Análise | Star Fox (2026)

Disponível para Nintendo Switch 2

Star Fox (2026) é uma obra que, ao experimentar, me fez sentir como Anton Ego provando o prato que dá nome à icônica cena de Ratatouille. Assim que a abertura em Corneria começou, deixei de ter 41 anos e me vi novamente em 1997, aos 13, encantado com o que acontecia diante dos meus olhos e com a tensão do controle em minhas mãos. Foi um verdadeiro curto-circuito entre tempo e memória.

E veja bem: não estou falando apenas de nostalgia. Estou falando de encantamento. Daquele raro sentimento provocado por uma época em que videogames criavam memórias profundas para toda uma geração. Um período de transição entre o 2D e o 3D que parecia inaugurar novas possibilidades a cada lançamento.

Star Fox 64, no Nintendo 64, foi um desses marcos. Seu visual tridimensional impressionava, havia vozes digitalizadas, o primeiro contato de muitos jogadores com a vibração dos controles através do Rumble Pak, múltiplos caminhos e finais, trilha sonora orquestrada e a sensação de que pequenas decisões durante a campanha alteravam seu desenrolar. Somava-se a isso o então revolucionário controle analógico, substituindo o tradicional D-Pad. Foi uma experiência tão marcante que praticamente se tornou impossível de reproduzir em suas sequências.

Dito isso, Star Fox (2026) soa diferente da última tentativa feita de resgatar a obra, feita em 2011 para o Nintendo 3DS, onde havia uma incompatibilidade prática entre controles, tecnologia gráfica e portabilidade. Essa antiga versão emulava apenas a ideia original, enquanto o atual remake, que serve como reboot para a série, amplia o escopo e a dimensão da obra original.

A nova direção de arte, a reconstrução gráfica, os controles precisos, a alta taxa de quadros, as novas cenas e a expansão do universo transformam aquilo que antes era apenas sugerido pela imaginação em algo plenamente realizado. Não só isso, mas em uma indústria muito mais globalizada, o que antes existia apenas em inglês e japonês agora chega a inúmeros idiomas.

No Brasil, a aventura desembarca completamente localizada, incluindo uma excelente dublagem em português durante toda a campanha. Diálogos, pedidos de ajuda, provocações entre os pilotos e até o clássico “faz um tunô barril!” finalmente ganham voz em nosso idioma, elevando ainda mais a imersão.

Ficha Técnica

  • Plataformas: Nintendo Switch 2
  • Desenvolvedor: Velan Studios
  • Publisher: Nintendo
  • Gênero: Ação, Shoot ’em up
  • Lançamento: 25 de Junho de 2026

Presença cinemática / Mundo e Narrativa

Star Fox (2026) preserva integralmente a história original. Um grupo de mercenários é contratado para enfrentar uma guerra que já ameaça todo o Sistema Lylat, numa missão que exige pilotos experientes, mas, acima de tudo, insanos o suficiente para atravessar as linhas inimigas e alcançar o fortemente protegido planeta Venom.

O grande diferencial desta releitura está justamente na forma como ela apresenta essa história. O que antes era contado quase exclusivamente por diálogos durante o gameplay e breves cutscenes rudimentares agora ganha uma presença cinematográfica que impressiona.

Se há trinta anos a tecnologia limitava esse tipo de apresentação, hoje ela permite que a narrativa tenha o espaço que os jogos modernos naturalmente passaram a ocupar. A nova direção de arte também redesenha os personagens, agora com uma estética mais animalesca e menos humana que a original. Uma escolha que conversa muito bem com a proposta visual, mais próxima do realismo do que do cartunesco.

A ambientação também impressiona. Os estágios clássicos retornam muito mais ricos em detalhes, profundidade e efeitos visuais. Onde antes existiam apenas polígonos sugerindo estruturas cobertas por texturas simples, agora surgem cidades completas, instalações militares, efeitos atmosféricos e cenários cheios de camadas. O resultado é fascinante porque respeita a identidade original ao mesmo tempo em que materializa lugares que, em 1997, só existiam na imaginação do jogador.

Star Fox (2026) ganha volume com tantos aspectos preenchidos e aprimorados. Se no original, havia apenas a informação de que a morte de James McCloud se deu pela traição de Pigma Dengar, sob testemunho de Peppy Hare, que conseguiu escapar com vida da armadilha criada pelo ex-membro da equipe… na nova edição os fãs podem acompanhar esse momento em uma inédita animação que serve como prólogo da campanha.

Essa atenção narrativa acontece na própria condução da trama. No jogo original, concluir uma fase significava assistir a um breve briefing do General Pepper indicando o próximo destino. Agora, cada intervalo entre missões acontece dentro da Great Fox, em reuniões cinematográficas nas quais a equipe conversa sobre os acontecimentos recentes, demonstra personalidade, debate os riscos da próxima operação e recebe novas ordens do General. Depois disso, Fox ainda reúne seus companheiros para decidir qual rota seguir diante da guerra.

Nada disso altera os acontecimentos centrais da aventura. A trama continua exatamente a mesma. O que muda é a quantidade de contexto, personalidade e significado adicionados aos personagens, aliados e vilões. É uma expansão que fortalece a obra original sem descaracterizá-la. Exatamente o tipo de evolução que se espera de um remake bem idealizado.

Faz o Tunô Barril/ Jogabilidade

Com uma nova e fantástica reapresentação do consagrado universo, Star Fox (2026) não tem muito trabalho em reinventar a jogabilidade, tento em vista que estruturalmente esse já era um dos elementos mais fortes e consolidados da obra original. O necessário está feito: atualizar e manter os controles calibrados e precisos.

É possível argumentar que a nova edição joga seguro. Não há estágios inéditos, rotas completamente novas ou grandes surpresas para veteranos. O layout das fases permanece fiel ao original, reforçando que o verdadeiro protagonista continua sendo um level design que, quase trinta anos depois, ainda impressiona. A diferença é que agora tudo ganha uma apresentação visual capaz de realizar aquilo que a tecnologia de 1997 apenas sugeria.

Para quem nunca jogou um título da franquia, Star Fox pertence ao gênero conhecido como shoot ’em up em trilhos. Na maior parte da campanha, a nave avança automaticamente enquanto inimigos surgem de todas as direções. Cabe ao jogador eliminar ameaças, desviar do fogo inimigo e administrar seus movimentos em meio ao caos. A câmera permanece em terceira pessoa, mas pode ser alternada para uma visão interna da cabine, tornando a experiência ainda mais imersiva.

Os próprios estágios ajudam a contar a história. Enquanto a missão avança, os integrantes da equipe permanecem em contato constante por vídeo, permitindo acompanhar suas reações, preocupações e pedidos de socorro em tempo real. Essas conversas deixam de ser simples diálogos de rádio e passam a influenciar pequenos acontecimentos durante cada fase. O jogador não está apenas abatendo inimigos; está participando de uma campanha militar onde suas ações alteram detalhes da missão, sua rota e contribuem para a construção daquele momento.

É justamente dessa estrutura que nasce um dos maiores acertos da franquia: o sistema de rotas alternativas. Embora a campanha possua 16 estágios, cada partida percorre apenas sete deles. O caminho escolhido depende do desempenho e das decisões tomadas ao longo da aventura, incentivando múltiplas revisitas.

Ao todo, existem cerca de 25 combinações possíveis. As rotas superiores concentram os maiores desafios e também conduzem ao verdadeiro desfecho da campanha, deixando claro que a aventura possui mais de um final.

A variedade dos cenários continua sendo um espetáculo à parte. A campanha visita planetas congelados, cidades em guerra, instalações industriais, setores espaciais hostis, cinturões de asteroides e até regiões perigosamente próximas a um planeta incandescente. Cada ambiente possui identidade própria e transmite a sensação de que nenhuma missão reaproveita simplesmente a anterior com outra aparência.

Existem três situações adversas, onde a tradicional Airwing é deixada de lado para o uso de veículos experimentais: um submarino sonar e um tanque com propulsor para planar por alguns segundos, ambos mantendo a dinâmica de estágios em trilhos. Situações que demonstram a dinâmica flexível da proposta, seja ambiental, seja situacional. O jogador nunca sente que está jogando o mesmo estágio com outra aparência.

Em alguns estágios, entretanto, o avanço automático é interrompido pelo chamado “Modo Amplo“. Nessas batalhas, o jogador recebe liberdade para voar por uma grande arena enfrentando chefes, patrulhas inimigas ou estruturas defensivas, lembrando bastante os grandes combates espaciais vistos em filmes como Star Wars. É nesse modo que entram em cena recursos como a meia-volta da Arwing, loopings, giros laterais e, claro, o clássico “tunô barril“.

O Modo Amplo também serve de base para boa parte do multiplayer e para um dos confrontos mais memoráveis da campanha: o duelo contra a Equipe Star Wolf, já próximo do encerramento da rota mais difícil. A batalha exige domínio completo dos movimentos da nave e representa um dos maiores testes de habilidade do jogo.

Para ampliar ainda mais o fator replay, todos os estágios escondem medalhas, desafios extras e objetivos secundários. A campanha oferece três níveis de dificuldade e nem sempre revela de forma evidente como desbloquear seus caminhos alternativos, incentivando o jogador a experimentar novas estratégias até descobrir eventos, chefes e trechos completamente diferentes.

Uma vez vencido um estágio, o mesmo também fica liberado no Modo Desafio, permitindo que o jogador o visite a qualquer momento, sem passar pela campanha de rotas e sete fases restritas. Nesse modo, é possível jogar qualquer fase já vencida e cumprir ainda mais objetivos adicionais, apenas pelo mérito de se tornar um exímio piloto espacial.

Altos e Baixos

— O que funciona bem:

  • Universo e narrativa oferecem um espetáculo visual.
  • Jogabilidade mantém excelência tal qual na obra original.
  • Fórmula se mantém atemporal e divertida quase 30 anos depois.
  • Nova direção de arte combina com a proposta de releitura moderna.
  • Sistema de rotas mantém a campanha extremamente rejogável.
  • Dublagem em português sobe em muito o nível de imersão.

— O que poderia ser melhor:

  • Não há novos estágios ou conteúdo inédito para a campanha.
  • Multiplayer é limitado em 3 modos curtíssimos.
  • Na memória afetiva, os estágios pareciam bem maiores.

Rotas opcionais / Vale Mencionar

Embora não alterem diretamente a campanha, alguns recursos adicionais merecem destaque.

Quando se observa o Modo Batalha desta nova edição, é possível perceber que há ideias novas sendo aplicadas ao multiplayer. Na versão original, o modo era bastante simples, limitando-se a confrontos entre jogadores dentro do Modo Amplo. Agora, a competição recebe objetivos mais variados.

Dominar áreas, coletar destroços de meteoros ou transportar e proteger uma carga deixam as partidas mais estratégicas, indo além do simples mata-mata, embora eliminar adversários continue sendo uma tática eficiente para pontuar. O problema é que são apenas três modos, cada um com um único mapa. Há boas ideias aqui, mas o conteúdo é bastante limitado.

O multiplayer suporta partidas locais e online para até oito jogadores, em equipes de quatro contra quatro, colocando a Star Fox frente à Star Wolf. A estrutura funciona bem, mas seu escopo reduzido faz com que fique a sensação de que havia espaço para muito mais.

Ainda assim, há um elogio importante a ser feito, principalmente considerando o histórico recente da Nintendo com jogos online: Star Fox (2026) felizmente entrega um matchmaking moderno e eficiente. Nada de criar salas manualmente ou esperar longos minutos até reunir jogadores suficientes. As partidas acontecem de forma rápida e funcionam surpreendentemente bem.

Também merecem destaque alguns recursos extras integrados ao Nintendo Switch 2. O suporte ao controle via mouse utilizando o Joy-Con 2, o GameShare e a compatibilidade com a câmera, que substitui o rosto do jogador por personagens da equipe Star Fox / Wolf, não transformam a experiência, mas agregam valor e demonstram uma boa integração com o novo hardware.

Considerações finais

Star Fox (2026) pode não provocar a mesma revolução que o original causou em 1997, mas continua despertando encanto e fascínio dentro de um gênero que até hoje encontra dificuldades para se destacar entre os grandes lançamentos da indústria. Ainda é uma obra capaz de fazer cair o queixo.

O remake acerta justamente onde mais precisava: sua fidelidade ao clássico. Não há perda de identidade, tampouco controles ou mecânicas descaracterizadas. Pelo contrário, a releitura preserva a essência de Star Fox 64 com uma precisão admirável, fazendo o jogador sentir que está diante da mesma aventura, apenas reconstruída com os recursos tecnológicos atuais.

Sua principal limitação não está no que entrega, mas no que escolhe não fazer. A decisão de não incluir qualquer conteúdo inédito para a campanha, ainda que fosse uma única fase adicional, talvez inspirada em ideias descartadas durante o desenvolvimento original, transmite a sensação de que a franquia continua encontrando dificuldades para dar o próximo passo além da fórmula criada em 1997.

Mesmo assim, Star Fox (2026) celebra com enorme respeito os trinta anos da franquia, reapresentando uma obra cuja história atravessa gerações. Sua chegada ao Nintendo Switch 2 aproveita muito bem os recursos do novo console, respeita o legado do original e, principalmente, reacende a esperança de que Fox McCloud e sua equipe ainda tenham espaço para viver novas aventuras no futuro. Depois de três décadas de serviços prestados ao Sistema Lylat, poucas equipes merecem tantas honrarias quanto a Star Fox.

Galeria

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Dando nota

Preserva com enorme respeito a identidade de Star Fox 64 - 10
Moderniza o visual, de maneira que preenche o que no original ficava a cargo da imaginação - 9.5
Expande a narrativa com cenas e contexto que enriquecem a aventura - 9
Mantém a jogabilidade que continua excelente quase trinta anos depois. - 9
Multiplayer tem boas ideias, tem matchmaking, mas oferece um diminuto escopo - 7.5
Sistema de rotas, desafios, medalhas entregam valor de replay, pena não ter ambição para novos conteúdos - 8.2
Dublagem em português entrega uma experiência imersiva definitiva - 10

9

Fantástico

Star Fox (2026) reconquista seu espaço por entender exatamente o que deveria preservar. A campanha, a jogabilidade e a identidade do clássico recebem um tratamento exemplar, enquanto a narrativa ganha novas camadas que tornam essa releitura ainda mais significativa. O que o impede de atingir a nota máxima está justamente naquilo que decide não fazer: expandir a experiência com conteúdos inéditos. O multiplayer funciona, mas é pequeno demais. Os recursos do novo sistema divertem, mas não reinventam a experiência. É um remake extremamente competente, respeitoso e apaixonado por sua origem, mas conservador para alcançar um patamar ainda mais alto. Ainda assim, é uma obra que encanta, vai além da nostalgia e reforça um desejo antigo dos fãs: que Star Fox volte a ganhar novas aventuras, e não permaneça vivendo apenas da lembrança de sua mais memorável missão.

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