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EXP | Os Capítulos Perdidos – Doce de Amora

Fragmentos de uma vida que se perderam antes de serem lidos.

Esse post não é um daqueles que costumam ser publicados regularmente no Portallos. Ele não fala de nada que já existe por aí, é sobre algo novo que surgiu recentemente na minha cabeça. É sobre uma aventura que ainda não tem um começo, mas que está acontecendo. E não sei se ainda vai acontecer mais. É uma experiência, uma aventura.

Então, como tal, pode dar certo ou dar em nada. Mas é importante que aconteça. É um fragmento, um instante de uma vida. E o futuro dela ainda não foi escrito. Pelo menos é o que parece. Por enquanto.

Capítulo 77

Max acorda pouco antes das 3h da manhã e não consegue pegar mais no sono, ele não consegue esquecer aquela garota que encontrara algumas horas atrás. Vira o rosto para o lado, observando o relógio cujo brilho do display rompe a penumbra do quarto, um tênue brilho rubro.
__ “Que porra!” – ele resmunga baixinho.
Quando o relógio mostra exatamente três horas, Max sente uma ardência em seu peito e por instante sente a penumbra se dissipar em tons vermelhos, como se aquele brilho vermelho do relógio de repente tivesse aumentado. E então ele fecha os olhos e finalmente descansa.
Quando volta a abrir os olhos, a dor havia passado. Calmamente ele levanta, e após uma leve espreguiçada vai até a cozinha, e toma o resto do refrigerante que havia sobrado do almoço. A falta de gás não parece incomodar, mas mesmo após tomar dois copos, a sede não cedeu.
Mais do que a sede castigando-o, ele sente um quase que um vazio completo em seus pensamentos. Quase, pois a garota desconhecida volta a povoar sua mente. Subitamente, ele se dirige de volta ao quarto, abrindo a mochila e tirando de dentro aquele caderno que não lhe pertencia.
__ “O diário dela!”.
Ele então abre o diário lentamente e começa a virar as páginas em busca de alguma informação sobre ela. Mas estranhamente, no diário só há uma série de rabiscos aparentemente ininteligíveis.
Mas conforme ele vai passando as páginas ele percebe que há um certo padrão, é como se o diário estivesse escrito em algum dialeto antigo.
__ “Aquela menina… ela é maluca, só pode. Isso não faz sentido algum.”.
Página por página, ele prossegue tentando achar alguma lógica naqueles símbolos, qualquer coisa que possa dar-lhe uma pista sobre a identidade daquela estranha garota. Horas mais tarde, finalmente pega no sono, o diário ainda aberto em seu peito; e sonha.
Sua mãe é que o acorda, com batidas enérgicas na porta recheada de pôsteres de mulheres nuas, repetindo no nome dele várias vezes. Max abre lentamente um dos olhos, a visão ainda turva, e se assusta quando olha para o relógio, e grita consigo mesmo:
__ “Porra, como assim o despertador não funcionou?”.
Chega atrasado ao colégio, e percebe um tumulto no pátio. Várias pessoas estão reunidas, ouvindo uma professora de outra turma, mas não está disposto a ir ver o que acontece, ele se senta em um banco e resolve esperar a próxima aula para entrar para a sala.
Poucos minutos depois, a multidão enfim se dispersa. Max olha para os alunos que começam a se esparramar em várias direções e chama por Traque, seu colega do clube de ciências, e pergunta qual o motivo daquilo tudo.
Traque conta que a professora estava falando sobre uma das alunas que sofrera um acidente na madrugada. A estudante foi atropelada e estava no hospital, em coma. O estudante parece um pouco atordoado.
Max pergunta o nome da estudante, mas seu nome não lhe diz nada quando o ouve da boca de Traque, que então saca seu celular do bolso e mostra uma foto para Max.
__ “Essa é a Lana. Mas olha, foi o Jaime que me passou a foto dela, mas se acaso um dia a vir, não conte isso a ela!”.
Max sente sua cabeça latejar quando vê a foto. Ele reconhece aquelas feições.
“É a garota da biblioteca, a dona daquele diário esquisito!” – pensa Max, ao mesmo tempo em que seu amigo percebe a careta de Max e pergunta:
__ “Cara, você conhece ela?”.
__ “Ah… não. Deixa quieto.”.
Depois da aula, Max corre até a professora que havia dado a notícia sobre a garota naquela manhã. Conversando com ela, Max descobre que a garota está internada no Hospital Keller. Ele se despede da professora e na sequência de alguns outros amigos, voltando pra casa.
Max encontra a casa vazia, e um bilhete informando sobre a lasanha caseira que estava no forno, um dos seus pratos prediletos, receita da família. Ele coloca um pedaço no micro-ondas para esquentar, enquanto vai até o quarto, e abre a gaveta do armário. Max fita o diário durante longos minutos, até que ele o coloca em sua mochila e decide se livrar dele devolvendo-o para a garota. “Garota não, Lana.” – pensa e um sorriso involuntário surge.
Chegando ao hospital, Max descobre onde a garota está internada. Depois de chegar ao local, ele pergunta se algumas das pessoas que estão por perto são parentes da garota. Uma mulher velha, porém bastante esbelta, com os olhos vermelhos de choro, se vira e vai até ele, identificando-se como tia dela. A beleza dela é estonteante, Max não consegue deixar de fitar o generoso decote do vestido, mas sua contemplação é interrompida quando uma voz suave chega aos ouvidos.
__ “Você é o Max, não é”.
Um arrepio chacoalha todo o corpo de Max imediatamente. “Como ela sabe meu nome”? – pensa Max, atordoado.
__ “Sou, mas… você me conhece?”.
A bela mulher convida-o a se sentar no banco ao lado, sempre olhando nos olhos de Max.
__ “Eu não tinha certeza, exatamente, mas quando o vi, me lembrei perfeitamente da descrição que a Lana me falou sobre o rapaz por quem estava apaixonada.”.
Aquele ardor no peito novamente se apoderou de Max, que não conseguia entender o sentido daquilo que havia acabado de ouvir. “Como assim, essa garota é apaixonada por mim, eu nunca a vi antes!”
Max engole a saliva de maneira forte e pergunta para a mulher como está a garota. Só então ela desvia o olhar dele e fita a parede em frente, onde um quadro repleto de avisos quebra a hegemonia do branco asséptico do lugar.
__ “Ela continua em coma, mas os médicos estão bastante esperançosos que ela vai se recuperar em breve” – Ela fala com voz suave, quase hipnótica, e volta a olhar fixamente para Max.
Ela diz que é melhor ele ir embora para evitar um desconforto com o restante da família de Lana, e diz que qualquer novidade ela mesmo ligará para ele, e diz para Max anotar o número dela, mas ele passa a mão nos bolsos e descobre que havia esquecido o celular em casa. Então ela dá um cartão para Max, com nome e telefone escritos à mão. Na sequência, tira o telefone da bolsa e pergunta o número de Max.
Após anotar em seu celular, a mulher se inclina e beija lentamente o rosto de Max. Ele não pôde deixar de se sentir excitado com o a temperatura e textura dos lábios dela, mas não percebeu que o quão longo foi o beijo. O perfume dela pareceu não lhe abandonar quando ele se levantou, despediu-se e caminhou para o elevador.
E quando a porta do elevador foi fechando, a mulher sorriu para ele novamente, e Max sentou suas pernas tremerem desconfortavelmente. “AMORA BRAUX – TERAPEUTA NATUROPATA”, Max repetiu baixinho enquanto o elevador descia.
Três dias depois, Max estava tomando banho quando ouviu seu celular tocar. Desde que havia saído do hospital, ele mantinha o aparelho sempre liado e por perto. Desligou o chuveiro e se enxugou grosseiramente, mas não a tempo de poder atender a ligação.
Ele então viu no visor que Amora era quem havia ligado. Rapidamente ele retornou a ligação. Do outro lado da linha, rapidamente surgiu à voz adocicada da mulher, mas visivelmente chateada por não ter sido atendida. Max se desculpou e disse que estava no banho. Amora perguntou se ele tomava banho sempre nesse horário. Ele afirmou, estranhando a pergunta. Após um silêncio estranho, a voz de Amora novamente preencheu a atenção de Max.
__ “Ela acordou” – ela disse em um tom áspero.
Max sentiu-se mais leve e após muito tempo voltou a sorrir, embora não tivesse motivos para isso. Definitivamente, ele estava achando tudo que estava acontecendo desde aquele fatídico dia muito, muito esquisito.
Antes que ele pudesse falar, a inebriante voz de Amora novamente tomou conta de sua atenção, dizendo que ela acordou, mas que infelizmente ela parecia ter perdido toda a memória. Lana não sabia quem era e teve que ser sedada, pois ficou muito agitada quando se deu conta que não sabia mais quem ela era.
__ “Isso, isso é terrível” – disse Max de maneira triste.
Amora prometeu que qualquer informação nova ela voltaria a procurar Max, e desligou o telefone. Max ficou imóvel por algum tempo, como se estivesse em um transe. Mas o celular interrompeu novamente. Era Amora de novo.
__ “Max, eu estava pensando uma coisa desde que fiquei sabendo do estado da Lana. Você tem algo que lembre o passado dela, que de repente possa a ajudar ela a se lembrar de algo?”.
Max então imediatamente olhou para a sua mochila. O diário de Lana ainda estava ali. Então respondeu para a bela mulher:
__ “Só um momento, por favor”.
Ele tirou o diário da mochila e novamente se pôs a folhear as páginas. O caderno possivelmente conteria muitas das memórias da garota. Mas se tudo estava escrito em código, e a garota sofreu amnésia, como ela poderia agora ler seu próprio diário? Max então confirmou para a mulher que sim, ele tinha algo que talvez pudesse ajudar Lana a se lembrar de seu passado. O diário de Lana.
__ “Ótimo. traga-o pra mim.” – Disse ela, visivelmente empolgada.
__ “Aonde devo levá-lo?”.
A voz do outo lado da linha dessa vez soou imperativa, mas ainda sedutora;
__ “Traga-o para a minha casa, Max. Para a minha casa…”.

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Mauri Link

Um gamer inveterado desde a primeira geração de consoles, aficcionado por histórias em quadrinhos, nerd de carteirinha, e super-herói nas horas vagas!
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