Análise | Sonic Racing: CrossWorlds
Disponível para PlayStation, Xbox, Nintendo Switch & PC

Sonic Racing: CrossWorlds coloca mais uma vez um vasto elenco do universo do ouriço mais famoso da Sega em disputas automobilísticas de alta intensidade — desta vez atravessando mundos de outros universos distantes, trazendo os mais improváveis competidores para um novo estilo de corrida interdimensional.
O título dá continuidade ao legado das corridas de kart estreladas por Sonic & cia, preservando elementos clássicos enquanto adiciona novas ideias. Também marca o retorno da própria Sonic Team ao desenvolvimento da série, depois de quase uma década sob os cuidados da Sumo Digital (2010–2019). Uma mudança as vezes perceptível nas escolhas estruturais do jogo.
CrossWorlds não nasce do zero. Ele compila o que funcionou nos anteriores: elenco expandido além do universo de Sonic, como em Sonic & Sega All-Stars Racing (2010); veículos que se transformam em tempo real, conceito consolidado em All-Stars Racing Transformed (2012); e até mesmo as pranchas voadoras de Sonic Riders (2006) estão de volta.
O curioso é que até a proposta de corridas em equipe de Team Sonic Racing (2019) reaparece, ainda que esvaziada de algumas mecânicas centrais que davam identidade àquele formato — e em uma modalidade à parte da principal.

Mas fique tranquilo que CrossWorlds não vive apenas de nostalgia e o jogo consegue ir além, apostando em ideias próprias que tornam esta entrada diferente das anteriores.
Em termos de localização, o jogo conta com menus e textos em português, enquanto os diálogos permanecem apenas em idiomas estrangeiros, como o inglês.
Ficha Técnica
- Plataformas: PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2, PC, PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch
- Desenvolvedor: Sonic Team
- Publisher: Sega
- Gênero: Corrida Arcade (Kart)
- Lançamento: 25 de setembro de 2025 / 4 de dezembro de 2025 (Switch 2)
- Versão analisada: PlayStation 5

Só acelere! / Mundo e Narrativa
Sonic Racing: CrossWorlds é direto ao ponto e não possui modo campanha estruturado.
O que existe são observações implícitas: é só mais um dia nos arredores de Green Hill, com Sonic e outros personagens icônicos de seu universo, incluindo vilões, disputando um campeonato automobilístico promovido por King Dodon Pa, presidente da Donpa Motors, uma imensa — e interplanetária — companhia automobilista.
Este novo campeonato está acontecendo juntamente com a abertura de portais dimensionais, que levam a disputa para pistas além universo estabelecido. Funciona como ponte para justificar a presença de percursos dentro dos universos de Bob Esponja, Minecraft, Pac-Man, e para futuros conteúdos previstos para 2026, como Mega Man, Tartarugas Ninja e Avatar (Nickelodeon).

Esses portais utilizam o conceito estabelecido pelos filmes recentes de Sonic: os anéis como passagens interdimensionais. A ideia já havia aparecido timidamente em DLC de Sonic x Shadow Generations, mas aqui é reforçado oficialmente ao universo dos jogos.
Sem modo aventura, o jogo abre com um clipe musical e um tutorial rápido, e então entrega seus modos padrão: Grand Prix, corridas avulsas, multiplayer local e online. A longevidade depende do loop competitivo e da coleta de Donpa Tickets, usados para desbloquear veículos e cosméticos. O problema é que esse ciclo depende mais de repetição do que de evolução orgânica.
Correndo entre dimensões / Jogabilidade
Sonic Racing: CrossWorlds é provavelmente o mais caótico entre seus concorrentes recentes — Mario Kart World, Disney Speedstorm e Kirby Air Riders. Isso é tanto qualidade quanto problema.
- Fórmula esperada
O layout de controles não me conquistou. No PlayStation 5, a aceleração não utiliza os gatilhos adaptativos do DualSense, o que soa como uma oportunidade perdida. Em um gênero onde gatilhos são quase padrão para imersão, optar por botões comuns reforça o caráter totalmente arcade — o que não é necessariamente ruim, mas também não agrega.

Já nas mecânicas internas, o jogo funciona melhor e dentro do esperado. Drift em três níveis, passarelas de turbo, manobras aéreas, coleta de argolas para ganho de desempenho e itens de trapaça nas categorias ataque, defesa e aceleração — tudo dentro da cartilha do gênero influenciado por Mario Kart.
Até aqui, nenhuma carta fora do baralho.
- Buscando sua personalidade
A identidade própria começa a surgir nas transformações em tempo real entre segmentos terrestres, aquáticos e aéreos. Cada modalidade altera física e ritmo. Aviões precisam atravessar arcos para ganhar impulso; embarcações substituem drift por saltos energizados. São mudanças que realmente exigem adaptação.

O sistema de rivais é outro acerto. Ao escolher um personagem, dois rivais são definidos pela CPU, em níveis distintos de dificuldade, para que o jogador escolha um. O rival irá focar em te ultrapassar, te atacar e provocar. Há uma sensação real de perseguição direcionada — e funciona muito bem. É um sistema muito competente em lhe desafiar.
Os dispositivos (perks) também ganham relevância conforme são desbloqueados. Começar com turbo, coletar itens extras ou ganhar impulso ao colidir mudam significativamente a dinâmica da corrida. Há estratégia na montagem, com custo por slot. É um sistema mais profundo do que parece à primeira vista.

E então vêm os portais dimensionais — o verdadeiro pilar estrutural do jogo. Durante a corrida, o líder escolhe uma bifurcação que leva a uma dimensão alternativa. São 15 possibilidades, tais como tempestades marítimas com polvo gigante, mundo de doces, planeta vulcânico, cassino gigante entres outros cenários igualmente singulares.
A mudança é instantânea, sem loading, lembrando o impacto visual de Ratchet & Clank: Rift Apart (2021). A segunda volta ocorre nessa dimensão alternativa. Depois, retorna-se à pista original para a volta final, que também apresenta variações, atalhos e novos obstáculos. Cada volta se torna distinta — e isso é genuinamente criativo.

As Copas também fogem do tradicional: três pistas principais e uma quarta final conectando todas por portais, formando um circuito híbrido. Diferente, coeso e inteligente.
No total, são 24 pistas principais e 15 variações dimensionais. A maior parte homenageia jogos da franquia, incluindo jogos recentes, como ocorre nos percursos de Kronos Island (Sonic Frontiers) e White Space (Sonic x Shadow Generations).

Em um plano geral, Sonic Racing: CrossWorlds encontra um formato único e original para existir. A dinâmica das corridas empolga, ainda que o grande número de pilotos e a massiva quantidade de itens de ataque teleguiados frustre o jogador que goste de se manter em primeiro colocado durante toda a corrida. A disputa cria resultados muito mais imprevisíveis do que jogos concorrentes. Nem sempre jogador e adversários ficam nas mesmas posições em todas as rodadas dos campeonatos. Tudo é mais caótico, de uma forma realmente intencional.

Altos e Baixos
— O que funciona bem:
- Elenco enorme de pilotos, classificados em 5 categorias distintas, e com diferentes status cada. Título está prestes a atingir 40 pilotos lançados deste o lançamento e mais virão ao longo de todo o ano de 2026.
- Sistema de rivais e diferentes níveis de dificuldade criam a tormenta perfeita para quem gosta de se sentir desafiado.
- Dinâmica das pistas que mudam em tempo real para diferentes dimensões sustentam a diversidade de circuitos diferentes, em uma constante renovação dentro das próprias corridas.
- Retorno da mecânicas de veículos que se transformam sustentam a identidade da série.

— O que poderia ser melhor:
- Ausência de um modo aventura encurta a longevidade da experiência single player.
- Aceleração sem uso dos gatilhos compromete imersão esperada.
- Sentimento de progressão dependente demais do uso excessivo de Donpa Tickets.
- Engajamento online ainda tímido para um jogo que busca comunidade online com frequência.
- Falta de pistas baseadas em franquias Sega já presentes como pilotos — Yakuza, Persona, NiGHTS, Super Monkey Ball
- Ausência do tradicional All-Star Move, habilidade única que cada personagem tinha em jogos anteriores.

Considerações finais
Sonic Racing: CrossWorlds impressiona com sua colisão de universos integrados diretamente na jogabilidade. Mas, ao mesmo tempo, parece não ter dedicado a mesma atenção aos fundamentos de longevidade. Isso pode dividir opiniões.
O Grand Prix, isoladamente, não sustenta o volume de desbloqueáveis. A progressão baseada em Donpa Tickets exige repetição excessiva. Vencer 23 rivais para desbloquear um personagem secreto obriga o jogador a repetir campeonatos múltiplas vezes. O ciclo começa a soar mais trabalhoso do que recompensador.

O modo Race Park oferece variações interessantes, mas é secundário. Ao todo são 6 tipos de corridas. Há disputas simples com metas e objetivos distintos, como o retorno de corridas em equipes, com objetivos que vão desde coletar argolas, realizar truques, cooperar com sua equipe e atacar oponentes.
Tenho também certas ressalvas ao conteúdo online. Partidas Mundiais basicamente são o carro forte dessa modalidade, seguindo por eventos e competições temporárias, que não ocorrem com a frequência que necessitaria num jogo que pretende que a comunidade fique ative por todo seu primeiro ano de atividade. Jogar online também gera pontos e recompensas desbloqueáveis, mas chegar aos 9000 pontos do último rank não é nenhum passeio no parque. E tenho sérias dúvidas se as recompensas valem a pena para o esforço exigido.
Contudo, sob um olhar mais técnico, as partidas online estão ocorrendo muito bem, sem qualquer instabilidade. O matchmaking também tem encontrado rapidamente jogadores e criado as corridas, parte porque o jogo tem um sólido sistema de conexões entre plataformas (cross-platform).

Em comparação com a concorrência:
- Mario Kart World entregou um massivo mundo aberto para que jogadores explorem regiões e pistas conectadas, para brincar e explorar novos trechos e formas de correr, ainda que a proposta também não seja isenta de críticas. Funciona muito bem em seu single player.
- Disney Speedstorm está se aproximando de sua 17ª temporada, mesmo apresentando cansaço, falta de novidades e inovações, segue entregando eventos online no formato diário, semanal e mensal, que recompensa jogadores com personagens e itens cosméticos, enquanto se lambuza agressivamente de microtransações, é verdade. Engaja e vicia, ainda que as vezes de forma errada.
- Kirby Air Riders, que corre paralelamente, com um conceito diferente de corrida, mas domina ritmo e longevidade em sua proposta, com jogabilidade orgânica de metas e tarefas, que são desbloqueadas naturalmente, além de um modo aventura duradouro e atividade online diária, com pontuais eventos online com passes de itens cosméticos gratuitos. Jogabilidade incomum e alternativa, mas prende o jogador em sua teia bem planejada.
Já CrossWorlds aposta no básico: elenco enorme, pistas dimensionais e crossovers chamativos. Para atrair curiosos, funciona perfeitamente. Para reter comunidade, fico em dúvida.

As pistas de Minecraft, Bob Esponja e Pac-Man são excelentes. Os desenvolvedores entenderam os mundos de franquias de terceiros a qual estão trazendo para o jogo, com muito detalhes elegantes e bem integrados aos circuitos. Correr na Fenda do Bikini é fantástico. Mas é um êxtase breve. Alguns minutos de brilho — e pronto.

Sonic Racing: CrossWorlds é belo, tem trilha impecável, gráficos vibrantes e mecânicas que reacendem o auge da série. Seu erro não está na criatividade ou em sua proposta, mas na sustentação. Lançar personagens mensalmente talvez não seja o suficiente para manter o engajamento se o ciclo central continua repetitivo.
Falta algo que amarre tudo. O formato escolhido parece não combinar com a ambição que o jogo demonstra ter, como se houvesse uma crise de identidade, com o título em dúvida se é um produto fechado ou um jogo como serviço. E isso é algo que impede a obra de alcançar o potencial que claramente possui.
Galeria
Gameplay *via nosso canal no YouTube
Dando nota
Apresentação bem seca, sem história ou modo aventura para dar longevidade ao single player - 6
Bem sucedido em resgatar elementos de jogos anteriores, de elenco diversificado a transformação dos veículos - 8.5
Impressiona com level design das pistas e na ideia de portais dimensionais que alteram tudo em tempo real - 9
Sistema de rivais e níveis de dificuldade entregam um desafio elevado, acima da média do gênero - 8.5
Modalidades online funcionam, mas não seguram jogadores por muito tempo - 7.6
Experiência aposta em repetição exaustiva para grind de tickets e desbloqueio de conteúdo - 6.5
Corridas entregam bom ritmo e inúmeras mecânicas que deixa jogadores em contante estado de atenção - 8.2
7.8
Divergente
Sonic Racing: CrossWorlds é uma obra repleta de criatividade e boas intenções, que resgata elementos da melhor fase automobilística do famoso ouriço, enquanto adiciona novas ideias que impressionando no level design de pistas, elevam o desafio e entrega corridas intencionalmente mais caóticas. Mas também é um jogo que derrapa em se auto sustentar, precarizando sua longevidade com grind ao invés de um modo sólido de experiência single player. Cumpre bem o básico multiplayer, seja local ou online, porém com modalidades que não soam empolgantes o suficiente para segurar uma comunidade online por muito tempo. O resultado não é um jogo ruim, apenas um que não alcança todo o potencial que possui.



