Análise | Marathon
Disponível para PC, PlayStation 5 e Xbox Series S|X

Marathon não é um jogo fácil. Isso pode ser interpretado de inúmeras maneiras. O novo jogo da Bungie chega depois de alguns adiamentos em nosso computadores e consoles, e é um jogo de tiro cooperativo com ênfase na modalidade de extração, onde durante a partida o jogador deve conseguir recursos, e caso consiga uma extração com sucesso, ele mantêm esses recursos. Caso contrário, tudo estará perdido e só resta ao jogador aceitar a derrota e tentar novamente voltar pra casa de mochila cheia. Mas até chegar a esse ponto há muitos desafios, e nem são só aqueles que querem te eliminar nas partidas.
Então se prepare para momentos tensos e raivosos, frustrantes, os olhos cansados pelas telas extravagantes dos anos 90 pipocando na sua tela, inimigos que vão pegar no seu pé e companheiros de equipe que você vai querer matar.
Mas e Marathon, está perdido?
Em 2014, a Bungie chocou o mundo. A softhouse era conhecida e respeitada por desenvolver na Microsoft a lendária série de jogos Halo. Mas naquele ano, a Bungie surpreendia jogadores em todo mundo, que descobriam seu ambicioso jogo de tiro em primeira pessoa com temática que misturava ficção científica com magia e fantasia, com toques de um “rpg online massivo multijogadores”.

Parece complicado, mas a Bungie conseguiu fazer dessa mistureba toda um jogo aclamado por milhões, que assim como eu, vivem aventuras nele há mais de uma década. Para ser mais exato, no momento em que escrevo isso, estive no jogo por 138 dias e 49 minutos em tempo real.
O destino não deve se repetir com Marathon.
O game está sendo até que bem recebido, possui uma avaliação de média para bom na maioria dos reviews, está no TOP 50 dos mais jogados na Steam agora. Mas tenho a impressão de que isso não vai ser o suficiente.
A Bungie nos últimos anos tem enfrentado duras críticas quanto a condução da vida útil de seu maior jogo, Destiny 2. Muitos jogadores perderem o interesse em acompanhar as novidades do jogo, em especial depois da expansão A Forma Final. Mesmo a compra do estúdio pela Sony não foi tão boa quanto se esperava. A Sony planejava muitos jogos live services a serem lançados nesse exato momento, e a Bungie era a menina dos olhos para ajudar nisso, mas a Sony apreendeu da pior forma que esse segmento é muito difícil e tudo foi cancelado.
Polêmicas, demissões, pressão, tudo de ruim acontece com a Bungie desde então. Se já estava difícil cuidando apenas de Destiny 2, imagine tendo de lidar com o desenvolvimento e lançamento de outro live service…

Destiny 2 foi chutado para escanteio, e a comunidade deu o seu recado, a quantidade de guardiões na Torre nunca foi tão baixa em sua história. Repetindo: se já é muito difícil cuidar de um jogo live service, imagine então cuidar de dois e com ainda menos recursos…
Maratonar ou não?
Se você como eu, não foi picado pelo bichinho dos jogos de extração, jogar Marathon não é tão atraente. Todo o conteúdo do jogo parece estar escondido, principalmente detalhes de sua história.
O primeiro Destiny tinha um problema que era o Grimório, onde muito da lore do jogo era escondida nas cartinhas que só eram acessíveis no site ou aplicativo de Destiny. Isso era tão ruim que a ideia foi abandonada em Destiny 2. Em Marathon, ocorre algo similar. Ainda que dentro do próprio jogo, é frustrante que tanta coisa esteja escondida em tantas caixas de texto escondidas. Ao menos em Destiny a gente tinha a história sendo contada em muitas cenas, pelos personagens e lugares.
Aqui, mesmo depois de muitas partidas, eu me sentia como se fosse a primeira vez, mas não de um jeito bom. Você tem que se esforçar em lidar com menus e submenus para compreender o que diabos está acontecendo, e mesmo as cenas de histórias que surgem ocasionalmente, estão mais preocupadas em serem esteticamente impactantes do que informativas.
O que resta, como jogador, é apenas jogar sem se importar muito com o mundo ou com o que está fazendo nele. Vai ser menos frustrante e aí sim a brincadeira pode começar a ficar divertida.
Marathon é uma maratona em busca de coisas.
Quando você começa uma partida, é necessário percorrer o cenário em busca de itens. A ideia aqui é reunir itens legais, e então, quando você consegue escapar do lugar, os itens vão com você. Caso contrário, você perde tudo. Não é o tipo de coisa que me agrada. Lá no The Division (Ubisoft) tinha algo similar, a Zona Escura, mas era uma área do mapa isolada, então dava para jogar sem nunca ter que entrar naquele lugar.
Jogar o novo Marathon em 2026 é, acima de tudo, um exercício de nervos de aço e deslumbramento visual (nem sempre no bom sentido). Esqueça aquela sensação de poder absoluto que temos em outros jogos da Bungie; aqui, a experiência é muito mais sobre a tensão de ser um sobrevivente do que a glória de ser um herói.

Assim que você aterrissa em Tau Ceti IV, a primeira coisa que salta aos olhos é a estética “neon-minimalista” que parece ter saído de um sonho febril dos anos 90, com cores vibrantes e contrastes pesados que dão ao jogo uma identidade única, mas que também servem para esconder perigos em cada sombra colorida, além de deixar seu olho saturado de cores berrantes.
O ritmo das partidas é fascinante porque ele oscila entre o silêncio absoluto e o caos total. Você passa boa parte do tempo esgueirando-se por instalações abandonadas, ouvindo cada estalo no fone de ouvido, tentando coletar tecnologias raras para as facções. É uma tensão que quando funciona é legal, ao mesmo tempo que depende de muita coisa para funcionar certinho.

A grande sacada é que a morte aqui realmente dói: se você não conseguir chegar ao ponto de extração a tempo ou se for interceptado por outro esquadrão, todo aquele equipamento suado fica para trás. Isso cria uma adrenalina genuína, onde decidir entre lutar por um item extra ou fugir para garantir o que já está na mochila é a escolha mais difícil que você fará a cada cinco minutos.
A movimentação e o combate são fluidos e pesados na medida certa, e o sistema de “Armações” (aqueles corpos cibernéticos que trocamos no maldito menu de loadout) permite que você mude de estilo de jogo sem precisar criar um personagem do zero. Escolha o Corredor com as habilidades que mais lhe agrade e pronto.
É um jogo que te desafia constantemente, sendo às vezes bem punitivo, especialmente se você decidir desbravar os mapas sozinho — o que transforma o título quase em um jogo de terror espacial. Mas, apesar da dificuldade, a sensação de sucesso ao escapar de uma zona de extração com um loot raro é bem gratificante.
Lutar e morrer, e repetir.
Para sobreviver às primeiras incursões em Marathon, a regra de ouro é desapegar do seu equipamento; entenda que tudo o que você carrega é temporário e o verdadeiro progresso está nas melhorias permanentes que você desbloqueia com as facções.

No começo, resista à tentação de levar suas melhores armas e foque em entrar com kits básicos e baratos, o que diminui drasticamente o peso psicológico da derrota e permite que você aprenda os mapas com menos risco.
A consciência situacional é sua maior arma, então trate o som como o seu radar principal: corra apenas quando estritamente necessário, pois o barulho de passos em Tau Ceti IV entrega sua posição a quilômetros de distância. Muitas vezes, a melhor estratégia é simplesmente parar por alguns segundos e ouvir o ambiente, identificando outros Corredores antes que eles vejam você.
Além disso, o gerenciamento de oxigênio impõe um ritmo constante de urgência, então nunca se perca na ganância de saquear cada canto de uma sala; planeje sua rota com antecedência e saiba sempre onde fica a estação de recarga mais próxima.
Na hora de sair, lembre-se de que os pontos de extração são as zonas mais perigosas do mapa, frequentemente vigiadas por jogadores à espreita, então chegue cedo e com um plano de fuga alternativo caso o local esteja movimentado demais.
Em vez de focar apenas em eliminar outros jogadores, direcione sua energia inicial para completar os contratos da Mida ou da Traxus (duas das facções do jogo para as quais você cumpre os contratos), pois é esse relacionamento com as facções que garantirá bônus de inventário e equipamentos iniciais melhores, tornando suas futuras vidas muito mais fáceis e produtivas.
Então, vale a pena correr nessa maratona ou não?
Decidir dar uma chance a Marathon é um decisão muito bem pensada para quem não gosta do gênero de extração. Para quem já gosta, jogos como Arc Raiders e Rust estão muito bem vivos e com bastante apelo. É um nicho que vem crescendo, sem dúvida, basta ver a atenção que Arc Raiders conseguiu desde seu lançamento.
Acho improvável, no entanto, que um jogador migre desses jogos para Marathon de forma definitiva. Não há uma reinvenção do gênero ou tantas novidades assim para chamar a atenção. E para os novatos, o gênero não é fácil de conquistar nas primeiras partidas.

Marathon possui um visual extravagante, menus em excesso e confusos, pode ser frustrante nas primeiras tentativas e o preço cheio também não ajuda. E claro, muitas das coisas mais legais estão trancadas pelas micro transações.
Mas aqueles que persistirem, há uma chance de gostar se aceitarem essas partes problemáticas, pois o gameplay é sólido e tem o DNA da empresa que fez Halo e Destiny os grandes jogos que são. Marathon é sim, um bom jogo, mas com muitas amarras a se considerar que não o deixam brilhar.
Se o jogo conseguir se manter, e atrair novos jogares, há uma chance dele ter um cantinho ali entre os jogos de extração. Mas duvido que se torne aquilo que Bungie e Sony queriam que ele fosse. Por agora, pegue sua mochila e me acompanhe…
Galeria
Dando nota
Toda a interface de usuário esquisita - 5
Nada da música gruda nos ouvidos - 4
Gunplay estilo Bungie - 10
A I.A. dos inimigos é muito boa - 10
Visual extravagente mas que cansa os olhos - 8.5
Tenso como todo jogo de extração - 8.5
7.7
Bom só se insistir
Marathon não reinventa ou agrega muita coisa aos jogos de extração, mas pode ser uma alternativa diferente se sobreviver a si próprio.

