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2 x 14: Manhattan

O melhor episódio já exibido de OUAT!

 

Pais, filhos, abandono, medo e magia.

Quem não se lembra de 2010 quando os roteiristas Edward Kitisis e Adam Horowitz, junto com o elenco e outros envolvidos na produção de Lost, disseram em várias entrevistas que aquela era uma série sobre pessoas? Muitos não aceitaram a justificativa, que foi entendida como uma desculpa por não terem sido explicados os mistérios da série. Outros entenderam que, de fato, o coração de uma estória é seus personagens, independentemente do quanto o universo seja interessante. Se em Lost a mitologia acabou por ofuscar Jack e os outros, os roteiristas parecem ter aprendido a lição e a aplicado em sua nova série. Por mais que Once Upon a Time tenha um universo intricado, ele está lá com a função de auxiliar na composição dos personagens. Suas intrigas, dores, vinganças, amores e medos são a base da estória. Os mistérios principais não dizem respeito a números amaldiçoados ou estátuas antigas, mas sim às justificativas por trás das ações dos personagens, que os levaram a ser o que são. E é justamente essa característica que torna Manhattan um episódio magnífico, ao mergulhar no passado de Rumplestiltskin.

Já não existem dúvidas de que Robert Carlyle é o melhor ator de Once Upon a Time. Sua expressividade e a composição que ele dá a seu personagem Rumplestiltskin não somente impressionam como também despertam no espectador uma forte simpatia, apesar de todas as atrocidades que o homem fez durante a estória. Sim, ele é o Senhor das Trevas que viveu por séculos, manipulou, matou e destruiu direta e indiretamente muitas vidas, mas no início Rumple era só um humano. E quando um episódio tem como foco a transformação do tecelão bondoso no monstro, não se pode esperar menos do que algo esplêndido.

Você que está lendo esse texto pode estar se perguntando “transformação do Rumplestiltskin no Senhor das Trevas? Mas isso foi mostrado na primeira temporada!” Sim, é verdade. Como Lost, cada episódio de OUAT conta com duas estórias que se intercalam, uma que se passa no presente e outra em forma de flashback. Por meio desse artifício vimos como Rumple teve seu nome escrito na adaga, largou a mão do filho Baelfire no último minuto diante do portal para o mundo sem magia por temer perder seu poder, perdeu sua esposa para Hook e algum tempo depois causou sua morte, manipulou Regina para lançar a maldição que deu início à estória, conheceu e perdeu Belle. Mas a real origem de tudo foi mostrada em Manhattan através das palavras de uma menina vidente: seu filho já estava no ventre de sua esposa, mas suas ações no campo de batalha fariam com que o menino crescesse sem pai.

Infelizmente a cena em que Rumple criança vê seu pai fugindo de cobradores e sendo morto foi cortada na edição, mas nós o podemos ver já adulto mostrando para sua esposa Millah, com orgulho e empolgação, o papel que atestava que ele havia se voluntariado para lutar na guerra contra os ogros. Ele finalmente tinha a chance de se livrar do estigma de ser filho de um covarde. No acampamento, no entanto, ele conhece a vidente que lhe faz a fatídica previsão. Ao contemplar a carnificina do campo de batalha e sabendo que somente os feridos podiam retornar a suas casas, Rumplestiltskin tomou a decisão que lhe renderia o título de covarde da aldeia, faria com que sua esposa o abandonasse, o levaria a se tornar o Senhor das Trevas e se separar de Bae: ele aleijou a própria perna para ser mandado de volta para casa. Tal qual Desmond, que só queria vencer uma corrida de barco e fez um avião cair em uma ilha, Rumple só queria ver seu filho crescer e condenou mais pessoas do que podia contar.

Falando propriamente do tempo presente da estória e explicando o título “Manhattan”, Rumplestiltskin, Emma e o menino Henry haviam ido para Nova York para procurarpor Baelfire e o acham logo no início do episódio. E para o choque de Emma (mas não dos fãs), o filho de Rumple era ninguém menos do que Neal: o responsável pela ida da moça para a cadeia e pai de Henry. Naturalmente, Emma se sentiu traída e abandonada pelo homem, e o deixou a par de sua mágoa, sem lhe falar sobre o filho (que havia ficado com Rumple enquanto ela perseguia Bae). Neal lhe disse que a havia deixado depois de August lhe contar quem ela era e o que estava destinada a fazer. Ele realmente a amara e a conhecera por pura sina, e não por uma das armações de seu pai. Emma, ao retornar para Gold e Henry, disse ao Senhor das Trevas que havia perdido Baelfire. Rumple invade o apartamento dele a procura de pistas e logo percebe que a salvadora estava escondendo algo e a confronta, mas Neal aparece no exato momento.

O reencontro de pai e filho é tenso. Baelfire o acusa de tê-lo abandonado, de ser um covarde, de ter preferido o poder a ele, enquanto Rumplestiltskin, cheio de remorso, lhe diz que fez de tudo para encontrá-lo e que podia apagar suas memórias ou fazê-lo ter catorze anos novamente para que eles ganhassem outra chance, o que foi veementemente rejeitado pelo filho. Um pouco antes do confronto com o pai, Neal, ao saber que Henry era filho de Emma, pergunta se ele era seu filho também, o que deixou a mulher sem outra opção a não ser confessar. Henry se revolta com ela por ter-lhe dito que seu pai havia sido um bombeiro morto em ação e foge pela janela. Ela o segue e ouve que ele quer conhecer o pai. Emma entendia os sentimentos de Henry; afinal, a dita salvadora havia acreditado a vida inteira que tinha sido abandonada pelos pais e crescera em orfanatos. Depois de Neal ter terminado a conversa com o pai, Emma lhe diz que Henry quer conhecê-lo. A conversa dos dois demonstra ternura, apesar da surpresa envolvendo seu encontro. Eles queriam se conhecer e se aproximar, e mesmo ainda precisando conversar sobre muitas coisas e apesar de todos os percalços, aquele era um momento feliz para os dois.

Mais cedo, Rumplestiltskin havia agradecido a Henry. Se não fosse pelo garoto levar Emma a Storybrooke e fazê-la quebrar a maldição, nada daquilo teria acontecido. No momento em que vemos a cena, pensamos que se tratava de um momento de carinho entre avô e neto, embora nenhum dos dois soubesse desse fato. É apenas nos momentos finais do episódio que sabemos o real significado das palavras de Rumple. Já como Senhor das Trevas, ele reencontra a vidente e a confronta. Ela lhe diz que o futuro era difícil de ser lido e que havia muitas peças desorganizadas, mas que o homem reencontraria o filho, depois de muitas dificuldades. Rumplestiltskin rouba os poderes da mulher e compreende o fardo de ser capaz de ver o futuro. À beira da morte, a vidente lhe diz uma última coisa: um jovem garoto o guiaria até seu filho, mas o homem deveria ter cuidado, pois o menino também seria sua ruína. O Senhor das Trevas não demonstra a mais remota preocupação, simplesmente concluindo: “então eu só preciso matá-lo”.

A cena que encerra Manhattan é a mais fantástica do episódio e se dá depois desse último flashback. Rumplestiltskin observa Baelfire e Henry pela janela, depois se volta para a direção da câmera e a expressão angustiada de seu rosto transmite o dilema em que ele se encontrava com perfeição. Ele havia perdido seu filho porque não queria perder seu poder (alguém mais se lembrou do Benjamin Linus?), depois fez tudo o que estava ao seu alcance para reencontrá-lo. Provavelmente, ele levou Henry para Storybrooke já sabendo que aquele era o garoto da profecia que o levaria a Baelfire (e como Rumple tinha adquirido o dom da premonição, ele arquitetou por séculos o plano para reencontrar o filho). O homem já sabia que teria de matar o menino e, ao agradecer Henry por tudo o que tinha feito, já sabia que logo teria de se desfazer dele. Rumplestiltskin havia matado muita gente, o que seria matar mais um? Mas o garoto era o filho de Baelfire! Se ele matasse o neto, todo o sacrifício que fizera para achar o filho seria inútil! O que seria a ruína que a vidente previra? Morrer? Perder os poderes? Perder a liberdade? Nenhuma das hipóteses é aceitável para o homem que ao ganhar magia a utilizou para subjugar a todos. A questão que fica é se Rumplestiltskin terá uma redenção, reconhecerá e se arrependerá dos erros que cometera, ou se ele se aferraria a sua muleta (o poder) até o fim, assustado demais com a possibilidade de ficar vulnerável novamente. Once Upon a Time investe em seus personagens e em seu enredo, ficando mais complicada e interessante nesta reta final da segunda temporada. Que venha logo o episódio de domingo!

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Andreanekacs

Leitora voraz de livros e mangás, facilmente viciável em séries e frequentemente tecendo teorias estranhas sobre a vida, o universo e tudo mais.
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