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Resenha | O que dizer de… The Talos Principle? (PC/PS4)

É uma pena que não possamos testemunhar nosso próprio nascimento. Quer dizer, até estamos lá né, mas é que nem aquela vez em que você vai no bar e tem um cara fazendo cover acústico desafinado de Rolling Stones e todo mundo está se olhando sem entender o que está acontecendo e se perguntando se era pra ser assim mesmo, aí você fica triste, só que a tristeza não dura muito porque logo aquilo funciona como uma minúscula e inenarrável marreta no seu saco e você sabe que a única solução é beber um pouco mais do que o necessário. Seria um bom plano se o seu necessário no caso não fosse o mesmo do Zagallo, mas ele trava o Nintendo faz pelo menos uns 783 anos e há certas coisas que só a experiência pode te trazer, como maturidade, rugas, afeição por conselhos e uma cristã resistência alcoólica de jegue.

Enfim, não dá pra te culpar por não lembrar de nada no dia seguinte e você vai passar o resto do dia tentando lembrar se você falou muita merda. O que é inútil, porque óbvio que você falou. Eu esqueci onde eu estava indo com essa metáfora, mas a ideia é dizer que certas coisas até dá pra te culpar por esquecer, tipo o aniversário da sua mãe ou o nome do seu cachorro. Outras, no entanto, totalmente fogem do seu controle. Acho que todos temos essa curiosidade sobre como é ver o mundo pela primeira vez em primeira pessoa, mas simplesmente não temos essa possibilidade. Minha teoria é de que os videogames existem pra preencher as lacunas deixadas pelo impossível e no brilhante The Talos Principle, seu primeiro respiro é confuso e perplexo justamente como na vida real.

Falando nisso, o que é real afinal? Você está lendo mesmo esse texto? Ou você está imaginando que está escrevendo ele? Ou estamos todos em um estado de animação suspensa imaginando algo? A realidade é realmente real ou vivemos em uma simulação de computador? O que, você nunca se perguntou isso? Bom, se você der uma chance para o puzzle filosófico em primeira pessoa feito pela Croteam, responsável pela espetacular série Serious Sam, provavelmente não vai conseguir falar de outra coisa por algumas semanas. Aí seus amigos vão achar que você é estranho e atravessar a rua quando te verem e cochicharem nas suas costas que você oficialmente virou aquele tiozão esquisito que vai nas festas de criança pra comer coxinha e perguntar pra um moleque de 8 anos se ele acha que os discos voadores são de outro planeta ou outra dimensão (não que eu tenha feito isso), mas o que seria do amor por videogames sem envolver um certo risco de suicídio social?

A primeira coisa que eu vi sobre The Talos Principle, além de seu glorioso nome, foi uma comparação com Portal. Eu sou um cara simples, só isso bastou para eu me interessar. Por qualquer motivo, eu fui para o jogo sem saber basicamente nenhum detalhe. Não assisti a um gameplay no youtube, não procurei imagens dos gráficos, não sabia nem a história central e eu absolutamente recomendo que todos façam igual. Você não ia querer spoilers do seu nascimento, né? Tá, eu vou parar de forçar esse aspecto do jogo, ele só voltará no final da resenha.

Vinte e poucas horas depois, eu terminava a minha jornada no jogo e chegava em seu exuberante final. Por sinal, há mais de um final, mas não é que nem aqueles jogos japoneses nos quais você tem que adivinhar uma solução absolutamente contra intuitiva para não acabar com um fim ruim (Persona 4 e Catherine, estou olhando fixamente para vocês). O provavelmente melhor final é o mais provável de você alcançar, mas em retrospecto até nisso o jogo é bem balanceado: não há um final melhor. Todos são defensáveis e fazem sentido dentro da lógica do universo. Eu realmente queria falar minha teoria sobre eles, mas eu realmente não vou fazer isso embora realmente esteja realmente muito difícil mesmo de controlar, então vou para o próximo parágrafo. Realmente.

O lore do jogo é contado através de terminais de computador que você encontra pelos mundos. Alguns são relativamente escondidos, mas num geral o jogo te guia para eles. Não espere algo muito concreto, as mensagens são abstratas e somente no final você vai ter uma ideia definitiva de que raios está rolando. Nesse sentido, Talos Principle lembra um pouco o seminal Bloodborne ou a série Souls como um todo: seu universo é críptico, gelado e não necessariamente convidativo, mas que de alguma forma bizarra vai te fazer mesmo sem perceber procurar opiniões sobre o que rolou em fóruns na internet. Talvez porque a direção de arte nesses jogos seja realmente sensacional. Eu não sou um grande entendido de gráficos, eu nunca sei quantos pixels estou vendo. Eu gosto de tomar cerveja e jogar The Revenge of Shinobi. Dito isso, visualmente Talos Principle é monumentalmente bonito, seus mundos são detalhados em sua violenta paz e embora sejam de certo modo perturbadores, há um aspecto de lar neles. É como uma casa que visitamos em nossa infância e que cada vez mais se distancia em nossa memória ao mesmo tempo em que ainda aparecem frequentemente em nossos sonhos, geralmente assombradas. Não é porque os fantasmas estão em nossos sonhos que eles não estariam lá no mundo real também.

Duas vozes conversam contigo ao longo do seu caminho: uma te guia e outra te debocha por suas noções preconcebidas. Há também um outro personagem que não conversa contigo diretamente, mas que narra sua história em um tom relativamente assertivo. Talvez aqui nessas relações exista a falha na obra da Croteam: o jogo por vezes é sério demais e pende um pouco para a autoindulgência, lembra um pouco um disco do Opeth. Ei, nada contra Opeth, eu acho que a banda é o mais legal que algo pode ser mesmo tendo guturais. Há algo sobre suecos cabeludos vociferando heresias que tem um apelo universal. Ainda assim, o jogo passa por alguns temas pesados e faz isso com a sutileza de um diálogo de novela das 8. Sério, falta muito ainda pro Alexandre Nero sumir e começar a fazer só comercial de salsicha? Ou cantar no Opeth?

Esses momentos são compensados com outros mais leves, onde o jogo realmente brilha em uma introspectiva reflexão sobre a humanidade e a espiritualidade. Afinal, o tema central é a consciência, mais especificamente a consciência humana, e esse aspecto é abordado de uma forma acessível e instigante. Como uma boa conversa, seu conteúdo fica ecoando na sua cabeça por semanas. Logo você estará escrevendo um texto questionando ao leitor o que é real afinal, ou se ele está lendo mesmo esse texto, etc… Se a trama te faz pensar, os puzzles te desafiam mentalmente ao ponto da exaustão. Lógico que sempre vai ter aquele gostosão das internets que vai dizer que é muito fácil e que ele não teve dificuldade nenhuma, mas para o resto de nós que vivemos sem complexo peniano alguns dos puzzles são realmente complexos e exigem uma ginástica mental raramente igualada em outros jogos. Alguns, no entanto, tem uma solução simples irritantemente inalcançável daquelas que parecem tão fáceis depois, então se prepare para se sentir idiota frequentemente. Lembra um pouco Twilight Princess e aquele infernal puzzle das caixas em Snowpeak Ruins, que me fez questionar minha racionalidade quando eu descobri a solução após horas tentando. Alguns dos puzzles do TP (Talos, não Twilight) são legitimamente complexos, então se prepare para se frustrar um pouco. O que não vai te incomodar tanto porque a trilha sonora do jogo é absolutamente incrível. Eu sei que eu sou chegado em uma hipérbole, mas o trabalho do Damjan Mravunac com o som é realmente louvável e cada uma das músicas transpira a mesma calma irrequieta que marca tanto o jogo.

Eu joguei Talos Principle no Playstation 4, ele saiu para o sistema em outubro deste ano. A versão original foi lançada no ano passado, para PC. Eu não sou um jogador de computador, muito pelo contrário, eu não funciono jogando nada no computador que não seja os antigos Command & Conquer feitos pela Westwood, Age of Empires II, Duke Nukem 3D ou DOOM. Eu amo DOOM e não confio em alguém que não goste. Mesmo assim, a versão de PS4 roda relativamente bem. Há algumas quedas na taxa de frames, mas não houve nenhum crash, nenhum bug bizarro, os gráficos são lindos e nada chama atenção negativamente. O jogo existe em uma versão física com uma capa lindíssima, o que é ótimo para os malucos como eu que precisam de algo na prateleira.

Mesmo com o quão envolvente é a trama, que acaba sendo tão viciante quanto os puzzles, aquele início ainda é o que está mais vívido na minha memória. Como em um outro notório grande momento recente envolvendo videogames, Talos Principle tem em sua beleza o inconformismo com o mapa. Não há um mapa, há somente um guia inconfiável. O sentimento de nascimento, aquele que nunca vamos testemunhar de primeira mão, a confusão de subitamente “ser”. Como na vida real, não sabemos mesmo o que está acontecendo no início de Talos Principle. Como na vida real, chegamos no final sem ter qualquer certeza do que aconteceu.

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Marcelo Rossini Shaw

Recentemente jornalista, ainda não sei se devo falar de mim mesmo na terceira pessoa em minhas descrições.
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