Bleach O Fim | 686 capítulos e a sensação de que todos perdemos algo! (Opinião)

Antes de começar a ler este texto, corra para mais abaixo da página e dê play no vídeo de 20 minutos contendo a trilha das clássicas aberturas do animê, volte aqui para cima leia toda a crítica e venha discutir o final de Bleach.

15 anos. Esse é o tempo em que o Bleach esteve em publicação no Japão desde a sua estreia em 20 de agosto de 2001. Imagine um garoto de 10 anos lendo o primeiro capítulo deste mangá. Este ano ele fecha este ciclo com 25 anos de idade. Se você pensar por este ângulo, faz sentido o autor encerrar o mangá da forma como encerrou, utilizando o elemento da família, da próxima geração de personagens.

Um garoto de 10 anos hoje talvez não queira mais saber de Ichigo, e não porque o mangá se tornou uma grande montanha de nada, mas simplesmente porque seu protagonista e personagens envelheceram ao ponto de não mais se comunicar com seu público alvo, a garotada entre 10 a 15 anos, que sempre são foco destes mangás de batalhas, os chamados shonens.

Então, nada mais razoável do que rebootar tudo de novo, mas não como a Marvel e a DC Comics fazem aqui no ocidente, mas criando bases para uma nova geração de personagens, filhos dos protagonistas na qual, nós, já adultos, os vimos crescer. Mantém a atenção da velha geração de leitores, ao mesmo tempo em que abre as portas para uma nova geração.

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É estranho pensar que isso ainda é um choque para a gente. — Que merda, mais um mangá que termina com o protagonista crescendo e apresentando seu filho. Como se o autor estivesse rindo da sua cara dizendo que ainda não acabou de verdade e que esse universo irá continuar a partir de um novo ponto de entrada para novos leitores.

Só que aí eu penso em Dragon Ball. Não é exatamente isso que Akira Toriyama fez quando decidiu acabar com Dragon Ball? Ou pior, isso aconteceu muito antes do real final de Dragon Ball. O Goku cresce, vira um adulto e o mangá passa mais a ser sobre o Gohan do que sobre o Goku. E hoje nós idolatramos Dragon Ball, e seu universo na verdade nunca morreu. Novos personagens foram inseridos nos games, animações e até mangás especiais lançados após o final oficial do mangá. A linha do tempo da série continua viva até hoje, rendendo frutos e lucros aos seus licenciantes e também ao seu autor. E nós, fãs, somos gratos por isso.

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Pensando assim, é realmente tão condenável que Tite Kubo e Masashi Kishimoto (autor de Naruto) tenham terminado suas obras exatamente com esse mesmo espírito? Será que os mangás hoje em dia não estão sofrendo uma pequena influência do ocidente, com nossos quadrinhos que nunca terminam e viram franquias milionárias que precisam durar para sempre?

Obviamente isso é um pouco chato, para não dizer ruim. Afinal um dos elementos mais legais dos mangás sempre foi justamente a forma como uma história progride, indo de um ponto inicial para ser concluída algum dia. Os personagens crescem, amadurecem, mudam desde o começo. Esse elemento ainda está presente em obras como Naruto e Bleach, mas apesar deles crescerem, em termos de história a sensação que temos é de que nada acabou sendo realmente concluído.

A fantasia perde seu encanto e estes personagens acabam sendo muito mais realista do que gostaríamos, pois a vida é meio que assim, nada se conclui e a gente apenas vive até passar ao ponto de passarmos um pouco de nós mesmos aos nossos filhos e crianças da próxima geração. E qual é a graça de ver isso nas histórias e mangás que lemos e acompanhamos por décadas? Qual a surpresa? Qual a graça em saber o óbvio? É complicado, não?

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Agora vamos mudar um pouco essa perspectiva. Aceite que os mangás – ao menos os que duram anos e anos – podem e irão, sempre que possível, acabar assim; com os personagens crescidos, casados e com filhos, para que seus autores possam sempre que quiserem revisitar suas obras. Afinal nem todos podem se dar o luxo de pausarem suas obras por anos a fio, até esgotarem suas contas bancárias e só aí voltar a trabalhar novamente as suas obras, tal como Yoshihiro Togashi, autor de Hunter x Hunter – que a título de curiosidade começou em 1998, muito antes de Naruto e Bleach.

Não há problema então mangás utilizarem esse recurso da próxima geração ao serem finalizados. O grande mal é quando o mangá não tem um verdadeiro desfecho, um grande momento para encerrar a sua fase. O Kishimoto com Naruto até tinha um gigantesco trunfo para seu desfecho, a resolução entre Naruto e Sasuke. E ainda que muitos não apreciem como foi feito, ao menos ele resolve uma das grandes propostas da história que o autor soube criar lá no começo do mangá e manteve interessante por quase todos seus anos de publicação. Bleach infelizmente não tinha exatamente nada disso para poder terminar de uma forma mais contagiante.

Aliás Bleach nunca teve exatamente um gancho muito satisfatório. No começo havia um grande mistério em quem era Ichigo, como ele podia fazer tudo aquilo e até onde o autor iria levar essa premissa. Houve a grande fase do descobrimento e rebelião, que foi a melhor fase do mangá: o resgate de Rukia e a guerra contra a Soul Society.

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Depois disso o autor conseguiu criar uma grande sacada: surge um traidor em meio a todos os “mocinhos”, um grande vilão e grande estrategista: Aizen. Por muitos anos esse foi o grande trunfo do mangá. Temos que derrotar Aizen! Temos que impedir seus planos, temos que ficar mais fortes! E o autor soube criar recursos narrativos inteligentes para tal. A ideia de que apenas Ichigo poderia enfrentá-lo, porque ele foi o único que nunca havia visto sua bankai e suas habilidades era uma fantástica ideia. Bleach foi um mangá que teve seus momentos bons com ideias narrativas.

Outro gancho sempre foi o mistério do poder de Ichigo. Como alguém poderia ter os poderes de todas as raças e classes apresentadas no mangá. Ele sempre teve de tudo. Esperava-se que o autor iria algum dia trabalhar isso com o mesmo carinho e dedicação que o Kishimoto fez com Naruto. Talvez com a mesma coerência. Quem não se emocionou quando o passado de Naruto? Com ele reencontrando seu pai e sua mãe? Kubo nunca soube como trabalhar o passado familiar e os segredos da família de Ichigo. O próprio protagonista parece que nunca se importou também.

O grande mistério de sua mãe foi jogado totalmente na hora errada, em uma saga que todo mundo já estava de saco cheio e especialmente há muito antes do clímax final do mangá. Hoje o mangá acabou e mal me lembro de como foi o momento final com a história de sua mãe. O que levanta também o ponto do significado dos pais: dele e do Ishida. Qual era o propósito das figuras paternas nesse final do mangá? Nem o sacrifício do pai pelo filho o Kubo ousou criar. Morreu aqueles que não tinham mais propósitos a história, quem precisava morrer mesmo para que os poucos leitores que restaram continuassem lendo.

Kubo não trabalhou as mortes como se esperava que ele trabalhasse, como se elas tivessem algum significado, porque de uma forma ou de outra, toda a Soul Society sempre importou ao fã de Bleach.  E elas não tiveram peso, ou significado. Não houve o momento de luto, de choro, na qual os personagens se importassem com quem ficou para trás. Kishimoto não matou muita gente também, mas os poucos que matou mal deram impacto e motivações ao plot de sua história, com raras exceções.

Queria aqui poder citar nomes de personagens, mas no fim, Bleach se mostrou um mangá tão vazio, tão insignificante que já não me lembro mais os nomes de muitos personagens. O que fica na minha lembrança são os excelentes momentos do começo do mangá, das belíssimas aberturas e encerramentos de seu animê (dê play acima) e dos poucos momentos épicos que existiram aos longos destes 15 anos de Bleach.

Me pergunto se preciso comentar a respeito de Ichigo ter escolhido a Inoe e não a Rukia no final da história. Tendo em vista um dos últimos diálogos que Renji teve com ele, me pareceu mais do que certo que Renji deveria se casar com a Rukia, eles sempre se amaram. E Inoe sempre amou o Ichigo, enquanto a relação do jovem com a Rukia sempre me soou mais como uma família, de uma irmã e um irmão. Não fiquei insatisfeito com isso, eu apoio os casais como ficaram.

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Achei boboca a tensão do capítulo final, com a tal ameaça e que foi resolvida pelo filho do Ichigo, ainda que isso talvez tenha soado estranho e até aberto a interpretações a respeito de possíveis efeitos colaterais. E jamais gostaria que num eventual retorno a este universo o autor trabalhasse isso novamente. Espero que não. Gostei de Kazui e Ichika, mas não sei que há muito aqui para ir além da mera simpatia por estes personagens. Bleach quando começou tinha um Ichigo meio já adulto, ter uma versão dele mais parecia com aquele Goku/Gohan criança de Dragon Ball me soa uma sacada muito boa do autor. Se existir novas histórias com Kazui, admito que gostaria de conferir.

Quanto ao Aizen, vaso ruim não quebra mesmo, certo? Nem mesmo ele o autor teve a coragem de matar. Palavra forte esta, não? Coragem. Segundo o Aizen é exatamente isso que a humanidade precisa. Viver para sempre? Bela merda! Não, para conseguir alcançar metas de vida, você deve saber que vai morrer em algumas décadas. Bela hipocrisia vindo de um mundo onde todos ali podem viver por centenas de anos, não? Isso me faz gostar da ambiguidade das palavras finais do Yhwach. No fim, ele queria mudar a ordem de como os mundos funcionam, e graças ao Ichigo, as coisas simplesmente vão continuar como sempre foram. É realmente um final feliz? O discurso me pareceu ambíguo.

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Essa mensagem final do Yhwach foi o que mais me deixou pensando a respeito de toda a série. Então as pessoas lutaram contra as mudanças. Sendo que ao longo destes 15 anos o Kubo deixou bem claro que os mundos do universo de Bleach nunca foram justos com aqueles que viviam lá. A Soul Society tinha o Gotei 13, os soberanos da parada, com todos aqueles que viviam na pobreza ao seu redor. O Hueco Mundo são os injustiçados, exilados de tudo e todos. Os Quincys foram exterminados e massacrados. Classes diferentes foram banidas ou exterminadas no mundo de Bleach. Seja e pense diferente, e você é banido ou morto. Estranho, não?

No fim, Yhwach (e até Aizen) “apenas” queriam uma nova ordem no universo, e ambos falharam. E pelo que vemos nestes dois capítulos finais, nada realmente mudou nas premissas desse universo. Aizen não mudou nada. Yhwach não mudou nada. Ichigo impediu com todas as suas forças que tudo mudasse. E nada mudou então. Cadê todo mundo que não vive na Soul Society? Voltaram para seus mundos de merda? Seus exílios? As regras mudaram para aqueles que se aliaram nesta batalha final? Nada disso é colocado neste final.

Será que foi essa a real intenção do autor? As palavras do Yhwach dizendo “Graças a você Ichigo, tudo vai continuar injusto como sempre foi” vão continua ressoando em minha cabeça. E o autor não dá indício de que algo mudou.

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Não questiono se as batalhas travadas, se os vilões existentes precisavam serem impedidos. Questiono o fato do autor não mostrar mudanças nas bases do universo que em 15 anos ele sempre mostrou que haviam problemas. Ichigo não ficou na Soul Society, e a organização lá não parece ter mudado. Os aliados, Vaizards, Arrancars e outros (que esqueci seus nomes)… nem apareceram no fim, como se não importassem. Nunca importaram?

Bleach acaba assim, com uma sensação de vazio. Ichigo fez o que tinha que fazer? Nada mudou, todos cresceram e a vida segue. Como se nada tivesse acontecido. Como se questionar e brigar por uma nova ordem fosse realmente algo ruim. A forma como se brigavam era ruim, isso não questiono. Porém isso deveria criar perspectivas, não? Não sei, mas a mensagem final de Bleach me soa muito, mas muito ruim.

Quem sabe essa bomba sobre para Kazui e Ichika. Que a próxima guerra recaia sobre seus ombros… certo? Por que se o universo de Bleach vai continuar, certamente precisam haver vilões e inimigos para movimentarem novas histórias. E é isso que consigo tirar deste final, de 15 anos de Bleach…

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