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Análise | Fairy Tail

Disponível para PlayStation 4, Nintendo Switch & PC

Conhece o mangá Fairy Tail ou é fã de jogos JRPG? Então puxe uma cadeira e se prepare para uma viagem pelo mundo de magia criado pelo mangaká Hiro Mashima. Um sucesso do mundo dos mangás para a mídia interativa dos jogos eletrônicos.

Fairy Tail (o jogo) é um JRPG desenvolvido pelo estúdio japonês Gust e distribuído pela Koei Tecmo, lançado globalmente no último 31 de julhoapós ter atrasado alguns meses devido a pandemia. Chegou as plataformas do PlayStation 4, Nintendo Switch e PC via Steam. Infelizmente desta vez o Xbox One ficou de fora dos planos de lançamento (e não existe notícias de que virá a acontecer futuramente). Por fim, como sempre gosto de informar, a versão utilizada para este review foi a do Nintendo Switch.

Como todo jogo que tem como alvo o público fãs de determinado mangá/anime, aqui o fan-service (serviço para fã) já começa na imagem de capa do jogo, que foi desenhada exclusivamente por Hiro Mashima, o criador da série, mas o serviço para o público japonês foi ainda mais longe e numa edição especial havia uma ilustração exclusiva das personagens Lucy, Erza e Wendy em trajes de banho (Japão, né).

Infelizmente o jogo Fairy Tail não conta com dublagem ou legenda em português, portanto para vivenciar este JRPG temos que entender um pouco de inglês ou nos lembrarmos de tudo o que já lemos no mangá ou assistimos no anime.

Introdução básica à Fairy Tail

Fairy Tail é uma série de mangá escrita e desenhada por Hiro Mashima. Os capítulos desse mangá foram publicados durante os anos de 2006 a 2017 na revista Weekly Shōnen Magazine. Em 2009 se iniciou a transmissão do anime produzida pela A-1 Pictures, Dentsu Inc. e Satelight baseado no mangá que teve diversas temporadas, sendo que a última foi ao ar somente em 2019, além disso teve vários OVAs (siglas para Original Video Animation) e 2 filmes.

Em um resumo, bem sucinto, somos apresentados a história de Natsu, um garoto órfão que foi encontrado por um dragão chamado Igneel, que o adotou e acabou treinando ele para ser um dominante do fogo, mas durante esse treinamento, em um certo dia, o dragão desapareceu misteriosamente. Logo Natsu parte em uma jornada por várias cidades procurando o seu pai adotivo, sempre acompanhado de Happy, um gato que misteriosamente consegue falar e possui asas.

No meio de sua procura, Natsu acaba conhecendo a jovem Lucy, que tem como sonho fazer parte de uma guilda mágica (uma guilda vem a ser uma espécie de cooperativa que atua como mediadora de assuntos relacionados a trabalhos e informações para magos/feiticeiros). Logo Natsu e Lucy acabam por entrar para a famosa e atrapalhada guilda Fairy Tail. Na realidade, após entrarem para a Fairy Tail é que a jornada dos dois toma novos rumos, desenvolvendo novas magias, conhecendo novos amigos (como Gray e Elza) e ainda é claro, acabam enfrentando outros poderosos magos pertencentes a guildas das trevas, além de viverem muitas aventuras emocionantes ao redor do mundo de Fiore.

Os personagens vão ser apresentados aos jogadores novamente, independente de serem ou não fãs da série, pois na primeira aparição de cada um, o nome é exibido rapidamente. Porém fica por isso mesmo, não temos como saber através do jogo muitas coisas por trás de cada um destes personagens. Conhecê-los por outras mídias parece ajudar os mais curiosos.

Um típico JRPG

O estilo de jogo aqui é RPG, mas especificamente o JRPG, que para quem não está se recordando de cabeça, é o estilo japonês de RPG que se caracteriza pelo combate em turnos onde o jogador possui uma equipe formada por vários membros, geralmente ficando entre 4 ou 6 personagens. Exemplos clássicos são os famosos Chrono Trigger, e os diversos jogos das séries Final Fantasy, Tales of e Persona. Uma das características marcantes é a exigência de empenho do jogador, no caso subir o nível de diversos personagens para ter uma gama maior de ataques, vida, magia e etc, o que muitas vezes acaba afastando alguns jogadores mais apressados.

Em Fairy Tail temos a clássica mecânica de turnos. A equipe é composta inicialmente por 2 personagens (Natsu e Lucy), chegando mais tarde a ter até 5 membros – vai-se adquirindo outros personagens ao longo das missões e do modo história. No caso do jogador se deparar com um grupo de 4 inimigos, cada membro da equipe poderá realizar uma ação, podendo ser ataque normal, ataque com magia, defesa, uso de item, fugir e talvez realizar um golpe especial ao carregar o Fairy Gauge (há um medidor no canto esquerdo da tela com o símbolo da Fairy Tail e a cada ataque realizado ele vai tendo sua borda preenchida, utilizar de ataques mais poderosos completa a barra mais rapidamente). É com esse especial que podemos utilizar a poderosa Magic Chain, que vai juntar todos os membros da equipe em um ataque fulminante ou chamar para ajuda os Mestres da Guilda. Após o jogador concluir seu turno é a vez do oponente, cada inimigo realiza uma ação podendo atacar diretamente um personagem da sua equipe ou vários, o ciclo se repete até um time sair vencedor. A estratégia é fundamental para vencer uma batalha contra vários inimigos com resistências e fraquezas mágicas específicas.

Não posso esquecer de comentar que a medida em que o jogador vai derrotando os inimigos, o level dos membros da equipe vai subindo, disponibilizando novos ataques mágicos ou fortalecendo os ataques já existentes em seu repertório (os ataques mágicos ficam mais fortes, ao passo que passam também a consumir mais magia). Adentrar novas áreas de Fiore (o continente onde se localiza a guilda) pode ser fatal se não for feita de forma gradativa, o nível dos inimigos presentes em cada área vai se alternando conforme avançamos na história e sempre vão tentar chegar a causar perigo ao jogador. Então, fazer level up dos personagens é uma boa forma de escapar de situações embaraçosas em questão das batalhas.

Em algumas situações bem específicas, em missões da guilda ou nas rodadas nas disputas dos Jogos Mágicos, o jogador vai controlar somente 1 ou 2 dos personagens de sua equipe e vai precisar enfrentar ondas gigantescas de inimigos para passar, como uma certa luta que vai lhe colocar cara a cara com 100 inimigos. São situações legais para quebrar um pouco a dinâmica, um tanto quanto maçante, da fórmula clássica.

Em qual parte da história entramos?

Se você espera vivenciar toda a história de Fairy Tail, talvez fique um pouco decepcionado. O jogador não verá, por exemplo, a entrada de Lucy e Natsu na guilda, longe disso, embarcamos nessa jornada já em pleno movimento. Aqui estaremos vivenciando a adaptação dos arcos 13 a 18 do mangá (capítulos 200 a 253). Para quem acompanhou o animê, isso se encaixa na 6ª e 7ª temporadas.

Especificamente o jogo começa com grande parte da guilda em um luta pesada contra Hades (cujo nome real é Precht Gaebolg), que foi o segundo mestre da Fairy Tail e passou seu título para Makarov Dreyar. Depois de sair da Fairy Tail ele se tornou o mestre da guilda das trevas Grimoire Heart (onde assumiu a alcunha Hades). A luta contra ele acontece após Natsu e seus amigos derrotarem todos os outros membros da Grimoire Heart, o que não vivenciamos no game. Após ser derrotado, ele ainda encara Zeref Dragneel, e o desfecho desta luta era o esperado por todos os leitores do mangá, mas de certa forma não deixa de ser uma surpresa a forma como acontece aqui.

Enquanto Zeref encara Hades, o dragão Acnologia ataca a ilha e os membros da Fairy Tail. Estes por sua vez, por estarem feridos da batalha anterior, com a ajuda da 1ª mestra da guilda, encontram uma única chance de não serem eliminados, a magia Fairy Sphere (uma magia de defesa absoluta com a intenção de salvar a todos da guilda, mas, que em contrapartida acaba por “congelá-los no tempo” por 7 anos até que a magia se desfaz).

Como os principais membros da guilda, incluindo o grande mestre, somem por 7 anos, a Fairy Tail como guilda decai e perde o respeito da população, praticamente deixando de existir. Outras guildas assumiram nesse tempo as principais missões. É aqui que assumimos o controle, assumindo o controle de Natsu, Lucy, Gray, Erza e outros membros da guilda para cumprir missões diversas à pedido de clientes e restabelecer o prestígio da Fairy Tail.

Estas missões são ranqueadas, e quanto maior este maior os benefícios por sua conclusão, assim como a dificuldade das mesmas. Geralmente as missões disponíveis no mural envolvem a eliminação de monstros específicos ou a coleta de itens. O diferencial acontece nas Character Stories (missões paralelas) de alguns personagens que acabam nos colocando a par de acontecimentos das vidas dos mesmos, assim liberando o uso deles na equipe ativa do jogador. Temos ainda os Bond Events, pequenas cenas que nos apresentam a afinidade entre alguns dos personagens e o fortalecimento da mesma, o que vai acarretar em possíveis ajudas durante os golpes de parceiros com maior afinidade, como Natsu atacando após Lucy utilizar uma magia, sem contar como o turno dele, o que pode gerar 2 ataques dele em sequência. Estas missões que exigem determinadas combinações de personagens também acabam sendo um pouco mais desafiantes pois personagens em levels mais baixos podem ser necessários, o que te faz mexer no seu grupo de personagens preferidos.

Cada missão cumprida vai render pontos de fama para a Fairy Tail, melhorando a sua avaliação perante as guildas, os clientes das missões, as missões em si, assim como as finanças da guilda como um todo. Isso vai liberando novas áreas e funcionalidades como laboratório, loja, cozinha e etc. Temos ainda mini missões que são encontradas com moradores das cidades/vilas que equivalem da entrega de itens (adquiridos como espólios de monstros derrotados, ou encontrados pelo cenário) ou a eliminação de alvos estabelecidos (grupos e monstros específicos). São pequenas missões típicas dessa fórmula dos JRPG bem das antigas.

Após essa curva inicial do jogo, somos levados aos acontecimentos envolvendo os Grande Jogos Mágicos até o final do arco do Tártaros – momentos bastante icônicos da série. Isso significa que o jogo não engloba exatamente o final completo da obra. Nestes arcos do jogo você encontrará batalhas entre jogador controlando membros da Fairy Tail e também outros magos em parcerias temporárias com membro de outros guildas. Esse aumento do elenco dá uma renovada nesse esquema de missões e batalhas contra monstros genéricos. Entretanto essa ausência do restante dos arcos finais parece dar a entender que pode vir a ser um gancho para uma sequência, ou quem sabe até mesmo uma expansão.

A parte gráfica é “mágica”?

Bom, vamos com calma nessa parte. Veja bem, Fairy Tail possui uma animação muito boa para os padrões de RPG, aqui o destaque não fica para a movimentação dos personagens correndo pelos cenários, mas sim para as animações presentes nos combates mágicos. Há dois tipos de animações exponencialmente diferentes, as feitas dentro da engine do jogo e as feitas fora. Vou comentar um pouco sobre cada uma:

As animações feitas dentro da engine são as mais comuns, são as cutscenes entre determinados eventos que mostram os personagens no cenário do jogo como fundo e algum acontecimento que vamos assistir, e são basicamente o que nos é apresentado também em golpes mágicos mais elaborados nas lutas. Um ponto negativo que percebi nessas animações é que a plateia nos jogos mágicos é plana, em uma cena animada você consegue ver que não existe relevo na torcida nas arquibancadas. Não é algo que destrua o jogo, mas é algo que chamou minha atenção negativamente. Me tirou da imersão do momento.

Em imagens retiradas diretamente do game, em alguns casos, podemos notar os pixels delas, o que distorce até mesmo o logo de algumas guildas, no calor do momento acabam passando batidas, mas os pixels “estão” à vista. Fica um resultado que não pode ser colocado como o que há de melhor nessa geração em jogos baseados em animê, mas que apenas cumprem o papel designado. Mesmo que esteja avaliando a versão de Nintendo Switch e não possa afirmar, com todas as letras, que essa mesma impressão possa existir nas outras plataformas a qual o jogo se encontra (PC e PS4).

Considerações finais

Uma coisa é certo, a Koei Tecmo sabia o que estava fazendo ao anunciar um jogo de Fairy Tale, pois já trabalhou com outras adaptações focadas exclusivamente para os fãs de determinado mangá/anime, como as adaptações de Attack on Titan (Ataque dos Titãs), Berserk and the Band of the Hawk (Berserk), Arslan: The Warriors of Legend e até mesmo One Piece Pirate Warriors (este por sua vez já conta com 4 jogos da série “Pirate Warriors”). Todos são títulos voltados para quem vive estas séries, sabe nome de personagens, falas marcantes, golpes, magias e etc. Ou seja, são jogos para fãs, ainda que em certo grau também sirvam como porta de entrada para curiosos que querem conhecer mais destes universos.

Fairy Tail acaba por ser, sem sombra de dúvidas uma bela adaptação do mangá/anime para o mundo dos games, posso ser suspeito para falar por ter em minha bagagem todos os mangás lançados oficialmente no Brasil da série, incluindo vários Spin-offs (histórias focadas em eventos acontecidos com personagens da série em determinados momentos de sua vida), como por exemplo: Ice Trail, (protagonizado por Gray mostrando sua vida depois do sacrifício de Ur e sua jornada até entrar na Fairy Tail), Fairy Tail Zero (história sobre a Mavis e a criação da Fairy Tail), Blue Mistral (spin-off da Wendy), entre outros. Materiais estes que poderiam render contos no jogo, mas que foram deixados de lado, por ora.

Um jogo assim pode ser algo encantador (para os fãs) ou algo cansativo (para todos o resto). O problema pode ser exatamente “não ser fã de Fairy Tail” e não saber onde está se metendo. É necessária uma enorme bagagem de conhecimento anterior já que a história apresentada se passa no final do arco da Ilha Tenrou (capítulos 200 a 253 do mangá), o que é uma decisão estranha, pois acaba sendo uma porta de entrada muito precária. Mesmo para quem acompanhou a história pode acabar encontrando situações que ficam sem nexo e cabe a você parar e tentar puxar na memória para lembrar de alguma parte do mangá que explicou aquilo detalhadamente.

Mas antes que me pergunte, eu mando a pergunta: pode ser jogado por alguém que não conhece a franquia? Respondo que sim, pois ele é em sua essência um JRPG, temos uma história banhada com a necessidade de cumprir missões, fazer objetivos paralelos e upar os personagens de sua equipe (termo que define o ato de subir propositalmente o level para aprender novas técnicas e fortalecer o personagem por meio de batalhas consecutivas), mas as piadas internas e até mesmo conhecer os locais onde elas vão acontecer é algo que exige uma bagagem anterior em Fairy Tail. O jogo é um fan-service e propositalmente será aproveitado diferentemente por quem gosta do mangá/anime e conhece Natsu e sua turma.

E vale aquele alerta final, diante de tudo isso, Faity Tail ainda segue uma fórmula mais tradicional dos JRPGs. Batalhas por turnos, missões menores, conversa com NPCs mais genéricos e aquela lentidão característica do gênero de repetir batalhas e fazer você gastar dezenas de horas dentro de um mundo para se aventurar, mas sempre subindo de nível para manter o combate consistente. Não tem a dinâmica de alguns RPGs mais acelerados de hoje em dia. Para muitos isso é um atrativo, para outros, um problema. Cabe descobrir que tipo de jogar você é.

Galeria

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Dando uma nota

Apresentação de mundo é bem fiel a obra original - 9
Na parte gráfica existem alguns descontentamentos, porém as custsenes se destacam - 7.5
Possui uma boa trilha sonora, que casa com o mundo de Fairy Tail - 8.5
Sistemas de batalhas mágicas é robusto e funcional, resulta em bom gameplay - 8.5
Sem localização em português, apenas inglês e japonês, cria uma barreira de acessibilidade por aqui - 6
Jogo não abrangem toda a obra, tendo início lá pela metade do mangá (e não vai até o arco final) - 6
Sistema de ranking para a guilda é um ótimo estímulo para fazer missões secundárias - 7.5

7.6

Bom

Fairy Tail certamente não é um jogo perfeito, e apresenta certos defeitos (como a história não estar completa), mas estes não estragam a experiência do jogo como um todo. É um título de estreia da série em consoles de mesa, com uma grande pretensão dentro do segmento JRPG. Faz o básico, porém apenas não para e pensa em dar algo diferente a uma fórmula já tão tradicional. Fãs devem curtir, mas o resto do público não terá essa mesma benevolência.

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Paulo Roberto L. S.

Gamer desde o antigo Master System 3. Leitor de HQs (Marvel/DC) e de Mangás, como atividades extras me dedico a treinar Pokémon e sair em busca de conquistas e troféus.
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