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El Shaddai | Ascendendo aos céus sob as asas de Metatron! (Impressões)

A salada ficou boa no gameplay, mas faltou sal na narrativa e personagens!

Poucos jogos me provocam essa sensação, quase uma obrigação em ter que pesquisar sobre ele por algum ponto sem nó que eu tenha visto no meio da trama. Não foi bem isso o que me aconteceu quando fechei Assassin’s Creed II, mas logo que terminei o jogo fiquei me perguntando se a Ubisoft tinha viajado legal ou se o Leonardo Da Vinci era mesmo um homem tão brilhante a ponto de fazer tudo o que ele fez na história fictícia do segundo jogo. Depois de relatar isso no fórum secreto da equipe e receber um belo facepalm versão Homer Simpson, fui pesquisar para não ficar boiando o resto da vida no assunto. E inesperadamente com El Shaddai: Ascension Of The Metatron me ocorreu o mesmo, mas desta vez foi diferente, o enredo entrega certos diálogos e fatos como se você já soubesse quem é quem ali naquela história, mas para falar mais disso acho melhor virarmos a página antes, ou melhor dizendo, dar seguimento ao papo depois do continue.

Talvez eu tenha exagerado por ter aberto uma dúzia de links no Google assim que terminei o jogo para pesquisar sobre quem foi Enoque, Samyaza e os Nephilim mais a fundo, mas é que o meu contato com histórias relacionadas à blíbia é completamente nulo e mesmo ouvindo toda as explicações do Lúcifer ou dos homens livres eu ainda queria saber mais sobre o assunto.

Ops… espera um pouco, acho que comecei o assunto pela parte errada, né? Para quem não sabe El Shaddai é inspirado nas histórias do livro de Enoch (ou Enoque, um ancestral de Noé) sobre uma certa vez em que os anjos comandados por Deus resolveram descer à Terra e acabaram se encantando demais com o que a mesma oferecia. Lembram da cobra que semeou o mal entre Adão e Eva? Pois bem, aqui os anjos fizeram o mesmo com a humanidade se relacionando com as mulheres e gerando híbridos (a junção de duas raças) de anjo e humanos chamados Nephilim, seres gigantes que andaram sobre a Terra e foram uma das causas que instaurou o caos. A outra foi a influência desses anjos sobre os humanos, ensinando-lhes as artes da guerra ou lhes contando os segredos do paraíso, o que causou um mar de impurezas que cobriram a Terra.

Aí bem naquele estilo Cavaleiros do Zodíaco, o conselho divino resolve se reunir e decide que a melhor solução é limpar a casa geral para purificar o planeta de novo. Deus olhou na agenda de desastres nada naturais e decidiu que um dilúvio seria a melhor escolha. No tal livro do profeta Enoque a Terra foi mesmo inundada, mas no jogo o personagem ainda é um ser humano que de tão puro foi recolhido por Deus e recebeu a missão de trazer todos esses anjos de volta ao paraíso.

Quando terminei o jogo eu nem estava tão afim de pesquisar o assunto, El Shaddai não tem uma história intrigante. tampouco personagens marcantes, sem falar que quando se trata de religião às vezes é mais fácil você achar oração ou simpatia do que informação que realmente importa. Mas aí encontrei um site que destacava algumas partes do livro de Enoque e achei interessante como ele contava em breves momentos passagens bem semelhantes aos diálogos vistos no jogo e também pude saber mais sobre o que são anjos. Sim meus caros, eu nunca me interessei pelo assunto, bem como nunca tive e ainda não tenho a menor vontade de ler a bíblia. Acho que dos poucos livros que tenho vontade ler ela deve estar na última posição do meu ranking.

Acompanhar a narrativa da história sob outro ponto de vista ainda que bastante parecido com o jogo foi legal. Não entendi metade dos buracos que essa história toda tem por causa das várias ligações e da minha pressa em aplicar uma leitura dinâmica, mas deu para esclarecer algumas dúvidas. O tal Metatron que está passando por um momento de ascensão por exemplo na verdade é o próprio Enoch, que é a reencarnação desse anjo. Também deu para dar algumas risadas com alguns fanáticos que não aceitam essa história de que um dia anjos desceram aqui no nosso cafofo para saber que gosto tinha a fruta mais gostosa já criada por Deus. Só não vou deixar link nenhum aqui, vai que algum infeliz vem encher o saco, né? De troll, já basta os gamers, vamos deixar os fanáticos pra lá.

A história não chega a ser muito interessante, mas os textos sobre o passado e presente são até bacanas, infelizmente o jogo não se aprofunda muito nos personagens. Eu mesmo cochilei em alguns momentos e perdi o fio da meada vez ou outra sobre o porque tal personagem estava ali e outros tantos quase não transpareciam emoção o jogo todo. O Enoch por exemplo tem tantas falas que dá para contar tudo nos dedos de uma só mão, eu não me simpatizei muito com o personagem, tudo bem ele ser solitário num mundo onde tudo está preste a ruir, mas ele não mostra personalidade alguma, parece um ser que está ali esperando ser moldado por alguém, talvez por já saber que o seu destino é servir a Deus dali pra frente, sei lá, me confundo só de tentar definir o protagonista.

Fato é que o mundo em El Shaddai é muito vazio e a ausência de uma personalidade mais forte, que não se limitasse a somente lutar para salvar a humanidade de boca calada do começo ao fim só contribuiu para que o clima não me agradasse tanto quanto gostaria. Não estou dizendo que prefiro apenas jogos movimentados, com uma rotatividade enorme de personagens interagindo com o protagonista como ocorre em Assassin’s Creed (esse osso eu não largo tão cedo), mas a aparência dos primeiros cenários, com todo aquele tom de magia e misticismo me pegou de tal jeito que acabei esperando exatamente por isso e não consegui enxergar graça no que se seguiu depois.

Mais pra frente até que algumas tentativas de sacudir a trama são feitas como o Armaros indo resgatar o Enoch ou a garotinha que fica aguardando o retorno dele depois de anos cheios de dúvida sobre os anjos e os humanos, mas nada disso temperou o enredo a ponto de me empolgar dali pra frente. Ainda poderia falar do Lucifer, que na história ainda serve à Deus (ou seja, é um dos bonzinhos). Ele fala bem mais que o Enoch, na verdade falar mais que qualquer outro personagem, tem um tom de sarcasmo nas suas palavras e paga bem de galã com uma roupa que não condiz com o seu tempo e um celular a tira colo (um visionário realmente…), mas a importância dele para história no fim das contas se limita a narrar tudo o que acontece ou reportar a atual situação da jornada do Enoch. Também não é um personagem para se recordar.

Só me restou apreciar a beleza dos cenários mesmo e acho um verdadeiro pecado quem tiver jogado não ter atentado a esse aspecto que nem de longe passa despercebido. Tudo tem uma beleza sem igual porque o cell shadding e a localização das câmeras fazem o máximo para evidenciar todo o trabalho artístico feito em cima dos lugares. Alguns tem um tom totalmente maluco, psicodélico mesmo. As cores são vibrantes, eu mesmo ainda não esqueci aquelas plataformas black piano flutuando no ar e lá embaixo algo que parecia ser uma comunidade totalmente tingida em vermelho sangue ou aquelas escadarias com ar de monumento sagrado ou algo assim. Como o Enoch não corria o menor risco de cair em certos lugares, dava para segurar o analógico e só ficar olhando a paisagem se revelando lentamente. O verdadeiro objetivo dos produtores provavelmente.

É coisa linda mesmo, diria que cada cenário, sem exceção, daria belas pinturas, mesmo com toda essa aparência de anime, que por incrível que pareça na visão das artworks obtidas depois de fechar o jogo mais se parecem ilustrações saídas de uma HQ americana. Também amei a trilha sonora, costumo dizer que as músicas muitas vezes salvam um jogo e tornam o clima dele mais interessante, mais empolgante, mais épíco. Uma pena que em El Shaddai eu só pude sentir lapsos de emoção que duraram muito pouco. A maior parte das canções tem todo um ar de heroísmo, outras tem um tom apocalíptico e ainda há aquelas que são bem infantis, cada uma retrata bem o momento que você está passando no jogo. Somando a coletânia toda, o soundtrack cumpre com o seu papel, mas não salva essa sensação de ambientação vazia demais que a história tem para mim.

Então vamos lá, da trama eu gostei mais ou menos, os personagens não me atraíram, o background da coisa toda é muito foda e o gameplay? Ah, o gameplay é inesperadamente muito bom. Só existem 3 armas para usar no jogo mais os golpes com as mãos limpas, podiam ter incluído mais opções, mas o nível de desafio ficou tão bom que esse detalhe nem importa muito no fim das contas. Assim como os anjos o Enoch também tem uma armadura e a mesma serve como o medidor de vida dele, quanto mais peças da armadura se quebram mais próximo da morte você está, acaba sendo um jeito bacana de sempre se manter atento. Legal também são os combos que dá pra fazer e apesar de só termos 3 armas você pode variar sempre as opções já que dá pra roubar os inimigos depois de alguns golpes, o modo mais rápido de derrotá-los.

Gostei também da inteligência dos oponentes, a tela não se enche deles se aglomerando como se fosse uma festa e o mínimo de estratégia tem de ser pensada porque só atacar não dá, todos tem direito a defesa e contra ataque também. Já as lutas contra os anjos caídos são pra mim o ponto mais alto do jogo todo. O cenário é limitado, tudo rola em um círculo, como se fosse uma dimensão pessoal do anjo que você está enfrentando, mas o dinamismo das batalhas é sem igual. O Enoch desde o começo do jogo vai sendo humilhado pelo poder dos anjos ao mesmo tempo em que evolui, mas mesmo nos encontros decisivos é nítido que só força a bruta adquirida não vai derrubar nenhum deles.

Tem que ir com cautela, nadar e nadar pra morrer na praia umas 3 ou 4 vezes se assim for preciso até descobrir qual arma é a melhor para aquele momento. O processo é meio frustrante e o clima sem sal do jogo quase me fez largá-lo no meio, a fúria dos anjos cresce a cada pedaço quebrado de armadura que vai pro chão, um sacrificio que requer normalmente uns 8 ou 9 golpes que se não forem bem encaixados, assim na hora certa mesmo, não fazem efeito nenhum. Não bastasse isso a armadura do Enoch é frágil demais contra eles, poucos golpes bastam para você ficar sem ela. Eu lutei quase que a todo momento acuado, esperando uma abertura. Atacar sempre não dá, espaço para encaixar um combo é difícil, se defender em 90% das vezes é impossível porque o poder deles destrói tudo, enfim, não tem como seguir o mesmo roteiro sempre. É como se os produtores fizessem questão de evidenciar a fraquesa do Enoch por ele ser um humano ousando enfrentar uma existência que se aproxima muito mais de Deus que a dele (Saint Seiya feelings).

Agora uma coisa que ainda não vi num hack ‘n slash além de El Shaddai foi esse revezamento da gameplay principal com gênero plataforma. O estilo ficou bem simples, não tem muita dificuldade, parece mais um adicional para quebrar esse ritmo de só andar por aí e derrotar pilhas de inimigos, até uns puzzles bem rasos foram adicionados. Me lembrou um pouco o estilo caricato de The Black Sword da Grasshopper Manufacture porque torna o plano de fundo bem mais simples, mais infantil, misturando ainda mais a variedade dos cenários. Foi inusitado, mas muito legal.

E assim é El Shaddai: Ascension Of The Metatron na minha visão, um jogo de trama mediana com personagens não muito interessantes, mas com um gameplay e arte riquíssimos. Acho que vale a pena ser curioso e dar uma olhada, não sei se o jogo foi ou não um sucesso de vendas por aqui (lá no oriente a tarefa não deve ter sido difícil), mas quando penso nele me lembro de Catherine, um jogo pelo qual eu não apostava nada, cego pelo ”achismo” contraído com os vídeos de gameplay, mas que me surpreendeu muito quando tive a chance de ver ao vivo. Claro que não é sempre que dá para acertar, ainda tenho dores de cabeça com pérolas como Dead Island, Bleach Soul Ignition e mais recentemente Dragon Ball Ultimate Tenkaichi, mas faz parte. Quem não arrisca, não petisca (mas faz um bem danado para a própria carteira).

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K o n S a m a

Do ser sem razão a essa explosão de emoção, do preguiçoso leitor ao (meia-boca) escritor, do tímido calado ao ator inquieto, do caminho já traçado à esquina do destino incerto. Tentei me definir, mas sem sucesso. Games, filmes, música, animes, são só o começo desse quebra-cabeça sem nexo.
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