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Opinião | Noturno, de Chuck Hogan e Guilhermo Del Toro – Trilogia da Escuridão

Impressionante como a categoria Livro está abandonada! Me dá de ver apenas aqueles oito solitários posts ali. Por isso, vou tentar variar ainda mais o cardápio do Portallos e trazer uma crítica dos títulos que andei lendo e que acho interessante compartilhar com vocês.

Começo com a primeira parte da Trilogia da Escuridão: Noturno, coescrito pelo cineasta Guilhermo Del Toro e pelo escritor Chuck Hogan. O livro parece querer se aproveitar da onda dos vampiros na cultura pop, mas aqui não vamos encontrar vampiros vegetarianos, belos e apaixonantes. Não, os vampiros criados por Del Toro são cruéis, feios e muito, mas muito assustadores.

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Tentei evitar os spoilers ao máximo, mais ainda existem alguns soltos pelo texto. Proceda com cuidado.

O livro começa nos introduzindo a história de Jusef Sardu, um garoto polonês mais alto do que qualquer outro homem. Mais alto até do que qualquer telhado da aldeia onde vivia. Mas devido a seu tamanho Sardu era fraco: seus músculos quase não suportavam o peso de seu corpo e o pai do garoto estava disposto a tudo para curá-lo. Acreditando no folclore da família de que caçar e comer a carne de lobo dava coragem e força incríveis, o pai de Sardu o levou a uma expedição de seis semanas para tentar fortalecer o garoto. É claro que a expedição não acaba bem: todos os integrantes da expedição são mortos, exceto por Sardu, que retorna a sua aldeia totalmente transformado.

Ao terminar esse primeiro capítulo já estamos totalmente imersos na história (aliás, o primeiro capítulo pode ser lido online. O arquivo em formato *.pdf está aqui). O clima de suspense continua no aeroporto internacional JFK, em Nova York, onde um boeing 747 vindo de Berlim que, ao tocar a pista de pouso, subitamente pára na pista com todas as cortinas abaixadas, luzes apagadas e o sistema de comunicação em pane. A partir daqui começa uma corrida contra o tempo para descobrir o que causou isso e ainda o que irá acontecer.

Del Toro e Hogan acertam em cheio ao jogar fora todo o glamour do folclore dos vampiros e criam praticamente uma nova espécie de vampiros. Para começar, o vampirismo é tratado como uma doença, uma vírus que é transmitido através da mordida no lado esquerdo do pescoço ou em um local próximo a virilha. Com essa mordida, vários vermes capilares são introduzidos na vítima. Esses vermes são os responsáveis pela mutação que irá ocorrer: a pele fica com uma coloração parecida com a do mármore, os olhos ficam pretos como a noite e a garganta é completamente obstruída por um ferrão, através do qual o vampiro realiza os ataques. É interessante notar que as vítimas estão mortas e apenas estão vivas devido ao vírus hospedeiro, portanto, os vampiros são mais parecidos com zumbis do que com os vampiros propriamente ditos.

Outro acerto do livro são com os personagens. Arrisco a dizer que eles são quase como anti-heróis, eles se veêm no meio dessa conspiração e são obrigados a lutar para sobreviver. Esse bizarro grupo é formado por: Eph Goodweather e Nora Martinez, dois cientistas responsáveis por detectar e identificar ameaças biológicas em Nova Iorque; Abraham Setrakian, um velho que possui experiência no combate aos vampiros; Vassily Fet, um brutamontes que trabalha como exterminador de pragas e por fim Gus, um jovem ladrão que entra nessa luta por acaso. Durante toda a narrativa, o livro alterna rapidamente entre esses e vários outros personagens, retratando vários encontros com os vampiros e como cada um lida com essa ameaça. Devido a essa narrativa rápida, o livro tem um clima totalmente cinematográfico descrevendo brevemente os cenários mas não poupando os detalhes nas descrições das lutas.

É notável o esforço dos autores em fugir dos clichês, mas apesar de todo o esforço eles não conseguem escapar deles: o ente querido que é transformado em vampiro, a luta pela sobrevivência que logo se transforma em vingança pessoal, o velho sábio e a transformação de um personagem que antes era pacífico em um caçador de vampiros. Mas apesar dos temas clichês, o clima de suspense e a tensão constante valem a pena. A genialidade de Del Toro em unir o real e o fantástico está presente em várias passagens do livro, inclusive em um dos capítulos mais tensos e sombrios, onde a narrativa nos leva para dentro de um campo de concentração e onde o jovem Setrakian luta com o já transformado Sardu pela primeira vez. A perversidade dos soldados alemães é quase equivalente a brutalidade com que Sardu ataca suas vítimas. Ponto para os autores por tocarem em um ponto sensível da humanidade. Aliás, eles foram além e colocaram o covil do vampiro Mestre logo abaixo do lugar aonde se localizavam as torres do World Trade Center. Para uns pode parecer uma tentativa de fazer polêmica, mas eu aplaudo a decisão pois torna a ameaça ainda mais sombria e impiedosa.

Noturno é a primeira parte de uma trilogia e faz muito bem o seu trabalho: nos introduz ao novo universo dos vampiros e revela apenas o necessário para nos apaixonarmos pela história. Ficaram muitas pontas soltas e que deverão ser respondidas nos próximos livros. A promessa é de que eles sejam lançados respectivamente em 2010 e 2011. Aguardarei ansioso.

Para terminar, fiquem com dois geniais book-trailers de Noturno.

Em tempo, acessem Trilogia da Escuridão, o site oficial do livro. Para mais informações sobre a história, os autores e até uma cronologia dos principais acontecimentos do livro.

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Theo Medeiros

Cinéfilo, gamer, adorador de música e entusiasta tecnológico. Acha que Nescau é melhor que Toddy e que bacon é a oitava maravilha do mundo.
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