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Análise | Yoshi’s Crafted World

Disponível para Nintendo Switch

De todos os títulos da carreira solo do carismático Yoshi – que sempre possuem estilos artísticos únicos – talvez Crafted World seja o mais bonito de todos. Lançado no final do último mês de março, Yoshi’s Crafted World é de uma beleza artística de cair o queixo. Talvez não seja uma inovação como jogo, mas isso não tira os méritos de muitos dos elementos que compõe toda a obra, incluindo a arte escolhida para representar sua mais nova aventura.

E os jogos do Yoshi já tiveram vários estilos diferentes de visuais. Yoshi’s Island já brincava, lá em 1995, com traços e linhas grossas, quase como se tivessem sido desenhados a mão por uma criança. Em Yoshi’s Story, do Nintendo 64, o conceito 2D foi transformado para 3D, reforçando ainda mais as cores vívidas da série, e deixando tudo ainda mais fofo, mesmo para os gráficos liitados da época. Também não dá para esquecer Yoshi’s Woolly World, bem mais recente, de 2015, que trouxe um mundo todo feito de lã, conceito que anteriormente chegou a ser utilizado em Kirby’s Epic Yarn (de 2010), outro personagem do rol da Nintendo que está na classe dos mascotes coloridos e fofinhos que encantam a criançada.

Aqui, em Yoshi’s Crafted World, o mundo ao redor do famoso dinossauro do universo de Super Mario se transforma novamente. A brincadeira aqui é dar ao jogador um mundo todo feito de papel e outros materiais caseiros representadas em belíssimas maquetes artesanais. Papelão, latas, garrafas plásticas, botões e afins. Um mundo criado à mão, como algo que qualquer criança poderia fazer em sua casa, reunindo materiais descartáveis, pintando e deixando sua imaginação voar na velocidade que normalmente voa quando seu medidor de inocência e ingenuidade está em seus melhore níveis de capacidade. O resultado é uma obra de arte inacreditável.

No caso do Yoshi em si, desta vez o personagem não ganha a composição de ser de lã, mas mesmo assim seu estilo gráfico está longe do 3D convencional encontrado, por exemplo, em Super Mario Odyssey. Aqui o personagem recebe um visual que se assemelha a de um bichinho de pelúcia. Peludinho, sabe? Mas sem soar descaradamente como uma pelúcia. Há uma sutileza para não torná-lo artificial, como apenas mais um dos muitos objetos que compõem o mundo do jogo. Soa mais real, à medida que a arte permite.

Brincando com o tema

Mas a arte do jogo não é apenas uma mera escolha visual. O estúdio de desenvolvimento do título, a japonesa Good-Feel, que também foi responsável por Yoshi’s Woolly World, soube aproveitar o máximo do conceito artístico do jogo para brincar com suas mecânicas e moldar parte da jogabilidade baseada neste mundo de cola, tesoura e muito papelão.

Isso significa que o jogador irá se surpreender com muitos dos eventos e cenários encontrados ao longo da aventura principal. Objetos que vão se transformar em inimigos, cenários possuem dupla camada de profundidade, objetos normais, como garrafas plásticas se tornam foguetes, dentre outras surpresas inesperadas, como controlar um boneco robô do Yoshi, feito de papel, copinhos plásticos, palitinhos e elástico, ou viajar em aviões, trens ou carros construidos com papel, cola e muito carinho. O conceito artístico do game impressiona do começo ao fim, e até mesmo depois disso. Não é só um palco ao fundo, e sim a forma como o jogador interage dentro deste mundo.

E há realmente ideias e conceitos impressionantes dentro do jogo. A equipe que desenvolveu o título não mediu esforços para impedir de repetir ambientes e construções artesanais. Para isso o game tem cerca de 17 mundos bem pequenos, de apenas duas ou três fases. Cada mundo há um tema próprio. Comida, dinossauros, inverno, praia, ninjas etc. E são muitos mundos, mais do que tradicionalmente se espera, justamente por serem menores. Ao todo são mais de 40 fases presentes no jogo.

Isso cria todo um ritmo dinâmico ao título. Evita que se canse por frequentar os mesmos ambientes e as mesmas ideias. O jogo renova suas ideias a cada mundo, sempre apresentando novos visuais e novas ideias dentro de sua jogabilidade. Ainda que este último conceito em menor quantidade do que talvez fosse preciso (daqui a pouco abordo essa questão).

O importante aqui é entender que da mesma forma como os jogos de lã, seja de Kirby ou Yoshi, brincaram com o conceito visual dentro de suas mecânicas, Yoshi’s Crafted World faz a mesma coisa. Com muito sucesso e diversas surpresas.

Mecânicas e novidades

Entrando mais profundamente nos aspectos das mecânicas do jogo, o título apresenta inúmeras novidades interessantes a franquia de jogos do Yoshi. Por exemplo, sendo um jogo de plataforma convencional, ou seja, em 2D com a tela avançando lateralmente, o jogador pode avançar por planos horizontais diferentes.

Significa que as fases possuem rotas que permitem ao jogador ir mais para o fundo da tela, ou mais para a frente, a qual a câmera permanece fixa, dando a sensação de estar mais longe ou perto da tela. Isso é muito legal porque é muito bem aplicado. Nem todo jogo faz isso tão bem quanto deveria. Por exemplo, Donkey Kong Country Returns foi um dos primeiros a brincar com isso, mas é algo bem limitado e fácil de se tornar repetitivo ao longo do jogo original. Em Yoshi’s Crafted World essa posição entre as camadas da tela são muito mais naturais e orgânicas. O jogo não tenta fazer isso algo especial apenas porque você foi mais para o fundo ou para a frente da tela. E funciona muito bem assim.

Tanto que, ainda neste elemento das camadas, agora o Yoshi pode arremessar seus ovos em planos de profundidade diferentes. Tem algo lá no fundo que lhe chamou a atenção? Mande um ovo lá. Pode ter segredos em tal objeto. E como tudo é de papelão, mesmo que sejam apenas moedas, é sempre divertido o efeito de ver um objeto de cenário sair voando porque o mesmo não há peso algum, afinal é de papel! Esse recurso também vale para atirar ovos em objetos que estão mais próximos da tela, tapando a sua visão para as camadas inferiores horizontalmente.

Não só em objetos, mas os Shy Guys, tradicionais inimigos dos jogos do Yoshi, estão presentes nestes diferentes planos. Eles seguram moedas e flores, sendo necessário que sejam atacados com ovos em alguns casos para que deixem o item a qual estão segurando. E é interessante dizer que agora a mira do ovo não se move de forma automática em arco como em jogos antigos do Yoshi. Aqui a mira é controlada livremente e precisamente pelo jogador. É fácil mirar em diferentes planos. Até porque o jogo lhe dá um sinal visual e sonoro quando o X da mira estiver posicionado naquilo que você deseja atirar.

Quanto aos elementos mais clássicos, alguns foram mantidos e são parte essencial para que o jogo funcione. As tradicionais flores sorridentes continuam sendo um elemento obrigatório para se coletar. São elas que abrem mundos posteriores, pois agora um robô de papelão guarda o local de entrada de cada um destes mundos, e precisa da energia das flores para abrir caminho e fazer estes mundos se abrirem, tal qual um livro daqueles em que as figuras saltam para cima das páginas como dobraduras. Moedas vermelhas, 20 por fase, seguem como um item colecionável – ainda que na prática não sirvam para nada, exceto dar uma flor extra ao final de cada fase. Já as moedas normais servem para que Yoshi compre novas roupas de papelão para vestir ao longo da aventura.

Estes trajes de papel, por sinal, são de certa importância as mecânicas do jogo. Isso porque ter todos os corações de sua barra de saúde continua sendo importante para receber um flor extra ao final de cada estágio. Ao usar estes trajes, Yoshi ganha uma espécie de escudo. Então se um inimigo o atingir é o traje que toma dano. Alguns resistem de três a até cinco impactos, antes de se quebrar por completo. E se quebrar não se preocupe em perder o mesmo, pois uma vez desbloqueado um traje, o mesmo pode ser usado de forma ilimitada. Ele quebra na fase, mas no mapa do jogo é possível pegar outro idêntico antes de começar o próximo estágio.

O que não existe existe aqui são aquelas ocasiões em que Yoshi pode se transformar em veículos. Aliás não há nenhuma super habilidade para o personagem. Porém na contrapartida o jogo apresenta fases especiais, controlando veículos ou pontuando mediante alguns tipos de mini games envolvendo as mecânicas do jogo. Tem, por exemplo, um excelente estágio que avança por trilhos em quê o jogador tem como objetivo acertar, com ovos, alvos ao longo do percurso para pontuar em uma meta que o próprio jogo estabelece. Em outro momento você está em uma corrida de carrinhos que são movidos por energia solar, e com isso você não pode passar nas áreas com sombra na pista. Há muito dessa diversidade ao longo de toda a aventura.

Cada uma das fases do jogo, até mesmo as de plataforma mais tradicional, tem alguma mecânica diferente entre si. Cipós que se movimentam, corredeiras, plataformas malucas, inimigos que só aparecem em uma única fase, situações e cenários que não se repetem mais de um única vez. É bem extraordinário como os desenvolveres aproveitam o máximo esse catálogo de ideias, a ponto de nunca ter tempo para repeti-las.

Há também outros dois tipos de exploração dos estágios previamente vencidos que acrescentam um valor de replay interessante ao título. Os robôs que mencionei mais acima, que abrem os mundos do jogo recolhendo suas flores, também lhe dão pequenos desafios de encontrar objetos dentro dos estágios de seus respectivos mundos, a qual você precisa acertá-los com ovos. E não é necessário terminar a fase depois de ter terminado a caçada. Encontrou o item e o atingiu com o ovo? Pode voltar ao mapa e falar com o robô para ganhar sua recompensa.

Já o outro tipo de exploração, é uma brincadeira com Poochy e seus filhotinhos. Nesse caso o mais interessante é que o jogador revisita um estágio já vencido, mas ele se apresenta em reverso. Você começa do final dele e deve ir até o começo da fase, mas não que dizer que o avanço é da direita para a esquerda, pois a fase dá um giro de 180 graus. E aí os cenários são expostos, mostrando como eles foram construidos e partes sem acabamento. É mais um pequeno toque de como a arte desse jogo é fenomenal.

Mais divertido a dois

Se tem um elemento que funciona muito bem nos jogos do Nintendo Switch é o coop. Afinal o console vem com dois controles, justamente planejados para que sejam compartilhados entre duas pessoas. Yoshi’s Crafted World permite esse multiplayer cooperativo em toda sua campanha principal. Cada jogador, em posse de um único joy con, fica encarregado de um dos Yoshis em tela.

Jogar em coop apresenta algumas vantagens que não existem no single player. Morrer, por exemplo. Em coop o jogador que morre volta em um ovo voador ao lado do jogador que estiver vivo, no ponto em que ele se encontrar. No single player a fase reinicia do último checkpoint quando sua energia acaba. Os ovos que o Yoshi pode carregar ao engolir inimigos também ganham vantagem em coop, já que um Yoshi ao subir em cima do outro ganha a habilidade de atirar ovos infinitos. Perfeito para desafios de tempo e tiro que existem dentro dos estágios.

Até mesmo essa coisa de um Yoshi cavalgando no outro tem vantagens. Houve algumas situações de fases que exigiam sincronização entre os dois jogadores em tela (eu e meu pequeno de 6 anos), que só conseguimos resolver com ele subindo em mim para passar por tais trechos. É um aspecto interessante, pensado justamente em um adulto e criança jogando juntos a aventura.

Claro que por conta destes facilitadores, pequenos momentos do single player tropeçam em certos elementos. Os ovos, por exemplo, nem sempre estão fáceis de serem coletados no single player em determinados trechos em que há desafios secundários envolvendo algumas nuvens que ativam um pequeno jogo de tiro ao alvo, cuja a recompensa é um das flores escondidas no estágio. Em coop essa preocupação com o estoque do ovo nunca acontece. Já no single player é comum ter que andar até um trecho da fase, conseguir mais ovos, para voltar e acertar itens ou nuvens que ficaram para trás.

Considerações finais

Yoshi’s Crafted World não reinventa a clássica fórmula dos jogos da série Yoshi, mas cá entre nós, essa fórmula ainda segue completamente funcional e divertida. Coletar as flores e moedas segue com peso e importância no sentido de que o jogo é muito mais sobre explorar seu mundo do que apenas passar pelos desafios de plataforma.

Muitos destes desafios, inclusive, envolve exatamente o jogador coletar algo em movimento ou escondido em meio a ação. Pular e passar por plataformas é muito fácil no jogo. Difícil mesmo é conseguir alguns dos colecionáveis, enquanto está em movimento com o Yoshi. O desafio do game está exatamente nisso. Não se trata de um game difícil quando se coloca como objetivo apenas passar pelas fases.

E se o jogador apenas avançar pelas fases, sem se preocupar em explorá-las para coletar as flores, eventualmente vai ficar bloqueado no avanço do jogo, pois os robôs de papel vão continuar pedindo mais flores para desbloquear os próximos mundos. E aí vai ser preciso voltar para coletar o que foi deixado para trás. Não aconteceu comigo, mas comparando experiência com um amigo aqui do site, ele passou por isso. Não que seja necessário completar as fases com 100% das flores coletadas, mas minha média foi entre 50 a 70% de colecionáveis encontrados e ao final do jogo, fiquei com um saldo de 50 flores que me sobraram. Nada mal. Claro que aí há quatro estágios especiais para abrir… e eles custam caro. Vou precisar de mais flores para abrir todos.

Na parte dos pontos negativos, não tenho muito a comentar, exceto por um detalhe pequeno que me incomodou: o título não tem múltiplos slots de saves. Há apenas um por perfil. Isso me incomodou um pouco, pois eu e meu pequeno compartilhamos o mesmo perfil em alguns títulos (já que meu perfil é compartilhado com um amigo e assim meu console não é o principal da minha conta, então perfis adicionais não podem acessar certos jogos). É normal então ele jogar em um slot de save e eu em outro, no mesmo perfil. No caso do Yoshi não deu certo. Tivemos que jogar juntos em um único save. Meio boboca o jogo não oferecer tal opção.

E assim, claramente Yoshi’s Crafted World não é um título hardcore. É um jogo casual, para família. Não tem um alto nível de dificuldade, e isso não deveria ser um demérito. Não chega a ser infantil, mas claramente atrai muito as crianças, por sua arte, cores chamativas e simpatia. Atende de forma ampla um público mais novinho, fãs da Nintendo e os adultos com coração de criança. Funciona.

Na parte da história, o título é bem simples. Um totem com joias tem as mesmas espalhadas pelos mundos do jogo, por conta das estripulias de Bowser Jr. e Kamek, que passam a caçá-las em paralelo aos Yoshis, querendo o poder delas. Há alguns diálogos engraçados, mas é tudo muito básico. Característica da simplificidade que jogos do universo de Super Mario possuem. Aliás, falando em Mario, o mesmo não faz presença aqui. Que pena. Sinto saudades do Baby Mario e outros bebês, nesta série do Yoshi. Isso me lembra que talvez Yoshi’s Island do Nintendo DS tenha sido a última vez que eles tenham sido utilizados com perfeição – adorava o Baby Wario.

Quanto a trilha sonora, não encontrei nada relativamente novo que tenha se sobressaído em relação aos arranjos novos usados em clássicas trilhas da série. É uma bela trilha, sem dúvida alguma, porém não há novas canções que grudam em sua mente. Com exceção, claro, das velhas conhecidas da série. O jogo acerta nisso, mas torcia por algo novo que grudasse tanto quanto as clássicas instrumentais.

Por fim, é possível dizer que Yoshi’s Crafted World é um belíssimo jogo. Um de seus objetivos mais importantes, ser divertido, é cumprindo com grande satisfação ao jogador. Sua direção de arte é uma das coisas mais bonitos que a Nintendo fez nos últimos anos, e espero que não fique apenas por aqui. Torço para que um novo título do Kirby possa também brincar com esse conceito eventualmente, assim como ele emprestou o conceito do mundo de lã ao título do Yoshi na geração passada. É um título muito divertido para se jogar em coop com uma criança, para apresentar a um amigo que nunca jogou um título da série. É um jogo bonito de se olhar alguém jogar. Casual, mas naquele nível adorável que a Nintendo sabe entregar ao seus fãs.

https://www.youtube.com/watch?v=ShYN2_oszos

Galeria

Dando uma nota

Incrível direção de arte, o jogo é um colírio aos olhos - 10
Mais mundos, porém menores dão diversidade a aventura - 9
Segue a formúla clássica, sem inovar ou reinventar demais - 7.5
Mais divertido de se jogar em modo cooperativo - 9
Ir para o plano de fundo ou para a frente das fases é um ótima mecânica - 8.9
Não é difícil passar as fases, o desafio está em coletar os colecionáveis - 8.5
Tem um ótimo valor de replay ao dar novas ideias para revisitar seus estágios - 8.9

8.8

Ótimo

Yoshi's Crafted World é um jogo que impressiona por sua belíssima direção de arte. Esbanja criatividade e apresenta ideias novas a cada estágio, nunca deixando cair seu ritmo e dinâmica. O jogo é divertido, tem um coop sensacional e é um título perfeito para se jogar em família e com amigos. Não é pelo desafio, mas pela diversão.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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