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Oxenfree | Uma aventura sobrenatural de decisões e sacrifícios! (Impressões)

Posso começar chutando o balde? Oxenfree corre no pódio como um dos melhores indie games que joguei até este momento de 2016. E em grande parte graças a gigantesca imersão por meio de seu excelente enredo, que apresenta uma história onde as decisões do jogador possuem um enorme peso ao final do game.

Lembra como já comentei por aqui como sou meio novo nessa história de games narrativos? Nunca fui um grande fã de jogos de Point & Click, mas é ótimo ver que esse gênero conseguiu evoluir para outros formatos narrativos, onde não há a real necessidade de ficar clicando em tudo ao seu redor para ir descobrindo a história. Muitos games, como Life is Strange ou King’s Quest (ambos com reviews aqui no site) me levaram para esse mundo dos games narrativos e desde então tenho cada vez mais me impressionado como existem formas de um game contar uma história apresentando um gameplay inteligente, mas não preguiçoso.

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Oxenfree oferece esse tipo de experiência, trazendo um enredo envolvendo cinco jovens que resolvem passar uma noite em uma ilha, onde não há mais moradores nela, mas se veem as voltas com um evento sobrenatural que pode colocar em cheque a vida de todos ali.

O jogador controla Alex, a garota de cabelo azul, que passa por um momento complicado em sua vida, pois seu irmão mais velho faleceu recentemente, sua mãe se casou novamente e com isso ela ganhou um meio irmão, e no meio de tudo isso há seu melhor amigo, apaixonado por outra garota do grupo e também sua ex-cunhada, na qual Alex ainda não consegue se relacionar por conta da morte de seu irmão.

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São detalhes que criam um furacão de emoções e conflitos sociais para todos ali, especialmente quando o grupo vivenciam um evento inexplicável (e sobrenatural) na caverna da ilha, onde todos são separados e, de repente, Alex começa a vivenciar loops temporais, incluindo flashbacks de seu passado envolvendo seu irmão morto, e possessões envolvendo seus amigos, incluindo aí o risco de morte de algum deles. A ilha tem uma história, mas esse mistério se mistura aos problemas envolvendo os sentimentos destes jovens, presos em uma estranha noite que mudará tudo dali em diante.

Diálogos que mudam perspectivas

Se Oxenfree se sai muito bem narrativamente, trazendo uma história densa e instigante, o game não deixa a peteca cair quando se analisa seu gameplay e o formato na qual o jogador toma o controle do game. O que meio que é sempre um grande diferencial no que diz respeito a games narrativos, pois há sempre o risco do gameplay ser sacrificado pela narrativa ou vice-versa. Equilibrar estes dois elementos é uma das coisas mais importantes deste gênero.

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Todo o jogo é composto pela ação de andar por toda a ilha, ouvindo as conversas dos amigos de Alex, encarando os fenômenos paranormais, e tentando descobrir como sobreviver pela longa noite de estranhos eventos. A ação do jogador nestas conversas é regida por balões de diálogos que aparecem em torno da cabeça de Alex, dando a garota o poder de escolha entre três opções do que dizer.

Dependendo da escolha do jogador, a conversa pode mudar de rumo ou decisões que envolvem a história são afetadas. E há muitas situações nestes diálogos que ditam os diversos elementos do resultado final do game. Oxenfree parece ter muito mais linhas de diálogos alternativos e escondidos entre suas diversas escolhas do que o jogador inicialmente pode pode imaginar.

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Digo isso porque a princípio fiquei curioso com algumas decisões que tomei no início do meu gameplay e acabei indo no You Tube assistir estes trechos que havia concluindo para ver o quanto os diálogos poderiam ser diferente. E eles são em grande parte, ainda que pontos chaves da trama continuem sendo ativados pontos em comum das conversas, e que precisam levar para eventos fixos da história que precisam acontecer para o game fazer sentido.

O poder de decisão não cria trilhas diferentes de gameplay, mas impactam a forma como o game acaba. E o legal é que Oxenfree possui muitas combinações de finais, fazendo com que cada jogador tenha uma experiência pessoal com o game. Suas ações durante todo o game impactam três ou quatro elementos importantes no final da trama, alterando e criando variações da última foto da aventura, na qual é mostrado suas decisões e o percentual de pessoas que jogaram o game e conseguiram o mesmo resultado que o seu final.

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Sem dar grandes spoilers, digo que fiquei muito satisfeito com o meu final. Achei condizente com a forma como agi durante todo o meu gameplay. Porém, olhando no You Tube descobri que poderia ter um final ainda “melhor”, envolvendo o irmão de Alex. Porém, olhando da forma como o game acaba, se eu tivesse feito isso, com certeza ficaria com a pulga atrás da orelha graças a grande sacada do fim, após tomar minha última decisão do que diz respeito a Alex. Mas para não ter que dar spoilers aqui, não vou muito além nessa linha de raciocínio aqui no texto deste review.

Assustadores momentos

Oxenfree não tem apenas esse elemento de aventura juvenil em uma ilha sobrenatural. Há momentos pesados e tensos. O game conseguiu me assustar umas duas ou três vezes durante os loopings temporais, na qual a entidade que está assombrando Alex impede que o game avance, até que você faça alguns diálogos pontuais ou resolva algum enigma da área.

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Tive uma surpresa inesperada envolvendo os reflexos, que me obrigou a bater palmas aos desenvolvedores. Jamais teria adivinhado esse lance, até o momento em que ele realmente acontece bem antes do fim do jogo.

Nesse ponto, relacionado aos eventos sobrenaturais de Oxenfree, o game também se sobressai com grandes méritos, criando uma imersão visual que beira o perturbador. Há esse efeito, como se a televisão estivesse mal sintonizada (quem é dos tempos da TV de tubo vai entender), e com flashs rápidos, dignos dos assustadores filmes de terror japoneses, somado aos efeitos sonoros e a incrível trilha sonora que arrepiam qualquer jogador. Especialmente porque acabei jogando Oxenfree de madrugada, com luzes apagadas e sozinho no escuro destes gelados dias de junho.

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Achei interessante que, no geral, tal evento sobrenatural não é necessariamente explicado em sua totalidade. Claro que até o fim do game alguns detalhes importantes dessa ocorrência são mencionadas, mas não significa que o game teoriza e deixa tudo amarradinho. O sobrenatural é algo que não se explica 100%. Isso dá um toque a mais ao mistério, afinal o bom mistério sobrenatural é sempre aquele que não se explica por completo.

Nas ondas do rádio

Outro elemento importante para Oxenfree é o pequeno rádio que Alex carrega. Ele é o elemento chave que desencadeia tudo. O jogador passa o game inteiro com esse rádio. Procurando diálogos estranhos, músicas e anomalias temporais que só podem ser ativadas sintonizando estações no rádio.

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O rádio faz a conexão entre a realidade e o sobrenatural. E acaba sendo um recurso que leva o jogador para dentro do game, deixando-o aflito toda vez que precisa procurar uma estação para a solução de um problema.

Aqui dou uma dica. O game tem colecionáveis, envolvendo cartas secretas e anomalias temporais envolvendo o rádio. Não se preocupe em encontrar todas no começo do game. Você pode coletar todas de uma só vez antes da parte da história em que Alex precisa entrar no abrigo nuclear. E o game meio que te avisa nessa hora, que se entrar ali, é um ponto sem volta.

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Fora que há algumas anomalias que o jogador só conseguirá encontrar após uma espécie de upgrade que o rádio vai sofrer nos momentos finais do game. Ah e o que são as anomalias? Fique de olho em pequenas pilhas de três pequenas pedras. Elas são as anomalias! Quanto as cartas secretas, é preciso ficar bem atento, pois elas piscam rapidamente quando Alex passa pelo lugar onde há uma carta. E as cartas não são visíveis fisicamente. Porém novamente reforço: pegue os colecionáveis apenas quando o abrigo nuclear se abrir. Aí você volta em todas as áreas da ilha e colete tudo. E é bem rápido fazer isso. Coisa de 30 ou 40 minutos, sabendo o que procurar.

Vale ou não vale?

Talvez meio que já tenha deixando claro lá no começo do review que Oxenfree vale totalmente a pena. Senão não teria mencionado o fato de ter sido um dos melhores indies de 2016 pra mim. Entretanto vale uns puxões de orelha pertinentes, afinal, não existe game perfeito.

Primeiro. É uma lástima que o game não tenha localização em português. Como é triste recomendar o game aqui e fazer esse alerta, sabendo que essa é uma barreira crucial para tantas pessoas. O game tem apenas áudio e legendas em inglês. Sei que as legendas, ainda que em inglês, são sempre uma mão na roda, que auxiliam muito quem não é fluente, mas sabe se virar com o idioma. Estranho apenas mencionar que a versão do Xbox One, a que joguei, há um bug que me obrigava toda vez que iniciava o game a ter que ir nas opções e ativar as legendas. O game não conseguia salvar isso de forma permanente ao carregar meu save.

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Falando em bugs, tive apenas um durante toda a minha experiência com Oxenfree. Foi justamente momentos antes do final, quando precisava bater uma foto e um dos NPCs, amigos de Alex, travou em uma parte do mapa e ficou congelado. Tive que recarregar o save nesse momento e jogar alguns minutos novamente. Na segunda tentativa o NPC não travou e o jogo seguiu adiante. Ufa.

Segundo puxão de orelha. Deixo registrado uma pequena reclamação a respeito do ritmo dos diálogos e da rapidez na qual os balões de opções de Alex surgem e somem antes mesmo que a conversa encaixe o momento em que a garota precisa falar algo.

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Olhando os gameplay no You Tube, do pessoal jogando na versão do PC não tive a impressão dos balões sumindo tão rápido em relação ao me ver jogando na versão do Xbox One. Ainda que entenda que isso parte da lógica de ser ágil nesse tipo de situação, de decidir como a conversa deve ser conduzida, afinal já muitos momentos em que a própria Alex precisa decidir um diálogo justamente para interromper a fala de um de seus amigos, cortando-os propositalmente.

Talvez isso tenha me incomodado apenas pelo fato do game estar em inglês, me obrigando a escutar, ler a legenda e ainda ler e entender as três linhas de opções de fala da Alex antes de decidir o que dizer. Ao todo, no game inteiro, devo ter perdido umas quatro opções de fala, na qual Alex podia ter tido algo, e não disse, deixando a conversa continuar sem minha intromissão.

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Tirando estes dois elementos, não localização do idioma e agilidade no sumido das opções de diálogo, resta apenas mencionar que os loadings na versão de Xbox One para cada vez que eu precisava trocar de área no game são bem demorados. Mais do que deveriam ao menos. Nada que incomodasse a ponto de me irritar, mas ainda assim o suficiente para me fazer notá-los.

E mesmo com estes pequenos problemas, consegui me encantar e me entreter em Oxenfree. O jogo não é um daqueles games narrativos enormes. Dá para virá-lo em menos de 4 horas. Talvez eu tenha demorado um pouco mais, não saberia dizer pois estranhamente o game não registra no hub da dashboard do Xbox One quantas horas fiquei jogando-o, sendo que todos os demais games que tenho na minha biblioteca no One mostram esse dados em seus respectivos hubs.

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O visual é incrível, o gameplay é imersivo, a história é perspicaz e a atuação de voz dos atores que emprestaram as vozes aos personagens, assim como a trilha sonora e de efeitos do game são fantásticas. O áudio é um elemento que não tenho hábito de ficar destrinchando muito em meus reviews, mas faço sempre questão de elogiar esse elementos quando ele se sobressai além do esperado, e Oxenfree manda bem nesse elemento da imersão pelo áudio.

Também é bacana apontar que Oxenfree é um game desenvolvido e publicado pela Night School Studio, um estúdio indie que com certeza daqui para frente quero ficar de olho em seus próximos projetos. Fundado em 2014, sendo este o primeiro projeto deles, que conta com uma equipe que veio de estúdios como Telltale e Disney, o que explica muito a qualidade tanto de ambiente, personagens e gênero na qual Oxenfree pertence.

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Aqui no Brasil ele custa 37 reais na Steam, 39 reais no Xbox One e 61 reais no PlayStation 4. E novamente digo o quanto acho absurdo estes preços de indie games na plataforma da Sony aqui no Brasil. Vai entender porque tão dissonante das outras plataformas. É um game que proporciona uma experiência que vale seu preço regular (trinta e poucos reais).

Fica a indicação. Se o inglês não for uma barreira, jogue Oxenfree! Se contigo é só o português e olhe lá, não tente jogar Oxenfree apenas pelo gameplay de aventura e exploração, pois não vai curtir. O peso da história, de entender o que está sendo dito é essencial para apreciar o game.

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Vale torcer para que futuramente a Night School Studio possa trazer um update que localize o game em novos idiomas, porque segundo os dados lá da Steam, o game tem apenas áudio inglês mesmo. E se faz importante que os indies de hoje em dia possuam diversas opções de áudio, especialmente com seus lançamentos internacionais em múltiplos mercados. E quando não há estas opções, que a gente reforce o quanto precise ter mais opções de idiomas.

Há um último detalhe importante aqui. Voltando ao que comentei lá no começo, a respeito do meu final e no fato de ter ficado satisfeito com ele: isso não significa que a experiência do game por si só acabou.

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No final de maio Oxenfree recebeu um update que permite um NewGame+, ou seja, o jogador pode jogar tudo de novo e mudar novamente certos eventos do game. Os desenvolvedores acrescentaram também novos diálogos e novos finais vindo desse segundo gameplay.

Oxenfree conquistou muita gente lá fora, e os desenvolvedores ainda estão trabalhando no suporte do game, pensando em novos updates, sequências ou até prequel, envolvendo uma das habitantes da ilha, papel chave na história, porém que nunca aparece. Até mesmo um final definitivo está sendo pensado (ainda que eu goste de pensar que o final verdadeiro é aquele que você, como jogador, se der por satisfeito). Existe uma bate papo muito legal com eles no Reddit (em inglês).

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Então quem fechou o game antes desse update, talvez queira voltar para ele agora e descobrir o que há no NewGame+, e continuar explorando um pouco mais dos mistérios que envolve a trama! E nem tudo ainda está explicado propositalmente, segundo os desenvolvedores! Ou seja, ainda haverá mais novidades envolvendo Oxenfree em um futuro. Ficarei de olho e espero voltar a conversar mais sobre o game por aqui. É isso!

Mais imagens!

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Excelente e imersiva história
Ótimo gameplay interativo
Trilha e efeitos sonoros incríveis
Se faz necessário entender inglês (sem localização)
Visualmente charmoso, combina com a imersão proposta
Um pouco curto, mas vale um segundo replay

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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