Análise | Yoshi and the Mysterious Book

Disponível para Nintendo Switch 2

Yoshi and the Mysterious Book é a mais nova aventura do dinossauro mais carismático do Reino dos Cogumelos. Desta vez, o personagem assume o papel de um explorador-biólogo-literário, viajando pelas páginas de uma misteriosa enciclopédia repleta de segredos e criaturas fantásticas.

Lançado no final de maio como exclusivo do Nintendo Switch 2, o título foi desenvolvido pela Good-Feel, estúdio que já trabalhou com o universo do personagem em Yoshi’s Crafted World (2019) e que também assinou Princess Peach: Showtime! (2024), ambos originalmente lançados para Nintendo Switch e compatíveis com o novo console.

Kirby e Yoshi são personagens que frequentemente recebem projetos com direções artísticas bastante particulares. Seja através de lã, papelão, massinha ou dobraduras, seus jogos costumam buscar identidades visuais próprias. Yoshi and the Mysterious Book mantém essa tradição com uma estética que mistura rabiscos, giz de cera, texturas pastéis e animações inspiradas em stop-motion, criando a sensação de estar folheando um livro infantil vivo e interativo.

O jogo funciona como uma aventura independente, sem exigir familiaridade com títulos anteriores do personagem. Também chega ao Brasil com localização completa em português. Não há dublagem propriamente dita, já que os personagens continuam se comunicando através dos tradicionais grunhidos característicos do universo Super Mario.

Ainda assim, merece destaque o excelente trabalho de localização aplicado à nomenclatura das criaturas descobertas ao longo da aventura. Como parte da experiência envolve catalogar novas espécies, embora o jogador possa renomeá-las se desejar, a adaptação para o português demonstra criatividade admirável. Alguns exemplos oficiais incluem Abelhuva, Saltibolha, Morrusguento, Sabicá, Douloriço e Peixiga. Maravilhoso!

Ficha Técnica

  • Plataformas: Nintendo Switch 2
  • Desenvolvedor: Good-Fell
  • Publisher: Nintendo
  • Gênero: Aventura
  • Lançamento: 21 de maio de 2026

Fantástica páginas / Mundo e Narrativa

Yoshi and the Mysterious Book se passa inteiramente dentro de uma enciclopédia mágica composta por diferentes habitats e criaturas. Cada capítulo corresponde a um ambiente distinto a ser explorado. Sua narrativa não busca ser grandiosa ou cinematográfica; serve apenas para estabelecer o ritmo e o contexto da aventura.

Tudo começa quando Bowser Jr., em busca de uma criatura específica, encontra uma misteriosa enciclopédia. Durante sua viagem até o local indicado pelo livro, o pequeno vilão acaba sendo sugado para dentro dele enquanto sobrevoa a Ilha dos Yoshis. E com isso, a aventura está armada.

Ao encontrarem o artefato, os Yoshis descobrem que o próprio livro é uma criatura mágica. Sem parte de suas informações originais, ele pede ajuda para restaurar seu conhecimento catalogando novamente todos os seres que habitam suas páginas.

É a partir dessa premissa que o jogo constrói toda a sua estrutura. Cada criatura funciona como o foco de uma fase, enquanto cada ambiente representa um capítulo da enciclopédia. A surpresa está no fato de que a aventura abandona quase completamente a fórmula tradicional de avançar do ponto A ao ponto B. O objetivo aqui é explorar, investigar e descobrir.

Mundo e narrativa são construídos através dessa mistura de jogabilidade de experimentação, com pequenos soluços da história. O livro apresenta regiões e as criaturas em seus ecossistemas, enquanto o jogador descobre seres fantásticos e como coabitam seus habitats. Paralelamente, Bowser Jr. segue preso no livro, causando todos os tipos de problemas para os seres a serem catalogados.

Investigação Experimental / Jogabilidade

Em um jogo de plataforma 2D tradicional, a regra costuma ser simples: sair do ponto de partida e chegar ao destino final. Coletar itens, derrotar inimigos e superar obstáculos fazem parte dessa jornada. Yoshi and the Mysterious Book se rebela de forma interessante contra essa estrutura.

A proposta aqui não é simplesmente avançar por uma fase, mas investigar a criatura que dá identidade a cada estágio. O objetivo é realizar descobertas, observar comportamentos e entender como cada ser interage com o ambiente ao seu redor. É justamente dessa relação entre ação e reação que nasce toda a experiência.

Claro, cada fase possui metas e objetivos que conduzem a progressão, mas a estrutura raramente se resume a caminhar da esquerda para a direita. Em determinados momentos será preciso localizar criaturas específicas, proteger elementos do cenário, alterar o ambiente ou realizar pequenas proezas acrobáticas. A sensação constante é a de experimentação, um tipo incomum de flexibilidade estrutural.

Um dos aspectos mais interessantes dessa proposta está na forma como o jogo registra descobertas. Diversas interações encontradas se transformam em anotações visuais direto na tela das fases, funcionando como observações em tempo real catalogadas pelo jogador. Posteriormente, também são registradas nas páginas da enciclopédia.

Muitas dessas descobertas surgem de ações simples: verificar se determinada criatura pode ser engolida pela língua do Yoshi, descobrir o que acontece ao pular sobre ela ou carregá-la nas costas. Aliás, transportar criaturas faz parte do núcleo da experiência, já que muitas delas reagem de formas únicas ao ambiente.

Uma Azeleleia, por exemplo, faz florescer brotos espalhados pelo cenário, criando novas plataformas. Outras criaturas despertam seres adormecidos através de instrumentos musicais, enquanto algumas alteram o próprio terreno, abrem caminhos ou criam novas possibilidades de interação. O jogo inteiro é construído sobre a ideia de que cada ser possui uma função dentro de seu ecossistema.

Ao realizar a principal descoberta de um estágio, um portal é aberto e Yoshi retorna para fora do livro. A partir daí é possível escolher novas criaturas para investigar ou gastar moedas revelando pistas de descobertas ocultas que não foram encontradas na primeira visitação da fase.

E os estágios raramente permanecem iguais. Conforme novas criaturas são catalogadas, fases previamente visitadas podem sofrer alterações, introduzindo novos habitantes, eventos e possibilidades de exploração. O resultado é uma estrutura que incentiva revisitas constantes e amplia significativamente seu fator de replay.

Apesar de ser um jogo 2D, seus ambientes não seguem a lógica tradicional dos plataformas do gênero. Os cenários permitem exploração em múltiplas direções, incluindo áreas verticais, regiões superiores e inferiores, caminhos alternativos e passagens secretas. Funcionam quase como pequenos ecossistemas abertos, onde uma descoberta pode transformar completamente a dinâmica do espaço ao redor.

Essa é a grande força da aventura: criar sistemas de ação e reação entre criaturas e ambientes, recompensando constantemente a curiosidade do jogador.

Outros aspectos que merecem menção:

  • Yoshi pode se machucar, mas nunca é eliminado de uma fase. Diferente de Mario, o erro raramente representa fracasso. Pode parecer bobo, mas é um elemento chave para dar segurança ao jogador de que pular, encarar uma armadilha ou inimigo, faz parte da descoberta; e não do fracasso em relação ao estágio.
  • Todos os movimentos clássicos do personagem estão presentes: língua para engolir criaturas, produção de ovos, arremessos e a tradicional capacidade de planar por alguns segundos. A única novidade relevante é a possibilidade de carregar criaturas e objetos nas costas.
  • Não existem power-ups tradicionais. Em vez disso, frutas provocam diferentes reações na fauna do jogo. Melancias fazem Yoshi atirar sementes, mas a maior parte delas existem para as demais criaturas. Pimenta podem fazer animais ficarem agressivos ou atômicos, querendo água. Outras podem fazê-los mudarem de cores ou até mesmo mudar a forma como expelem algo ou como cantam.
  • As clássicas flores sorridentes (smileys) dos jogos anteriores do personagem estão de volta. Escondidas pelos estágios, funcionando como colecionável dentro das investigações. Não é sobre como chegar até elas, mas o que fazer para que elas surjam no estágio.
  • Ao final de cada um dos 12 capítulos (mundos), uma criatura especial de grandes proporções surge acompanhada por Bowser Jr. e Kamek. Esses momentos funcionam como batalhas de chefe, embora sigam uma estrutura mais linear e menos próxima dos tradicionais castelos da série Mario.

O resultado é uma experiência single player bastante incomum. Na maior parte do tempo, existe prazer genuíno em observar, experimentar e vasculhar cada canto dos cenários. Ao mesmo tempo, essa mesma estrutura pode desacelerar o ritmo da aventura, já que frequentemente surge a sensação de que algo importante ficou para trás. Não raro, o jogador revisita áreas e repete ações apenas para confirmar que não deixou nenhuma descoberta escapar.

Também é um jogo que funciona melhor em sessões curtas. Seu encanto está na curiosidade constante, não no espetáculo contínuo. É o tipo de aventura que convida a ser apreciada aos poucos.

Altos e Baixos

— O que funciona bem:

  • Boa quebra de expectativas do modelo side-scrolling 2D.
  • Interagir, experimentar e descobrir permanecem agradáveis do início ao fim.
  • Estrutura de exploração aberta favorece a curiosidade do jogador.
  • Nomenclatura das criaturas para o português é criativa e memorável.
  • Direção de arte extraordinária, uma das maiores forças de imersão.

— O que poderia ser melhor:

  • Ritmo inconsistente devido à constante sensação de que algo foi deixado para trás.
  • Devido a sua estrutura, não existe de fato um grande desafio dentro do escopo da jogabilidade.

Considerações finais

Yoshi and the Mysterious Book é um jogo com identidade, com charme. Promove uma aventura fora do escopo tradicional, entrega ótimas ideias, mas não penso que pode substituir o modelo tradicional de jogos do gênero side-scrolling 2D.

Ainda assim, não acredito que sua proposta substitua o modelo tradicional dos plataformas 2D. Quando penso no que Super Mario Bros. Wonder realizou em 2023, continuo enxergando ali uma das melhores expressões desse formato. O novo título do Yoshi segue por outro caminho.

Em termos visuais, porém, a comparação não diminui sua conquista. A direção de arte é magnífica, combinando texturas, camadas e referências a diferentes formas de arte infantil para criar um mundo constantemente agradável de observar.

Embora esteja longe de ser um point-and-click, existem momentos em que a aventura flerta com essa filosofia. O jogador observa, experimenta e aguarda uma reação. Não há pressão constante, punições severas ou inimigos realmente ameaçadores. O mundo existe para ser explorado, e responde às ações realizadas dentro dele.

Mas o que realmente torna o jogo especial são suas criaturas e a forma como seus habitats foram construídos. É na criatividade das interações e na surpresa das descobertas que a aventura encontra sua maior força. São inúmeros momentos em que uma simples ação gera uma reação inesperada, despertando aquela satisfação genuína de quem acabou de encontrar algo que não imaginava existir.

E, de certa forma, isso conversa diretamente com a própria história da franquia. Jogos estrelados por Yoshi sempre abraçaram uma sensibilidade mais infantil do que os títulos tradicionais protagonizados por Mario. Lã, papelão, giz de cera, pinturas e materiais artesanais fazem parte dessa identidade há décadas.

Yoshi and the Mysterious Book mantém viva essa tradição tanto em sua estética quanto em sua filosofia de design. É, literalmente, uma aventura dentro de um livro interativo. O resultado é uma obra leve, acolhedora e divertida, capaz de estimular curiosidade e criatividade em seu público principal sem excluir jogadores mais experientes. Desde que estes estejam dispostos a abraçar premissas mais singelas, resultando assim em uma jornada bastante original esperando para ser descoberta.

Galeria

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Dando nota

História cumpre o papel de sustentar a jogabilidade, mas não tem muito protagonismo - 7.8
Mistura de rabiscos, giz de cera, texturas artesanais e animações stop-motion criam um mundo cheio de personalidade - 9.5
Coloca descoberta, experimentação e ecossistemas vivos no centro da jogabilidade - 9.2
Estrutura aberta e reativa dos estágios surpreende constantemente e dá imenso valor de replay - 9
Localização em português e adaptação dos nomes das criaturas ficou fenomenal - 9.5
Ritmo tem inconsitências pela proposta e sensação constante de ter deixado algo passar - 7.4
Experiência acolhedora, raramente cria situações de genuíno desafio - 7.2

8.5

Criativo

Yoshi and the Mysterious Book encontra força na criatividade. Em vez de seguir a fórmula tradicional dos jogos de plataforma 2D, a aventura transforma exploração, observação e descoberta em seus pilares centrais. O resultado é uma experiência charmosa, visualmente deslumbrante e repleta de momentos capazes de surpreender o jogador. Embora o ritmo mais lento e o baixo nível de desafio impeçam que todas as suas ideias atinjam o mesmo impacto, a qualidade das criaturas, ecossistemas e sistemas de interação fazem desta uma das propostas mais originais já estreladas pelo personagem. Uma aventura acolhedora, inteligente e constantemente curiosa.

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