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Digimon | Tenho certeza de que podemos voar! (Opinião)

Digimon Adventure: uma análise dos personagens

Recentemente eu soube que a primeira temporada de Digimon começou a ser reexibida nos Estados Unidos, como uma preparação para a chegada de Xross Wars (ou Digimon Fusion… embora o nome original soe bem mais legal) naquele país. Embarcando nos sentimentos de nostalgia trazidos à tona pela internet afora, decidi que seria interessante revisitar Digimon Adventure, por sinal a animação mais querida da minha infância.

A primeira temporada é a favorita de grande parte dos fãs e começa com o mote clássico dos heróis que são levados para outro mundo.  A apresentação dos personagens principais é feita rapidamente antes de o acampamento de verão no qual eles estavam ser atingido por uma tempestade de neve, uma aurora aparecer, sete objetos eletrônicos caírem do céu e as águas de um lago próximo se dividirem e tragarem as crianças para um portal que as conduz ao Digital World (ou Digimundo), lugar fantástico onde cada uma conheceu um pequeno monstro que a protegeria de todos os perigos ao evoluir.

Eu acho que todos devem se lembrar do enredo desse anime, então não me focarei nisso. Para mim, o maior trunfo de Digimon não era necessariamente o plot, mas a construção dos personagens. Não é sempre que há a possibilidade de encontrar tantos personagens ricamente construídos em um anime voltado para crianças, mas Digimon conseguiu esse feito, e o fez com excelência.

taichi e hikariTaichi (Tai) foi sem dúvida o líder mais emblemático da franquia. O primeiro goggle boy era impaciente, confiante, gostava de agir por conta própria, era irresponsável e tinha uma personalidade um tanto agressiva no início da série. Apesar disso, ele era carismático, corajoso e otimista na maior parte do tempo, dando o seu melhor para proteger seus amigos. Tai apresenta um amadurecimento visível no decorrer dos episódios, e para tanto ele precisou cometer muitos erros e aprender com eles. Em várias ocasiões, suas atitudes irresponsáveis fizeram com que o garoto expusesse os demais ao perigo, como no episódio em que ele tentou forçar Agumon a evoluir e ele se tornou o perigoso e descontrolado Skullgreymon. Mais para a frente, descobrimos sobre a vez que ele quase causou a morte de sua irmãzinha por levá-la para brincar no parque quando ela estava doente e sobre a culpa que o consumiu em decorrência disso. Tai tinha às vezes dúvidas quanto às suas capacidades de liderança, e até questionou em um episódio se as aventuras vividas naquele mundo estranho eram reais e se ele realmente precisava retornar para aquele lugar e lutar, mas se forçava sempre a seguir em frente. O líder tinha uma grande fragilidade que escondia a todo custo. Taichi era um personagem muito rico e humano que além de ser o portador do brasão da coragem tinha seus momentos de fraqueza, dúvida, desespero, arrependimento e crescimento.

Yamato (Matt) era um personagem frio e distante que parecia só perder a calma quando seu irmãozinho estava em apuros ou quando achava que Taichi estava propondo algo que seria perigoso para os demais. A verdade era que Matt se autoimpunha a responsabilidade de parecer forte e ocultar seus momentos de fraqueza e dúvida, chegando inclusive a descontar sua frustração no líder do grupo, o que levaria ao confronto na saga dos Mestres das Trevas. Yamato foi muito marcado pelo divórcio dos pais e precisava acreditar que alguém precisava dele e que ele tinha uma função no mundo, o que fez com que ele enxergasse a tarefa de proteger TK quase que como o objetivo de sua vida. Sua preocupação exagerada com Takeru e o abalo ao perceber que o menininho não precisava da proteção dele fez com que o personagem tivesse uma crise emocional e até de identidade, que o fez mergulhar na escuridão da própria mente. Ele não enxergava o próprio valor, tinha ciúmes de Taichi e achava que todos estavam crescendo enquanto ele era incapaz de evoluir. Matt conseguiu se recuperar da crise principalmente com a ajuda de seu parceiro Gabumon, retornando em seguida para o grupo.

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Sora também era muito fechada e fria no começo. Além de ter pais divorciados (sendo que o pai dela era ausente), ela tinha problemas de relacionamento com sua mãe, por não entender que as atitudes da mulher se davam por uma preocupação da mesma com a filha (Sora acreditava que a mãe queria que ela parasse de jogar futebol e se dedicasse a aprender arranjos florais – ikebana – por não aceitar a filha do jeito que ela era, quando na verdade sua mãe não queria que ela jogasse machucada). Sora tinha um perceptível problema em se aproximar dos outros no início da estória, tanto que rejeitava as demonstrações de afeto de Piyomon. Com o tempo, Sora passou a chamar para si a responsabilidade de se preocupar com o bem-estar das outras crianças, principalmente por ninguém mais parecer sensivelmente apto para a tarefa. A garota eventualmente enfrentou uma crise ao saber que seu brasão simbolizava o amor (ela não acreditava ser capaz de amar e tampouco acreditava já ter sido amada, em virtude de seus problemas familiares) e se afastou do grupo, mas continuou a ajudar os amigos à distância. Mais para a frente, Sora sucumbiu à pressão de ser responsável pela salvação de dois mundos e foi engolida pela escuridão, sendo ajudada por Yamato e Jyou. De fato, Matt era o membro do grupo que melhor entendia Sora, e vice-versa. Eles tinham estórias semelhantes, personalidades semelhantes, problemas semelhantes, brasões semelhantes, os dois abandonaram o grupo em algum momento, os dois se perderam na escuridão, etc. Eu gostava bastante da relação deles.

Mimi era uma das crianças mais novas (ela tinha dez anos, como o Koushiro; Takeru e Hikari tinham oito anos; Jyou tinha doze e os demais tinham onze) e talvez fosse a personagem que mais tivesse um comportamento condizente com o de uma criança. Uma possível explicação para isso era que Mimi foi a única que não teve nenhuma experiência familiar que a fizesse amadurecer antes do tempo. Ela era um pouco mimada e egoísta, mas tinha bom coração. Mimi nunca tinha enfrentado dificuldades antes de ir para o Digital World e por isso facilmente se sentia frustrada e chorava. Com o tempo, ela entende que precisa parar de agir daquela maneira e se empenha em ajudar os amigos. Os acontecimentos no Digital World (sobretudo as mortes que ela presencia) a afetam enormemente, fazendo inclusive com que ela perca a vontade de lutar e se afaste do grupo. E o comportamento de Mimi é compreensível, levando-se em conta que ela era uma criança inocente que se viu jogada em um mundo onde monstros queriam matar a ela e a seus amigos, e ela presenciava outros monstros morrendo para protegê-la. Digimon podia facilmente ser uma estória de terror psicológico não fosse o público-alvo.

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Hikari (ou Kari) foi introduzida no meio da estória. Ela era a irmãzinha de Tai que quase morreu durante a infância e teve uma saga inteira dedicada a ela. Para ser sincera, eu não consigo escrever muito sobre a Hikari porque, ao menos durante a primeira série, ela não aparenta ter tido um desenvolvimento tão expressivo quanto o dos demais. Ela era doce, gentil, altruísta e sempre estava disposta a fazer de tudo para ajudar os outros. Kari era muito madura e sábia para a idade dela, mas nunca foi fornecida uma explicação clara para o porquê isso. Talvez tivesse a ver com a doença que ela teve na infância. Todos os outros personagens tiveram suas idiossincrasias mais bem-exploradas do que ela, talvez por Kari ter sofrido com o fato de não ter tido tanto tempo de tela quanto os demais.

takeru e yamato

Takeru (ou TK) foi pela maior parte da série a criança mais nova do grupo. No começo ele era muito dependente do irmão Yamato, que quase não via desde a separação dos pais. Um aspecto interessante da cultura japonesa retratado em Digimon é o fato de, após um divórcio, em caso de casais com dois filhos, cada um dos pais ficar com uma das crianças e quase não manter contato com a outra. O que é uma situação cruel, sobretudo para os filhos, e explica o forte trauma que crianças de pais divorciados têm em Digimon. Em Adventure, enquanto Matt tem um sentimento de superproteção exacerbado, Takeru tem uma espécie de medo de ser abandonado. Em mais de uma ocasião ele se viu se perguntando se o grupo o via como um fardo por ele ser a criança mais nova e não ser tão forte quanto os outros (no meio da série, ele é inclusive levado a acreditar que o irmão secretamente o odiava). Takeru vivenciou experiências traumáticas que o fizeram amadurecer precocemente e depender menos dos demais, o que levaria à crise emocional de seu irmão mais velho, que não se achava mais útil se seu irmãozinho não precisasse dele.

Jyou era o mais velho do grupo e, no começo da estória, acreditava que por ser o maior tinha o dever de cuidar dos demais, embora não fosse competente na tarefa. Ainda que suas intenções fossem boas e seus conselhos fossem responsáveis, o rapaz frequentemente surtava, tinha dificuldade em tomar decisões, não era bom em liderar e não tinha uma personalidade forte o suficiente para se sobrepor às de Tai e Matt. O lado neurótico do personagem refletia as cobranças feitas por sua família: ele deveria se tornar um médico, ele deveria ser responsável, ele deveria sempre ter boas notas, etc. O interessante em rever Digimon quando se é mais velho é perceber essas nuances nos personagens e inclusive críticas (ainda que sutis, afinal era um anime voltado principalmente para crianças) à sociedade japonesa.

koushiro

Deixei o meu personagem favorito por último, temendo escrever um tratado sobre ele. Koushiro (Izzy) era a criança mais inteligente do grupo, e usava seu conhecimento de informática para desvendar os mistérios do local e ajudar os amigos. Izzy era muito curioso e esquecia de tudo a seu redor quando estava trabalhando, o que inclusive lhe rendeu acusações de ser insensível e se preocupar mais com o computador do que com as outras pessoas. Na verdade, Koushiro era muito sensível, mas não era bom em externar seus sentimentos. Enquanto Matt e Sora se escondiam por trás de fachadas de pessoas distantes, Koushiro se escondia por trás de sua sede de conhecimento, sua educação e sua diligência. Do que ele se escondia? Quando era menor, o garoto escutara uma conversa de seus pais e descobriu que era adotado. No Japão, havia (e ainda há, em alguma medida) um forte preconceito e rejeição quanto a crianças adotadas: elas não poderiam receber a sabedoria de seus antepassados, seriam rejeitadas pelos deuses e manchariam a linhagem da família. Como Koushiro era caracterizado como uma criança muito inteligente, ele provavelmente sabia dessas coisas e as internalizou. Foi o que o levou a sempre trabalhar duro e ser o melhor filho possível para seus pais adotivos e a sempre colocar todo o seu esforço em ajudar os demais. O garoto era extremamente humilde e falava da maneira mais educada possível com todo mundo, talvez por sentir que não estava no direito de tratá-los como iguais. Esse aspecto da personalidade dele não foi muito abertamente trabalhado (lembrando mais uma vez que Digimon era um anime infantil, fosse outro o público-alvo…), sendo que a explicação dada pelo personagem para haver se refugiado no computador, quando finalmente conversou com seus pais, foi que ele estava tentando fugir da realidade por se sentir desesperado. Koushiro jamais se revoltou, reclamou ou pediu ajuda com seus problemas pessoais; por mais que ele tivesse sido ferido, ele se dedicou a fazer sempre o que pudesse para o bem de todos, ainda que às vezes não tivesse plena confiança em sua capacidade ou sentisse culpa pelas vezes em que não pôde atender às expectativas alheias.

Digimon Adventure foi um anime infantil que cumpriu com competência seus objetivos sem subestimar a inteligência de seu público. Crianças são capazes de lidar com histórias sombrias e podem ser instigadas a indagar criticamente a realidade. Esse anime foi, para mim, a prova mais contundente de que personagens de estórias infantis podiam ter tanta ou mais profundidade do que personagens de estórias ditas adultas. Uma estória não precisa de gore, sexo ou palavrões para ser boa, tampouco precisa se levar à sério demais ou se autointitular Cult para ser inteligente. É possível encontrar obras-primas onde menos esperamos, estórias que nos façam voar independentemente de nossas asas inseguras. Esta é uma dessas estórias.

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 Fonte da imagem de abertura: http://www.zerochan.net/83722

Fonte da imagem de encerramento: http://hikarutajima1989.deviantart.com/art/Digimon-Adventure-192246962

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Andreanekacs

Leitora voraz de livros e mangás, facilmente viciável em séries e frequentemente tecendo teorias estranhas sobre a vida, o universo e tudo mais.
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