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Netflix Original | Beasts of no Nation (Opinião)

Texto sem spoilers do filme!

Finalmente consegui assistir neste final de semana Beasts of no Nation, o primeiro filme do selo Netflix Original, lançado no serviço em 16 de outubro. A demora se deu por conta da classificação do filme ser 18 anos e atualmente ter uma pequeno de 3 anos rondando a TV de casa diariamente. Com um filho pequeno nem sempre é fácil separar 2 horas e 20 minutos para se ver um filme com uma temática mais pesada, e geralmente quando ele cochila ao longo do dia, ou você cochila ou está esgotado o suficiente para ver um drama pesadíssimo como Beasts of no Nation se propõem a ser.

Admito que ter um peso de ser um item do catálogo de originais do Netflix, que atualmente só vem mostrando um alto nível de qualidade, meio que acaba atiçando a curiosidade do usuário do serviço a conhecer tudo que tem tal selo. Porém vale lembrar que a Netflix apenas comprou os direitos de distribuição mundial de Beasts of no Nation, sendo assim, ela não o produziu especificamente.

Alias este deveria ter sido o primeiro filme de larga escala que estaria estreando nos cinemas e no Netflix simultaneamente. Porém você viu algum cinema exibindo a produção? Segundo uma matéria (de março deste ano) do The Guardian, lá nos Estados Unidos rolou um boicote forte das maiores redes de Cinema contra o filme por causa da distribuição global do Netflix, sem se preocupar com a regra de ouro dos 90 dias, existente nos Estados Unidos (e na qual acredito que outras regiões também sigam), entre um filme exibido nos cinemas e depois distribuído em outras plataformas. No fim, aparentemente Beats of no Nation foi exibido em poucas e pequenas salas, o suficiente para poder disputar festivais e quem sabe o Oscar deste ano.

É o Netflix mais uma vez tentando quebrar um sistema engessado e que carece de uma nova perspectiva. O futuro digital é interessante e sim, os cinemas são parte importante dele, mas quão importante? É interessante observar o futuro dessa disputa. Afinal, o Netflix está sendo responsável por uma transformação em outros aspectos do entretenimento, como a gente pode citar quanto ao modelo de séries americanas, na qual já se provou a qualidade e excelência que o Netflix vem colocando em suas produções e no ousado modelo de entregar temporadas completas ao telespectador e deixá-lo ter a liberdade e a decisão de quantos episódios e como assistir o show. É a liberdade do poder do entretenimento. Nesse sentido, realmente acredito que o serviço está visando um futuro melhor, do que acabando com estruturas como muitos alardeiam por aí. O Netflix está criando novas estruturas, uma nova visão e a meu ver isso é muito interessante.

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A guerra e o garoto…

Beasts of no Nation retrata a vida de um garoto, Agu, que vive em um vilarejo em algum lugar da Africa – o filme não diz onde especificamente – e que vê sua vida completamente atropelada pelo conflito e a guerra que assola a região, até o ponto em que ele entre nesse mundo de guerra, mortes e do sentimento de que tudo está perdido.

A discussão do filme é bem inteligente. Não há tentativas de explicar minuciosamente o que diabos está acontecendo nesse conflito. Partindo da ideia de que estamos vendo o filme sobre a perspectiva de Agu, fica claro que não existe a necessidade de entender porque o governo é tão cruel ou porque existem facções que pregam a liberdade do povo, mas que são tão cruéis e insensatos quanto. É um conflito onde todo estão errados a tanto tempo que em certo momento faz parecer que ninguém mais sabe porque estão lutando. É um conflito pela qual não há vencedores, apenas perdedores. E é inacreditável quanto isso é real e o quão burro o ser humano é a ponto de não perceber isso.

A história é convincente o suficiente para te fazer acreditar como um garoto se torna algo tão difícil de acreditar, ainda mais sobre a nossa perspectiva, de quem nunca lutou uma guerra civil, nunca passou por esse tipo de tragédia ou pobreza. Ainda que ver um garoto indo para a guerra, matando, sendo assombrado por isso, e sendo retratado como um adulto precoce não foge muito a realidade na qual existe em países como o Brasil, em grandes favelas onde o tráfico e a máfia sustentam uma engrenagem podre em nossa sociedade e na qual sabemos que crianças tão são envolvidas nesse problemático mundo da criminalidade. Não é uma realidade exclusiva de regiões africanas e sim algo que pode ser encontrado em qualquer lugar do mundo.

Nesse ponto Beats of no Nation provoca o espectador. Há cenas realmente fortes no filme, na qual você percebe que Agu já se perdeu naquele mundo. Se tornou algo que ele nunca irá se recuperar. Em dado momento do filme ele apenas diz, “Deus, se essa guerra acabar, com tudo que eu já vi e fiz, como poderei voltar a fazer coisas de criança?“. Isso é um soco na cara de quem está assistindo.

Sem dúvida alguma Beast of no Nation é uma grande produção e que nos faz pensar nesse lado de uma realidade na qual o mundo sabe que existe e que nada é feito. E nem acho que organizações como ONU ou outros países possam fazem algo. Situações assim talvez nunca se solucionem enquanto não houver sensatez de quem está em conflito. O terceiro ato deixa isso bem claro, quando uma decisão é tomada sem qualquer bom senso e que leva direto ao final do filme.

Dito isso, minha única crítica é quanto ao final do filme. Claro que não o revelarei aqui, mas deixa aqui a minha opinião de que não gostei muito desse terceiro ato de Beast of no Nation. Eu já comecei esperando que o filme fosse terminar de uma forma, mas ele degringola para um final mais… correto. Gostaria de ter visto alguns desfechos para alguns personagens, mas novamente, sobre a perspectiva de Agu, faz sentido que você não veja nada além de sua própria história.

Em todo caso, ainda não sei se gostei do final. A trajetória do filme como um todo é excepcional. Vale a pena ver sim a produção, porém eu gostaria que o final me impactasse ou chocasse. Quando o final chega, ele apenas… acaba. E fico com a sensação que a história do garoto não deveria terminar ali, ou ao menos eu, gostaria de ter visto mais.

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Beasts of no Nation não é necessariamente um filme triste, porém ele mostra uma realidade de conflitos, um mundo duro e o debate de que são os seres humanos os culpados por sua própria miséria. Há tragédias sim, porém há uma lição que pode ser aprendida aqui, uma mensagem de que a paz nem sempre se é conquistada por pessoas que clamam por justiça, vingança ou que pedem por tudo isso, que dizem defender os fracos e oprimidos, quando na verdade, quem apenas encher a pança de riquezas ou se manter soberano ao poder. Porém esteja o homem no topo ou na vala, é a ambição e a cobiça que continua a destruir tudo e todos.

Se você ainda não assistiu, fica a recomendação para que o faça. Porém reserve um tempo com calma para assistir, mas que seja um momento onde você realmente possa refletir e pensar no dilema na qual o filme se propõe a discutir.

Fica a dica!

História envolvente, baseada em uma dura realidade africana
Tema pesado, com cenas que podem chocar alguns
Interpretações incríveis de Idris Elba e do garoto Abraham Attah
Apenas achei que o final poderia ter sido mais impactante
É provocativo, tem faz pensar no tema proposto

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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