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Análise | Iconoclasts

Disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch & PC

Iconoclasts é mais um game 2D abrangendo os gêneros ação/aventura/plataforma e metroidvania, desenvolvido originalmente em 2017 por Joakim Sandberg e publicado pela Bifrost Entertainment. O jogo chegou primeiro para Switch/PS4/PSVita/PC em 2018 e teve seu lançamento para Xbox One somente em janeiro deste ano – versão, aliás, usada para esta análise.

Antes de seguir adiante, uma pequena aula de terminologia: Iconoclast vem da palavra “Iconoclasta” que é nome dado ao membro do movimento que  contesta a veneração de ícones religiosos e surgiu no século VIII denominado Iconoclastia. O termo iconoclastia significa literalmente “quebrador de imagem” e tem origem no grego eikon (ícone ou imagem) e klastein (quebrar). De volta à programação.

Em Iconoclasts, os jogadores irão contar com a companhia de Robin, uma jovem de 17 anos que se torna uma mecânica renegada e precisa descobrir os segredos de um planeta moribundo. Poderemos explorar um mundo repleto de quebra-cabeças complexos, personagens interessantes e muitos chefes ameaçadores em uma bela aventura de plataforma que conta uma história pessoal sobre fé, propósito e, o inspirador desafio de tentar fazer a diferença ajudando as pessoas dentro de um mundo comprometido.

Narrativa sem medo

Iconoclasts poderia ser simplesmente chamado como mais um metroidvania, mas falar somente isso seria uma injustiça para o que foi criado por Joakim Sandberg. Este é um jogo de plataformas 2D que apresenta uma narrativa melhor do que a maioria dos jogos atuais (de qualquer gênero). Nos dias atuais, e na verdade desde antigamente, sempre foi e talvez sempre será arriscado entrar em discussões envolvendo a religião e a fé. Aqui temos isso e muito mais, através de representações provocativas de dogma religioso, fé, crises emocionais e de humor, tudo feito de uma forma teatral que sustenta totalmente a narrativa do game.

Temos literalmente uma mexida com tabus da sociedade moderna e podemos ver isso já no começo da aventura, em uma clara demonstração de preconceito presenciada pelo jogador representada por personagens no game. Em uma das partes iniciais, quando você precisa escapar de uma sala rastejando pelo teto (pelo foro na verdade), note que os guardas estão envolvidos em conversas animadas no vestiário (o momento para a movimentação é exatamente durante os risos deles que abafam o barulho feito pelo jogador em seu deslocamento), mas o riso cômico deles para abruptamente quando percebem uma declaração de luxúria de um soldado por outro homem, o que atordoa seus camaradas… (nesta representação, todos homofóbicos).

Contra a tecnologia

Temos aqui neste mundo, o estabelecimento de um conflito que lembra a história de Cristo (o famoso líder dos oprimidos), batendo de frente com os Fariseus (que adoram as leis). No game você controla a silenciosa (já que não temos dublagem dos textos falados por aqui) Robin, que vive em uma espécie de assentamento governado pela poderosa One Concern (organização religiosa e política) que proibiu a todos de fazer o uso de ferramentas avançadas que podem potencialmente ajudar na coleta de um recurso mágico chamado Ivory.

Mas é óbvio que não vamos nos unir ao lado opressor do povo. Robin tendo como inspiração de vida o seu pai (chamado Polro que faleceu recentemente – em torno de 2 meses antes do início da aventura de Iconoclasts), trabalha sem que quase ninguém saiba como mecânica, já que seus serviços são altamente desencorajados. Mas como podemos imaginar, isso não vai muito longe. Após sua descoberta pela One Concern, resta a Robin lutar para permanecer viva, e para isso acaba contando com a ajuda de diversos personagens. Além de lutar pela sua vida, ela ainda tenta descobrir maiores detalhes sobre o esquema de controle de punhos de ferro que a One Concern exerce sobre o seu povo.

A organização se assegura de que as pessoas foquem sua fé em uma divindade que propositalmente proíbe o interesse pela tecnologia, mesmo que seja de forma casual e acaba limitando de todas as formas o acesso ao material misterioso, chamado de Ivory, que tornou possível o uso da tecnologia na sociedade. Outra informação importante é que nessa sociedade comandada pela One Concern, as pessoas têm suas atividades e profissões preestabelecidas pelo sistema. Se eles acharem que você deve ser um soldado, você só pode ser um soldado. Robin herdou a chave inglesa de seu pai e quer levar o ofício adiante, mas isso faz dela uma fora da lei, pois não é isso que o One Concern designou para ela. Se quiser exercer seu dom, ela terá que confrontar este dogma, o que irá colocá-la em contato com outras culturas e em confronto com os agentes da One Concern que querem manter as coisas em ordem.

Iconoclasts revela gradualmente a sua história por meio das emoções pessoais e visões de mundo que existem como um todo e principalmente na comunidade onde Robin reside. Você poderá observar ao visitar determinada casa que ela é chefiada por uma mulher que enfatiza para sua família e aos visitantes da casa, a importância de se “acertar” com Deus, inclusive fazendo insinuações de que talvez esteja na sua hora de se acertar com ele, alegando que você está sendo um pecador.

Em outra parte por exemplo, você irá conhecer um homem que está terrivelmente abalado e chora sem parar ao não entender porque sua esposa morreu e não entender como isso se encaixa na sua crença religiosa… sim, aquela velha pergunta que todos nós acabamos fazendo quando perdemos alguém importante: “como Deus deixou que isso acontecesse?” pois bem, essa é uma questão que nos é jogada no colo aqui em Iconoclasts e aqui também ficaremos sem uma resposta para isso.

Partindo para a ação

Como na maioria dos jogos, temos 3 opções de dificuldade para encarar este mundo de Iconosclast; Relaxed Mode é para quem só quer curtir a história e não se preocupar muito com a ação; Standard Mode é a que escolhi para jogar, que nada mais é que a dificuldade  normal dos jogos, onde teremos desafios, vamos morrer e tal, mas nada impossível; e para quem gosta de um desafio mais complicado, temos o Harder Mode, mais ação, menos vida e mais estresse.

A protagonista dá uma de Link (o herói da série The Legend of Zelda) e também começa o jogo dormindo. Robin é facilmente reconhecível no jogo devido a suas características físicas, seja por seus cabelos loiros com rabo de cavalo característico ou pelo seu fone de ouvido azuis que acaba atuando como uma tiara de cabelo tecnológica. Outra característica, já comentada anteriormente, é o fato dela andar com uma  chave inglesa gigante. Segundo as observações dos moradores da vila onde mora, Robin perdeu a capacidade de falar recorrente ao trauma pela perda recente de seu pai, já que antes do fato ela falava normalmente.

Como todo derivante de metroidvania temos um botão para pular, uma para o ataque com a chave inglesa (gatilho), um para realizar o uso da arma secundária e obviamente outro que realiza os disparos. O cenário é grande, mas não entre em pânico ainda, pensando em como se achar no mapa, temos um botão especial para ele. Neste mapa podemos conferir onde raios estamos e tentar entender para onde devemos ir. Esse mapa ainda vai se abrindo com a exploração e os pontos de save, upgrades e mais alguns importantes ficam identificados no mesmo. Achar o próximo destino muitas vezes vai ficar por conta do jogador, pois passagens antes bloqueadas podem ser ultrapassadas com novas habilidades adquiridas ou pela ajuda dos parceiros temporários de equipe. Você irá para sempre avançando pelos caminhos posicionados à direita, mas se verá obrigado a dar meia volta, optando pelos caminhos à esquerda para operar mecanismos que vão liberar o seu caminho seguinte.

Na maioria dos jogos da série Castlevania, geralmente com os Belmonts, utilizam seus clássicos chicotes para fazer muitas coisas além de atacar seus inimigos, e aqui o “chicote” da vez é a chave inglesa de Robin (que era de seu pai). O objeto será usada como arma para golpear os inimigos, abrir portas, deslizar por linhas elétricas, controlar eletricidade e muito mais. Se o botão da ferramenta for mantido pressionado a chave irá girar, o que pode ser usado para rebater determinados projéteis. Esse item é bem dinâmico e faz dupla com uma arma que vai ganhando novos disparos conforme o avanço da jornada, deixando o progresso sempre dinâmico.

Por falar em armas e equipamentos, temos itens que encontramos em caixas de metal espalhadas por locais de difícil acesso que nos fornecem itens variados (Improvium, Metallium entre outros) que serão utilizados para dar uma melhorada nos equipamentos e habilitar novas habilidades, como resistir mais a dano, ter mais fôlego embaixo d’água. Essas habilidades facilitam as coisas, mas não são pré requisitos para se conseguir jogar, caso não pegue todas o jogo vai andar da mesma forma.

As lutas contra os chefes são as mais legais que você vai encarar por algum tempo. Estes chefes em sua maioria não são nada convencionais e possuem inclusive aquele carisma dos chefes que tanto derrotamos nos jogos da série Donkey Kong e outros ainda que incluem aquela pitada de bizarrice que normalmente achamos nos chefes da série The Legend of Zelda. Então espere por coisas parecidas das encontradas em algumas aventuras de Link (não que isso desqualifique Iconoclast, muito pelo contrário). As batalhas surgem sem aviso e algumas inclusive são em duplas, onde um personagem, geralmente encontrado há pouco tempo, participa da batalha ficando a seu cargo criar as brechas para os ataques seus e de seu parceiro momentâneo.

Visual diferenciado e a trilha sonora

A estética visual do jogo chama atenção para as cores, e as formas naturais do mundo também se destacam. Montanhas azuis que parecem desenhadas a mão por linhas retangulares, folhas verdes tão nítidas quanto punhais, cactos que se assemelham a pequenos edifícios com cúpulas pontiagudas, flores cujas pétalas planas sugerem que foram criadas em vez de cultivadas, corais em formas cúbicas multicoloridas e é claro  cavernas subaquáticas fantasticamente escavadas.

Por vezes é fácil perder o foco e ficar admirando o ambiente ao qual ela está passando no momento. Iconoclasts também faz uma referência e nos faz lembrar de Assassin Creed quando você escala uma torre construída em metal púrpura, que simboliza opressão poderosa da One Concern. Uma observação que não podia deixar de colocar aqui é que o capricho está literalmente em todos os cantos, até os menus desse jogo são cheios de elementos animados e detalhes bonitos de se ver.

A trilha sonora cumpre muito bem o seu papel e é calma na maior parte do tempo, se tornando é claro mais frenética, e porque não dizer mais cativante, durante as batalhas de chefes, onde ela realmente vai fazer a diferença, dando todo aquele clima necessário para a ação frenética apresentada. Em outras partes ficaremos somente com os sons apresentados pelo ambiente ao abrir portas, passagens e interagir com outros personagens.

Considerações finais

Incrivelmente, acreditem se quiser, Iconoclasts teve o tempo de produção de quase 8 anos. Foi feito por uma única pessoa, o que demonstra sem sombra de dúvidas que a ambição do criador foi grande e teve um resultado surpreendente, misturando sabiamente uma história (envolvente, surpreendentemente e de certa forma pesada), o uso de elementos consagrados e conhecidos (a la metroidvania) e um estilo visual inigualável com 16 bits (fortemente focado nos detalhes e com uma paleta de cores super atraentes).

Dá para se aproveitar Iconoclasts de várias maneiras, seja curtindo a história, seja explorando o ambiente ou talvez aproveitando os desafios propostos por este título de plataforma. Adorei o conceito de tentar descobrir a estratégia correta para cada confronto com os chefes. E sem sombra de dúvidas o jogador ficará com aquelas perguntas que vem a tona com uma temática como essa aqui apresentada. Será que os seres humanos precisam ser tão extremistas em um ponto de vista ou em até em suas crenças? Temos realmente de ser sempre 8 ou 80? Ou será que podemos tentar seguir um caminho mais neutro, como este a qual Robin está decidida a levar…

Galeria

Dando uma nota

Temática da trama é ousada e surpreendente - 9
Visual em 16 bits é chamativo, muito bem detalhista e cativante - 9
Falta de localização em português atrapalha a acessibilidade de parte do público a sua história - 6.5
Memoráveis confrontos contra chefes - 8
Ótima condução do gênero metroivania - 8
Apresenta ótimas reflexões filosóficas em torno de pontos de vista extremos - 8

8.1

Ótimo

Iconoclasts é um jogo altamente recomendado para todos os fãs de metroidvania. Some entre suas qualidades seus belíssimos gráficos 16 bits, que aqui tiveram uma perfeita sincronia com a trilha sonora, uma profunda trama com ótima narrativa, sua exploração do ambiente e incríveis batalhas cativantes. Vai apenas deixar um pouco a desejar por não estar em português, o que pode dificultar o entendimento de toda a história por quem não navega com facilidade pelo idioma norte americano.

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Paulo Roberto L. S.

Gamer desde o antigo Master System 3. Leitor de HQs (Marvel/DC) e de Mangás, como atividades extras me dedico a treinar Pokémon e sair em busca de conquistas e troféus.
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