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Depressão. Salvação. Eugenia. Evolução. Sociopatia. Crime. Isso é X-Men Noir! (Impressões)

Nova York, 1937. Peter não consegue se livrar da influência do pai. Sua irmã, Wanda, deve uma alta quantia a Remy Le Beau, proprietário do Club Creole. O pai de Peter e Wanda, Eric Magnus, é um figurão da polícia: corrupto, violento e sem escrúpulos. Preso numa cela, Charles Xavier se pergunta o que planejam seus ex-alunos da “Escola Xavier para a Juventude Excepcionalmente Transviada“. Agora Jean Grey está morta, mas não há ninguém que possa investigar o crime. Ninguém com poder para fazer alguma coisa. Mas a quem interessaria a morte de uma das aberrações de Xavier?

A Panini deu sequência aos lançamentos da linha Noir no Brasil e colocou em Agosto nas bancas e livrarias X-Men Noir. E aqui cabe uma pequena ressalva: lá fora o título é X Men Noir, mas na edição brasileira a Panini colocou de volta o hífen. O livro reúne as edições 1 a 4 da minissérie X-Men Noir, lançada nos EUA originalmente no começo de 2009, em uma edição capa dura nos mesmos moldes de Homem-Aranha Noir, já apresentada aqui no Portallos.

Porém, X-Men Noir se mostra superior à versão noir do cabeça de teia, apresentando uma pegada mais realística, onde não há espaço para poderes incomuns. No ano de 1937 presenciamos um uma Nova York onde o crime corrompe a polícia e governo. Um emaranhado de relações sujas perpetradas por aqueles que deveriam proteger. É uma época onde não só a economia está em depressão, mas também os valores dos homens.

Aqui, Charles Xavier é um famoso psicólogo que cai em desgraça quando revela um estudo onde defende que os sociopatas são o próximo passo na cadeia evolutiva humana e está preso na cadeia e desacreditado pela população e pela comunidade científica. O doutor é acusado de ensinar ao alunos como serem sociopatas melhores. Uma de suas alunas, Jean Grey, é encontrada morta pouco tempo depois de outro aluno seu, Warren Wortinghton, aparentemente ter se suicidado ao pular do alto de um telhado, o que havia ocasionado o fechamento da sua escola e à descoberta de tudo o que ocorria nela.

Os demais “alunos” de Xavier são os suspeitos que estão foragidos, liderados por Ciclope, um pistoleiro frio. Junto dele, estão McCoy, um brutamontes que tem a mania de querer falar difícil, e Drake, que prefere ser chamado de Geleira, embora seja um sujeito pra lá de esquentado. Separado do grupo, há um sujeito conhecido como Capitão Logan, que recentemente estava envolvido com Jean. Acompanhamos a investigação da polícia, sob o olhar do recém-chegado Peter, filho do inspetor-chefe da polícia, Eric Magnus. Eric conhece Xavier de longa data, mas abandonou os ideais do amigo e se aliou a Sebastian Shaw, dono do Clube do Inferno e por assim dizer da cidade.

Quem resolve desvendar todo o mistério que cerca a morte de Jean é Thomas Holloway, justamente uma pessoa que na verdade é o misterioso Anjo, um vigilante uniformizado. Thomas mergulha fundo em sua investigação, descobrindo aos poucos que Shaw e Eric são os pivôs de toda a desgraça que a ação criminosa provoca na cidade. Como Anjo, Thomas se alia aos X Men, e com as forças combinadas o grupo não só finalmente consegue desvendar o mistério sobre a morte de Jean, bem como livrar a cidade da influência maldita da qual é vítima.

Toda essa trama é magistralmente conduzida pelo roteirista Fred van Lente, inclusive com diálogos de acordo com a época, algo raro de se ver. O escritor consegue passar a impressão de que estamos lendo mesmo um pulp, com a tragédia criando uma atmosfera sufocante, instigando o leitor a querer ver logo o mistério resolvido. A esperança é tênue, mas conforme progredimos na leitura ela se fortalece na figura do Anjo, a única pessoa que não parece ter sido maculada pela escuridão que permeia os corações dos demais personagens, embora ele carregue consigo um segredo.

Para o fã de X-Men a leitura torna-se mais saborosa a cada página virada, ao passo em que ele nota seus personagens conhecidos serem descontruídos e ainda assim manterem certas características já conhecidas. Nesse sentido, a façanha de se distanciar da fonte original aqui é mais evidenciada do que em Homem-Aranha Noir. Tudo é meio diferente, e ainda assim é possível encontrar a essência dos nossos queridos personagens.

E para aqueles que não acompanham o universo mutante, a leitura também é agradável, pois as motivações de cada personagens são evidenciadas, então no fim a história será apreciada de maneira integral também, sem ostentar aquela sensação de vazio que ás vezes temos em histórias que abordam universos alternativos, que muitas vezes exigem um prévio conhecimento do leitor em relação a fonte.

Porém, em ambos os públicos, o desfecho da trama tem um efeito surpreendente. Recebi feedback de algumas pessoas que leram a edição, e a maioria não conseguiu perceber os fatos que eram os pontos-chave do mistério na primeira leitura, exatamente o que se deve esperar de uma obra noir. É um perfeito exemplo de como pegar um punhado de personagens e inserí-los em um ambiente diferente, e ainda assim manter a essência original e a nova proposta em harmonia. Basta ver como Wolverine ainda manteve suas garras, por exemplo.

O elo mais fraco da obra é o artista Dennis Calero. Curiosamente fundador da Atomic Brush, uma empresa pioneira na colorização digital de quadrinhos. Calero não aproveita bem a oportunidade de explorar a paleta de cores em um universo noir, e apresenta um trabalho mediano, sem muito impacto visual. Também não consegue explorar e manter a fisionomia dos personagens, tornando sua arte sem muita expressividade e desprovendo-a de impacto. Ainda assim, é uma arte boa e não chega a comprometer, entregando o aspecto noir tão vital.

Um dos grandes destaques dessa edição é podermos ver o Anjo em ação. O Anjo foi justamente criado nos anos 30, mas nas últimas décadas esteve fora do universo Marvel, mas sua cronologia foi consertada e reintegrado ao universo 616 com sucesso em Projeto Marvels (recentemente lançado pela Panini) e agora brilha também nesse primeiro arco de X-Men Noir, mostrando perfeita integração a esse universo também.

O outro destaque é um bônus em forma de conto, também de Van lente: Os Sentinelas. No decorrer da história de X-Men Noir, Thomas está com um pulp que apresenta essa história, e esse conto fecha de maneira incrível esse encardenado, apresentando um futuro onde a humanidade caminha para a perfeição genética ao mesmo tempo que se distancia daquilo que faz dela uma humanidade por definição.

Por tudo isso, recomendo para todos a leitura de X-Men Noir, um dos melhores lançamentos do ano!

X-Men Noir (X Men Noir #1 a #4)
Roteiro: Fred van Lente
Arte: Dennis Calero
Edição: Única, 124 páginas, capa dura, papel couché
Preço: R$ 19,90
Lançamento: Agosto de 2011
Classificação: 16 anos
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Mauri Link

Um gamer inveterado desde a primeira geração de consoles, aficcionado por histórias em quadrinhos, nerd de carteirinha, e super-herói nas horas vagas!
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