Análise | Assassin’s Creed Black Flag Resynced

Disponível para PC, Xbox Series X|S e PlayStation 5

Assassin’s Creed Black Flag Resynced está entre nós e com ele é hora de novamente içar as velas e partir para uma aventura cheia de nostalgia com boas doses de novidades e claro, muita pirataria!

Poucos jogos envelheceram tão bem quanto Assassin’s Creed IV: Black Flag. Mesmo lançado pela Ubisoft originalmente em 2013, o título permanece como um dos capítulos mais queridos da franquia, não apenas por sua história envolvente, mas principalmente pela maneira como conseguiu capturar a fantasia de viver como um pirata. Enquanto diversos Assassin’s Creed posteriores apostaram em mapas gigantescos, sistemas complexos de RPG e campanhas cada vez mais extensas, Black Flag sempre encontrou sua força em algo mais simples: personagens memoráveis, exploração constante e uma liberdade que poucos jogos conseguiram reproduzir.

Assassin’s Creed Black Flag Resynced parte exatamente desse entendimento. Em vez de reconstruir completamente a experiência ou transformá-la em outro jogo, o remake procura preservar tudo aquilo que fez do original um clássico, utilizando tecnologias atuais para modernizar sua apresentação e expandir seu conteúdo. O resultado é uma experiência que respeita profundamente o material de origem, ainda que algumas novidades apresentem níveis de qualidade bastante diferentes do restante da produção.

Infelizmente, não pude jogar o título em sua época de lançamento, mas consegui emprestar um PlayStation 3 de um amigo que tem o jogo, e reservei alguns dias para poder me ambientar bem com a versão original antes de mergulhar fundo nas águas resincronizadas de agora. Com o jogo ainda fresco na memória, ficou mais interessante de explorar as nuances da nova versão. Ainda bem que recebemos o jogo da Ubisoft com bastante antecedência, senão essa seria uma tarefa bem mais exaustiva e menos satisfatória.

Sem mudar muito a receita

A principal decisão do remake talvez seja justamente não alterar a essência da campanha. Edward Kenway continua sendo o centro absoluto da narrativa, e sua evolução permanece tão eficiente quanto há mais de uma década. Diferentemente de outros protagonistas da série, Edward inicia sua jornada completamente alheio ao conflito entre Assassinos e Templários. Seu objetivo inicial é apenas enriquecer e conquistar uma vida melhor. Essa motivação extremamente humana faz com que sua transformação ao longo da campanha continue sendo uma das mais convincentes de toda a franquia.

O roteiro preserva praticamente todos os acontecimentos marcantes do jogo original. Personagens como Barba Negra, Anne Bonny, Mary Read, Charles Vane e Stede Bonnet continuam exercendo papéis fundamentais na construção da história, enquanto os momentos mais emocionantes da campanha permanecem praticamente intactos. A diferença está na forma como essas cenas são apresentadas.

Graças ao novo sistema de captura de movimentos, diversas sequências ganham um peso dramático muito maior. Expressões faciais mais detalhadas, animações corporais naturais e uma direção cinematográfica mais refinada transformam diálogos conhecidos em cenas muito mais impactantes. Em diversos momentos, pequenas mudanças de olhar ou de postura conseguem transmitir emoções que antes dependiam exclusivamente das falas dos personagens.

Essa modernização visual se estende para praticamente todo o jogo. O Caribe recebe uma reconstrução impressionante, com iluminação dinâmica, vegetação muito mais densa, cidades repletas de detalhes e efeitos climáticos que tornam o oceano ainda mais vivo. Tempestades deixam de ser apenas um belo efeito visual e passam a transmitir verdadeira sensação de perigo, enquanto o ciclo de iluminação valoriza cenários que já eram considerados alguns dos mais bonitos da franquia.

Locais clássicos como Havana, Nassau e Kingston permanecem imediatamente reconhecíveis, mas agora apresentam uma riqueza de detalhes impossível de ser alcançada pelo hardware da geração do PlayStation 3 e Xbox 360. Ruas mais movimentadas, mercados cheios de vida, construções reformuladas e novas áreas exploráveis fazem com que até jogadores veteranos sintam prazer em revisitar cada região do mapa.

Apesar de manter a estrutura da campanha praticamente intacta, Assassin’s Creed Black Flag Resynced também realiza ajustes importantes em seu ritmo. Diversas missões de perseguição, frequentemente criticadas no lançamento original por interromperem o andamento da narrativa, foram reduzidas ou remodeladas. Com isso, os acontecimentos importantes passam a surgir de maneira mais constante, tornando a progressão muito mais fluida.

Algumas missões clássicas também recebem pequenas expansões que aumentam significativamente sua liberdade. Em certos assassinatos, por exemplo, Edward pode investigar melhor o ambiente, ouvir conversas entre soldados, libertar prisioneiros que posteriormente ajudarão durante o confronto e descobrir informações adicionais sobre seus alvos. Nenhuma dessas alterações muda o desfecho da missão, mas todas contribuem para tornar a experiência mais orgânica.

Nem todas as mudanças, entretanto, agradarão aos fãs antigos da série. A remoção completa da narrativa ambientada no presente talvez seja a decisão mais controversa de todo o remake. Ao eliminar os tradicionais segmentos envolvendo a Abstergo e o Animus, a campanha ganha ritmo e permanece totalmente focada em Edward, mas também perde parte importante da identidade construída pela franquia ao longo dos primeiros jogos.

Outra alteração significativa aparece nos corredores de memória após determinados assassinatos. Algumas discussões relacionadas aos Precursores, aos Sábios e à antiga mitologia da série são substituídas por conversas mais intimistas, centradas exclusivamente no desenvolvimento pessoal de Edward. Embora essa decisão fortaleça a narrativa do protagonista, ela reduz significativamente a importância do universo maior de Assassin’s Creed.

O sistema de combate também passa por uma modernização discreta. O modelo baseado em contra-ataques automáticos continua presente, preservando a fluidez que caracterizava o original Black Flag, mas agora exige maior atenção ao posicionamento e ao tempo das ações. O resultado não chega a transformar completamente a jogabilidade, porém consegue oferecer confrontos mais dinâmicos sem descaracterizar o estilo clássico da franquia.

Se existe um aspecto que continua praticamente impecável, esse aspecto é a navegação. Mais de uma década depois, o Jackdaw permanece como um dos veículos mais marcantes da história dos videogames. O processo de evoluir gradualmente o navio continua extremamente satisfatório, enquanto o combate naval demonstra uma impressionante resistência ao tempo.

Canhões laterais, morteiros, barris explosivos e armas giratórias continuam formando um sistema simples de compreender, mas extremamente profundo durante os confrontos mais difíceis. O posicionamento do navio, a direção do vento, a distância entre as embarcações e a administração dos recursos permanecem fundamentais para o sucesso das batalhas, especialmente durante os confrontos contra os lendários navios espalhados pelo Caribe.

Visualmente, essas batalhas ganham uma nova dimensão. Explosões maiores, destroços mais detalhados e efeitos atmosféricos muito superiores tornam cada confronto naval um verdadeiro espetáculo. As tempestades também passam a influenciar mais diretamente a navegação, criando momentos em que sobreviver às forças da natureza se torna tão desafiador quanto enfrentar uma esquadra inimiga.

A exploração terrestre também recebe diversas melhorias. O remake amplia atividades clássicas como os armazéns, adicionando pequenos diálogos, histórias secundárias e diferentes abordagens para cumprir os objetivos. Eventos locais espalhados pelas ilhas apresentam pequenas narrativas independentes que ajudam a dar mais personalidade ao mundo, enquanto Edward comenta com muito mais frequência aquilo que encontra durante suas viagens, fortalecendo a sensação de estar explorando um ambiente realmente vivo.

Outra novidade importante envolve a integração do antigo conteúdo adicional diretamente ao mapa principal. Ilhas anteriormente exclusivas de DLCs agora fazem parte da campanha, oferecendo novos trajes, equipamentos e objetivos sem que o jogador precise acessar menus separados. Essa integração acontece de maneira bastante natural e reforça a sensação de continuidade da exploração.

O sistema de roupas também é reformulado. Em vez de concentrar praticamente todos os trajes nas lojas, o remake incentiva a exploração do mundo para desbloquear novas aparências. A própria Armadura Maia recebe um tratamento mais elaborado, com uma sequência de exploração adicional antes de sua obtenção e a separação entre aparência visual e habilidade especial, oferecendo muito mais liberdade na personalização de Edward.

Grande Inagua talvez seja uma das regiões que mais se beneficiam das mudanças introduzidas por Assassin’s Creed Black Flag Resynced. O antigo esconderijo deixa de funcionar apenas como um centro de melhorias e passa a transmitir a sensação de ser um verdadeiro lar. Conforme novos edifícios são construídos, moradores surgem, funcionários trabalham, animais resgatados passam a viver na propriedade e os oficiais recrutados durante a campanha interagem constantemente entre si. Essa evolução transforma completamente a relação do jogador com a base principal.

O novo sistema de oficiais segue essa mesma filosofia. Personagens recrutados ao longo da aventura deixam de ser apenas nomes em uma lista e passam a exercer funções específicas dentro da tripulação, fortalecendo ainda mais a sensação de pertencimento ao universo do jogo.

Adicionando, mas melhorando (quase) tudo

Boa parte do conteúdo inédito concentra-se justamente na expansão de personagens que anteriormente possuíam pouco tempo de tela. Novas missões envolvendo Stede Bonnet, Charles Vane e outros piratas ajudam a preencher lacunas narrativas sem comprometer o ritmo da campanha principal. O mesmo acontece com sequências adicionais que mostram o impacto da morte de Barba Negra sobre a comunidade pirata, oferecendo um encerramento emocionalmente mais elaborado para um dos personagens mais marcantes da aventura.

Infelizmente, é justamente durante essas cenas inéditas que aparecem os maiores problemas do remake. Enquanto praticamente toda a campanha original recebe reconstruções utilizando captura de movimentos moderna, diversas sequências criadas especificamente para Assassin’s Creed Black Flag Resynced utilizam animações significativamente mais simples. O contraste é imediato. Personagens movimentam-se de maneira artificial, expressões faciais perdem naturalidade e determinadas conversas parecem pertencer a um projeto de orçamento muito inferior.

Essa inconsistência também pode ser percebida na dublagem inédita. Matt Ryan retorna para interpretar Edward Kenway, preservando a identidade do personagem, mas algumas falas novas demonstram falta de direção durante a gravação. Comentários realizados durante a exploração frequentemente soam excessivamente neutros, contrastando com a personalidade vibrante apresentada pelo protagonista nas gravações originais.

Ainda assim, esses problemas jamais conseguem apagar a enorme quantidade de acertos presentes no restante da experiência. O remake demonstra enorme respeito pelo legado do Black Flag original e entende que sua principal missão não era reinventar um clássico, mas permitir que ele fosse apreciado por uma nova geração sem perder sua identidade.

Assassin’s Creed Black Flag Resynced continua sendo, acima de tudo, uma aventura sobre liberdade. Navegar sem destino pelo Caribe, descobrir pequenas ilhas escondidas, enfrentar tempestades, atacar navios mercantes ou simplesmente ouvir a tripulação cantar enquanto o Jackdaw corta as águas continuam sendo experiências capazes de transmitir uma sensação de aventura que poucos jogos conseguiram igualar.

Vale a pena velejar de novo

Mesmo apresentando algumas inconsistências em seu conteúdo inédito e decisões narrativas que certamente dividirão opiniões, o conjunto permanece extremamente sólido. As melhorias gráficas são excelentes, a campanha continua brilhando graças ao carisma de Edward Kenway, o combate naval segue praticamente insuperável e a exploração do Caribe permanece entre as melhores já produzidas pela Ubisoft.

Mais do que um simples exercício de nostalgia, Assassin’s Creed Black Flag Resynced consegue demonstrar por que Assassin’s Creed IV: Black Flag continua ocupando um lugar tão especial entre os fãs da franquia. Ao preservar aquilo que realmente importava e expandir cuidadosamente seu universo, o remake entrega uma experiência que honra o original sem deixar de oferecer novidades relevantes para veteranos.

Ainda existem imperfeições, especialmente quando o assunto envolve o conteúdo produzido exclusivamente para esta nova versão, mas seus acertos superam amplamente seus tropeços. Para quem nunca navegou ao lado de Edward Kenway, esta é a melhor oportunidade de descobrir por que o jogo permanece como uma das maiores aventuras da história de Assassin’s Creed. Para quem já conhece cada ilha do Caribe, o remake oferece motivos suficientes para içar as velas mais uma vez e partir rumo ao horizonte.

Galeria

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Dando nota

Reconstruído na versão mais recente da Anvil Engine, o jogo traz iluminação dinâmica, folhagens tropicais densas quase fotorrealistas e física de água impressionante. - 10
O sistema de combate terrestre foi reestruturado com foco em esquivas e aparadas, e a movimentação livre está muito menos travada que a de 2013. - 9
A dublagem clássica em português brasileiro (com o retorno de Acácio Oliveira no protagonista) foi mantida nos diálogos originais. - 10
O jogo peca no excesso de pacotes pagos de conteúdos adicionais e vantagens em jogo (pay-to-win) desde o primeiro dia. - 6
Ainda apresenta possíveis bugs visuais e soft locks, além de problemas com framerate no modo Qualidade. - 7.5

8.5

Em sintonia!

Assassin's Creed Black Flag Resynced não é apenas um remake competente. É uma demonstração de como revisitar um clássico respeitando sua essência. Ainda existem imperfeições, principalmente no conteúdo totalmente novo, mas o conjunto é forte o suficiente para consolidar esta como a versão definitiva de uma das maiores aventuras da história da Ubisoft.

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