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Opinião | Trilogia O Poderoso Chefão (1972-1974-1990)

Um dos maiores clássicos do cinema que nunca havia assistido…

“Nunca deixe que ninguém de fora da família saiba o que você está pensando.”
Don Vito Corleone, O Poderoso Chefão.

Influenciado por um episódio do Jurassicast (#35) do começo deste mês (ouça aqui) resolvi parar um pouco o corre-corre da vida para assistir um dos filmes mais famosos de todos os tempos, e que, sabe se lá porque, nunca assisti. Quer dizer, até sei. Afinal todos os filmes da franquia são enormes, chegam a somar 9 horas de história, e são filmes que não se encontra todo dia na TV. Alias imagino que assistir essa obra em qualquer canal da televisão com comerciais e cortes deve ser um sacrilégio. Mas eis que o Netflix tem em seu catálogo toda a trilogia, completinho ali para quem quiser assistir. Mais fácil impossível. Fica até mais barato do que comprar os DVDs ou Blu-rays. Com isso em mente, resolvi finalmente assistir O Poderoso Chefão.

Custaram-me três noites na semana passada para conseguir ver tudo, mas valeu à pena. E não vou ficar nessa matéria explicando ou dando sinopse sobre o filme. Se você nunca assistiu em algum momento da sua vida vai ter que criar vergonha na cara, assim como eu criei, e correr atrás desse clássico pra ver por si próprio porque é uma obra que jamais será esquecida. O engraçado é que mesmo sem nunca ter visto o filme, certamente já tinha visto muitas referências e brincadeiras em torno de cenas e falas clássicas do mesmo, como a própria cena de abertura do primeiro filme, que foi e ainda é parodiada até os dias de hoje sempre que alguém tem tal oportunidade de homenagear o filme.

A primeira coisa que tive que colocar na cabeça para entrar no universo de O Poderoso Chefão é o contexto temporal na qual o mesmo foi produzido. É um filme de 1972! Então não posso olhar o filme com os olhos críticos que uso para os filmes produzidos nos dias de hoje. Faz quatro décadas que ele foi filmado, não dá para esperar cenas de ação mirabolantes e absurdas ou efeitos especiais de virar a cabeça. De fato O Poderoso Chefão mesmo para um filme com 40 anos de casa envelheceu muito bem. Assisti e fiquei pensando como pode um filme tão velho, ser tão bom. E não apenas em termos de roteiros, mas como uma obra visual mesmo. Esteticamente O Poderoso Chefão ainda é um filme muito bonito de se ver. Isso sim é impressionante.

É uma história envolvente, com atuações impecáveis e com um roteiro tão bem conduzindo que não dá para ficar adivinhando o que vai acontecer em seguida. Ainda mais se você assistir como eu assisti, sem saber bulhufas da história. Porque além de nunca ter assistido, nunca tomei qualquer spoiler (não que eu lembre) sobre a obra. Foi muito bom então assistir o filme de cara limpa, totalmente no escuro. Não havia nem mesmo terminado de ver o Jurassicast #35. Parei de ouvir o podcast deles antes mesmo de entrarem na história em si, fui ver toda a trilogia, para depois continuar ouvindo. A única coisa que estava na minha cabeça era de que dos três filmes, um deles não era tão bom quanto os demais. Mas não sabia qual (agora eu sei), então foi meio que uma surpresa também descobrir qual deles seria.

O primeiro filme então foi uma agradável surpresa. Marlon Brando como Don Vito Corleone é sensacional, um daqueles personagens de cinema que realmente arrepiam, daqueles que justificam totalmente o porquê de serem imortalizados dentro do universo cinéfilo. Total a construção do plot da trama também é de total imersão. As horas do filme passam num piscar de olhos. Terminei o primeiro filme querendo partir para o segundo na mesma hora, só não o fiz porque aí já era muito tarde e tinha que trabalhar no dia seguinte.

Porém, mesmo respeitando toda a genialidade do primeiro, pra mim o melhor de O Poderoso Chefão é realmente a Parte II. O filme me pegou totalmente de surpresa em termos de qualidade. Produzido dois anos após O Poderoso Chefão, ele consegue ser tanto uma seqüência, quanto um prequel. A história narra eventos anteriores ao primeiro filme, enquanto continua a história de onde parou ao fim do mesmo. Claro que ele só funciona muito bem porque o primeiro filme é muito bem feito, mas ainda assim ele consegue atingir outro nível de excelência.

O contexto histórico da trama na Parte II é melhor trabalhado, incluindo a passagem de tempo, que chega a ser confusa no primeiro filme, também melhora bastante. Eu achei o segundo filme tem uma história mais densa, mais sombria e mais triste dentro de tudo que acontece com o personagem principal. Tem uma pegada mais política também, com as cenas na justiça, traições e conspirações. O primeiro tem isso, mas no segundo esses elementos são levados ao extremo. O final me surpreendeu um pouco, pois acaba de forma bem depressiva, triste mesmo. A idéia de pagar pelos seus pecados. Numa comparação entre segundo e primeiro filme, no primeiro temos cenas mais memoráveis e marcantes para a história do cinema, não que o segundo também não tenha, mas é em menor quantidade, mas o segundo filme consegue uma imersão maior, uma trama que prende ainda mais.

Já o terceiro, depois de ter visto o primeiro e o segundo e ter na cabeça a idéia de que eram três filmes e que um deles seria mais fraco, e ver que ele foi produzido dezesseis anos após o final da Parte II já sabia que ele seria inferior aos outros. A minha surpresa é que ele foi muito mais fraco do que achei que seria. Se pudesse voltar no tempo, não teria assistido a Parte III e deixado a franquia terminar no segundo. Pesquisei na internet e vi que muitos dos eventos do último filme da trilogia têm como base fatos reais (assim como os outros filmes também possuem), mas toda essa pegada religiosa, como a morte do Papa e o banco da igreja católica, ficou uma verdadeira farofada. Essa coisa de redenção, de arrependimento não colou pra mim. Achei a idéia de um mafioso no final de sua vida buscar arrependimento por tudo de ruim que fez em vida muito clichê, muito sem graça. Como não vivi e não tenho maiores conhecimentos históricos dessa época, tem todo esse contexto histórico que não tenho qualquer apego.

Alias para os conhecedores da franquia The Godfather, que em especial leram os livros que deram origem aos filmes, a Parte III é baseada em alguns momentos dos livros? Porque eu sei que há diferenças entre cinema e livro, como a personagem Mary que tem importância no terceiro filme e nem existe nos livros. Como isso funciona na obra literária? A impressão que tive é que o primeiro e o segundo filme são bem fiéis aos livros, enquanto o terceiro dá aquela viajada em dados momentos. Está certo isso? Pesquisei no Google, mas não achei nada muito a fundo em relação ao último filme e o que ele chupa dos livros. Isso me deixou muito curioso.

O terceiro filme tem aquele ato final, na ópera que é de morrer de tédio. Não faço idéia de quanto tempo tem aquela cena, mas pra mim pareceu interminável. Admito que já estava esperando alguma tragédia ali, mas não consegui adivinhar com todas as letras quem ia pro saco. O desfecho dessa cena é fenomenal, belíssima, digna de aplaudir em pé, porém o caminho que ela percorre até chegar ao fim é algo que me cansou ao extremo. Não via a hora daquilo terminar. Pra mim ficou um ato muito extenso e cansativo, ainda que eu entenda todo o trabalho e plots que chegaram até ali e que precisavam ser amarrados antes do filme acabar. Logo depois corta pra cena curtíssima com a cadeira e o cachorro e putz, me pergunto se precisava mesmo daquilo? É uma passagem de tempo tão abrupta, ainda fico imaginando qual a necessidade dela. Pra mim o filme acaba ali, nas escadarias da ópera. Não precisa de mais nada.

Um das coisas que mais curti na franquia é todo esse conceito da máfia ser algo bem diferente do que a gente vê hoje em dia, onde boa parte do crime organizado se sustenta por meio do contrabando de drogas. Não que quadrilhas ou crime organizado seja máfia do jeito que o filme conceitua. A idéia de uma organização criminal que funciona por meio de favores (isso é muito trabalhado na história do passado na Parte II), que se sustenta por meio dos jogos ilegais e prostituição, porém não pelas drogas (no primeiro filme) é muito maneiro. Há todo esse debate de valores morais e familiares dentro da máfia. Não é uma questão de ganância por dinheiro (talvez por poder, para não ser massacrado), é uma questão de ser justo dentro de uma ordem social caótica, onde injustiças ocorrem todos os dias. O olho por olho, que é deixado bem claro na primeiríssima cena do primeiro filme. A máfia italiana do filme se mostra como algo necessário dentro da comunidade e universo do filme até certo ponto, mas o próprio filme também mostra como ela é prejudicial, danosa e que afeta até mesmo os inocentes nesse domínio de poder. É uma faca de dois cumes. Claro que tem suas visões deturpadas e erradas, mas ainda me parece mais poético do que a forma como vermos em organizações criminais dos tempos modernos, onde parece que a ganância e a maldade pura estão mais as claras, onde se importa menos com as coisas ao seu redor. Onde cada dia se enterra mais certos valores morais em pró do ganho próprio e pessoal. Sei lá, tudo é errado, mas hoje em dia até mesmo coisas que deveriam proteger, respeitar e organizar a sociedade são erradas e até imorais…

O Poderoso Chefão é realmente uma masterpiece do cinema americano. Não dá pra gostar de cinema e nunca ter assistido essa jóia. Talvez alguns demorem tanto tempo quanto eu demorei pra ver. O importante é que em algum momento da sua vida você precisa assistir. Vale aqui a recomendação. Se você tem Netflix é ainda mais fácil! E depois ouçam o Jurassicast que acabou me inspirando a correr atrás dessa obra.

Obs: eu tenho quase certeza de que roubei (sem querer) a pauta de um dos recrutas do recrutamento. Mas juro que só percebi isso depois de começar a ver os filmes e escrever essa postagem. Só depois disso é que tive conhecimento de que enviaram um texto para o blog com esse tema. XD

Obs 2: esta matéria deveria ter sido publicado ontem (segunda-feira), mas por motivos de força maior (falta de energia elétrica por mais de 5 horas) acabei impedido de fazer a matéria na data correta. Minha intenção é sempre (que possível) recomendar algum filme (novo ou velho) nas segundas. Acompanhe pela Tag: Dica de Filme

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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