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Impressões | Fazendo o possível e o impossível em Dark Souls! (PS3/X360)

Nos meus velhos tempos de Master System jogar Alex Kidd era um desafio e tanto para os nervos, seus continues extremamente limitados e a temida fase veloz demais da bicicletinha me aterrorizam até hoje. Na era do Super Nintendo, lembro com saudades o quanto era desafiante morrer incessantes vezes em Donkey Kong Country 2 e continuar motivado ainda que muito preocupado com o contador de balões. Já no Nintendo 64, Mario 64 e suas últimas fases foram o maior dos testes de persistência que tive no console. No PlayStation 1 e 2 lá estavam os Final Fantasy e suas batalhas quase que intermináveis demais para um ser humano comum.

Mas enfim, cada um aqui já deve ter encarado algum jogo que te forçou ao limite, certo? Pois bem, você já pode esquecê-lo. Lembram da From Software e de todo aquele marketing viral lhe questionando se você estava pronto para morrer? Pois é, ele era verdadeiro, ridiculamente verdadeiro.

O inferno chegou mais cedo

Desde que o mundo é mundo ele tem sido governado pelos antigos dragões (pois é, esqueça aquele papo de dinossauros). Em seguida vieram os humanos e não muito depois com o desenvolvimento deles, 4 entidades poderosas se levantaram para pôr fim ao reinado dos cuspidores de fogo. Depois de uma guerra intensa, a raça humana pôde enfim voltar a reinar no mundo entrando assim na era do fogo. Porém nos dias de hoje, outra força misteriosa começa a se movimentar pela Terra, transformando os seres que nela habitam em mortos vivos destinados a vagar sem o merecido descanso eterno.

Você é mais dentre essa legião de amaldiçoados, acordando dentro de um calabouço sem qualquer arma para se defender, pronto apenas para descobrir o quanto o mundo lá fora é cruel e sofrer até onde a sua determinação puder te levar.

É hora de voltar no tempo e ir para algum capítulo muito tenebroso na era medieval. Onde cavaleiros, ladrões, andarilhos ou qualquer outro tipo de pobre diabo preso nessa realidade monstruosa ganha o direito de atravessar meio mundo de perigos em busca de um final feliz na terra dos mortos vivos. Aqui não tem mamão com açúcar, não adianta chamar a mamãe, os itens que podem te salvar não caem do céu, existe uma surpresa desagradável a cada virar de esquina, entrada ou escadaria nova e os mortos vivos são seres mais inteligentes do que os filmes de terror diziam.

Seu papel aqui é ter consciência de que você é  um ser humano tão frágil quanto qualquer pessoa da vida real e que as suas únicas armas são inteligência e estratégia aplicadas na hora certa. E a força bruta? Ela é apenas um mero detalhe por aqui.

Sobrevivendo nesse mundo cão

Recado dado e sem muito segredo, em Dark Souls você começa como um zé ninguém sem destino certo. Uma das poucas escolhas dentro do game é se você quer ser um cavaleiro, feiticeiro, ladrão, um homem das cavernas peladão, entre outras opções. Já mergulhado no jogo, fica a seu critério quais aptidões devem realmente ser aperfeiçoadas, como apelar para força física ou as artimanhas da magia.

Para evoluir durante o caminho os corriqueiros combates são essenciais, a cada guerreiro derrubado, um lote de almas presas aquele corpo são transferidas a você e é exatamente com elas que você compra itens, reforça armamento e armadura com os ferreiros frequentemente encontrados em alguns pontos do jogo. O número de almas obtidas também serve como pontos para evoluir seu personagem nos checkpoints espalhados pelo trajeto, as tão gloriosas e salvadoras da pátria, as fogueiras. O problema e escolher dentre tantos tópicos quais desenvolver primeiro. Inteligência, vitalidade, resistência, destreza e até fé estão esperando por um upgrade esperto, que dependendo da sua escolha dá mais pontos de experiência contra determinados ataques que você possa vir a sofrer ou mesmo aumentar o seu HP.

Ainda é possível quebrar um galho coletando objetos deixados por outros andarilhos já mortos ou mesmo aqueles que você acabou de derrubar, encontrando escudos mais poderosos, lanças, arco e flechas e por ai vai. mas como nada aqui vem de graça, as mesmas armas devem passar por uma manutenção sempre que possível, do contrário vão perdendo a eficácia e ficam sujeitas a te deixar na mão num momento de sufoco. Baús e salas trancadas também escondem itens que podem salvar a sua vida, o único problema em vasculhar esses lugares é que a chance de encontrar armadilhas no pior momento possível é tão grande se não maior do que estar encontrar um morto vivo te esperando depois da esquina.

Prepare-se para morrer… e muito

Pois é, você ainda não morreu hoje? Não sabe o que está perdendo. Lembra daquele sentimento de frustração e dor misturado com a imensa vontade de arremessar o controle no primeiro familiar desavisado que puxar algum assunto sem muita conexão com o momento? (claro que não, isso é coisa minha) Em Dark Souls ele é multiplicado ao cubo. O início do game já mostra o quanto ele é sombrio, mas ainda não te dá a dimensão exata do problema em que você está se metendo. O baque só vem com o primeiro mestre, que mesmo sendo lento e previsível demais é problema suficiente para afastar os marinheiros de primeira viagem.

O detalhamento no jeito de andar, se esquivar, defender e correr só é de fato sentido quando você se vê obrigado a administrar tudo isso sem que a sua força vital se acabe antes da hora certa. Atenção aqui não é coisa de momento, se você quer mesmo viver para chegar inteiro até a próxima fogueira sinta-se apreensivo até mesmo nos lugares aparentemente mais tranquilos. Atrás de uma porta por exemplo pode estar escondido o seu carrasco, no fim de uma escadaria uma pedra com o dobro do seu tamanho está pronta para te esmagar, no topo de uma torre sempre há um arqueiro esperando sua próxima vítima, numa floresta enevoada o que não faltam são plantas carnívoras e almas penadas.  Enfim, por mais que você encontre avisos de outros jogadores deixados pelo caminho (uma herança do velho Demon Souls) ou possa ver as almas de alguém que já morreu naquele lugar, fazer do medo o seu maior companheiro nunca é demais.

Ainda falando dos perigos de Dark Souls, um ponto interessante no RPG da From Software é a confusão que determinados caminhos podem fazer na cabeça do jogador. Quem for mais atento vai perceber que muitas vezes o game vai te oferecer mais de um caminho para seguir e mais a frente chegar ao mesmo destino, só o que muda é a chance de você encarar situações mais difíceis ou não. Outro ponto a se ressaltar é a liberdade em poder atacar quaisquer personalidades que você encontre durante a jornada. Cavaleiros, ferreiros, andarilhos. Todos estão ali para conversar ou mesmo serem provocados, cabe a você saber se a sua força atual é o bastante para aguentar uma luta contra esses personagens (e geralmente não é), só fique avisado que uma vez provocado, seja lá quem for, você vai ser caçado até que um dos dois caia e acredite, lutar sabendo que estratégia alguma vai fazer você vencer é muito frustrante.

A arte do combate? O segredo está na sua cabeça

Sim, sim, eu já disse que apelar para a força bruta, pedir pela mamãe ou mesmo levantar as mãos pro céu rezando para que uma bola de energia feita pelos humanos cresça sobre você, ops… roteiro errado. Nada disso é o suficiente, muitas vezes mais do que estratégia, o jogador vai precisar de calma e análise ao mesmo tempo em que luta. Se há uma coisa que você deve ter em mente ao entrar num combate é observar não só os movimentos do inimigo como também provar da força do oponente na própria pele. Parece bobagem, mas foi assim que consegui avançar no game em momentos onde eu achei que pararia por ali.

Existem dúzias de inimigos secundários que só tem tamanho enquanto outros de menor porte escondem surpresas bem mais desagradáveis. As lutas só ficam um pouco mais complicadas quando você encontra inimigos que possuem tanto força bruta como poderes mágicos de alta potência. Um dos vários aspectos do jogo que pode ser considerado por muitos como algo bem injusto ainda que a maioria desses embates também te dê a oportunidade de fugir.

E já que estamos falando de injustiça, prepare-se para decorar os caminhos do game como nos velhos tempos em que salvar seu progresso num jogo significava ter de terminar uma fase complicada inteirinha antes de fazê-lo. A medida em que se avança, as fogueiras vão ficando cada vez mais distantes umas das outras ao mesmo tempo em que o número de inimigos não pára de aumentar. No bom e velho esquema da tentativa e erro você vai morrer até cansar e como são todos almas penadas, não importa o quanto você os tenha matado, eles sempre estarão no mesmos lugares prontos para atentar contra a sua vida novamente. Por isso aqui mais do que nunca a sua atenção, total apreensão e acima de tudo calma são mais do que necessários caso você não queira morrer a poucos passos do próximo checkpoint.

Nesse sistema cheio de punições, Dark Soul obriga o jogador a criar não só uma estratégia para derrotar os chefões, como também uma estratégia para poupar recursos contra inimigos mais fortes adiante. É isso ou voltar seus olhos para outro jogo menos estressante.

Agora se estratégia alguma te ajudou  a vencer, em último caso você pode pedir ajuda a um amigo ou mesmo um recém conhecido na aventura para te ajudar a derrubar um peso pesado que esteja no caminho, só mantenha os olhos bem abertos com quem você se envolve. Assim como na vida real, no mundo de Dark Souls até mesmo quem está do seu lado pode estar desejando ver o seu sangue correr pela escada.

Finalizando

Dark Souls não é jogo para qualquer um, mas é um excelente jogo para aquele seu priminho pé no saco que fica te perguntando quando vai chegar a vez dele pôr as mãos no controle (é tiro e queda). O RPG da From Software é tudo aquilo que ela prometeu e muito mais. É frustrante, é injusto, é estressante, é hardcore em todos as formas imagináveis. Eu mesmo estou jogando essa pérola a conta gotas, aprendendo um pouco a cada machadada na jugular, a cada apunhalada pelas costas, a cada emboscada de se aplaudir com um sorriso de ironia para não se aborrecer ainda mais com o fato. Enfim, eu não sei vocês, mas esse jogo eu e meus nervos sensíveis vamos nos reservar o direito de levar mais tempo que a média pra fechá-lo.

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K o n S a m a

Do ser sem razão a essa explosão de emoção, do preguiçoso leitor ao (meia-boca) escritor, do tímido calado ao ator inquieto, do caminho já traçado à esquina do destino incerto. Tentei me definir, mas sem sucesso. Games, filmes, música, animes, são só o começo desse quebra-cabeça sem nexo.
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