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Bate Papo com Quadrinhos na Sarjeta – Entrevista

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Página Inicial do Quadrinhos na Sarjeta

Todos percebem como o conteúdo do Portallos esta diversificado? Isso não se limita apenas aos temas (cinema, quadrinhos, séries, etc), falo aqui da forma como estamos tratando as postagens, temos texto de reflexão, análise, opiniões, notícias e todas dentro do proposto nessa versão EXP, que é apresentar nossas experiências com tais mídias. Talvez seja seguro dizer que a renovação na equipe trouxe novos ares (dobradores) e com isso novas ideias.

Recentemente, tivemos novos projetos como o Player Two – P2 (clique aqui pra ver) e novas conversas vem surgindo, novas ideias e numa dessas conversas pensei em abrir um espaço para bater um papo com outras pessoas envolvidas nesse mesmo tipo de entretenimento que trazemos pro Portallos (blogueiros, desenhistas, escritores e outros).

Minha primeira tentativa foi com o Alexandre Linck, administrador do Quadrinhos na Sarjeta. Felizmente, tudo foi ótimo.

Batemos um papo sobre o Quadrinhos na Sarjeta, que é um site voltado para quadrinhos, tratando o tema com um viés mais teórico e reflexivo, mostrando que existe uma linha de pensamento que vai além da história contada nos quadros.

Aliás, minha intensão era postar em forma de áudio, mas existem muitos contratempos que inviabilizaram tal ideia, por isso ficou tudo textual.

Chega de enrolação e vamos direto ao bate papo.

Daytripper

L = Linck (QnS)                  P = Portallos

P – Você é professor certo!? Mas você é “professor de quadrinhos” ou algo relacionado a isso?
 
L – Eu dou aula na Federal de Santa Catarina e lá, assim como toda federal, o professor tem liberdade de oferecer um curso optativo. Então eu ofereci, já pela segunda vez seguida, o curso de cinema e histórias em quadrinhos.
 
P – Interessante. Eu conheço um pessoal que passa pela mesma situação que você, que junto ao curso de Design de Curitiba, acabam criando um eixo de cultura que envolve quadrinhos, séries, cinema e tudo isso que acaba tirando todo aquele tempo que você tinha livre.
 
L – (risos) Pois é. Isso acaba acontecendo muito, porém existe um problema, isso até mesmo na acadêmia, onde outras pessoas pesquisam coisas que você também esta pesquisando, mas você não fica sabendo. O pessoal se isola muito e no meu caso, existe no andar de baixo um pessoal que oferece o curso de cinema e, eventualmente, quadrinhos, mas mesmo havendo interesse em buscar a informação de quem leciona, muitas vezes você não encontra. As vezes na faculdade alguém oferece um curso, que você adoraria fazer, mas não houve divulgação.
Então um dia encontra alguém que fala que lecionou sobre um assunto que não se sabe nem que se ensina sobre isso.
 
P – Pois é, é o caso de quadrinhos. Nunca soube que isso se ensinava.
 
L – Ah não. Existem lugares pra isso. Em São Paulo por exemplo, na USP existe um disciplina, essa que eles dizem ser a primeira disciplina de quadrinhos do Brasil. Entretanto, não da pra afirmar que foi a primeira mesmo. É como o caso dessa discussão sobre a primeira exposição de quadrinhos como arte .
 
P – Já ouvi um pouco sobre isso.
 
L – O Brasil puxa pra si o título de primeiro, Nova Iorque puxa pra si de volta (risos)  e fica essa sem dono.
 
P – Sim, o problema também é apenas dizer e não investir da forma correta. Agora, o Quadrinhos na Sarjeta surgiu com esse pessoal da faculdade, com amigos? Como foi?
 
L – Indiretamente sim, mas na verdade eu faço doutorado em literatura, mas entendendo quadrinhos como literatura. E minha tese na disciplina é justamente sobre a sarjeta nos quadrinhos e até mesmo antes dos quadrinhos. Mas então eu percebi uma conversa de apenas um, pois a conversa sobre quadrinhos tende a ser muito chata, com comentários do que eu comprei, do que eu coloquei na minha estante e não passa de cinco frases. Me incomodei com isso, pois existe tanta coisa além disso, da pra termos conversas de horas à fio sobre um único gibizinho.
 
P – Mas você não acha que isso pode ser pela forma como os quadrinhos ainda hoje é marginalizado? Por que ninguém diz que lê quadrinhos como Lê um Machado de Assis, por exemplo.
 
L – Na verdade eu acho que o problema ai é outro. Existe sim essa marginalização, mas o problema maior, isso falando de Brasil, é que ninguém lê. Um segundo problema é que o brasileiro não sabe lidar com imagens. Nossas escolas não tem uma disciplina, o que é comum em outros países, chamada de Estudos Midiáticos, Estudos do Audiovisual, etc. São disciplinas que ensinam que assim como tu lê um livro, as imagens podem ser lidas também. Basta ver que assistimos uma propagando política e acreditamos, vê um noticiário na tv e  acreditamos. Nós somos muito passivos. O brasileiro já é um analfabeto funcional em termos de mundo e quando o assunto é visual, é um completo analfabeto. Então isso contribui pro quadrinhos ser pouco discutido, é apenas “que bom fim”, elas não conseguem dizer muito mais que isso.
 
P – É como li em duas seus textos que “não existe leitura ruim, os leitores é que são ruins”.
 
L – É mais ou menos isso, porque as vezes um material ruim, rende uma ótima leitura. Existem muitos casos assim e um deles é o Allan Moore, que consegue pegar o lixo do lixo, dar uma roupagem nova e aquilo se torna muito interessante.
 
Blues – Robert Crumb
 
P – Agora, você acha que o autor hoje tem mais crédito que a própria obra? Por exemplo, o Asylum Arkham que o McKean junto com Grant Morrison, pegaram e aplicaram as colagens, a psicologia, sociologia, psicanalise e fizeram da Graphic novel o que é hoje ou isso é crédito do próprio Batman?
 
L – Sabe, existe um anedota na faculdade até que bem engraçada, onde um cineasta fez uma dessas sessões comentadas de um filme dele e um cara na platéia falou horas sobre o que ele entendeu, aplicou conceitos de psicanalise nos personagens e destrinchou toda a história. Então o cineasta olhou pra ele, meio esnobe e falou “cara, isso que você ta falando é bobagem, porque eu não pensei nisso quando fiz o filme”. Então o cara que comentou no início disse “então o filme que eu vi é melhor que o filme que você fez”.
Então eu acredito que tudo depende do momento que estamos e o que estamos abertos a ver.
 
P – Pegando carona nesse papo de valorização. Adaptação de quadrinhos pro cinema, é valorização ou desvalorização?
 
L – Eu tenho um opinião bastante contraria a maioria nesse caso, porque pra mim quando a adaptação é extremamente fiel aos quadrinhos, não existe um porque de eu ver o filme, assim como Watchmen, eu já conheço a história dos quadrinhos, pra eu vou ver o filme!? E contrário a esse exemplo nós temos o Batman que sempre teve interpretações bastante pessoais do personagem. Mesmo que reclamem de Joel Schumacher, mas ele ofereceu um Batman dele, na visão dele, assim como Tim Burton teve a dele, a série dos anos 60 e o Nolan. Então pra mim quando é um cópia dos quadrinhos, o que acaba sendo de segunda mão é desvalorizar a obra original e quando se acredita que aquilo é uma adaptação e trata a obra assim é valorização.
 
P – Compreendo e é uma boa forma de ver, só não sei se concordo (risos). Pra mim é desvalorização quando as pessoas criam algo pro cinema, já pensando que o quadrinho por si só, não consegue se manter. Quando acham que um Batman precisa do cinema pra vender ou um Watchmen precisa do cinema pra ser conhecido.
 
E voltando ao seu site, ele tem um conteúdo voltado para um público que conheceu os quadrinhos no cinema ou pra quem lê quadrinhos a longa data?
 
L – É voltado pra quem lê quadrinhos mesmo. As vezes eu posto sobre coisas relacionadas, como cinema, música, artes plásticas, mas meu público é de quem tem contato com os quadrinhos mesmo. Entretanto, eu sempre tento dar uma sinopse pra situar quem esta lendo.
 
Clic – Milo Manara
 
P – Eu percebo que existe uma contextualização do quadrinho que você esta analisando, onde você engloba a filosofia, a sociologia, contextos históricos e culturais. Mas da onde surge a ideia de que aquele quadrinho se encaixa em determinada analise?
 
L – Eu bebo muito de outras analises que eu vejo, de leituras que eu pego e penso que aquilo se encaixa em tal personagem, mas minha principal fonte é a filosofia mesmo.
 
P – Já aconteceu de terminar um quadrinho e pensar que aquilo se encaixa no Flusser que você leu a dois anos atrás?
 
L – Ah sim, claro. Mas eu me policio pra não cair na mesmice, porque um dia eu posso passar a analisar tudo pelo mesmo contexto e acredito que ficar só nisso acaba sendo a forma errada de se fazer aquilo, por ser uma visão muito limitada depois de um tempo.
 
P – Agora aquela pergunta. Porque criar um espaço, onde você vai perder seu tempo compartilhando coisas, sem ganhar, inicialmente, absolutamente nada?
 
L – Eu ganho alguns centavos de Adsense (risos).
 
P – (risos)
 
L – Uma vez perguntaram pro Saramago pra que serve a literatura e ele respondeu, perguntando pra que serve o canto do pássaro. A literatura tem muito disso e o blog é meio que assim. No fundo não serve pra nada, mas acaba servindo.
 
Foi legal porque conheci algumas pessoas interessantes, assim como gente muito chata.
Mas falando um pouco de psicanalise, o blog é como fazer cocô. Eu tenho uma certa vazão, eu sinto vontade, então vou lá e faço merda a vontade.
 
Eu vou lá escrevo, da forma que eu quiser, mas é claro que eu quero leitor, mas não só leitor, eu quero interlocutor, porque as vezes o cara que só lê e não comenta me deixa até meio chateado.
 
P – E os Trolls e Haters, você acha que é uma das maiores dificuldades de se manter firme escrevendo no blog?
 
L – Ah não. Em geral você tem uma série de ferramentas pra bloquear essas pessoas, então não são muito perturbadores. Na verdade são os que mais geram acessos pra mim, porque espalham um comentário contra o Quadrinhos na Sarjeta e a pessoa vem pro site, gosta e fica. Na verdade eles são bons publicitários.
E tem outra coisa, eu sou professor, estou acostumado com pessoas me odiando. hahaha.
 
Persépolis
 
P – Hahaha. Mas então qual é a dificuldade?
 
L – A maior dificuldade, no caso dos quadrinhos, é das pessoas pararem o fluxo de consumo e começarem a ler leitura, depois de ler quadrinhos. Eu acho isso importante, porque foi isso que enriqueceu tantas outras áreas, o cinema enriqueceu dessa forma, a literatura, a música.
Admiro muito quem pratica isso. Por isso admiro muito meus leitores, mas não por serem meus leitores, mas por serem leitores.
 
P – Pra gente finalizar, qual são seus planos pro Quadrinhos na Sarjeta?
 
L – Não sei se vai dar certo, mas eu penso em ampliar o espaço de crítica de quadrinhos, com mais gente escrevendo. Com o tempo dar pernas próprias ao Quadrinhos na Sarjeta e desvincular ele ao meu nome, fazer um espaço de crítica de quadrinhos, propriamente dito.
 
P – Legal. Espero que consiga e que o site cresça, pois é um ótimo espaço. Bom, obrigado pela conversa, foi bastante produtivo e espero que tenhamos novas conversas.
 

Espero que tenham gostado.
Em breve teremos mais conversas com pessoas que ofereçam conteúdo bem avaliados por nós.

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Senhor Coruja

Adoro cinema e não consigo escolher o filme da minha vida. Me tornei viciado em séries quando conheci Friends, já bem tarde. Leitor esporádico de mangás, hqs e livros. Sou ligado a tecnologia, tal qual Lain. E se existe algo entre Old School e Tempos Atuais, esse sou eu.Tempos Modernos, talvez.
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