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Reflexão | Ponto de fervura, pandemia de 300 mil, indignação e a cultura do ódio

Indicando reflexões e relatando um momento pessoal de explosão

Na semana que o Brasil bate triste a marca de 300 mil mortos pelo Covid-19 há muitos reflexões a qual os brasileiros deveriam fazer, e que muitas vezes sequer conseguir olhar para esse quadro, fechando os olhos para um realidade amarga, de uma situação que ao menos tempo em que deve passar, não existe qualquer indício de que será tão rápida quanto todos desejaríamos.

Hoje resolvi trazer duas indicações solidárias a qual vi ontem pelas redes sociais, a qual me tocaram e que achei necessários compartilhar para outros, e que também chegaram até mim em um dia em que realmente precisava delas, dado a uma experiência pessoal que me tirou do meu “eu normal” e a qual também quero compartilhar aqui.

Bem, farei as indicações, sendo breve, e depois, se você quiser saber o que rolou comigo e que me fez ter vontade de fazer este editorial (e esta reflexão), siga lendo, não prometo que o texto será curto, mas o Portallos sempre foi esse cafofo a qual ideias e experiências são sempre bem vindas. Sigo enferrujado para textos como esse, mas são feitos de coração (e uma pitada de ódio e indignação, mas chegaremos nestes pontos).

Vamos lá. A primeira indicação é um relato/reflexão que o Ivan Freitas da Costa (Chiaroscuro Studio/CCXP) fez na data de ontem a respeito de uma conta a qual todos os brasileiros deveriam estar fazendo, mas talvez nem todos estejam. Se a postagem dele não estiver aparecendo na sua tela, logo abaixo, o link da postagem é esta aqui. Esse é um relato que diz muito sobre como podemos ser complacentes com condutas de morosidade ou até mesmo incompetência no que diz respeito a gestão governamental em torno da pandemia. Algo que não acontece somente neste escopo, mas volto em instantes. Segue o post:

Vou só reforçar a peça central desse impactante relato: “Estimo que o Seu Carlos tinha 60 e poucos anos. Ele seria vacinado em 1 ou 2 meses, talvez. Mas há outra conta que precisa ser feita: se o governo federal tivesse comprado vacinas quando foram oferecidas a nós, teríamos começado a vacinar a população ainda em 2020 e, a esta altura, é muito provável que ele já tivesse sido vacinado. Talvez ainda estivesse vivo. Ele e parte importante dos 300 mil mortos que o Brasil registrou hoje. Que fosse uma única pessoa salva já teria valido a pena.

Então nos indignamos, revoltamos, ficamos com ódio e raiva. Bem, aí entram os sentimentos negativos. Aí entra minha segunda indicação reflexiva: um vídeo publicado pelo Gabriel, o Pensador, também em sua rede social, no último 23 de março, falando justamente sobre essa política do ódio, do cancelamento e como é mais fácil vir na internet para xingar, reclamar, ao invés de construir, ensinar, conversar. Mais uma vez, se o vídeo não pipocar na sua tela logo abaixo, você o encontrará neste link. 6 minutos que irão valer a seu dia, prometo.

Que reflexão, hein?

Se você ficou até aqui, ótimo. A partir daqui quero contar algo que aconteceu, e tem acontecido comigo nas últimas semanas, e que tem um pouco destes pontos sobre “não ser ouvido“, “passar raiva“, “se sentir indignado“, “sobre ser complacente com morosidade“, “falta de diálogo” e afins. Tem um pouco destas palavras, tanto do Ivan quando do Gabriel, e nesse escopo, estou dos dois lados, tanto certo, quanto errado. Se tem mais um tempinho, fica aí, segue lendo. Não é nada incrível e é muito pessoal, mas quem sabe saia algo que possa valer para você também. Quanto a mim, escrever também é uma forma de tirar isso do peito, de trabalhar uma indignação latente.

Não estamos em nosso normal

Dito isso, ontem perdi todas as estribeiras com uma situação a qual estava tentando não perder a calma nas últimas semanas, de ocorridos que tem se acumulado por meses. Durante a pandemia as escolas foram fechadas, as crianças ficaram meses trancadas dentro de casa, surgiu o sistema de aula online, depois híbrido e nessa onda de mudanças e adaptação, tenho acompanhado tudo, muito de perto por conta do meu filho, de 8 anos de idade. Ano passado ele estava no 2º ano do fundamental, um ano importantíssimo para a solidificação da alfabetização e este ano, no 3º, estamos vendo o resultado de um ano atípico no ensino.

E assim, a professora do Thales do ano passado foi fantástica em lidar com uma situação a qual ninguém um dia poderia imaginar que aconteceria. Ela foi uma heroína, no nível de uma Capitão Marvel. Em um cenário incrivelmente assustador, de ter uma criança de (na época) 7 anos tendo aula online (sendo que eu mesmo odeio particularmente qualquer tipo de ensino remoto e à distância), essa professora foi incrível. Ela me explicou como trabalhar com ele em questões como leitura, escrita, tarefas, matérias etc. E quando digo que me auxiliou, digo em um nível pessoal, analisando individualmente o pequeno Thales e me dizendo como lidar com as inseguranças e reforços que eram inerentes a ele. Não foi uma uma cartilha genérica que pudesse ser dado a todos os pais, a fim de lidar de forma genérica com seus filhos. Nada disso. Ela soube avaliar um caso particular, talvez até peculiar, e como eu e minha esposa poderíamos fazer essa parceria dar certo afim de reduzir o máximo o dano causado em um ano atípico de ensino.

Feitos todos os elogios a professora do ano passado, o mesmo não posso fazer quanto a direção da escola a qual meu filho estuda. E sendo justo, não fui o pais mais compreensivo do mundo quanto ao fato de que eles também estavam completamente perdidos em como lidar com esse cenário de escolas fechadas. Fui chato, reclamão e cobrei muito posições a qual a escola demorou a tomar. Um exemplo disso, enquanto todas as outras escolas da cidade já estava abertas ao acolhimento das crianças, a do Thales insistia em continuar fechada. Houve morosidade (eis uma importante palavra-chave desta reflexão).

Enfim, novamente, momento atípico, e como sociedade estamos todos foram do nosso normal. Todo mundo com ansiedade, medo, muitas dúvidas e receios. Eu apenas não explodi com a escola ano passado, por sua morosidade em diversos assuntos, porque houve uma coordenadora extremamente diplomática, que sabia ouvir, sabia (principalmente) o que dizer e soube absorver toda a minha insatisfação, levando para si todo um fardo a qual eu não estava afim de carregar. Coordenadora que hoje não está mais na escola. Ela também não aguentou, ao que posso concluir, mas não afirmar.

E aqui um parênteses. O Brasil hoje se divide entre aqueles que acham que as escolas deveriam estar fechadas, e àqueles que acham/ou precisam que elas estejam abertas. Eu faço parte deste segundo grupo, das escolas abertas. Não quer dizer que não entenda os medos, anseios do grupo que defende escolas fechadas. Respeito estas opiniões e tenho também os mesmos medos e anseios. Entretanto nada é preto ou branco (nada na vida é). Também sou do grupo que entende os problemas de crianças que estão sem interação social com outras crianças, e o trabalho da escola no socioemocional a qual é tão importante para elas. Em suma: existe uma particularidade muito grande de família em família, caso a caso. No caso da minha família, após muito pensar e refletir, chegamos a conclusão que seria importante o Thales voltar para a escola, por N motivos a qual nesse momento não tem muita importância explicar aos propósitos deste texto. Ou seja, tudo bem você não concordar que as crianças não deveriam estar na escola nesse momento (inclusive tudo bem o seu filho não estar na escola), mas o ponto da discussão não será este. Apenas parta do princípio que há crianças na escola, independente do que todos achamos que seria o correto.

Ponto da fervura

Feito um breve contexto, dado um pouco da questão psicológica, todo o país chegou a 2021 achando que a pandemia iria dar uma breve folga – ao menos até o inverno. Esse pico terrível a qual estamos vivendo em março não achei que seria tão grande em pleno verão. Hoje já dá para imaginar que o inverno pode vir a ser até pior. E o lockdown segue ameaçando nos trancar em casa novamente, sabe-se lá por quanto tempo, e desta vez muito mais desassistido do governo.

Sendo assim, penso que a cada dia em que podemos continuar saindo, para trabalhar, a qual posso levar meu filho na escola, é um cenário melhor do que ainda pode vir a piorar. Muita gente fala em tudo bem perder “perder um ou dois anos” e isso me coloca em dúvidas. Falar isso colocando na balança perder a vida, sua ou de um ente ou amigo, faz total sentido. Mas também me soa muito radical. E além disso existem outros problemas em nosso país, de nível social, a qual não dá para fechar os olhos. E nem quero continuar esse discurso para não soar negacionista, pois não é este o caso. De novo, preto ou branco? Não dá para dividir tudo em dois lados. O ponto é que parar a minha vida e perder meu 36º e/ou 37º ano de vida é aceitável. Posso parar todos meus planos, minhas vontades, minha rotina por dois anos. Mas impedir crianças, de 3 a 10 anos, de terem experiências importantes a estas idades, não é a mesma coisa que meu sacrifício de 2 anos adultos. O desenvolvimento delas nesse momento único de suas vidas é importantíssimo. Portanto, é importante fazer o possível para que estes anos não sejam completamente perdidos. Não serão plenos e normais, mas perdidos não podem ser.

Já me mato de trabalhar, assim como minha esposa, afim de que o Thales possa estudar em uma escolar particular. Um luxo que nem todos os brasileiros possuem, é verdade. E é até triste qualificar isso como “um luxo”, não? As escolas deveriam ser mais acessíveis, mais baratas, mais receptivas com famílias de menor renda. Mas isso é conversa para outro dia. O fato é que meu filho está em uma escola particular, e isso me dá uma maior segurança para mandá-lo para lá. As escolas privadas foram as que primeiro se preparam para que as crianças pudessem retornar, com o máximo de segurança possível. Ainda que jamais conseguirá ser 100%, nem a gente, dentro de casa consegue, já que saímos para trabalhar, ir ao supermercado etc. E ele vai, pois em nossa família não há crianças de sua idade. Seus amigos estão na escola, sua vivência com crianças parte desse vínculo escolar. O socioemocional dele depois de meses em casa ano passado deu sinais claros para gente que ele precisava voltar à escola, que precisava ter contato com outras crianças para aliviar esse fardo do isolamento. Fardo este que nós adultos mal conseguimos lidar as vezes. É injusto pedir a uma criança de 8 anos que faça o mesmo, especialmente se há meios (relativamente seguros) de ajudarmos ela a amenizar tal angústia.

Segue o fio. Nesse meio tempo, segui pontuando erros dentro da gestão da escolar, que desde a pandemia está com suas decisões administrativas em frangalhos. Posso falar em morosidade de novo? Reuniões com pais que foram realizadas com atrasos, pedidos de ajuda com as crianças sendo que as escola não nos deu meios de ajudar nestes pedidos, falta de diálogo com os pais, aulas que antes eram gravadas e agora não mais, novas professoras que não possuem a mesma gentileza da (já fantasticamente elogiada) professora do ano passado, cobranças de tarefas para as crianças de atividades que muitas vezes não dependem delas (mas de nós, pais atarefados, angustiados, paranoicos com a pandemia) e até chegar ao fatídico escalonamento. Estamos na fase emergencial e as escolas só podem receber 35% dos alunos matriculados. Concordo com isso? Absolutamente.

Com a entrada de março e da fase emergencial (roxa) no Estado de São Paulo, o pequeno Thales entrou para o escalonamento, voltou a ter aulas online – a qual hoje ele já tem menos paciência do que ano passado e já percebi que isso está trazendo problemas de aprendizado, a qual irei novamente ter que lidar com ele – e intercalar os dias em que vai para a escola. Ao menos está indo, ótimo. Então a escola fez uma pesquisa, novamente sem um diálogo com os pais, e apenas perguntou secamente em um formulário no app online da escola: “durante a fase emergencial, seu filho virá para escola? Sim ou não?“. Sim! (ele precisa da escola e enquanto ela estiver aberta, ele estará indo).

Antes que você se pergunte se eu havia reforçado para a escola a importância do porquê o Thales estar na escola, sim fiz isso. Ano passado e novamente este ano, quando tive que exigir uma reunião na primeira semana de aula, a qual a escola estava bem relutante em marcar (mo-ro-si-da-de).

Indo adiante. A sala fechou com 9 crianças que fariam o presencial, e o limite de 35% era para 7. Chegamos ao escalonamento. Thales ficou em um grupo com mais 3 crianças, enquanto o outro ficou com 5. Tudo bem na teoria. Na prática foi um desastre. Logo então percebemos que nos dias em que o Thales estava indo, nem todas as crianças estavam indo, ficando apenas no comparecendo da aula online. Até o dia em que na escala dele, somente ele foi para a escola. Ficando sozinho lá com a professora (e todas as crianças online). E a escola não nos avisou disso. Nesse dia a fervura começa a borbulhar. Liguei na escola, indignado, alertando desse absurdo.

Então a coordenadora, que supostamente estava hibernando quanto a essa questão, resolveu consultar os pais das crianças que não estavam indo a escola. Das outras três, uma mãe havia desistido de mandar a criança. Tudo bem, de novo, respeito a decisão, cada um cuida do seu – ainda que poderia ter avisado a escola sobre isso. O grupo do Thales agora só teria ele e mais dois. Desde então, acho que se houve um dia em que todos (os três) do grupo foram na escola, foi muito. As próximas semanas foram sempre o Thales e uma ou outra criança. Bem, duas é melhor do que ficar sozinho. Não é o ideal, afinal o escalonamento acabou sendo uma turma de 3 e uma turma de 5, mas (respira fundo) vamos deixar rolar. A escola havia dado a entender que após duas semanas, iria refazer os grupos novamente, afim de que todas as crianças pudessem interagir com as que estão no presencial. Isso deveria acontecer sexta passada… e não aconteceu. Se manteve tudo igual e segue a dança.

Diante dos fatos, tentei a diplomacia. Liguei na escola sexta, quando vi que não mexeriam no escalonamento. Pedi que revisassem isso. Afinal: 3 x 5. Nada justo. E meu pequeno no grupo dos pais que não mandam seus filhos de forma regular (o outro grupo estava bem mais estável no que diz respeito as presenças). A coordenadora disse que não poderia fazer isso, alegando que não queria prejudicar o outro grupo, as outras crianças (o que dá a entender: melhor pra mim só seu filho se foder, pra que envolver os outros pais?). Novamente respirei fundo e não quis discutir. Estou tentando não odiar a pessoa, juro que estou. Pensei, ao menos depois da bronca dele ficar sozinho pelo menos um amiguinho tem indo no dia dele. Ao menos isso. Chegamos então a segunda-feira desta semana.

Nesta semana o Thales teria que ir a escola somente dois dias: terça e quinta-feira. Na segunda-feira, à noite, em um horário em que a escola está fechada, sem atendimento telefônico e sem qualquer outro telefone de emergência a qual pudesse ligar recebo uma mensagem no aplicativo da escola avisando que essa semana ninguém dos dois coleguinhas de classe do grupo do Thales iriam a escola. Ou seja, ele ficaria sozinho. Qual a brilhante solução da escola? Mande-o no dia do outro grupo. Parece genial, não? Mas vem cá, e no dia do grupo do Thales? Ninguém vai na escola? Quanta comodidade, não? Será que não tem pais, que assim como eu, que desejam que os filhos passem a maior quantidade possível de dias com as crianças no presencial? Bem, foi exatamente isso o que fui descobrir.

Lá vou, com o auxílio da minha esposa, conversar com as mães do grupo contrário ao do Thales. Explicando que no dia dele, nesta semana especificamente, somente ele estaria indo. Será que não poderiam mandar o coleguinha nesse dia também para que assim ele não ficasse sozinho na escola? As mães aceitaram, e até questionaram então do porquê haver escalonamento esta semana. Pois é, eu também estava me perguntando isso. Mas lembre-se: recebi a mensagem da escola à noite, um dia antes da aula, horário com tudo fechado e sem atendimento, claramente feito para ninguém questionasse sobre a imbecilidade de um escalonamento em que há dois dias nesta semana em que nenhum aluno estará indo fosse feito.

Enfim, avançando essa longa história. Terça Thales fez aula com o grupo que pedi aos pais se poderiam levar, afinal não haveria mais ninguém na classe além deles. E até na matemática eu me preocupei. Thales, mais 3 amigos, igual a 4. Certo, há ainda mais 3 vagas na cota de 7. Caso os dois faltões resolvessem ir, a escola ainda não estaria descumprindo as regras da fase emergencial. E na quarta (ontem)? Mandei o Thales também, afinal 5 + 1 ainda não é 7, sendo que também já havia conversado com uma outra mãe desse grupo e ela me avisou que esta semana não mandaria seu filho. Então na quarta, Thales e mais 3 crianças fizeram a aula presencial (coincidentemente, as mesmas que foram na terça), uma outra coleguinha, a qual não consegui contato, acabou faltando nesse grupo. Tudo certo então. Maravilha.

A explosão

Então chegamos ao ponto em que eu explodi. Quarta após pegar o Thales na escola, durante o almoço, recebo uma ligação da coordenadora. A ligação não começa perguntando o que aconteceu, a ligação começa de forma acusatória. “Fiquei sabendo que aconteceu isso e assado e você fez isso“. Bom, primeiro que a versão que ela me acusou estava errada. Ela alegou que eu postei esse cenário que pintei no grupo de pais da classe, o que eu não fiz. O contato foi feito diretamente com as mães a qual minha esposa tem contato. Errou em ligar acusando sem saber direito como aconteceu.

Já sem travas na língua, afinal não era a primeira vez que discutia com a coordenação da escola, diante de tantas decisões morosas e insatisfatórias, pintei novamente o cenário para ela. Expliquei como fiz e o porquê fiz. Da falta de sensatez em manter escalonamento em uma semana em que não havia nem 7 crianças indo. Expliquei da safadeza da escola em mandar uma mensagem à noite, sem me dar o direito de resposta – este é um caso em que a escola deveria ligar e conversar diretamente, nada de mensagem unilateral. Falei dos erros e fiz o que já havia alertado que faria se a escola continuasse com tal palhaçada. Disse que não concordaria com nada do que ela me falasse defendendo o escalonamento do jeito em que se encontra. E que se a dona (a diretora) da escola quisesse falar comigo, bastaria me dizer o horário que na mesma hora estaria na porta da escola para me posicionar.

E até aí não consideraria a tal explosão. Sabe o momento em que explodi? Quando pedi desculpas pelo que ia dizer, mas que por bem ou mal, eu havia feito o serviço desta coordenadora quanto ao que aconteceu esta semana com o escalonamento. Que ela deveria ter feito esse contato com os pais. Ela deveria ter pedido para mandarem as crianças no dia do Thales. Que ela deveria ter decidido acabar com o escalonamento esta semana, dada a ausência das crianças. Imagino que ela bufou e foi aí que ela também perdeu o tom comigo. E aí veio uma frase, a qual, senhores, vocês nunca devem dizer a uma pessoa a menos que tenha a total certeza do que quer dizer com isso: “se não tá bom, a porta é serventia da casa“.

Não foi esta célebre frase que ela me disse, foi mais como se a escola não estivesse do meu agrado, que eu me sentisse à vontade para procurar outra. Foda, não? Penso que quando você diz esse frase para um cliente, você só pode ter a intenção de realmente dizer duas coisas:

  1. Não quero mais você como cliente. Vá procurar outro lugar para encher o saco.
  2. Cliente ou não, cale a boca e aceite que as coisas serão do meu jeito e pronto.

Não existe outra interpretação para quando uma pessoa manda essa frase. Não há como interpretar de outra maneira. Aí você pode imaginar o restante dessa ligação. O timbre das vozes foram levantadas de ambas as partes, eu reforcei muito bem o que ela acabara de dizer, ressaltei que nos outros anos em que outra coordenadora (aquela que elogiei lá no começo) esteve no lugar dela eu tenho certeza de que jamais teria ouvido ela dizer isso a um pai da escola. Reforcei o fato de estar com o Thales na escola há 4 anos, de nunca ter atrasado uma mensalidade sequer e etc. Disse que não falaria mais com ela e que o Thales iria na escola hoje (quinta), que ia falar com os pais de novo, e que se a dona do escola quisesse falar comigo, estaria a disposição o dia todo. E a ligação se encerrou nesse clima terrível.

Ela conseguiu me deixar no ponto do Chega!, aquela música do Gabriel, o Pensador que também acho fenomenal. A letra diz muito sob ponto de fervura. Até quando a gente aguenta sem dizer nada. Aceitando as coisas como são. Adoro certo momento da letra, e vou colar aqui porque… né, o texto já ficou gigante mesmo.

Presidente, deputados
Senadores, prefeitos
Governadores, secretários
Vereadores, juízes

Procuradores, promotores
Delegados, inspetores, diretores
Um recado pra senhoras e os senhores

Eu pago por tudo isso
Imposto sobre serviço
A taxa sobre produto
Eu pago no meu tributo

Pago pra andar na rua
Pago pra entrar em casa
Pago pra não entrar no SPC e no SERASA

Pago estacionamento
Taxa de licenciamento
Taxa de funcionamento
Liberação e alvará

Passagem, bagagem
A pesagem, postagem
Imposto sobre importação e exportação

IPTU E IPVA
O IR, o FGTS, o INSS
O IOF, o IPI, o PIS, o COFINS e o PASEP

A construção do estádio
O operário e o cimento
Eu pago o caveirão
A gasolina e o armamento

A comida do presídio
O colchão incendiado
Eu pago o subsídio absurdo dos deputados

A esmola dos professores
A escola sucateada
O pão de cada merenda
Eu pago o chão da estrada

A compra de cada poste
Eu pago a urna eletrônica
E cada árvore morta
Na nossa Selva Amazônica

Eu pago a conta do SUS
E cada medicamento
A maca que leva os mortos
Na falta de atendimento

Paguei ontem
Pago hoje
E amanhã vou pagar

Me respeita!
Eu sou o dono desse lugar
Chega!

Dando continuidade, e já estou perto do fim… prometo. Então o dia de ontem seguiu assim por aqui. A ligação da diretora da escola não aconteceu. Não houve mais contato. A noite fiz o que disse que faria: pedi a minha esposa que falasse com as mães novamente, perguntando se amanhã mandariam as crianças. E elas confirmaram. Ufa.

O outro pormenor é que a diretora não nos ligou, mas parece ter ligado para, pelo menos, uma das outras mães (que nos relatou). De toda forma, ela autorizou as crianças irem. Da minha parte não interessa muito os motivos dela não ter me ligado, afinal o que eu queria ocorreu: que o meu pequeno não ficasse sozinho na escola em um turno de escalonamento em que poderia haver outros estudantes. Deu certo, mesmo que tenha ocorrido um desgaste mental gigantesco, e certamente ainda me pintaram como vilão (mal educado) de todo o caso. Paciência, nunca me importei com o que as pessoas pensam de mim, e não vai ser agora que vou passar a me importar.

No momento em que estou escrevendo este texto, ainda estou refletindo se devo eventualmente sentar com a diretora ou não, afim de colocar os pontos nos is, dizer tudo que há que se dito (e há muita coisa). Mas não preciso fazer isso agora. Estamos em uma pandemia, todo mundo está com os ânimos inflamados (sei que eu estou) e ela já é idosa, então é grupo de risco. Haverá o momento para isso. E o Thales ficará na escola depois de ouvir a infame frase da coordenadora? Este ano sim… há um contrato, existe um vínculo jurídico a qual ambas as partes devem cumprir. Ou seja: vão ter que me engolir até o final desse contrato, azar deles. Ano que vem? Ainda é muito cedo para pensar nisso… quanto a coordenadora, essa sim perdeu minha total confiança. Vai continuar ouvindo minhas reclamações, mas não tem mais credibilidade nenhuma comigo. Fim (por enquanto, afinal mês que vem tem outro escalonamento).

De volta ao início

Quis contar essa história aqui (perdão por não ter conseguido resumir mais) porque ela se misturou um pouco com as duas indicações lá do começo do texto, do Ivan e do Gabriel, a qual acabei encontrado-as na noite desta quarta, a qual ainda estava com a ódio ligado ao máximo e tentando ver como faria para me acalmar.

O Ivan reflete no seu texto sobre indignação, sobre a lentidão de um governo que poderia ter agido melhor lá no passado, e como isso teria evitado mortes. Estamos de novo falando sobre um sistema moroso, mas aqui não só moroso, mas negacionista, burocrático e que até em certo ponto falho em observar o óbvio (o que eu também chamo de ser imbecil, mas aí só estou sendo mal educado, perdão). A Brasil precisa se indignar, precisa pensar que enquanto muitos aceitam, são complacentes e até defensores de tal gestão governamental, vai ser sempre assim. Uma progressão as custas do sangue de sua população. Isso é tão triste.

Mas do outro lado estão as palavras do Gabriel, sobre a cultura do ódio e do cancelamento. De você ficar feliz com o ódio alheio, com brigas e com o cancelamento de pessoas (por mais que algumas mereçam ou não). Deixamos de crescer como nação quando apenas alimentamos o puro ódio, sem razão, sem motivo ou pior… sem resultados. O que estamos ganhando com essa cultura? Sabedoria é que não. Percebe que tem uma diferença entre indignação e ódio então? Estar indignado, talvez não seja estar com ódio.

Ontem eu tive ódio, resultado de um instante explosivo de indignação. Diante de alertas e avisos feitos, e que a contraparte preferiu apenas ignorar, não dar importância. Meu ódio passou, deixando um pouco de desapontamento, decepção com uma instituição a qual eu dava mais valor.

Me peguei pensando, imaginando, e se o presidente viesse a público e dissesse: “se não estão felizes com a forma como estou governando esse país, que procurem outro“. Okey, ele não diria isso… apesar que o atual presidente jamais deveria ter dito muitas coisas que ele disse ao longo do último ano, e isso indiretamente custou vida de pessoas… então talvez ele ainda venha a dizer isso. No Brasil de hoje tudo pode acontecer.

Então vou encerrar esta (enorme) reflexão sem exatamente uma finalização. Ainda refletindo sobre nossa cultura do ódio, sobre ter ódio, mas também sobre aprender com os erros, prestar atenção ao passado e seguir mostrando indignação quanto àqueles que tornam decisões que impactam nossas vidas com morosidade, sobre sempre que possível não ser mais complacente com isso, na medida em que eu estiver em uma posição de justamente poder me posicionar.

A fervura baixou, mas ainda sinto o calor das bolhas… do jeito que está o Brasil, talvez seja esse o ponto em que todos possamos estar. O que mais será preciso para o país explodir? Quando será que receberemos a ligação da coordenadora nos condenando por querer fazer o que é claramente certo? E o humor fica como? Bem…

Tirinha do genial @samueldegois
—  Arte que abre a postagem de darekzabrocki

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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