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Reflexão: Trapaças, You Tube e Videogames…

Games de hoje induzem jogadores a consultarem a internet?

Eu perdi as contas de quantas vezes joguei Super Mario World. Do tipo começar um novo game do zero e finalizar. Dezenas? Não me surpreenderia se essa conta chegasse a uma centena de vezes. O caso é que sempre que jogava, lá na minha distante infância, eu sempre descobria algo novo. Novos caminhos, lugares secretos, áreas que nunca havia acessado. Muitos games são assim, até mesmo hoje em dia. Os segredos de um jogo é algo que motiva o jogador a continuar jogando um game após finaliza-lo. Quer destravar e descobrir o que mais o game tem a oferecer ou o que talvez você não tenha conseguido numa primeira finalizada.

Levante a mão alguém aqui que jogou The Legend of Zelda: Ocarina of Time e nunca colocou a mão num detonado desse clássico? Seja depois de ter fechado o game ou até mesmo durante a primeira jogada. Lembro que na época em que foi lançado o game, o que era mais fácil de se encontrar nas publicações de videogames (e nos anos seguintes) era detonados de Ocarina of Time. Todo mundo tinha curiosidade de saber se havia deixado passar algo, se todas as áreas foram exploradas. Banjo & Kazooie é outro título do passado que promoveu muito especulação sobre seus segredos e áreas que ninguém sabia como ter acesso.

 É um tipo de comoção, de sentimento, que os jogos hoje em dia não transmitem. Mas sinceramente? É algo que não vejo como os games atuais possam fazer. A dinâmica é diferente agora. Se antigamente um game levava poucas horas pra ser finalizado, os games de hoje em dia levam 4x mais. E quem tem paciência para virar dezenas de vezes um mesmo game com uma duração tão grande atrás de qualquer coisinha que foi deixada para trás?

Quer alguns exemplos?

 Assassin’s Creed II tem 100 penas (feathers) espalhadas por todos os mapas do game. Você procurou todas uma a uma? Eu joguei todo o modo story atento as penas. Perdi horas procurando elas, tentando acessar aquelas que ficavam em locais complicados de escalar, indo em direções contrárias aonde precisava ir olhando aos redores se havia alguma escondida. Fiz o que pude para tentar pegar o máximo enquanto jogava o game. Não simplesmente as ignorei. Mas no final não consegui tudo, faltou e faltou muito. O que fazer? Perder mais horas e horas vasculhando novamente cada centímetro do jogo, na qual eu já havia feito tudo que podia, atrás das penas? Pensando nos inúmeros games na minha prateleira que anseiam para ir para dentro do meu Xbox 360? A mesma coisa com os símbolos secretos que dão acesso aos enigmas do game, eu finalizei o game e ainda faltou símbolos a serem descobertos. Fica a dúvida: deixar pra lá ou vasculhar tudo de novo ou correr pra internet? Neste caso eu corri pra internet, pois eu queria ver aquele vídeo que os símbolos revelavam, ainda mais depois do final sci-fi do game. E as penas? Bem no google encontrei um mapa de todos os mapas e onde ficava cada pena do game. Já que estava ali, fácil, aproveitei e fiz. É trapaça? Ou o jogo me induziu a isso?

Gears of War 3 tem os ítens colecionáveis escondidos por toda a campanha (o segundo game também tem isso). Eu joguei a campanha inúmeras vezes, com vários amigos no modo cooperativo. Sozinho em vasculhei tudo que podia atrás dos itens escondidos. Abri quase tudo, colhendo sozinho os itens, com os amigos, na qual um mostrava aos outros onde ficava o colecionável escondido. Mas ainda faltava alguns. O que fazer? Jogar novamente ou corre no You Tube? Chega um ponto onde a obrigação de encontrar algo escondido começa a tirar a graça do gameplay, acaba perdendo a diversão. Depois de finalizar a campanha várias vezes, perdi a paciência de ter que ficar buscando itens e perdendo tempo quando poderia estar focando na parte da ação do game. Corri no You Tube e peguei os últimos que faltavam. Assim como estou sempre de olho no fórum oficial do game vendo os que os jogadores que encontram easter eggs dentro do game, geralmente descobertos acidentalmente com um gamer fazendo alguma bobagem ou aqueles que passam centenas de horas semanais jogando e vasculhando cada centímetro de um determinado título. Infelizmente um bocado de tempo que não tenho mais a disponibilidade. Trapaça? Ou o jogo me induziu a isso?

Dead Rising 2 então é ainda pior. O jogo tem sobreviventes para salvar, tem múltiplos finais, tem 50 conquistas que exigem que se finalize o game por várias vezes. Tem tantos segredos que estou há três semanas jogando-o direto no finais de semana e sempre tem algo para conquistar e adquirir. Três semanas e foram 48% das conquitas (24 de 50). O gostoso é que como o game tem diversidade, não fica repetitivo, há sempre algo novo a ser feito, ainda que se vire a campanha algumas vezes. O problema é quando não se tem um foco, um guia auxiliando em algumas metas. A primeira jogada segui sem qualquer guia, indo pelos instintos, salvando e resgatando quem eu podia, na hora que dave, e finalizando os casos. No fim surge uma bifurcação na história (dar ou não dar Zombrex ao TK) e essa foi a única hora que olhei na internet (pois queria o final S). Mas ainda que fechado o game na raça, tinha resgatado somente 38 dos 70 sobreviventes, finalizado no level 30 (vai até o 50) e quase nada de conquistas destravadas. Bora então jogar de novo, mas desta vez seguindo um pouco o que a internet tem a oferecer, incluindo aquela conquista que abre o post. Olhei as horas que os sobreviventes pipocam no mapa, os tipos de combinações de drinques, aonde estavam as últimas combo cards que faltavam e assim por diante. Foi mais fácil, mais rápido (também comecei no level 30, o que facilitou muito as coisas). A internet deixou a segunda re-jogada mais divertida, mais estressante ficar fazendo a mesma coisa ou passando raiva sem saber que teria perdido certas coisas. Ainda assim perdi 2 sobreviventes (fechou com 68 de 70) e não consegui grana o suficiente para comprar o veículo SUV que fica na área externa do game. A terceira jogada começa essa semana, agora no level max, sem cumprir casos e com uma lista de roupas a usar, comidas e bebidas a consumir e armas para serem usadas, além da grana pro SUV, os dois últimos sobreviventes que precisam ser encontrados (para a conquista do notebook) e ainda preciso entrar em todas as lojas do game. Percebem que o padrão muda a cada nova partida? Graças a internet que tem detonados detalhados com todos os mistérios do game e que permite que continue me divertindo com as metas que as conquistas impõem, sem ficar perdido eu repetindo coisas que já fiz, achando que estaria perdendo algo. Trapaça? Ou a internet me induziu a isso?

A internet e o You Tube fazem hoje em dia o papel que os detonatos em revistas de games faziam no passado, só que o acesso a esse tipo de conhecimento, ou trapaça, é muito mais fácil de se conseguir. Antigamente tinha que comprar as revistas, ficar atento as edições que saiam detonados, trocar revistas com amigos atrás de detonados antigos etc. Na internet você precisa apenas de um PC e 5 minutos de Google. E os games atuais são desenvolvidos pensando nisso. Eles podem colocar 500 itens escondidos ao longo dos games, criar 20 metas diferentes para serem realizadas, pois sabem que algumas semanas ou meses após o lançamento do jogo estará tudo mastigadinho na web, para aqueles jogadores como eu, que não tem centenas de horas semanais para perde tempo olhando cada milímetro do jogo. Não que jogadores que fazem isso são preguiçosos. Mas os estúdios sabem que precisam de algo herculano, pois mesmo que esteja tudo mastigado na internet, não significa que é uma tarefa fácil. A internet no final das contas revelam aonde ir, o que fazer, como fazer, mas é o jogador que irá executar as proezas impostas. Eu não trapaceei nos enigmas de Assassin’s Creed II, poderia, mas não quis. Teve um que levei mais de uma hora pra encaixar as peças. Eu joguei Gears 3 atento aos itens, mas não achei tudo. Dead Rising 2 foi finalizado as cegas na primeira jogada. Ou seja, você acaba criando seus limites e dificuldades. O que você acha que pode e o que fica melhor olhar na internet depois. Ninguém gosta de ficar travado e esquentando a cabeça com um game, afinal o objetivo é exatamente o contrário: se divertir.

Outro exemplo bacana do que guias online são uma mão na roda são com os RPGs, onde geralmente possuem uma quantidade grandes de segredos, itens escondidos e muita customizações de armas e magias. Não tem nada pior do que jogar algum game e encalhar porque o jogo não possui um sistema decente que indique aonde deve ir, o porque nada mais acontece. A web é útil para evitar certas frustações e perda de tempo daqueles que não podem se der o luxo de re-jogar alguma coisa por dezenas de vezes. As vezes acaba deixando os gamers mal acostumados e cômodos? Com certeza, mas é algo que cada um deve se policiar. Eu, por exemplo, evito começar games com nível de dificultade em “Normal”, já parto para o “Hard”. Detonados online? Jamais numa primeira partida, geralmente vou de cabeça, as cegas, atento a tudo e aprendendo no ritmo do game. Posso espiar uma coisinha ou outra? É claro, pois nem sempre os games são perfeitos. Nem sempre os mapas indicam tudo, nem sempre eu entendo logo de cara um sistema mais complexo de um jogo. Os games são feitos assim hoje em dia. Isso é ruim?

Pra mim existem dois tipos de trapaças ruins. Aquela onde você não se leva a sério. Tipo… eu já vi relatos de gamers que só jogam com detonados, que não sabem fazer nada sem um desses do lado. Cria uma auto-dependência. Não conseguem jogar sem um guia, não pensa e tomam suas próprias decisões. Apenas seguem um roteiro. Qual a diversão nisso? Eu não vejo nenhuma.

E o segundo tipo de trapaça ruim são aquelas voltados ao multiplayer. Jogadores que usam controles ou bugs de um game para levar maior vantagem frente ao adversário. Estes são piores do que aqueles que não possuem espírito esportivo. Se um game cria condições iguais para todo mundo, porque um precisa querer levar vantagem acima dos demais com esse tipo de trapaça? O uso de Rapid Fire, por exemplo. Pra mim esse é o pior tipo de trapaça, que a internet também ensina como obter ou fazer, pior do que aquele que está enganando a si mesmo usando detonados sempre. Trapaças assim estragam a experiência online de terceiros. (Não é esse tipo de trapaça que tem foco nessa matéria, mas não podia deixar de citar.)

E agora termino com uma pergunta simples: você também consulta a web e o You Tube com o objetivo de descobrir as artimanhas ou segredos dos games que joga? Ou joga, termina e o que não conseguiu deixa pra lá?

 Todo gamer trapaceia (olhando online) no final das contas?

 

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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