual os humanos após uma certa idade precisam morrer.

Claro que isso acaba sendo apenas uma curiosidade, pois ainda que sendo uma obra que originalmente foi publicada em 1950 a sua trama não dá sinais já estar envelhecida. Esse é um dos méritos de clássicos e de autores que estiveram a frente de seu tempo.

Ler ou não ler?

Antes de vim indicar o livro resolvi dar uma espiada por aí em algumas críticas a respeito da obra, afinal é um clássico bem antigo e não é exatamente um dos mais famosos livros do Asimov. Não que não esteja curtindo o livro, pelo contrário, estou achando bem interessante, especialmente por haver vários núcleos de personagens e histórias em paralelo ao do Joseph, que se conectam de maneiras diferentes.

A trama possui certos nós fáceis de enredo, especialmente em torno de um arqueólogo que chegou à Terra para tirar a limpo de vez essa lenda de que a humanidade se originou ali e que coincide com a chegada de Joseph a esse futuro. Uma coincidência de melhor hora possível para que algo tão impossível assim acontecesse, mesmo que haja toda uma série de empecilhos para que uma coisa não resolva a outra de imediato.

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Foi por isso que resolvi dar uma olhada em algumas resenhas pela web, ver se esse meu sentimento bateria com o de outros que leram o livro. Afinal essas coincidências e amarras parecem meio clichês em um primeiro momento. E foi o que imaginei. Muitos comentam por aí que este é um dos primeiros trabalhos do Asimov, então é natural que o autor ainda estivesse aprendendo estruturas narrativas que em suas obras posteriores foram refinadas. Faz sentido, ainda que, como disse, não chegaram a me incomodar ao ponto de não tornar o livro atraente aos amantes de ficção científica.

Admito que isso acabou me deixando mais curioso para saber mais sobre o desfecho do livro. Mas assim, independente do fim, acho válido conhecer a obra, seja porque ela se conecta a outros livros mais famosos do autor, seja porque toda a premissa do mesmo é instigante. Mérito de toda boa ficção científica.

E a edição da Aleph está impecável. Toda a apresentação do livro é muito bonita. Achei a arte de capa incrível, o livro tem um tamanho gostoso de segurar e gosto do fato de que sempre que necessário a editora faz notas introdutórias, antes do livro começar, que contextualizam a obra aos leitores que não sabem muito sobre o clássico que estão em mãos. Se faz importante também dizer que mesmo sendo um livro da década de 50, o mesmo não traz um texto ultrapassado ou cansativo.

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Também me agrada que o livro possua uma flexibilidade para uma leitura diária e cotidiana, pois há vários capítulos e todos são curtinhos. Então é possível ler um por dia, sem se perder no enredo ou nos pontos onde a leitura acaba sendo interrompida. E todos os núcleos presentes até o momento são fáceis de serem assimilados, são bem distintos, ainda que não sobre muito tempo para aprofundar alguns deles, sem mencionar uns que surgem e me fazem pensar se irão retornar.

Para quem é fã de Asimov, ou do gênero de ficção científica, Pedra no céu é uma boa indicação. Talvez não seja o livro mais incrível já feito, mas é competente o suficiente para prender o leitor. Você acaba querendo saber se aquele homem do passado, que está em uma enrascada no futuro vai mudar a forma como toda a galáxia enxerga esse pequeno planetinha que para muitos é somente um pedra sem qualquer significado no céu.

Trechos

Para complementar a indicação de Pedra no Céu, tal como faço com todas as matérias e indicações de livros aqui no site, trago três páginas do livro, compondo dois trechos distintos do livro. O primeiro trecho é uma das páginas que mostra um dos primeiros momentos de Joseph no futuro, sua reação e como ele está reagindo a toda a loucura na qual ele não entende o que aconteceu.

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Já o segundo trecho, composto por duas páginas em sequência, é em um momento um pouco mais adiante, na qual dois personagens discutem preceitos e preconceitos em torno do planeta Terra e seus habitantes nesse futuro a milhares de anos a frente do nosso presente. Gosto desse momento, pois é um dos momentos iniciais chaves na qual o autor coloca dois personagens para debater uma das estruturas da trama, engrossando mais o caldo para esse elemento do livro.

Pedra no Ceu - Trecho 2 Pedra no Ceu - Trecho 3

Se curtiu, a minha dica é para que procure Pedra no Céu em lojas online como Saraiva, Amazon BR e Submarino, que são as três opções mais comuns hoje em dia e as que mais oferecem descontos regulares em livros. Fica então a indicação. Leia Pedra no Céu!

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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