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Análise | Children of Morta

Disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch e PC

Children of Morta é um roguelite com uma forte pegada narrativa, apresentando uma família que precisa combater uma terrível corrupção que assola uma montanha, sob o risco desse mal expandir e infectar o resto do mundo. O título é uma produção do estúdio independente Dead Mage, com distribuição global em parceria com a 11 bit studios. Seu lançamento aconteceu em etapas: setembro chegou ao PC, outubro no Xbox One e PlayStation 4, e em novembro, hoje dia 20, chega ao Nintendo Switch.

A melhor forma de resumir a experiência com o título é dizer que trata-se de uma obra envolvente, a qual o jogador passa a se importar com seus personagens e suas histórias, acima da própria experiência com o gameplay. Não tome isso como negativo em relação a jogabilidade, pois esta ainda é altamente viciante, com ideias bem criativas para amenizar a repetição que existe dentro do gênero roguelite.

Salve o mundo em família

A família Bergson guarda a mística montanha de Morta há gerações. A paz reina no mundo e na terra a qual a família vive, até que algo desperta na montanha, uma corrupção que passa a assolar a região. Bestas e criaturas demoníacas surgem e as trevas despertam, prometendo infectar tudo ao redor da montanha, sua fauna e flora.

Os Bergson precisam então descobrir o que está acontecendo. O que reside no topo da montanha que desencadeou esse vento. O pai, chefe da família, se coloca na frente de sua esposa grávida e de seus filhos, enquanto passa a visitar as cavernas em busca de abrir caminho e encontrar meios de avançar até a montanha. Logo a sua filha mais velha resolve lhe acompanhar.

E então os outros filhos também surgem para ajudar essa tarefa, uns novos demais e portanto precisam treinar e conversar a família, outros retornam a casa, após uma jornada a qual se viram obrigados a voltar. A avó e o tio também vivem ali, mas estão velhos demais para encarar a montanha e seus perigos, então prestam auxílio ao mais jovens da forma que podem, transmitindo conhecimentos e sabedoria.

No total o jogador irá encontrar nove membros da família, sendo que seis deles se tornarão jogáveis ao longo da história principal. Cada membro tem uma história carinhosamente bem escrita, sua relação dentro da família, seus medos e temores, assim como desejos de sonhos.

Essa linha narrativa vai sendo desdobrada a cada tentativa de desbravar uma masmorra, seja vencendo ou perdendo (mais provável no começo de tudo). A família possui uma mágica protetora que os impedem de morrer no território da montanha, retornando a casa quando estão próximos da morte definitiva. Sempre que isso ocorre, o jogo conta uma parte da história, criando uma narrativa densa e envolvente. Tanto que para destravar mais membros dessa família, basta ser derrotado nas masmorras e continuar acompanhando a trama que ocorre entre estas tentativas mal sucedidas.

Esta talvez seja a parte mais envolvente de Children of Morta. A história é cativante, narrada por um narrador onipresente, revelando os sentimentos dos membros da família. Objetos e situações encontradas nas masmorras também interferem na casa da família, que pode ganhar um bichinho de estimação e novos itens colecionáveis que revelam novos diálogos.

Este aspecto narrativo incentiva o jogador a continuar, e evita que ele se sinta frustrado ao ser derrotado em uma masmorra. A perda lhe recompensa com a sequência da história da família.

Membros da família suas mecânicas

Children of Morta é, então, um roguelite, ou seja, tem um sistema de morte definitiva que reseta a sua progressão pelo ambiente a qual está tentando vencer. Entretanto nem tudo se perde ao recomeçar o jogo, mantendo-se assim a progressão de level do personagem, assim como tudo que se conquistou em sua respectiva árvore de habilidade.

Para subir de nível é fácil, é preciso jogar e eliminar inimigos, adquirindo experiência. Cada personagem tem sua árvore de habilidade que destrava novos movimentos, assim como fortalece seus atributos básicos e golpes. Só que cada personagem tem pequenos atributos que são obtidos adquirindo habilidades que quando destravados valem para toda a família. Estes gerais que afetam toda a família são coisas básicas, como melhor sorte na coleta de itens, mais dano no ataque básico de todos, aumento da barra de saúde e afins.

Isso ocorre para incentivar o jogador e não fica preso em apenas um personagem. Você se sente compelido a testar todos e melhorando seus níveis, afim de liberar mais atributos nas árvores individuais de todos que vão afetar todos os personagens jogáveis. E se isso não for o suficiente, o jogo ainda apresenta um sistema de fadiga, na qual jogar demais com um personagem o faz ficar cansado e trava parte da sua barra de saúde. Você até pode continuar usando esse personagem, mas ele vai ficar com a barra de saúde prejudicada até resolver dar um descanso ao mesmo.

Cada personagem da família Bergson é também bem diferente um do outro em termos de jogabilidade. Há personagens que atacam de longe e outros que usam táticas de aproximação, sendo que as habilidades passivas de cada um agem de forma bem distintas uns dos outros. A filha mais velha, por exemplo, possui um arco e flecha com uma cadência bem longa para atirar, sendo que ela pode andar e atirar enquanto possui vigor para manter o ataque, já a filha pequena também pode atirar à distância, porém são bolas de fogo, que possuem uma cadência bem rápida, entretanto ela não pode andar ao fazer isso.

Estes detalhes pequenos seguem também nos personagens masculinos que podem atacar em uma distância curta. Um dos filhos usa adagas, que quanto mais elas atingem os inimigos, mais rápidas e mortais se tornam. Outro filho usa seus punhos, em golpes que me lembraram do Aang de Avatar. O pai usa um escudo e uma espada, sendo o estandarte da família, sempre à frente protegendo todos. Por fim, o último membro usa um grande martelo, que é lento, mas causa grande impacto nos inimigos.

Essa dinâmica entre os membros da família funciona ainda de forma mais harmoniosa quando se joga Children of Morta em modo cooperativo. Infelizmente só há suporte para até dois jogadores, não permitindo assim que as masmorras sejam disputadas em quatro jogadores, o que certamente seria bem interessante. Mesmo assim com dois jogadores já fica bem mais divertido, já que também é impossível usar o mesmo personagem.

Dito isso, jogar em modo solo também não é de todo mal, sendo apenas mais desafiador do que se espera. Há um número muito grande por vezes de inimigos e não é fácil lidar com alguns deles. Isso obriga o jogador a estar sempre pensando em recuar ou sair correndo para não ser massacrado pela grande inimigos de inimigos que lhe cercam. Em especial um que fica com uma coroa e leva tempo para ser abatido. Nisso você vai encontrar inimigos que colam na sua fuça, assim como aqueles que ficam mandando projéteis a distância. É um jogo em que ficar de movendo é parte essencial do combate.

Explore, morra e repita

Como já mencionado, Children of Morta é um roguelite, o que significa que as masmorras são geradas proceduralmente. Cada vez que se morre e se reinicia tudo, a área muda seu layout, na qual é preciso explorar até encontrar a saída para o próximo andar. Além disso inimigos mudam suas posições, tal qual itens que você coleta para aprimorar o personagem.

De itens há muitos tipos, sendo que todos se perdem quando se fracassa no desafio. Há aqueles que abrem um golpe especial, causando dando ou algum tipo de efeito negativo aos inimigos. Esse golpe é poderoso, mas tem um tempo de reativação bem lento, coisa de esperar um minuto inteiro. Há também os perks que são habilidades passivas que lhe causam alguma vantagem em jogo, como um mini drone, bolas de fogo lhe circulando ou até mesmo coisas mais simples, como ter uma vida extra ao morrer ou mais saúde em sua barra. Também há itens de bônus consumíveis que aprimoram os ataques, um item de maior utilidade que também é um bônus que melhora algum atribuído de forma temporária e pode ser ativado quando lhe for melhor conveniente e, por fim, um item que se pega em um pedestal na masmorra que também melhora seu atributo por alguns segundos, como causar mais dano, inimigos darem mais moedas, se ganha mais experiência ao derrotá-los, melhora defesa etc.

Todos estes tipos de itens se encontram dentro das masmorras, e também são inseridos de forma procedural, deixando partidas mais ou menos interessantes dependendo do que você encontrar explorando o mapa do ambiente. Além disso o jogador pode encontrar colecionáveis e missões secundárias, que realizadas com sucesso renderão algum item especial.

Antes de partir para a ação o jogador terá uma base, que é exatamente a casa da família Bergson, localizado no pé da montanha. Nesse ambiente o jogador contra com a possibilidade de usar o dinheiro obtido nas masmorras para aprimorar atributos gerais de mecânicas, como mais sorte, mais tempo de duração de itens entre outros. Isso ocorre nos livros da avó da família, porém também há a oficina do tio da família, que melhora atributos gerais dos personagens, como melhor ataque, melhor defesa, mais agilidade para se mover, mais saúde etc. Estes itens também são liberados conforme certos eventos ocorrem dentro das masmorras e na história após cada partida.

No que diz respeito a composição dos estágios de Children of Morta, o jogador irá encontrar basicamente três biomas distintos, que estão segmentados entre três ou duas áreas. Ao final de cada área, é preciso enfrentar e derrotar um chefe, sendo que cada área tem entre dois a três andares. Confuso? Vou explicar melhor.

O primeiro bioma do jogo se chama Caeldippo Caves, dentro desse bioma, que pode ser chamado de mundo, há três fases. Cada uma destas fases tem andares, ou seja, você entra em uma fase e precisa achar uma saída que vai lhe levar para as entranhas da fase, até chegar ao andar do chefe da fase. Vença o chefe e a próxima fase com mais andares e um novo chefe será liberado. Agora ficou mais fácil, certo?

O sistema de morrer e recomeçar tudo de novo diz respeito a progressão dentro de cada fase. Ao vencer o chefe da fase, descendo todos os andares, o jogador retorna a casa da família Bergson e o jogo salva sua progressão. Agora você pode continuar explorando a partir da nova fase, sem a necessidade de repetir a primeira tudo de novo se eventualmente morrer.

Isso é ótimo, pois evita o cansaço de longos gameplay que podem não resultar em nenhum tipo de avançar. Mas não se engane achando que cada fase é curtinha. Cada uma, somando seus andares e chefes, podem levar cerca de vinte a cinquenta minutos para serem vencidas. É um longo tempo.

E aqui entra uma crítica ao jogo e sua estrutura de fases. Há três biomas, porém dentro de cada um, as fases são muito iguais umas as outras, com os inimigos se repetindo entre as fases e alguns até mesmo entre biomas. Essa repetição tanto visual, quanto de adversários, muitas vezes torna cansativo longas seções de jogatina.O gameplay fica viciado e pouco recompensador.

Considerações finais

Roguelites tem mesmo esse misto de morrer e repetir, enquanto algum senso de progressão é realizado. E de fato Children of Morta consegue se sair bem em vários elementos, como a excelente árvore de progressão dos personagens e da família em si, além de apresentar uma narrativa imersiva e realmente tocante. Os personagens são muito diferentes e instiga o jogador a querer alternar e testar tudo, sendo que uns se conectam melhor a certos chefes e fases do que outros.

O ponto mais fraco do título é realmente a forma como o combate e design de inimigos e ambientes é muito criativo e expressivo. Sua repetição é um problema, por mais que você reaja diferente usando personagens diferentes. O primeiro ambiente, com três fases, é extremamente cansativo de ser vencido. E o ambiente é muito semelhante entre as fases, mudando a paleta de cores do chão, mas encontrando as mesmas teias e aranhas e esqueletos por toda a parte. Aí no segundo bioma, as aranhas saem e dão lugar as cobras. Você percebe que é quase a mesma coisa, mas um pouco diferente. E os esqueletos e demônios roxos estão em todos os biomas. É muito repetitivo nesse sentido.

Não que o combate seja um desastre. Não é, pois jogar com os membros da família é muito divertido. Testar um novo e ver como ele reagem a uma partida a qual você morreu com um diferente membro é envolvente. Fora que sendo procedural, os itens mudam tornando muito importante sair caçando tudo pelo estágio. Há partidas realmente únicas dependendo da sua sorte com o item.

Além disso gosto dos confrontos contra os chefes de cada fase. Entretanto sinto que existe um grau de frustração ao chegar ao mesmo e morrer, lhe obrigando a jogar toda a fase novamente, descendo todos seus andares.

De elogios mais técnicos, faço a trilha sonora, que faz um excelente papel, deixando-o no clima da aventura, assim como a fantástica pixel art que Children of Morta entrega aos jogadores. É um jogo incrivelmente bonito, mesmo que o rosto dos personagens sejam pequenos pixels, há uma emoção que consegue ser transmitida na forma como a família interage entre si nos momentos de história. Além disso o jogo está todo localizado em português por meio de legendas.

Ao fim, poderia dizer que Children of Morta não é um roguelite que reinventa sua fórmula. Na verdade o título refina a ideia do que um roguelite pode ter. Trabalha muitíssimo bem em sua narrativa e na criação de diferentes personagens jogáveis. É um jogo com alma e coração. O tropeço fica realmente em entregar uma coleção de fases e inimigos em que os padrões, que não deveriam ser notados, acabam sendo percebidos pelo jogador. Dá para concluir que o pacote como um todo de Children of Morta entrega uma envolvente experiência. Talvez a não mais marcante entre seu gênero, porém tem uma competência digna de ser apreciada.

Galeria

Dando uma nota

Tem uma ótima apresentação, história é envolvente - 9
Como roguelite, compre a função de dar senso de progressão mesmo na derrota e itens aleatórios - 8.5
Ótimos personagens jogáveis, com habilidades e técnicas próprias - 9
Dá para jogar sozinho, mas é mais divertido de jogar em dupla com um segundo jogador - 8
Tem uma linda pixel art, muito dedicada aos pequenos detalhes - 9
Combate cansa com tantos inimigos iguais e situações repetidas - 7
Possui ótimos controles, totalmente responsivos - 8.5

8.4

Ótimo

Children of Morta é um envolvente roguelite, movimento por uma narrativa que prende o jogador, enquanto inúmeras tentativas de vencer as masmorras promovem senso de progressão em seus personagens. Tem boas ideias para mecânicas, linda pixel art e ótimos personagens jogáveis, porém tropeça ao entregar cenários pouco expressivos e inimigos que reciclam demais momentos de combate do jogo.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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