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Análise | Liberated

Disponível para Nintendo Switch & PC

Uma história em quadrinho interativa. Liberated é jogo independente que chegou ao Nintendo Switch no começo de junho deste ano, e que também acaba de debutar no PC (via Steam e GOG) agora no último dia 30 de julho. Ainda não há informações se (ou quando) o título chegará aos demais consoles da geração. O jogo foi desenvolvido pelo Atomic Wolf (um estúdio da Polônia) e publicado pela Walkabout Games.

Liberated, por sua vez, está integralmente em português, isso inclui é claro os menus, as conversas nos balões da história e nos documentos encontrados no desenrolar da trama. Esse simples fato, em um jogo como esse, causa uma imersão gigante no mesmo. Todos os personagens falam por meio dos clássicos balões de fala, mas como as histórias em quadrinho também não tem som, isso é algo aceitável. Adianto que Liberated é um jogo com uma temática mais madura, escura e pesada, obviamente recebeu a classificação Mature, então… tire as crianças da sala, combinado?

Universo dentro de uma HQ

Já tivemos mais jogos ao longo do tempo com essa temática HQ, basta lembrar do antigo Comix Zone, lançado originalmente em 1995 para o Mega Drive da Sega, e posteriormente recebeu conversões para PlayStation 3 e Xbox 360. Mas ele era do gênero beat’em up e todo mundo sabia que era uma HQ, inclusive o personagem principal era o desenhista da mesma. Aqui em Liberated a temática é bem mais sombria e não há nada de metalinguagem ou quebra de quarta parede na forma de sua narrativa. O jogador está vivenciando a história, porém para os personagens isso não é um história em quadrinhos, é a vida real.

Para leitores de quadrinhos, que já leram muito material da Marvel e/ou da DC, se percebe logo de cara que o estilo gráfico de Liberated tem uma forte influência de dois autores de sucesso, que com certeza são conhecidos de muitos:

  • Allan Moore — autor de várias obras, dentre as quais podemos citar as conhecidas:  Batman: A Piada Mortal, Miracleman, V de Vingança, Constantine e Watchmen – vários  destes adaptados para o cinema. Moore, por sua vez, tem um estilo com abordagem mais sombria, sensual, chamativa e, é claro, com violência explícita.
  • Frank Miller — também é conhecido por diversos trabalhos, mas podemos citar sua famosa passagem pela série do Demolidor (que inclusive recebeu encadernados belíssimos – que possuo – no Brasil pela Panini) e é claro a obra em Batman – The Dark Knight Returns. Miller costuma abordar uma linguagem igualmente sombria, mas tem desenhos marcados por alto contraste, que nos fazem lembrar os famosos filmes noir.

Voltando a Liberated, cada fase é uma revista em si, e a abertura da revista nos coloca um pouco a par de onde o jogador está, o que está acontecendo e também apresenta ligações com as fases anteriores (no caso das respectivas 2º, 3º e 4º fases, ao longo que a 1º serve para nos jogar dentro deste mundo e do controle obsessivo sobre a rotina das pessoas).

O jogador encarna somente um personagem de cada vez, mas a interação com outros se passa nos quadrinhos não jogados da revista, em algumas páginas jogamos por vários minutos em um quadro, enquanto em outras passa-se por elas inteiramente somente lendo balões e vendo a história acontecer ao redor e com o protagonista da edição. Logo fica claro que as vezes em um único quadro teremos várias partes de diálogo e até animações para mostrar os acontecimentos, mas as melhores partes sem dúvida são as em que controlamos a ação. E tem mais uma coisa: o protagonista pode não vir a terminar vivo a revista, então não se apegue demais.

Tema e sua inspiração

Você nunca estará completamente livre de riscos se estiver livre. O único momento em que você pode ficar livre de riscos é quando está na prisão.” Esta frase é a tradução literal da frase dita em entrevista por Edward Joseph Snowden, ex-administrador de sistemas da CIA que revelou a público informações altamente classificadas da Agência de Segurança Nacional (NSA) em 2013, quando era funcionário e subcontratado da Central Intelligence Agency (CIA). Suas divulgações revelaram vários programas globais de vigilância e levaram a uma discussão cultural sobre segurança nacional e a privacidade individual.

A Atomic Wolf parece usar essa premissa no mundo que criou, com uma forte inspiração nessa rede de segurança global, e de que na realidade ela está nos dominando e sufocando, nos jogando em um mundo autoritário e futurista controlado por um software conhecido como SCC. Após atentados terroristas, chega-se à conclusão de que todos devem ser controlados, as atividades nas ruas devem ser monitoradas com câmeras de vigilância e drones por 24 horas. As postagens em perfis sociais devem ser conferidas com cautela e até mesmo fotos postadas podem conter traços de desvio de personalidade, o que pode demonstrar uma possível inclinação para atividades perigosas contra outras pessoas. Cogitas-se também o monitoramento de doenças e a possível cobrança de impostos para pessoas que não tem um padrão de vida saudável ou que possuem determinada doenças que possam vir a causar problemas nas redes de saúde futuramente. Assustador, não? Bem vindo a trama do jogo.

Discutindo a liberdade

Entramos na era do cyberpunk, um novo mundo tecnológico tomou forma ao nosso redor e tivemos o que foi chamado de big data – o momento onde o poder de processamento e a onipresença da internet tornaram possível que algoritmos nos conhecessem melhor do que nós mesmos. Isso foi o pontapé inicial para que a privacidade de cada um fosse invadida. O intuito foi nos conhecer melhor, intimamente, entendendo não somente nosso comportamento e possíveis deslizes do mesmo, mas também as nossas ideias e hábitos. O que transformou as pessoas em livros abertos.

A liberdade como a conhecemos está com os dias contados neste mundo traçado pelas mãos dos governantes. Você está sendo vigiado a cada segundo do seu dia. Se vai aceitar isso pacificamente, ou se juntar a uma revolução, depende somente de você. Era visto que um sistema opressor desses encontraria adversários a altura. Eis que surgem os lutadores da liberdade, conhecidos como Liberated, os membros do grupo (hackers, pessoas com talentos especiais, ou simplesmente aqueles cansados desse controle autoritário absoluto) elaboram diversos planos para sabotar o sistema governamental e divulgar a todos as suas falhas e farsas.

Começamos a aventura controlando o jovem Barry Edwards, um jovem que está sendo procurado simplesmente por não seguir os padrões de vida normal estipulados e ordenados pelos governantes. Ele acaba por entrar para os Liberated e seguimos sua jornada até o  término da edição (a fase 1, no caso). Mas Barry é somente o primeiro personagem que o título nos apresenta. O jogador vai assumir o controle de outros, ocupando lados opostos do conflito: os protetores de um estado excessivamente protetor que combate o terrorismo às custas da liberdade e também dos membros de um grupo de ativistas que lutam pela liberdade.

Então estaremos jogando nos 2 lados presentes no conflito, cada qual dependendo do cenário. Esse conceito de apresentar mostrar ambos os lados foi uma sacada muito interessante, e deixa aquele peso em cada ação tomada, já que provavelmente sofreremos as consequências delas no outro lado. Apesar de começarmos nossa aventura como um recruta dos Liberated, rapidamente vamos descobrir que eles não são bons e que ambos os grupos estão certos dentro do seu ponto próprio de vista. Liberated em sua verdade, é uma tentativa de mostrar um impasse no qual duas forças (ordem e liberdade) são medidas.

Hora da jogabilidade

Agora, em se tratando da jogabilidade, a mesma se apresenta de forma simples, como vemos em muitos jogos de plataforma antigos e atuais. Então basicamente basta andar do ponto A ou ponto B, realizar determinada ação, como eliminar inimigos, apertar botões que permitirão o acesso a uma área antes inacessível que por sua vez terá outro ponto de controle para abrir outra porta. Dentre demais ações estão inundar alguma parte da sala, mostrar determinada consequência de sua atitude ou algo nessa pegada. O jogo trata sempre de mostrar o local onde foi aberta uma nova opção, mas cada ao jogador deverá achar a forma correta de chegar até ela. Pode ficar meio chato em partes de confronto contra vários inimigos ao mesmo tempo, já que a recuperação de vida se dá somente com o passar do tempo, não temos como recuperar a vida em meio aos tiroteios.

Os controles respondem bem a jogabilidade e tudo é muito intuitivo. Somente a parte da mira pode confundir um pouco até pegar o jeito. Munições são infinitas, então não há problema com essa parte ou precisar sair procurando por munições. Mesmo sendo um jogo de plataforma, nas partes de HQ da jogabilidade, teremos que fazer escolhas morais e essas, por sua vez, podem deixar algumas páginas sem serem vivenciadas, ficando em branco dependendo de qual opção de resposta tenhamos escolhido para determinado questionamento ou ação. Para conferir todas as possibilidades somente rejogando a “revista” novamente, justamente para que haja aquele fator replay para o jogo.

Para atirar deve-se pressionar o analógico direito na direção que deseja mirar, e com essa mira na tela ao pressionar o botão ZR ocorre efetivamente o tiro . É bem fácil dar headshot (tiro na cabeça) e em alguns momentos é gratificante acertar de primeira e derrubar os adversário, mas o jogador morre com poucos tiros, então em algumas partes é melhor se esconder em pontos escuros do cenário (pressionando o botão X), ficando atrás de postes e barreiras pode ser necessário. Também pode-se abater inimigos sorrateiramente ao ir atrás deles e pressionar o botão anunciado na tela.

Os puzzles (quebra-cabeças) consistem basicamente em religar circuitos através do smartphone, o que vai queimar alguns neurônios do jogador, pois são resolvidos a base de lógica  e inteligência. Se atentem com uma coisa: o mundo não para quando se abre um desses quebra-cabeças, ou seja, se tiver deixado inimigos na sala eles vão atacar. E aqui encontrei um bug: caso morra nessa tela, comigo o jogo travava e o personagem voltava a vida em outro lugar, porém com o smartphone no meio da tela. Somente saindo do jogo e ligando-o de novo para ajustar. Felizmente ao longo dos dias em que estive testando o título, uma atualização foi disponibilizada pela Atomic Wolf e o problema foi resolvido. Pelo menos não passei pelo mesmo enfrentando o mesmo tipo de situação. Acho essa uma observação importante, pois foi corrigido após pedidos da comunidade de jogadores, então, ponto para a equipe do jogo que foi atrás e deu uma solução de uma forma bem ágil.

Liberated também tem em algumas partes os famosos Quick-Time Events (mecânica que exige a necessidade de se pressionar algum botão, ou combinação deles, durante uma cena de animação do game, geralmente se não foi feito da forma correto no tempo hábil, resultará em algo ruim para o jogador). Errar estes momentos podem lhe forçar a repetir uma parte, ou até terminar definitivamente com a situação apresentada colocando outro final em curso sem o seu protagonista nele. Há um peso importante então nessa mecânica, o que a torna menos fútil do que quando utilizada em jogos que não dão tal importância.

O título também nos apresenta a opção de jogar de 2 formas: modo leitor (onde é tudo mais fácil e tranquilo) e o modo jogador (onde terá revide dos adversários e morrer será mais corriqueiro). Mas mesmo no modo jogador (no qual joguei) nada vai causar grandes problemas e o jogo também é recheado de pontos de salvamento, os famosos checkpoints. Morreu? Vai voltar ao início do quadro atual. Tranquilo.

Considerações finais

Sem sombra de dúvida fiquei impressionado como Liberated se move perfeitamente entre a jogabilidade e sua narrativa, traduzindo isso ao longo de suas páginas. A equipe acertou em cheio ao trazer o nosso português como uma das opções de idioma. Pra mim isso foi um dos fatores que mais contribuiu, significativamente, para a imersão no mundo e nas páginas do jogo e seu tema.

Meu elogios também as ilustrações em preto e branco, que dão vida ao jogo e a toda essa apresentação em HQ, tornando-a muito mais envolvente. Minha única crítica é de que o jogo poderia ser um pouquinho mais longo (são apenas 4 níveis, levando em torno de 45 minutos para cada um). Mas é uma experiência diferente e possui uma história mais profunda e sombria do que talvez alguns estejam acostumados em jogos com temática HQ. É uma proposta, tanto visual, quanto narrativa, que se prova instigante e interessante de se conhecer, e interagir dentro de suas páginas eletrônicas.

Galeria

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Dando uma nota

Criativivo ao ambientar o jogo dentro de uma HQ - 9
Boa jogabilidade clássica de jogos side-scrolling - 8
Visual dark, noir e adulto funcionam incrivelmente ao tema proposto - 9
Tema ligado com assuntos atuais e passíveis de reflexão - 8.5
Segmentos de jogabilidade shooter (tiro) são apenas okey - 7
Seria melhor se fosse mais longo, mesmo com um certo valor de replay - 7
Totalmente localizado em português, ajuda muito na imersão - 10

8.4

Wow

Liberated com sua história acaba por analisar nossa sociedade como um todo e nos deixar com um questionamento complexo, forte e egoísta. Deveríamos nos importar mais com a segurança de todos ou somente com o destino da nossa privacidade individual? Um ótimo jogo de interação narrativa. Com um visual estonteante, intrigante narrativa e totalmente localizado em português, um elemento tão importante ao gênero.

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Paulo Roberto L. S.

Gamer desde o antigo Master System 3. Leitor de HQs (Marvel/DC) e de Mangás, como atividades extras me dedico a treinar Pokémon e sair em busca de conquistas e troféus.
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