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Mirror’s Edge Exordium | A vida na Cidade de Vidro! (Impressões)

Bem que suspeitei da importância de Mirror’s Edge Exordium enquanto jogava e escrevia o review de Mirror’s Edge Catalyst. Disse no review, publicado aqui no site semana passada, a respeito dessa pequena impressão de que um pedacinho importante da contextualização do universo da série parecia não estar totalmente de corpo e alma no game… e de fato não está!

Recebi semana passada o encadernado em quadrinhos que serve como um prequel para o game, e depois de tê-lo devorado no último final de semana, posso dizer que acabei mais apaixonado ainda pelo universo proposto pela turma da DICE, estúdio que desenvolveu não só o game, mas também a série em quadrinhos! Sim, eu não sabia disso, aprendi lendo os extras do encadernado, que foi a galera lá de dentro do estúdio que produziu a Graphic Novel que serve como ponte para os eventos de Catalyst! Quão irado é isso?!

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Vale mencionar que lá nos Estados Unidos a galera teve muito mais tempo para assimilar toda a proposta da HQ antes do lançamento do game. Exordium começou a ser publicado lá em setembro do ano passado, enquanto o game só foi lançado em junho deste ano.

No caso do Brasil, a Graphic Novel chegou ao mercado basicamente junto com o game. E Exordium chegou em uma versão de luxo, perfeita para colecionadores, em capa dura e papel de alta qualidade, sendo trazido para cá pela Editora Pixel, em uma qualidade de cair o queixo diga-se de passagem. Entrarei em mais detalhes mais adiante, mas as fotos da galeria que abre a postagem estão aí para serem apreciadas.

Quadrinhos vs videogame

Se faz necessário reforçar que Mirror’s Edge, tanto Catalyst quanto Exordium não tem qualquer ligação direta com o game de 2008, a primeira versão de Mirror’s Edge. A DICE reiniciou tudo, desobrigando qualquer um a conhecer a proposta do primeiro game. O que não significa que os parâmetros e identidade da série mudaram. Pelo contrário, sinto que a DICE refinou os conceitos desse universo, apresentando muito mais detalhes e personagens do que a história original.

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Outro ponto importante é que Exordium foi produzido de uma forma que qualquer pessoa possa apreciar a Graphic Novel sem que seja obrigatório ter jogado ou jogar Mirror’s Edge Catalyst. É um conto que pode ser apreciado em paralelo com o game, que funciona de forma isolada. Ainda que Exordium vá criar uma ponte em sua última página para o game, deixando claro que a história de Faith nos quadrinhos de fato mal começou.

Significa que a história como um todo não acaba aqui. Exordium conclui um momento da vida de Faith, mas não necessariamente encerra a sua história. Aliás, como já joguei e terminei o game, posso dizer que nem o final do game encerra a história de Faith, que também apenas fecha uma outra fase de sua jornada.

A história de Exordium trabalha um momento específico da vida de uma personagem, no caso Faith, que se sente perdida no mundo, querendo ser muito mais do que um mero alguém, querendo descobrir mais sobre seu passado, querendo encontrar seu lugar nesse mundo estranho que é a Cidade de Vidro.

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O que mais gostei em Mirror’s Edge Exordium é a narrativa desse mundo da Cidade de Vidro. Aqui a cidade tem uma história, os personagens secundários são importantes para a trama andar e Faith se desenvolver. É diferente do game, onde o jogador assume o controle e a experiência é mais sobre o “fazer” do que o “acompanhar“.

Os quadrinhos possuem o tempo e o espaço para trabalhar conceitos do universo de Mirror’s Edge que nem sempre o game trabalha de forma natural. E não estou dizendo que Catalyst é raso, pois ele tem muitas missões paralelas, documentos para ler e ouvir, só que tudo isso não flui de uma forma tão orgânica quanto uma história em quadrinhos. Daí a sensação de ter faltado mais profundidade no game.

Por isso Exordium & Catalyst se encaixam tão bem. Talvez quem ainda vai jogar Mirror’s Edge Catalyst, seja um pouco mais interessante ler Mirror’s Edge Exordium antes, para entrar no universo da série de forma plena, sem cair de paraquedas no início do game. Quem já jogou e terminou, meu caso, a leitura acabou me deixando com vontade de retornar para o game e pegar detalhes e fatos que não peguei direito da primeira vez que o terminei, incluindo até mesmo fazer mais missões paralelas com personagens que são importantes em Exordium.

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E para quem não pretende jogar Catalyst? Ainda assim acho válido a leitura de Exordium, ao menos quem curte uma boa história em um universo rico em interpretações e reflexões atuais com a sociedade na qual vivemos. A Graphic Novel funciona bem independente do game como algo acessório. Uma pena, aliás, que até o momento essa seja o único arco proposto pela DICE. Eu acompanharia tranquilamente novas histórias dentro do universo de Mirror’s Edge, seja com ou seja a protagonista do game. Novas histórias com novos personagens, o universo de Mirror’s Edge é grande o suficiente para tal possibilidade.

Bem vindo à Cidade de Vidro!

Mirror’s Edge conta a história dessa cidade perfeita para as pessoas viverem, uma sociedade organizada, mas que ao se olhar para ela de forma mais analítica nota-se na realidade uma distopia disfarçada de utopia. As pessoas não são felizes na Cidade de Vidro. Muitas vezes há essa sensação de que todos vivem em gaiolas, presos em suas obrigações e rotinas, vivendo em uma cidade onde o governo é uma organização privada, que controla e vigia a tudo e todos.

Há pequenas, mas pontuais, indícios dessa distopia em Exordium, como em uma cena onde um funcionário está em primeiro plano pedindo um aumento de salário (enquanto Faith aparece ao fundo correndo) e a chefe do cara acaba dando um esporro nele, alegando que trabalhar de forma excepcional é o mínimo que se espera de um empregado da empresa, ou em outra situação onde Faith está em um clube e é abordada por uma mulher claramente podre de rica invejando a vida de liberdade da personagem.

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Dentro desse conceito, há certas exceções. São aqueles que estão correndo no topo dos edifícios, os corredores. Estes estão fora do sistema da Cidade de Vidro, sempre perseguidos e caçados, ao menos quando estão fazendo alguma confusão por aí. São grupos e facções que se dividem também em ideologias, alguns grupos são mais agressivos outros nem tanto, funcionando como uma espécie de mensageiros informais dentro do ecossistema da Cidade de Vidro.

Todo o conceito desse universo é instigante, pois visualmente a Cidade de Vidro é deslumbrante. Sem poluição, com uma arquitetura que enaltece a transparência dos prédios e das pessoas que vivem dentro deles, como se todos na cidade fossem robôs, seguindo suas rotinas, protocolos e jamais questionando aqueles que vigiam e mandam em tudo.

No game se descobre mais sobre essa corporação que está sempre vigiando a cidade, a  Kruger Security, quais são seus planos, e que podem ser terríveis ou não, dependendo da perspectiva de cada um. Aqui, para Exordium, não há muita discussão em cima dessa organização, apenas a indicação de que eles são os opressores das pessoas que não querem seguir a ordem e o progresso exigido para o suposto “bem estar” da Cidade de Vidro.

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Em Exordium o foco narrativo muitas vezes acaba trabalhando com os personagens ao redor de Faith e como eles influenciam as decisões e o destino da jovem. Faith aqui ainda não é uma corredora oficial, fazendo pequenos bicos para o cara que lhe criou, Noah. A história gira em torno de quem Faith é, e o que ela quer se tornar, e até onde são seus limites para conquistar aquilo que deseja, que as vezes é respeito, as vezes é apenas se rebelar contra as regras, mas em grande parte é querer saber mais sobre seu passado e sobre si mesmo. O desenho na parede de Dogen, pertencente a sua mãe é o grande totem da história de Mirror’s Edge, tanto nos quadrinhos, quanto no game. E é curioso como esse desenho parece indicar ser muito mais do que realmente pode vir a ser, mas nem os quadrinhos e nem o game vão trabalhar com isso, deixando esse possível gancho para o futuro.

Gostei muito da figura de Dogen em Exordium, talvez um personagem até mais importante do que Noah com sua figura paterna. Dogen é aquele cara do submundo da Cidade de Vidro, uma espécie de mafioso de grande escalão, na qual nunca fica claro o que diabos ele realmente quer ou o que pretende fazer. O personagem faz esse papel de Rei do Crime, sempre sabendo exatamente o que dizer para manipular Faith. Um personagem realmente interessante.

Curioso que achei bem melhor as cenas com Dogen nos quadrinhos do que no game. Em Catalyst todas as cenas em que ele aparece ele está cozinhando, o que achei estranhíssimo. Em Exordium ele aparenta ser bem mais ameaçador, em seu escritório ou na sacada de sua casa.

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Outros personagens que possuem um peso para a história são os corredores, seja os amigos do grupo de Faith, seja o grupo rival. Estes personagens também acabam sendo inseridos de forma bem natural na trama de Exordium. A princípio fica aquela impressão de que estão ali para fazer o contra ponto de Faith não ser uma corredora oficial, ainda que seja tão boa quanto qualquer um ali (mesmo com uma certa arrogância e desejo por vencer sempre, o que fica claro na cena do acidente com um companheiro).

A conexão final da história, envolvendo uma corredora de um grupo rival que se torna amiga da Faith, uma irmã doente e uma vacina que pode decidir o destino entre as duas personagens é perfeito. A jovem que se rebela contra todos precisa amadurecer e crescer, para de agir de forma irresponsável e aceitar que seu egoísmo não está levando a nada. Faith aceita um pesado fardo em pró de suas ações ao longo de todo o arco de Exordium.

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É como disse, a leitura dessa história é bem legal, independente de quem conhece ou não o game. Os termos e conceitos do universo da série são explicados ao longo da história aqui no quadrinhos. Ao fim, o leitor fica com aquele gostinho de querer mais, de ver mais desse mundo falso, da perigosa névoa que cobre toda Cidade de Vidro. Uma sensação que o game também trabalha em seu final, com um outro gancho (a ignorância das pessoas).

Exordium trabalha bem ao apresentar conceitos, personagens e o próprio ambiente dentro da Cidade de Vidro a todos seus leitores, independente de conhecerem ou não Mirror’s Edge por meio de seus games, o que é muito importante para atrair curiosos para esse universo tão interessante.

Nos bastidores de Exordium

A versão de colecionador, lançado por aqui pela Pixel, além de incrivelmente bonita, também contém uma longa entrevista com os produtores da HQ: Christofer Emgard, Mattias Haggstrom, Robert Sammelin, Eric Persson, Sahlstrom Henrik e Daniele Di Nicuolo. Comentando como foi o processo de criação da história, o envolvimento de cada um com o game, a difícil tarefa de mexer com a narrativa do conceito da série, na qual no game é de uma forma e nos quadrinhos precisa ser de outra, suas influências e assim por diante.

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Há um momento muito legal dessa entrevista quando esse pessoal responde a respeito da linha narrativa dos quadrinhos, com o fato de que o game tem todo esse apelo pela experiência individual do jogador estar em primeira pessoa correndo por um mundo, enquanto nos quadrinhos, a perspectiva é sempre de Faith, o que devo admitir que me pareceu bem interessante. Talvez Mirror’s Edge, como uma proposta de um universo, seja interessante o suficiente para não precisar funcionar somente como game em primeira pessoa. Já pensou nisso?

Gostei também do papo sobre as influências de cada um dos artistas para a forma como Exordium foi criado, o estilo visual, o fluxo dos quadros, os movimentos dos personagens, a forma como o quadrinho interagem com a história. Tem uns ali que citaram One Piece e mangás em geral como inspirações para as técnicas de desenho constante na Graphic Novel. E há mesmo um pouco dessa dinâmica de mangá em Exordium, especialmente nas cenas de ação e movimento.

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É uma entrevista que vale a pena ler. Um conteúdo que enriquece e muito o encadernado!

Uma edição para ser lembrada

A Pixel mandou muito bem ao trazer Mirror’s Edge Exordium ao Brasil. Independente do sucesso moderado do game mundo afora, ou do problema dele custar bem caro em nosso mercado, a Graphic Novel tem todo um cuidado editorial de aplaudir.

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O formato em capa dura, dando o luxo que a edição requer, faz uma diferença enorme. É uma edição bonita, reunindo as seis edições norte americanas de Exordium, impressa em um papel de alta qualidade, aquele lisinho, branquinho e brilhante (sou péssimo com nome de papéis). Boa gramatura, sem essa coisa de páginas transparentes e impressão gráfica impecável, sem cores estouradas ou páginas desfocadas. É uma edição para colecionador mesmo.

É um título que precisava de toda essa pompa? Hum, talvez seja suspeito para responder essa pergunta, pois sou muito fã de quadrinhos baseados em games. Sempre fico realmente contente com a chegada de alguns destes títulos no Brasil. Basta pensar que alguns anos atrás isso talvez dificilmente aconteceria. Até hoje choro por Gears of War em quadrinhos nunca ter recebido um tratamento assim por aqui.

Oficialmente o preço desse encadernado está custando 55 reais, o que é um preço quase padrão para a maior parte dos encadernados de luxo lançados no Brasil. Por ele ter menos do que 200 páginas, talvez seja um pouco além do que o colecionador menos afortunado esteja habituado a comprar, mas é possível achá-lo em lojas como a Amazon BR ou Saraiva com um desconto que o torna mais acessível ao bolso do colecionador.

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Uma pena que a Pixel não trabalhe com versões mais modestas em casos como estes. Acho que uma versão em capa cartonada, sem tanto luxo de uma capa dura, com um preço mais acessível, talvez tornasse o título mais atraente para um outro grupo de potencial leitores. É algo que os interessados deveriam sugerir a editora (aí sua página no Facebook). Quem sabe no futuro algo assim não possa vir a ser viável, ao menos com futuros lançamentos.

No fim, para quem procura algo bacana, fora da bolha dos personagens eternos e já conhecidos, Mirror’s Edge Exordium se consagra como uma ótima alternativa de Graphic Novel. Em um universo instigante que funciona muito bem independente de ter ou não que jogar o game. Para quem procura algo único e original, esta é uma boa opção!

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Excelente ambientação, fiel ao conceito da série
História funciona independente do game
Edição de alta qualidade pela Pixel
Entrevista com os criadores é um extra incrível
HQ trabalha bem com personagens secundários
Excelente trabalho artítisco, traço e arte espetacular
Vai te deixar com vontade de querer ver a história do game

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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