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Morcego Verde: A reformulação de 1994 baseada em "O Cavaleiros das Trevas"! [Clássicos das HQs Disney]

Esta semana estava remexendo a minha coleção de HQs Disney quando por coincidência, ou não, encontrei essa revista do Zé Carioca, de numeração “2010”. Admito que o número, que coincide com o ano atual, me chamou a atenção em meio a dezenas de outras revistas do personagem do meu armário. Já nem me lembrava que a tinha ou do que se tratava a chamada de capa da edição. Separei ela e fui pesquisar.

Zé Carioca 2010 marca um evento histórico na revista do personagem, a reformulação completa do uniforme e da origem do Morcego Verde, o alter-ego heróico do famoso papagaio. E a história é basicamente inspirada no clássico Cavaleiro das Trevas do Batman de Frank Miller. Quer saber mais? Basta continuar!

A primeira origem!

Apenas para posicionar melhor quem não conhece o personagem, a estréia do herói nas HQs Disney aconteceu em 1975. A história se chamava simplesmente “O Morcego Verde“. Com roteiro de Ivan Saidenberg e Renato Canini. Recentemente a nova geração de leitores puderam apreciar este clássico, pois ela foi republicada em duas ocasiões nos últimos anos. Primeiro em 2003, no especial Zé Carioca 60 Anos, e mais recentemente, este ano, em Disney Big #05. Quanto a estréia original, ela aconteceu em Zé Carioca #1217.

Capas com o visual original do Morcego Verde de 1975!

Como dá para se ver pelas imagens acima, o visual original do Morcego Verde é bem diferente daquele que ilustra o começo do post. Capa verde, molas nos pés (uma ideia que deve ter vindo do Morcego Vermelho, já que o mesmo também usava molas em suas histórias, alias o Morcego Vermelho serve de inspiração para que o Zé crie esse alter-ego na história oginal), gorro e um par de óculos.  A origem nova de 1994 deixa o personagem num tom mais sombrio, mais parecido com o Batman da DC, mas calma que eu chego lá.

Aproveito a oportunidade para dizer que não tenho nada contra o Morcego Verde original, já digo isso porque sei que alguém pode pensar que vou criticar o Canini, considerado um dos grandes Mestres Disney do Brasil e que basicamente, junto com Saidenberg, criou todo o universo do Zé Carioca na década de 70. Não, vou vou criticar a primeira origem ou os criadores. Só queria mesmo fazer esse contraste, pois não é incomum que super-heróis sejam reformulado ao longo de gerações, isso acontece com muita frequência na Marvel e na DC e até mesmo na Disney se você for pensar nos arcos paralelos que os italianos criaram para o Superpato na série “As Novas Aventuras do Superpato”.

O fato é que eu conheci o Morcego Verde já depois da sua reformulação de 1994, pois foi na década de 90 em que comecei a colecionar as HQs Disney. Só depois é que conheci a sua forma clássica do Canini.  A primeira impressão em geral é a que fica, não?

O Cavaleiro das Dívidas [1994] [Inducks]

Em geral as histórias do Zé Carioca produzidas no Brasil possuem entre 07 a 14 páginas. O Brasil seguia o clássico estilo de 4 linhas de quadro por página, ao contrário dos italianos que montam quadros maiores e cada página acaba tendo 3 linhas de quadro. Por isso as histórias italianas costumam ocupar muitas páginas, quer dizer, isso é um dos fatores, pois os italianos gostam mesmo de histórias grandes. Em outros países, como aqui no Brasil e Dinamarca, o padrão sempre foi 4 linhas de quadro e histórias mais curtas, com roteiros ágeis para que as revistas rendessem nas páginas. Estou comentando isso porque O Cavaleiros das Dívidas foge dessa regra. A história possui 22 páginas. Possui quadros enormes, angulos diferentes do comum, quadros mais sombrios, quadros de uma página inteira, páginas duplas, enfim, há todo um trabalho realmente de qualidade para que esta história, realmente recriasse uma nova versão do Morcego Verde.

O roteiro da história pertence a Marcelo Cassaro. O Inducks lista apenas quatro trabalhos dele: O Cavaleiro das Dívidas, O Morcegomóvel, A Piada sem Sal, A Mulher-Gatinha. Todas são com histórias com o novo Morcego Verde. Uma pena que o roteirista não tenha continuado trabalhando no estúdio ou a criar novas histórias. Não conheço muito sobre ele, mas é impossível não deixar de pensar no potencial que ele poderia ter tido para o estúdio se continuasse seu trabalho por lá. Alias o Wikipédia tem uma página sobre ele, lendo por lá, fiquei sabendo que atualmente ele andou escrevendo alguns arcos para Turma da Mônica Jovem, a revista “meio-mangá” do Maurício de Souza que é um dos maiores sucessos no Brasil. Realmente, é um talento de peso no cenário dos quadrinhos brasileiros.

Já o desenhista da história é Paulo Borges. Este eu conheço bem seu trabalho na Disney, pois olhando o histórico no Inducks, percebo que tenho várias histórias dele na minha coleção. Muitas na qual são minhas favoritas dessa fase anos 90 do Zé. Borges também tem uns trabalhos de cair o queixo na casa da Disney, como as belíssimas ilustrações das histórias baseadas no universo de O Corcunda de Notre Dame e Mulan (veja aqui e aqui dois exemplos). O Inducks lista trabalhos do desenhista entre 1992 até 2000, um pouco antes do estúdio brasileiro para de vez com a produção nacional. Também é de Paulo Borges os desenhos de um outro clássico de 1994: As quatro histórias do arco Zé na Copa!

Quanto a história que estamos tratando nesta matéria, tudo começa com uma partida de futebol. Um elemento bem típico das histórias brasileiras do papagaio.  Mas não temos uma trama de futebol, uma partida de futebol roubada é apenas o ponto final para que o Zé Carioca pire e comece a punir todos os  cobradores do Rio de Janeiro, chegando inclusive a ser notícia na TV. Assim como Batman, o Morcego Verde começa um reinado de terror no Rio, sendo mais agressivo do que o personagem jamais foi. A polícia não consegue conter o herói e para isso chama ninguém mais, ninguém menos do que o Superpateta, fazendo assim um contraste com o Superman, que na DC é o melhor amigo do Batman. Conseguirá o Superpateta conter o Morcego Verde? Ou o Zé conseguirá dobrar o Pateta no final das contas? No fim, um novo Morcego Verde surgirá, independente do resultada desse embate.

Uma das páginas acima, o Zé comenta sobre a origem do Morcego Verde, num beco, assim como o Batman, após essa página vem 24 quadros sequênciais sem fala, onde é mostrado em duas páginas e meia, de onde veio a ideia de que o Morcego Verde seria o defensor dos Fracos de Devedores. Acho sensacional e hilária essa sequencia, que traz uma certa dramaticidade, sem perder ao mesmo tempo o bom humor da história.

O começo de uma nova fase!

Depois desta história de 1994, muitas outras foram criadas nos anos seguintes, continuando usando o Batman como inspiração para essa nova fase do Morcego. Foram histórias onde o Zé procurava ter um Morcegomóvel, onde ele procurava o perfeito cinto de utilidades, onde tentava se relacionar com o delegado da polícia, o Dr. Porconi, que apareceu em várias histórias dessa nova fase, estreando em “O Comissário em 1995, criação de Arthur Faria Jr. e desenhos de Paulo Borges, sem mencionar outras paródias relacionadas a grandes eventos do universo do Batman, como a história A Queda do Morcego ou A Piada Sem Sal. E os vilões também foram reformulados, continuando as inspirações do morcego da DC. Moringa, Mulher-Gatinha, Chanchada, Sem-Cara etc. Foi uma fase bem divertida para o Morcego Verde sem dúvida.

Quer ler histórias DESTE Morcego Verde?

Eu pensei muito sobre como fazer este post. Inicialmente iria disponibilizar O Cavaleiro das Dívidas para download aqui no blog. Mas já fiz recentemente um Patópolis em Quadrinhos com o Indiana Pateta algumas semanas atrás e não queria num período tão curto assim colocar outra história para download. Acho que o melhor seria se os leitores interessados enviarem essa sugestão para a Editora Abril, que ultimamente anda acatando muitos dos pedidos dos fãs pela internet. E o Zé Carioca só sobrevive atualmente de republicações, então não vejo porque não pensar na possibilidade destas histórias sairem na revista mensal do personagem, já que nunca foram republicadas.

Particularmente acredito que até um encadernado especial, contendo as melhores histórias dessa fase ficaria sensacional, para não confundir outros leitores novatos que apenas conhecem o Morcego Verde de Canini. Só sinto uma tristeza quando penso que como não temos mais o estúdio para produção nacional, essa fase do Morcego Verde não pode crescer mais ainda e ganhar mais e mais sagas legais. Foram poucos anos para trabalhar na nova fase. Por estas e outras que sinto falta da produção nacional. Mas quem sabe futuramente a Abril não cogite o retorno do estúdio. Tudo depende do crescimento dos quadrinhos Disney nesta geração atual de leitores.

Para sugerir a Abril a republicação de O Cavaleiro das Dívidas e outras histórias basta mandar um e-mail para disney.abril@atleitor.com.br.

E espero que tenham curtido esta matéria. Eu pretendo fazer outras assim relacionadas a matérias mais antigos, nostalgicos e clássicos. Por isso não deixem de opinar. Estão na minha mira matérias sobre personagens como OK Quac e Ranfrei Bogar, assim como outros momentos bacanas do mercado nacional Disney no passado (Ducktales no Brasil! Conhece?).

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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