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Vem aí mais uma novela: O Brasil dos games!

Ordem e progresso? Não seria desordem e retrocesso?

Eu poderia dizer aqui que já estou cansado de ver toda a papagaiada que os políticos aprontam, que já me cansei de ouvir falar que fulano se envolveu num novo esquema de lavagem de dinheiro, que ciclano foi pego com grana alta na cueca, que beltrano desviou verba pública para uma das suas inúmeras contas na Suíça. Mas não, a lista não pára por aí, nem vale apena se estender tentando catalogar tudo e por mais que cada caso seja ainda mais revoltante que o outro, no fim das contas a gente sempre releva e tenta tocar a vida do melhor jeito possível. Mas isso só até que as ações dos nossos governantes não nos atinjam de verdade, não tirem ou tentem tirar da gente o que é nosso por direito. Fome, desemprego, miséria, tragédia, a gente vê isso e muito mais na TV todo dia, sente um pesar no coração, mas no fim esquece o assunto no dia seguinte porque não é com a gente.

Estou falando por todo mundo quando afirmo isso? Não, claro que não, mas admito que sou assim e sei que não sou o único. Essa semana que passou acho que eu e muitos outros por ai sentiram ou pelo menos tentaram imaginar ainda que por breves instantes como é ser atingido pelas decisões nem sempre sensatas dos nossos governantes. Fiquei pensando muito no assunto e ao final dela eu me senti mais uma vez indignado não só por ver que essas e outras tantas situações que continuam construindo enormes desigualdades na nossa sociedade não tem uma data certa para acabar, porque quem devia olhar por nós com o poder que tem nas mãos prefere trabalhar a serviço de si próprio (ou melhor, do próprio bolso) e vez ou outra mostrar serviço da pior forma possível. Como? A jornada vai ser um pouquinho longa, mas depois do continue a gente chega lá.

Não vou ficar aqui choramingando e perguntando porque eu ainda não posso comprar no meu país sem chateações com importação, Alfândega e outros bichos os meus tão amados jogos. O país tem ”N” questões mais importantes para se preocupar e mudar a visão dos dinossauros que estão lá no poder de um dia para o outro não é mais que um lindo sonho no momento. O que eu gostaria de entender mesmo é como estávamos caminhando tão bem para de uma hora para outra retrocedermos tanto. Ou simplesmente não estávamos caminhando na direção certa desde o começo?

O Jogo Justo fez barulho, a galera apoiou, foi às lojas, pegou fila quilométrica, comprou por um preço decente e toda essa união resultou em números, muitos números, com cifras mais altas que a arrecadação ordinária repleta de impostos abusivos praticada atualmente. Demorou, mas a notícia meio tímida de que games finalmente corriam o risco de serem enquadrados como produto cultural e totalmente apto a receber incentivo do governo afim de atrair mais produtores para o mercado em crescente expansão na República das Bananas pipocou na rede. Paralelo a isso, mas nem tão animador assim, também ficamos sabendo que o projeto de redução do imposto cobrado em cima dos jogos já havia vencido a sua primeira peneira rumo à uma possível aprovação.

Melhor? Impossível. Quer dizer… na verdade seria, se Microsoft, Sony e Nintendo chegassem junto nesse momento mostrando interesse no movimento. Na época eu achei mesmo que nenhuma das 3 poderosas estava se quer cogitando um breve parecer sobre o assunto, mas por incrível que pareça a melhor das respostas veio justamente de quem eu menos esperava. A Microsoft chegou, moveu a produção do 360 para Manaus no intuito de baratear o console e de quebra ainda baixou o preço de muitos dos seus jogos first party antes do fim do ano passado.

Redução da carga tributária? Games sendo desclassificados como jogos de azar? Jogo Justo fazendo efeito? Não, nem me lembro que soltou a nota, mas alguém da Microsoft mandou dizer na época que nem tinha muito conhecimento do projeto. A importância do Jogo Justo perdeu força por causa disso? Não, de forma alguma, é o maior protesto contra essa situação e tudo o que o movimento conquistou e tenho certeza de que ainda vai conquistar é extremamente válido. O único problema é que depois dessa eu fiquei com a pulga atrás da orelha. Afinal se a Microsoft se esforçou afim de vender os seus produtos a um preço mais justo, que base Sony e Nintendo ainda tinham para sustentar aquele velho script de sempre? O de que os impostos ainda não permitem que seus produtos cheguem por um preço decente ao consumidor?

Sempre engoli essa desculpa sem muito protesto porque não é de hoje que a gente ouve falar de empresas que fogem da cidade de São Paulo porque tentam, mas sempre acabam sufocadas pelos impostos, só que dizer que qualquer ação para baixar os preços é inviável em vista da alta carga tributária já não cola mais como desculpa pra mim, não depois do pacote mais simples do Xbox 360 Slim passar a custar 699 R$ nas Bananas. Na minha visão uma excelente opção pra quem ainda não pode começar com tudo o que a plataforma oferece.

Pena que opção não é o que agente vê no momento quando olhamos para o outro lado da moeda. A Sony logo mais chega com o PS Vita com aquele preçinho camarada que todo mundo já conhece e ainda querem gentilmente te empurrar goela abaixo um Mod Nation Racers (opção? a gente não vê por aqui). Sinceramente nem sei o que eles tem na cabeça, a empresa não caiu na real ainda, parece que não parou pra ver qual é a realidade do brasileiro e pelo jeito vai pastar muito ainda para aprender, muito embora não devia. O lançamento do PlayStation 3 já deveria ter ensinado tudo, mas o erro se repete com o Vita.

Se tem uma coisa que eu adoraria ver agora (e não, estou longe de ser um caixista) era o Xbox 360 vendendo como água por aqui enquanto o PlayStation 3 na casa dos mil e tantos reais mofasse nas prateleiras das lojas. Porque observar várias frentes trabalhando ainda que de forma individual para a fomentação do mercado e dar de cara com a Sony praticamente dando as costas para tudo isso é totalmente incompreensível pra mim. Nem no blog oficial da PlayStation Brasil tão festejado na sua estréia e agora vez ou outra reduto de muito protesto recebeu um parecer oficial da empresa nem que fosse pra dizer um: compra se quiser. Se o espaço criado especialmente para nós brasileiros não serve nem como um termômetro para medir os nossos interesses pela empresa e tampouco um canal de comunicação com a mesma onde todos dão opinião, sugestão e são ouvidos, então acho melhor fechar tudo de uma vez.

Já da Nintendo eu não tenho muito o que falar, um dia desses o Reggie estava por aqui, veio dar uma olhada no centro da cidade e disse que esperava ver mais mercado pirata do que jogo original sendo vendido, ficou interessado, mas o assunto morreu aí. A BigN ainda está meio que de namoro com a gente, mas nada de compromisso. Ela quer entrar na brincadeira, mas continua receosa, faz testes, vê o que dá certo, fica em cima do muro na maior parte das vezes, tem até em mente a localização dos seus jogos, mas já avisou que tudo depende do retorno dos fãs aqui, nada mais justo. Enfim, daí não sai nada tão cedo, mas eu gosto mais das ações da Nintendo porque hoje quem pensa em comprar um console novo também pode optar por um Wii a um preço mais acessível, o mesmo vale para o Nintendo 3DS que chegou custando os olhos da cara e hoje sai por 700 R$ se não menos e de forma oficial em muita loja por aí.

E então? Depois de tudo isso ainda dá para acreditar que os impostos tem mesmo 100% de culpa nesse cartório? Eu acho que não.

Mas eu pensei comigo mesmo: tudo bem, já está tudo escrito: a Microsoft vai largar na frente, vai vender muito e logo em seguida vai puxar a Nintendo pra roda e formar a festa. No processo já rola um Mario localizado em português, mas que nem vai fazer muita diferença porque a voz do Charles ninguém dubla e os jogos do bigodudo costumam ter poucas falas mesmo. Daí a Sony com seus preços ridículos vê que a coisa está melhor pra quem realmente respeita o bolso dos seus consumidores e decide enfim fazer por onde. Não tinha erro, tinha? Tá, talvez tivesse, mas a idéia, pelo menos para o mais otimista dos seres seria a de que 90% desse sonho se tornasse realidade. Mas hoje… hoje eu simplesmente já não sei o que realmente vai ou não dar certo por aqui ou quando vai dar certo. Justo quando ninguém se lembrava eis que o senador Valdir Raupp dá nova vida ao projeto de uma lei descabida lá de 2006 que se propõe a tornar crime jogos que incitem algum tipo de violação à outras culturas, raças, credos ou simplesmente aos bons costumes da sociedade brasileira visando pasmém vocês crianças a…? a…? a igualdade. Exatamente o que quase nunca presenciamos nesse país.

E posso não ter interpretado o texto direito, mas tenho certeza de que nessa proposta de lei aí também colocaram que a maioria dos jogos são violentos demais e que causam uma total deformação dos conceitos éticos da nossa sociedade à uma criança ainda em fase de desenvolvimento. Sendo assim, o projeto quer tornar crime a venda, importação, distribuição LEGAL como a conhecemos hoje e até mesmo o armazenamento de jogos que mostrem qualquer aspecto contrário à nossa cultura ou aos bons costumes (escondam o GTA… de novo). O projeto tem vários furos e dá margem para trocentas interpretações que levariam até mesmo a uma completa censura para a maioria dos games que jogamos hoje. Não dá nem pra entender se quem comete o crime no caso é o somente o vendedor por estocar vender ou solicitar importação ou se a polícia também vai bater na sua porta pra confiscar toda sua coleção. E se um jogo que teoricamente ofende alguma religião, o cidadão vai ter direito a processo? Quem paga o pato nessa história? Alguém já perguntou para o senador onde ele escreveu esses pormenores dessa lei maluca?

Agora para pra pensar, para que diabos serviu o esforço do Jogo Justo e outros por fora pra fazer valer a iniciativa dos games deixarem de ser jogos de azar e passarem a receber incentivo oficial do governo como produto cultural se uma lei de um cara que já admitiu nunca ter jogado vídeogame na vida corre o risco de simplesmente passar por cima de tudo isso? Que país é esse que num dia dá esperança para o povo com leis tentando concertar injustiças como essa, se de uma hora para outra num ”zé ninguém” aparece com o poder de colocar tudo a perder? Afinal até onde vai essa palhaçada chamada Brasil? Até quando vamos eleger gente inútil que só sabe acelerar leis para aprovar aumento do seu próprio salário e que não obstante ainda encontra tempo para estampar a primeira página em notícias de corrupção no jornal?

Eu já sabia que o ser humano não tinha valor algum para esse tipo de gente a não ser em tempo de eleição, mas eu nunca pensei que nem um produto julgado cultural poderia ter a sua imagem distorcida tão facilmente por alguém que nunca se atreveu a conhecer o assunto à fundo. Eu acho que no máximo o senador Valdir Raupp se baseou no noticiário da Record para formar a sua opinião, aquele mesmo noticiário que um dia transmitiu uma brilhante matéria sobre um mod para GTA só pra ter o que falar de vídeogame. Ou pior, talvez ele tenha tirado férias exatamente quando o maluco de Realengo resolveu promover aquela chacina no Rio, deu em tudo quanto foi lugar, a emissora do bispo por exemplo só faltou passar o vídeo em HD pra ver se audiência subia de vez. Acho que só isso explica tamanha ignorância.

O governo não quer arrecadar mais e mais impostos? O políticos não querem mais e mais dinheiro pra encher os seus bolsos e os dos seus familiares lá no senado? Então porque diabos censurar os vídeogames a esse ponto? Ao ponto de promover o mercado negro, trazê-lo do fundo do abismo em que ele cai a cada dia e deixar de arrecadar o seu rico dinheirinho? Já foi se o tempo em que comprar um PlayStation 2 e ter dúzias de jogos piratas era a maior vantagem. Hoje a gente quer jogar online, quer encontrar os amigos, saber o que eles estão jogando, compartilhar aquele momento gamer em tempo real e a pirataria não nos proporciona mais isso. O gamer brasileiro está tentando dizer: OLHA, NÓS QUEREMOS COMPRAR ORIGINAL SABE? COM NOTA FISCAL E TUDO, MAS VOCÊS NÃO DEIXAM!!! E não adianta, quem disser o contrário está errado, tem que tomar vergonha na cara e parar de achar que a vida do brasileiro se resume à lei de Gerson. Eu disse aqui e repito, sou fã, quero consumir e pagar por isso, sentir que estou prestigiando o trabalho de quem eu admiro, mas do jeito que está não dá ainda, não em 100% da vezes.

Tem de haver uma troca justa, é assim que as oportunidades de crescimento para um mercado tão promissor quanto o nosso vão pra frente e não na lei do sanguessuga, na base do jeitinho. É bobagem achar que censura vai nos levar à algum lugar e se essa lei realmente pegar então é melhor que estendam o mesmo tratamento à novelas, filmes e até mesmo à músicas e vejam o estrago absurdo que vai dar tudo isso ai, se é que é possível aprovarem tal absurdo depois de ponderar sobre as possíveis consequências de tal ato.

Insistir no argumento de que jogos são violentos é outra burrice sem o menor cabimento, o assunto já foi discutido inúmeras vezes, mas parece que ninguém consegue entender que o que passa na televisão influencia as pessoas muito antes de um vídeogame caro chegar à casa delas. Mais ridículo que ver gente no poder martelando sempre o mesmo assunto é ver jornalista mal intencionado escrever bobagem e fazer a cabeça de um monte de gente alienada. Vídeogame não é e nunca foi só assunto de criança, videogame é arte e como tal gosta de imitar a vida, nos seus momentos bons e ruins, no que há de mais belo e no que há de mais podre nessa vida, além do fantasioso, do imaginário. É por isso que como no cinema, existe faixa etária para cada um deles. No exato dia do Jogo Justo 2 um dos temas presentes no evento foi justamente a classificação indicativa, a melhor forma de proteger uma criança contra conteúdo impróprio para a idade dela, mas quem avisou isso ao senador? Ele se deu ao trabalho de pesquisar sobre isso ao menos antes de perder tempo escrevendo tanta besteira? Não, o que acontece aqui é um só mais um caso de extrema hipocrisia desse cidadão, um completo dinossauro ainda vivendo no tempo das cavernas que infelizmente tem poder para mudar um país, seja ele para pior ou para melhor.

Se essa lei vai pegar? Eu acho que não e ainda ela vingue a última coisa que vai acabar serão os games no Brasil. Ninguém vai ficar fadado a jogar Farmville no Facebook pro resto da vida, assim como ninguém ficou sem o seu santo download semanal de animes depois do fechamento melodramático do MegaUpload. O que vai acontecer nesse caso é muito pior, porque depois disso a única saída vai ser o aumento sem precedentes do mercado cinza, um completo e triste retrocesso depois de tanta luta por um mercado de games de verdade nessa bagunça chamada República das Bananas. Me entristece profundamente pensar que iniciativas como a da Ubisoft, Blizzard e a tão citada nessa postagem Microsoft podem ter ganhado vida pra nada. Outro dia fiquei tão feliz com um vídeo do Guilherme Gamer da CJBR falando do evento que a ACIGAMES promoveu há poucos dias com gente da Konami e dias depois a Capcom anunciando planos para aumentar a sua presença no país. Há 2 anos atrás quem imaginava que Yoshinori Ono viria aqui nas Bananas prestigiar uma Brasil Games Show? E o Charles Martinet então? Num evento que a minha opinião nem foi tão festejado assim no lançamento oficial de Super Mario 3D Land? Sério que um infeliz desses e a sua visão medíocre do que é vídeogame quer acabar com tudo isso? Não, isso definitivamente não pode acontecer, não com poder de protestar pelo que é justo, seja da forma que for, nas nossas mãos.

Mas é isso, esses dias a ACIGAMES divulgou uma carta aberta ao senado deixando bem claro que não apóia a proposta e o mais engraçado é que o processo de votação parece deveras acelerado enquanto a tal proposta de redução dos impostos ainda engatinha a passos de formiga. Mas enfim, se a Associação Comercial, Industrial e Cultural não tiver voz ativa nessa história toda eu sinceramente não sei quem mais terá. Aparentemente o parecer dela sobre o assunto já surtiu efeito, pois Vital do Rego, um dos senadores que votou a favor da lei, voltou atrás na sua decisão nessa semana. Será que ele sentiu a pressão pela revolta dos gamers ou só não quis ver a sua imagem envolvida ao de um senador sem um pingo de ética para falar de moral e respeito às inúmeras raças nesse país tão miscinegado que é o Brasil? (repetindo esse link para que ninguém deixe passar batido, Datena Mode ON). Se vale a pena fazer mais barulho? Ô se vale, para criar de uma vez por todas esse maldito mercado de games do Brasil que já perdeu tempo demais apenas no papel vale tudo e não importa quanto tempo ainda leve, eu tenho fé de que um dia eu vou ver isso acontecendo por aqui.

É nisso o que eu acredito.

Desculpem a meia tonelada de baboseiras, mas essa postagem foi um conjunto de idéias que ficou rodando na minha cabeça a semana inteira, não tive como não despejar tudo por aqui. Quero deixar bem claro que eu não odeio a Sony, tenho um PlayStation 3 e tudo o que queria ver era a empresa pegando o bonde com a Microsoft, mas infelizmente não é bem isso o que anda acontecendo. Também não odeio a Rede Record, só a acho uma emissora medíocre que ainda vai engolir muito do que anda falando sobre videogames. Se eu tiver falado alguma besteira fiquem à vontade para me corrigir nos comentários ou mesmo acrescentar algo que eu tenha esquecido.

Brasil dos games: qual será o próximo capítulo dessa novela?

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K o n S a m a

Do ser sem razão a essa explosão de emoção, do preguiçoso leitor ao (meia-boca) escritor, do tímido calado ao ator inquieto, do caminho já traçado à esquina do destino incerto. Tentei me definir, mas sem sucesso. Games, filmes, música, animes, são só o começo desse quebra-cabeça sem nexo.
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