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O que dizer sobre o filme de Need for Speed?

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|Texto sem spoilers |

Adaptação de games famosos para o cinema nunca é uma tarefa fácil. Sem querer ficar apontando o dedo no que é ruim, mediado e aceitável, acho que o melhor é pensar que esse não é um fator apenas nesse tipo de transposição de mídia. Também há muitos problemas em adaptações de quadrinhos, desenhos, livros e qualquer outro universo que precise ser adaptado num filme.

Os que más adaptações geralmente pecam é na forma como o filme se conecta com dois tipos de públicos, aqueles que conhecem a sua origem e aqueles que estão chegando ali pela primeira vez. E isso acontece muitas vezes porque a forma como uma história funciona numa mídia específica não vai funcionar em outra sem que haja a liberdade para reescrevê-la dentro da forma desta nova mídia que irá a experiência uma história possui em sua fonte.

E como é difícil muitas vezes um produtor de Hollywood entender a essência de uma obra, seja ela um livro, brinquedo ou, como é o caro aqui, um game. A experiência de uma game nem sempre é restrita a história em si, apesar de que atualmente existirem games que possuem uma inspiração cinematográfica que te compele para dentro de uma história totalmente imersiva, o fator gameplay sempre será um fator que obrigatoriamente precisa ser funcional e lhe prover a experiência necessária. E olha que muitas vezes essa experiência é algo único de diferente de pessoa para pessoa, sendo algo muito mais interpretativo do que o sentimento que um filme pode causar, ainda que isso também exista sim no mundo do cinema. Como recriar a experiência de jogar um game adaptando ela para um filme? Complicado, não? Adaptar uma história é fácil, se ela for muito boa, mas recriar o sentimento pessoal de cada jogador num filme? Isso já é bem mais complexo.

Enfim, divaguei até mais do que gostaria, e isso só para dizer que depois de assistir ao filme de Need For Speed, posso dizer que senti muito da minha experiência pessoal com a franquia nas incríveis duas horas que o filme me tomou neste primeiro domingo de agosto. Este é mais um daqueles casos em que fui assistir ao filme totalmente as cegas, sem qualquer expectativa, sem nem mesmo ter visto um mísero trailer. Estava ciente de que a EA estava produzindo um filme da franquia, mas sinceramente, nem percebi se o mesmo passou ou não pelos cinemas aqui no Brasil, de tão por fora que estava sobre a adaptação em si. Imaginei que iria encontrar uma espécie de Velozes & Furiosos de menor qualidade, e tive uma surpresa ao ver que apesar de Need For Speed ser um filme sobre carros e corridas, ele traz um gostinho totalmente diferente de Velozes & Furiosos, o que, pra mim, é excelente!

O filme me lembrou muito mais a minha experiência ao jogar vários games da franquia NFS do que os filmes de corrida de Vin Diesel e Paul Walker. Tive a sensação de ser um filme sobre carros e a paixão e admiração que eles podem causar as pessoas, porque de uma certa forma é isso que os games desse gênero possuem, permitindo jogadores pilotarem carros que jamais poderia dirigir na vida real, correr em cenários, pistas e em velocidades que jamais você gostaria de arriscar no mundo real. Há um certo fascínio no universo dos carros e corridas dentro dos games, uma simulação que você não tem qualquer problema de ter num videogame.  E é muito interessante como o filme passa um pouco dessa sensação, do tipo, “eu já vivenciei isso num videogame ao jogar Need for Speed”.

Há muitos ângulos, jogadas de câmera e cenas de ação onde o diretor se preocupou muito mais em dar ao espectador a experiência de sentir estar dentro do carro do que se preocupar em ficar colocando os atores do filme em closes e canastrices que vemos por exemplo, em Velozes e Furiosos. E veja bem, quando digo que a câmera está dentro do carro nestas cenas, não parece aquela coisa forçada ou falsa que vimos em Doom nos cinemas, é algo fluido, que se você é um jogador de games de corrida, vai notar, só que quem nunca jogou também vai curtir essa experiência, sem nem mesmo saber porque aquilo ali está ali.

Achei impressionante que o filme tenha 130 minutos de tela. É muito tempo, até mesmo para um filme do gênero, mas se senti o cansaço do tempo de tela, foi apenas na última corrida que fecha o filme, a mais longa e depois de tudo que você passou até então, ela nem é a mais expressiva em si, apenas necessária para fechar o arco da história. E não é um filme de corrida do começo ao fim. Sim, a dupla de protagonistas, e seus amigos, passam inacreditáveis quase que o tempo inteiro do filme em carros, dirigindo, onde há pouquíssimas cenas deles fora das pistas, estradas ou rodovias. Faz sentido dada a urgência que a trama cria em cima de si mesma. É um clima diferente, até menos ousado, já que há tantos riscos em se criar um filme assim.

Pode esperar perseguições policiais, cenários desérticos, rodovias enormes, competições de racha e também de destruição do alvo, carros belíssimos e diferentes, tal qual nos games, ação e adrenalina e até mesmo uma dose corretíssima de humor. A única cena de nudez do filme inteira é hilária, e totalmente justificável, e só não digo que é uma boa ideia porque segundo a nossa lei nacional é crime, mas imagino que lá nos Estados Unidos também seja, mas ainda assim é uma cena animal por tudo que está acontecendo nesse momento no filme e não apenas pela piada.

Enfim, infelizmente parece que o filme recebeu duras críticas por aí. Mesmo assim ele se pagou, pois custou 66 milhões de dólares e arrecadou mais de 200 milhões mundialmente. Não sei se isso foi o suficiente para garantir uma continuação, e eu toparia uma sequência sem problema, contanto que fosse uma outra história com outros personagens. Poderia manter o Michael Keaton como o excêntrico organizador de corridas secretas, mas não precisa mais trazer de volta os personagens de Aaron Paul e Imogen Poots, que apesar de terem funcionado pra mim, acredito que o ciclo da história deles não precisa mais continuar. Fechou muito bem aqui e pronto.

É verdade que a experiência criada com esse primeiro filme seria difícil de ser superado num segundo, mas ainda assim, achei um filme agradável e que finalmente mostrou que dá para fazer mais filmes assim, mas sem aquela cara de Velozes & Furiosos. Talvez as críticas foram duras pela experiência do filme na telona do cinema. Talvez nos cinemas a experiência seja mesmo diferente, talvez mais cansativa. Mas aqui em casa, vendo na mesma TV que jogo Need for Speed, pra mim foi diversão garantida para esse domingo. O que resultou numa boa adaptação de um game para o cinema, e olha que essa seria uma adaptação que teria tudo para dar errado, vindo de uma franquia de game que não possui uma história emblemática ou memorável. O sentimento de Need for Speed não vem se sua história, e felizmente sua adaptação em filme conseguiu entender perfeitamente isso.

Vale a pena ver! Fica a recomendação!

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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