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Análise | Moving Out

Disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch & PC

Moving Out é um jogo para quem adora fazer mudanças, mas odeia suar, ficar com dor nas costas ou quebrar mobílias e objetos inestimáveis. Porque se mudar é isso, ao menos é o que as minhas memórias de mudanças me dizem. O jogo pega algo nada legal para se fazer em um sábado à tarde e o torna divertido do jeito que um bom videogame consegue fazer.

Seu lançamento aconteceu no último dia 28 de abril, nos consoles da geração e PC. Foi desenvolvido por dois estúdio, a SMG Studio, que fica localizado na Austrália, em parceria com a DevM Games, estúdio solo de Jan Rigerl, que se localiza na Suécia. A distribuição global ficou a cargo da Team17, publisher que tem mesmo uma quedinha por jogos com esse charminho, tal qual Overcooked, que a mesma também distribui.

Moving Out é um couch coop, ou seja, um jogo focado em multiplayer local, com dois, três ou quatros jogadores compartilhando a mesma tela, cooperando entre si para cumprir o objetivo de realizar mudanças em imóveis, enquanto procuram bater o menor tempo possível, melhores rotas para sair do imóvel e até mesmo organizar tudo para caber dentro do caminhão. Com uma física própria para que não fique tudo fácil demais.

E antes que você se pergunte se é possível jogar sozinho, em single player… sim, é possível. Mas fique por aqui, nesta análise, que já lhe explico melhor se vale ou não jogar desta forma e o que muda em relação a se jogar com algum parceiro.

Dia de mudança

Em Moving Out os jogadores assumem o papel de empregados de uma empresa de mudanças. Você e seu parceiro devem ir em imóveis e recolher tudo que for solicitado, colocando no caminhão e ainda bater uma meta de tempo para isso. E apenas se retira do imóvel, não existindo uma segunda etapa de recolocar essa mobília em sua nova casa.

A ideia do título lembra muito a fórmula que entrou em ascensão nestes últimos tempos depois do estrondoso sucesso de Overcooked. Jogadores devem colaborar para realizar juntos certas atividades que se tornam necessárias para cumprir a meta de cada fase. Por exemplo, há objetos, como sofás e geladeiras, que em multiplayer não dá para que apenas um jogador carregue sozinho até o caminhão. É preciso que seu parceiro venha até o objeto e lhe ajude a carregar. Em outro cenário, há situações em que deve-se arremessar um objeto frágil até outro jogador, que deve pegá-lo sem derrubá-lo no chão.

Funciona desta forma: quando uma fase se inicia, o jogador tem acesso a um imóvel, que pode ir de uma grande casa para até mesmo uma fábrica. Há alguns tipos de ambientes, ainda que não seja uma variedade tão grande assim. Dentro do ambiente há inúmeros objetos, que vão desde pequenas caixas à móveis como camas, sofás, geladeiras, mesinhas de centro, cadeiras… entre outras coisas, as vezes objetos até estranhos (como uma girafa inflável). Estes objetos possuem um ícone indicador que pode ser acionado a qualquer momento da ação, que indica quantos jogadores são necessários para carregar o objeto. Há muitos objetos que apenas um carregador se faz necessário, o que permite que uma equipe se divida para coletá-los individualmente, e assim tentar bater a meta de tempo. Porém quando tudo estiver coletado, ainda irão restar alguns em vão exigir a cooperatividade para carregar até o caminhão.

Parte da estratégia de Moving Out se faz justamente em encontrar o ritmo e a dinâmica entre fazer a mudança o mais rápido possível. Janelas podem ser quebradas, criando novos caminhos, ainda que isso não seja lá muito profissional de um transportador. Objetos podem ser arremessados até o caminhão, e alguns não irão quebrar. A TV pode ser carregada sozinha, mas tem chances dela quebrar no meio do caminho. E os objetos mais pesados que exigem carregar em conjunto, também podem ser arremessados se os jogadores segurarem ao mesmo tempo certo botão do controle – e felizmente basta um jogador soltar o botão que o arremesso é realizado.

Nem tudo da casa precisa ir para o caminhão. É preciso se atentar a isso. Os objetos tendem a brilhar de forma discreta nestes casos, mas o melhor é usar o botão que demonstra o ícone acima desse objeto. Mas a ideia de ter objetos que não são necessários a mudança tem a função de atrapalhar o caminho do jogador. É normal ter que puxar objetos do caminho para conseguir sair da casa, por exemplo, com uma cama. Encher o cenário de itens serve justamente para criar um ambiente mais desafiador, a qual prestar atenção faça parte do desafio.

Ranking e objetivos secundários

Cada estágio possui três classificações dentro de um ranking que divide-se entre ouro, prata e bronze. Essa classificação diz respeito ao tempo em que se vence a fase, batendo a meta temporal estabelecida. Mas cada fase tem um tempo, e se este for esgotado se faz necessário recomeçar novamente. Até onde percebi, o jogo não me indicou o que se ganha ao se obter todas as medalhas de ouro. E é bem difícil obtê-las. Os segundos entre ouro e prata aqui são ferrenhos.

Além do ranking, todas as fases tem missões secundárias. Três pra ser mais exato, e cada missão lhe rende uma moeda. Estas moedas precisam ser recolhidas para habilitar fases bônus, diferentes das fases normais do jogo. As fases extras são desafios em ambientes virtuais, sem cenários reais, a qual os jogadores devem realizar algum tipo de meta, seja levar o sofá por uma trilha super complicada, ou arremessar caixas que devem voar sobre ventiladores móveis. São fases que extrapolam a fórmula do jogo, quando retiram o contexto dos ambientes normais.

O que torna esse elemento das moedas interessantes é que, ao entrar pela primeira vez em uma fase, os jogadores não sabem o que precisam fazer para cumprir estes objetivos secundários. Talvez você possa cumprir alguns sem querer, aprendendo alguns padrões, mas não dá pra adivinhar sempre. Dentre estes objetivos estão levar um objeto específico que não estava na lista, pegar um animal, não quebrar um objeto ou uma vidraça, ou não realizar um ato que certamente lhe ajuda a ir mais rápido na fase. São muitas opções e é desta ideia que reside um bom valor de replay no game. Dá vontade de jogar os estágios uma segunda ou terceira vez afim de cumprir tais objetivos.

Além do jogo destravar as mencionadas fases extras, ao longo da campanha novos personagens são liberados para serem usados e podem ser alterados antes de começar uma nova fase. Não notei se esse destrave estava condicionado ao ranking obtido. Nada no jogo indica isso. Pra mim esse desbloqueio acabou vindo de forma natural durante toda a campanha, e a maior parte dos estágios acabei obtendo ranking prata.

E os personagens de Moving Out são um charme que só. Seja um carinha com cabeça de ovo frito, ou uma torradeira ou um vaso de planta. Há uma criatividade muito boa aí, e estes personagens possuem pequenas customizações, como o carinha torradeira ter uma torrada em sua cabeça ou um waffle. Claro que também existe os mais tradicionais, como os personagens humanos e também os que tem rostos de animais. A customização também reflete outros pequenos detalhes, como suas cores, chapéus ou até mesmo se o personagem usará uma cadeira de rodas – o que é um toque bem legal para jogadores com deficiência se sentirem representados.

O problema do sofá

Pensando no fato de que Moving Out é um jogo independente e, portanto, é previsível que haja pontos em que ele não poderia atingir frente a grandes produções da indústria de games, existem aspectos em sua estrutura que valem tais apontamentos. Seu multiplayer, por exemplo.

Gosto da ideia de que os desenvolvedores o projetaram para ser um título couch coop; para que amigos e familiares possam se divirtam jogando juntos em um mesmo ambiente físico. Porém sou defensor que até mesmo jogos indies, com essa pegada de jogar com amigos, precisem ter modalidades online, ainda que limitadas. E não estou sequer defendendo aqui o matchmaking, e sim um pequeno modo online de partidas privadas. Para que você possa jogar online com seus amigos. E é uma pena que Moving Out apenas ofereça um multiplayer local.

O momento temporal também não favorece para fechar os olhos para esse problema, vamos ser francos. Em plena pandemia global, a qual estamos todos aplicando o isolamento social, fica difícil chamar os amigos para compartilharem o sofá de casa. Tenho um filho de sete anos que está indo para seu terceiro mês sem ver (pessoalmente) seus amigos. Eles jogam juntos todos os dias e me cortou o coração quando eles descobriram que não poderia jogar Moving Out juntos – que por estar no Xbox Game Pass é super acessível as crianças.

E claro, eu entendo que quando o jogo estava em desenvolvimento, ninguém poderia imaginar o tempo a qual estamos todos vivendo. Só que isso não diminui minha tristeza por ver um jogo tão divertido em seu multiplayer, não oferecer maiores opções de conectar pessoas distantes. Estamos na era dos jogadores de streaming. Imagino que seria bem interessante nessa esfera se Moving Out permitisse partidas entre amigos online. Overcooked, já mencionado aqui, também não tinha modo online no primeiro jogo, mas foi inserido em sua sequência. Espero que o mesmo possa acontecer se um Moving Out 2 vier a existir em um futuro. Mesmo que seja cedo para pensar nisso.

Considerações finais

Antes de partir para as conclusões finais em torno do Moving Out, ainda há alguns pontos que gostaria de abordar e que complementam toda a experiência que o jogo entrega. A campanha e sua história, por exemplo, é um destes elementos que me agradou, por mais simples que seja.

A história do modo principal do título apresenta uma empresa de transportes e mudanças, liderada por um personagem feito com caixas de papelão, o que condiz com o design bem humorado de seus empregados. Esse personagem envia o jogador e seu parceiro (que pode ser um segundo player ou uma CPU) para realizar algumas mudanças. Na trama, no decorrer das tarefas, um plot maior vai surgindo e as coisas vão escalando a ponto de você ir além do que poderia imaginar.

E é essa escalando que permite o jogo lidar com fases bem criativas e diferentes mais próximas ao final da aventura. O jogador segue recolhendo itens para colocar no caminhão, mas nesse ponto já estamos em um ritmo de perseguição frente a um inimigo que está roubando coisas. Os ambientes finais de Moving Out são interessante e bem elaborados, especialmente o fato do título entregar um batalha de chefe ao seu final. O que eu realmente não estava esperando.

Por sinal, mencionei lá no começo desta análise e ainda não abordei a questão do single player. Moving Out funciona com apenas um jogador, mas na minha opinião o jogo perde bastante da sua força com isso. Isso ocorre porque as mecânicas cooperativas desaparecem completamente de sua jogabilidade. Aquela geladeira ou sofá que precisa de dois para carregar no multiplayer? Você pode carregar sozinho. O fato de não precisar de ajuda para realizar a mudança tira metade da diversão do jogo. E não consigo imaginar uma solução para esse aspecto, já que colocar uma CPU ou dar controle a dois personagens simultâneos (como ocorre em Overcooked) não funcionaria muito bem para a situação proposta por Moving Out.

Para o propósito desta análise, desfrutei do título quase que completamente na modalidade multiplayer, com o meu filho de 7 anos. Foi uma experiência bem divertida em família. Já quando fiz alguns estágios em single player, para ver como funcionava, não foi a mesma diversão. E nem mesmo ele, quando foi jogar sozinho. Então sim, Moving Out é um party game, e brilha mesmo quando se é jogado desta forma.

Quanto a diversidade e as mecânicas de Moving Out, o jogo se esforça para não ficar repetindo sua fórmula em todo estágio. Há fases com fantasmas (e que você deve dar um tapa no mesmo para ele ficar atordoado), fases com botões que abrem portas ou acionam mecanismos, em outras há plataformas móveis e até mesmo ventiladores que lhe arremessa aos céus. O design das casas também são bem diferentes, com varandas, diversos quartos e pequenos detalhes que dão um toque pessoal em cada fase. Pode soar repetitivo em algum momento, mas é notável o esforço dos desenvolvedores em diminuir ao máximo essa impressão.

A física do jogo também funciona muito bem nesse sentido. Os personagens podem pular, mas não a ponto de quebrarem o cenário das fases, enquanto que a gravidade e o peso de objetos também influenciam na altura do pulo e até mesmo no fôlego de seu personagem. Quanto em cooperativo, os jogadores precisam ter jogo de cintura para a física de ir para esquerda ou direita, enquanto passam camas enormes em grandes portas. Os personagens também possuem uma ótima mobilidade, sem parecerem lentos demais, ainda que eu gostaria de um simples botão para uma corridinha quando não estivesse com nada em mãos.

Como resultado final, acredito que Moving Out atinja parcialmente o potencial que o título poderia querer almejar. Acho que o jogo perde uma chance importante de oferecer multiplayer online, enquanto claramente funciona bem no multiplayer local. Sua inspiração oriunda de Overcooked também é bem óbvia, até mesmo mapa do mundo é realizado em uma cidade em formato de maquete e o jogador dirige um pequeno veículo. E penso que a inspiração talvez tenha exagerado um pouquinho, impedindo do jogo explorar algumas ideias que pudessem ser diferentes.

A ideia do jogo é válida, e a promessa de diversão é cumprida. Os estágios são criativos, tal qual as nuances da jogabilidade em coop. Os design dos personagens são charmosos, enquanto os gráficos combinam com tal proposta. O nível de dificuldade não é agressivo, ainda que receber o ranking ouro em cada uma das fases pode vir a ser um desafio, enquanto que as moedas também fazem surgir a vontade de repetir os estágios após conclui-los uma primeira vez. O single player funciona, mas não é ideial. Como um indie game, Moving Out é uma bela ideia, e gostaria muito de ver uma sequência que explorasse ainda mais seu potencial. Vale pela diversão de jogar com um companheiro dividindo o sofá.

Galeria

Dando uma nota

Para um multiplayer de sofá, funciona muito bem - 8.5
Fases criativas e divertidas, que extrapola algumas ideias perto do fim - 8
Visualmente bem charmoso, ótimo design de personagens - 8.2
Jogar sozinho não é tão interessante - 6.5
Fases extras são bem interessantes e com excelente desafio - 8.5
Valor de replay bacana com objetivos que só surgem após vencer a fase pela primeira vez - 7.8
Ausência de multiplayer online limita a longevidade do título - 6

7.6

Divertido (de 2)

Moving Out é um divertido multiplayer cooperativo para se jogar em família ou com amigos. Sua proposta é semelhante à sucessos como Overcooked, porém tem sua própria identidade. Existe sim pequenos tropeços, como ausência de um modo online e um fraco single player. Mesmo assim o título entrega o que promete, com fases criativas, bom design de personagens e uma jogabilidade muito agradável.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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